Nothing Can Get You Down
12 Capítulo Onze
Notas iniciais
Antes de mais nada, eu quero agradecer de coração por todas as reviews que venho recebendo. A opinião de cada uma de vocês é o combustivel que me domina para que eu escreva mais e mais! Amo vocês por isso! ;")
Mas aí? Quem ainda está surtando depois de ter assistido esse Breaking Dawn? Com certeza, eu sou uma dessas doidas que ainda esta em extase com esse filme.
Enfim, vou logo dizendo que por aqui estão meio tensas... espero não levar pedrada depois desse capitulo, sabe?
Vou parar de enrolação e deixar vocês com o post que é o melhor que eu faço.
Boa leitura!
Edward me encarou por um momento imensurável, como se tivesse digerindo as palavras que havia acabado de lhe dizer. Não ousei desviar meus olhos dos dele, permanecendo determinada quanto à minha decisão.
Não sabia dizer ao certo qual foi o momento que eu tinha optado por seguir em frente com a gravidez. Arrisco a dizer que talvez em momento algum o aborto teria sido uma opção para mim, e que, na verdade, eu estava apenas chocada demais com a notícia de que teria um filho excepcional. Na verdade, continuo apavora, embora agora, estava determinada a não desistir dele, mesmo não fazendo idéia das conseqüências da minha opção.
- Você deve estar brincando. – Edward balbuciou pelo visto ainda aturdido com minhas palavras.
- Eu nunca falei tão sério em toda minha vida.
- Pelo amor de Deus, Bella, isso é loucura! Esse bebê será doente, você não pode trazer essa coisa para nossas vidas! – ele trovejou.
Finalmente, eu explodi. – Essa coisa, além de ser um ser humano, é nosso filho, Edward! Eu não vou descartá-lo como se ele alguma espécie de lixo!
– Bella, ele é Down.
.– Não importa! Ele é meu e eu não irei desistir assim tão fácil dele!
Edward segurou a ponte do nariz, seu gesto típico quando precisava se acalmar. E por mais que ele estivesse tentando, eu praticamente sentia as ondas de raiva exalando de sua postura tensa. – Que parte você ainda não entendeu? Não é questão de ser ou não diferente: é um erro. E coisas assim necessitam ser eliminadas.
– Não ouse dizer que foi um erro. Esse bebê foi planejado por nós dois; nós quisemos isso e não é porque ele ou ela vai ser diferente que eu irei ignorar tão facilmente!
.Ele suspirou pesadamente – Isabella, essa criança é um erro. Ela tem um defeito genético; nenhuma cirurgia ou tratamento irá mudar isso. Síndrome de Down é algo incurável, e isso por si só é razão suficiente para abortá-lo.
Apesar da frieza de suas palavras me assustarem, não vacilei em minha determinação. – Não seja cínico, Edward! Quer dizer então que se tivéssemos um filho com algum problema físico você aceitaria normalmente?
– É claro que sim!
Joguei as mãos para o alto e exclamei em frustração. – É qual é a diferença?
– A diferença é que uma criança deficiente física pode raciocinar e, dentro de suas limitações, agir normalmente. Já esse daí, – ele disse, apontando com desgosto para minha barriga. – será um eterno retardado. Será um peso morto pelo resto de nossas vidas..
– Eu posso lidar com isso! – falei o mais alto que pude.
– MAS EU NÂO! – ele gritou em resposta.
Edward ficou de costas, fitando sem realmente ver os imãs que ficavam na geladeira. Eu o conhecia há bastante tempo para saber que ele era metódico demais para aceitar tão fácil assim algo desconhecido como uma criança especial em nossas vidas. Nós não fazíamos idéia de como seria nosso futuro, e algo inesperado desse jeito obviamente era aterrorizante para ele.
Aproximei-me devagar e pousei minhas mãos em seus ombros. Sua postura já retesada se intensificou ainda mais com o meu toque. – Edward, – comecei com cautela, massageando a tensão levemente. – eu também tenho medo. Não faço idéia do que nos vem pela frente, embora esteja disposta a qualquer coisa por esse bebê.
– Bella...
– Apenas me escute, baby. Eu sei que será difícil, mas se estivermos juntos, nós vamos superar mais essa. Como sempre foi, desde sempre.
Edward exalou alto – Isso não é algo simples. Eu ainda acho que o melhor a se fazer é cortar o mal pela raiz. E quanto mais cedo fizermos isso, menos doloroso será.
– Por favor, Edward não me peça para fazer isto. Eu não posso...
– Por que não, Bella?
Respirei fundo, e afirmei a única certeza que eu sabia. – Porque eu já o amo, Edward. Amo demais para abandoná-lo.
Edward virou-se bruscamente e inquiriu – Ama tanto ao ponto de escolher a porcaria desse mongolóide pelo resto de sua família?
Tais palavras fizeram com que minhas mãos caíssem flácidas ao meu lado e eu desse alguns passos para trás. Sua pergunta taxativa somado ao olhar de pura fúria dele me atingiu como um tapa; repentina e dolorosamente. Edward estava visivelmente alterado por conta de minha decisão, a ponto de dizer uma coisas daquelas. Não ajudava o fato de que meu cérebro não conseguia nem replicar aquela afirmação dele tamanho o choque que ela me causara.
Edward se afastou e começou a caminhar incontrolavelmente ao redor da cozinha,– Eu acho que você demonstraria muito mais esse amor evitando que ele passasse tanto tormento quando viesse ao mundo.
Não consegui dizer nada além de gaguejar estupidamente – C-como assim?
– Já parou para pensar em todo transtorno que essa coisa irá causar em nossas vidas? Você nunca irá concluir a faculdade, porque terá se dedicar seu tempo integral a ele, já que provavelmente ele terá dezenas de complicações na saúde. Sem contar as perguntas e piadinhas que teremos dele e nós teremos que escutar pelo resto da vida sobre o fato de termos escolhido criar uma aberração.
Nesse momento, as lágrimas já desciam furiosamente pelo meu rosto. Não pela última afirmação que Edward dissera – afinal, eu já tinha uma vaga ideia do que iria enfrentar na sociedade por estar escolhendo ter um filho diferente –, e sim pela forma como o próprio pai do meu filho pensava. Machucou-me infinitamente o fato que ele achava melhor se livrar do problema o quanto antes ao invés de lutar por ele, ainda afirmando que isso seria uma prova de amor. Como se fosse uma espécie de favor que eu estivesse fazendo ao escolher matar o meu filho.
Eu não reconhecia o homem diante de mim. Nós convivíamos desde a infância, e em momento algum durante todos esses anos, pude acreditar que Edward seria tão racional a ponto de decidir tão friamente a morte de uma criança que era tão sonhada pro nós. Tal afirmação me fez questionar qual seria sua atitude se algo acontecesse com Richie... Se ele seria capaz de pensar tão metodicamente acaso nosso filho mais velho estivesse em uma situação meramente parecida com essa...
Choque, traição, raiva, incompreensão... minha mente era um mix de sentimentos em relação ao meu marido. E para completar, todos os hormônios da gravidez que faziam com que tudo isso se tornasse ainda mais aflorado. Mas, apesar de tudo isso, tentei me controlar e não sair gritando tudo o que eu sentia; preferi respirar profundamente antes de lhe falar o que precisava.
– Escuta, Edward, – comecei tentando aparentar um pouco de controle – não importa o que você diga: Eu já tomei minha decisão e nada nem ninguémpoderá mudar isso
Para minha surpresa, ele assentiu levemente. Pegou as chaves do carro que havia deixado sobre o balcão quando chegou e se dirigiu de volta a porta da garagem.
Porém, antes que pudesse perguntar qualquer coisa em relação ao seu destino, Edward voltou-se para mim outra vez e declarou, – Se essa é sua última palavra quanto a isso, eu quero deixar bem claro que não haverá um nós aqui, Bella. Essa é sua decisão e você que arque com as conseqüências dela sozinha – ele concluiu calmamente e partiu sem dizer para onde iria.
Não consegui evitar que um soluço escapasse dos meus lábios antes mesmo que ele fechasse a porta por completo. Edward nem sequer vacilou ao escutar o som meu choro e saiu velozmente, como deu para perceber quando eu ouvi a arrancada do motor do Volvo. Recostei-me contra o balcão, me sentindo ainda mais ferida do que antes; as lágrimas desciam sem cerimônia na medida em que eu avaliava toda aquela situação absurda em que minha vida tinha se transformado nos últimos dias.
Tudo parecia tão perfeito, e em menos de uma semana, Edward havia me posto em um dilema onde eu deveria escolher entre a criança crescendo em meu ventre ou o restante de minha família. Será que ele não entendia que isso era uma coisa impossível para mim?
– Mamãe, você viu meu... Mãe? Você tá chorando?
Mal registrei aquele corpinho correndo em direção a mim e me abraçando pelas pernas. Abracei-o de volta com força, não sei se no intuito de protegê-lo ou em busca de um pouco de conforto. Talvez um pouco de ambos.
– Mãe, porque você tá assim? Onde tá o papai? Ele saiu?
As lágrimas desciam sem parar, e por mais que algo dentro de mim dissesse que eu precisava me manter firme, afinal eu poderia estar assustando um garotinho, não consegui dar vazão a onda de sentimentos que me afligiam.
Por um breve momento, meu filho se afastou de mim e foi até a porta que dava para a garagem, que mesmo após toda força que Edward usara para fechá-la, tinha ficado entreaberta. Após verificar que a garagem estava vazia, foi perceptível até para mim que estava com os olhos turvos, ver o quando seus ombros tinham caído.
Ele voltou-se para mim, e seus olhinhos verdes para mim, que em certo ponto chegava a ser doloroso naquele momento por serem tão parecidos com o de Edward e pediu, embora soubesse a resposta. – Ele foi embora de novo, não foi?
Eu simplesmente assenti, abraçando a mim mesma tentando me controlar um pouco que fosse. Contudo, nada além do fato de que Edward havia acabado de renegar o nosso filho era perceptível em minha mente.
De alguma forma, Richie conseguiu me arrastar até uma das cadeiras da mesa e fez com que eu me sentasse ali perto. Ele subiu no meu colo e começou a balbuciar baixinho, parecendo muito mais velho do que aparentava. Por um breve momento, me permitir ser a criança ali e me deixei ser consolada por seu abraço e pelo afago doce e ritmado de suas mãozinhas pelos meus cabelos,
– Shhh, mamãe. Não fica assim, não. Vai tudo ficar bem, você vai ver.
Por um momento eu quis realmente acreditar nas palavras dele. Quis com todo o meu coração que Edward voltasse arrependido, dissesse que aquilo tinha sido uma reação exagerada e que iríamos sim lidar com essa situação. Que iríamos aprender juntos a como saber criar nosso filho especial, superar os preconceitos e amá-lo como qualquer outra criança no mundo deveria ser amada por seus pais. Contudo, meu íntimo sabia que tudo não passava de um desejo; uma ilusão. Só havia uma única certeza em meu coração que eu nunca ousaria contar para Richard:
Que nada iria ficar bem, por um longo e longo tempo.
[...]
Os dias foram passando de uma maneira que era quase impossível mensurar corretamente o tempo. Ora era tão rápido que parecia correr descontroladamente, tanto que quando olhei no calendário hoje de manhã, tomei um susto ao perceber que Agosto tinha praticamente ido embora. Na próxima semana, Richie voltaria à escola para o seu segundo ano no primário e eu entraria oficialmente no quinto mês da minha gravidez.
Já em outras ocasiões, tudo parecia extremamente lento; os ponteiros do relógio se fincavam no mesmo local, fazendo com que os minutos se transformasse em horas e horas fossem dias inteiros. Toda essa minha angústia devia-se muito a atitude de Edward após eu ter decidido manter o nosso bebê. Se eu achava que ele estava afastado demais antes de tudo isso vir á tona, a ausência dele em casa passou a ser ainda maior.
Viagens consecutivas, reuniões não programadas, expediente de trabalho estendido... Tudo isso fez com que eu mal chegasse a vê-lo ao longo das semanas. E, para uma união que estava abalada por uma decisão que havia o contrariado, eu não sabia dizer com certeza essas atitudes dele seriam melhor ou pior nessa situação. Afinal, da mesma maneira que ele estava irredutível com a opção de evitar o nascimento desse bebê, eu também estava disposta a fazer de tudo para que ele sobrevivesse.
O choque inicial ao descobrir que a criança dos meus sonhos era um pouquinho diferente do que imaginara, havia se transformado em determinação e garra ao tentar fazer tudo o que me fosse possível por aquele ser que indefeso que crescia dentro de mim. Eu mesma não sabia que possuía tal força a ponto de contrariar o homem que eu amava desde sempre e que considerava uma das pessoas mais importantes do mundo. Em momento algum, me imaginei numa situação meramente parecida, onde tivesse que escolher entre Edward e meus filhos, porém se esse momento havia chegado, eu já tinha minha resposta. Meu matrimônio em crise era a maior prova disso.
Embora eu não me arrependesse em nenhum momento pela decisão que eu tomei. Logo algumas semanas depois de ter optado por manter a criança que crescia em meu ventre, eu recebi o laudo conclusivo do cariótipo do meu bebê, que graças a Deus, parecia estar se desenvolvendo bem, apesar de sua condição genética. Eu temia que o nenê pudesse ser meio que vegetativo, contudo a Dra. Shelton conversou comigo e explicou cada detalhe, o que eu deveria esperar para o futuro, a importância dos exames que eu viria a fazer nos próximos meses e aconselhou-me um psicólogo especializado em casos como o meu. Era de suma importância que eu aprendesse a lidar o quanto antes com o fato de que meu filho seria especial; abandonar essa sensação de luto que tinha me acometido assim que eu descobri a situação do meu bebê, transformando-a em amor, independente da sua condição mental.
Devo ter feito dezenas de testes ao longo das últimas quatro semanas. Outras ultrassonografias, amostras de sangue e uma avaliação morfológica fetal; foram tantos procedimentos que praticamente me prenderam nos ambulatórios especializados. Contudo, cada novo resultado, eu tinha a certeza de que tudo estava correndo relativamente bem — apesar de uma leve alteraçãozinha no batimento cardíaco, mas nada demais, como a obstetra fez questão de ressaltar. Grande parte dos portadores de Síndrome de Down tem alguma alteração no aparelho cardio vascular, e no meu caso, o bebê parecia ter apenas um pequeno sopro, algo comum até mesmo para adultos completamente saudáveis, embora, precisácemos ficar sempre de olho nisso para qualquer intervenção futura.
Se por um lado, tudo parecia absolutamente normal com o pequeno dentro de mim, fui eu que acabei recebendo alguns puxões de orelha da minha médica. Tinha que admitir que não vinha me alimentando direito, e apesar do arredondamento evidente de minha cintura, eu não havia ganhado peso algum. Na verdade, meus braços pareciam mais finos do que o começo da gravidez e as bochechas sempre proeminentes em meu rosto estavam menores. Sabia que o bebê consumia tudo o que eu comesse, por isso sempre optava por refeições saudáveis; o problema para mim era ter ânimo para me alimentar de qualquer coisa, já que meu estômago parecia sempre cheio... de nós.
Tantas coisas para lidar ao mesmo tempo. Era exaustivo notar toda amargura de Edward em relação a mim e a minha escolha. Mas poucas vezes que nos encontramos no mês passado, toda e qualquer tentativa de conversa sempre acabavam em brigas. Para ele, não era possível aceitar uma criança excepcional em casa. Não conseguia me acostumar ao recente rancor dele e suas diversas piadas sarcásticas que me enchiam de uma ira que nunca imaginei puder sentir contra alguém que ao mesmo tempo amava.
Para completar, havia Richie. Eu estava cada vez mais ocupada com a bateria de exames entre clínicas, ambulatórios e hospitais na medida em que Edward arrumava qualquer desculpa para estar o mais longe possível de mim, o que sobrava era um garotinho que acabou sendo colocado em "segundo plano" pelos seus pais. Eu me sentia culpada por não dar toda atenção que ele merecia no final das férias escolares, embora não houvesse muito o quê eu pudesse fazer para mudar isto, e com Edward mal parando em casa, Richard se tornava cada vez mais introspectivo e birrento.
E como se não bastasse isso tudo, ele ainda não sabia absolutamente nada a respeito da saúde mental do irmão ou irmã. Sabia que isso era algo irresponsável de minha parte, porém, com esta divergência de opiniões entre Edward e eu, não sabia qual seria a atitude sensata para se tomar. Ainda tinha esperanças de que meu marido pudesse se juntar a mim e que unidos explicaríamos toda a situação para Richie, entretanto tal possibilidade se tornava mais e mais improvável com o passar dos dias.
Mas, se eu pudesse tirar alguma coisa boa nisso tudo — além do bebê, é claro — era Rosalie. A mulher que sempre achei fria e metódica havia demonstrando um apoio incondicional para comigo – até mais do que meus próprios pais, que pareceram assustados demais quando lhes dei a notícia de que eles teriam um neto especial. Por mais que Alice fosse minha melhor amiga, Rose estava sempre por perto, apoiando e me ajudando quando a incerteza do quanto o que fazer aparecia em minha mente. Poderia até ser irônico, tal suporte vir de alguém que nunca poderia ter filhos, no entanto, seu papel de querer proteger a mim e a criança que eu carregava faziam com que ela parecesse uma daquelas mãezonas tão típica dos filmes.
Essa convivência com Rosalie fez com que eu aprendesse muito sobre ela. Uma vez que Edward não se interessava por mais nada relativo à gravidez, Rose e eu passamos longas horas nas salas de espera dos hospitais. Entre consultas e testes, acabei descobrindo que por trás daquela atitude fria, ela simplesmente era alguém que tinha um dos maiores corações do mundo. Não se importou que o Emmett ficasse com bastante raiva dela quando descobriu que ela tinha vindo até minha casa e contado o que Edward planejava fazer. Sempre procurava saber como eu estava, ajudava no que fosse preciso, me escutava nos meus momentos de incerteza e era a maior incentivadora quando decidi manter meu bebê. Só sei de que algum modo, aquela mulher que diversas vezes eu tinha prejulgado, se transformou em alguém imprescindível para mim.
Talvez a amizade entre Rosalie e eu fosse mais uma das lições que eu tinha aprendido com essa gestação; nunca julgar algo que eu não conheço.
Fui retirada de meu devaneio ao escutar o som de passos leves e acelerados vindos da escada. Coloquei o livro que lia de lado, e cruzei o braços sobre o peito, me preparando para a enésima reclamação da semana com meu filho, que sempre insistia em descer as escadas correndo. Ao chegar na sala, Richie estava ofegante, uma confusão de cachos sobre a cabeça e as bochechas coradas devido ao esforço.
Ainda ofegante, ele disparou – Mãe, eu posso ganhar um Iphone?
– Bem, mocinho, quantas vezes eu já lhe pedi para que você não desça essa escada correndo?
– Tá mãe, eu sei. Desculpe. Mas eu posso ou não ganhar um Iphone?
Aquela pergunta tinha sido uma surpresa para mim. Todo o interesse que Richard havia demonstrado por um celular antes, era quando ele pegava meu aparelho para jogar aquele maldito AngryBirds. O fato de ele querer-lo tão repentinamente gerou uma desconfiança em mim.
– E por que você quer tanto um celular agora, Richie? Você não é meio novinho para ter um desses? — inquiri devagar.
– Mas mamãe, eu falei com o Sam e o Embry ontem, e os dois disseram que todo mundo lá na sala tem um, menos eu! — ele balbuciou, se jogando ao meu lado no sofá.
Esse era um dos pontos que fazia questão de priorizar na educação do meu menino. Meus pais nunca tiveram dificuldades financeiras, no entanto, os Swans não eram conhecidos em Forks por serem uma família que nadava em dinheiro. Charlie e Renee fizeram questão de me dizer enquanto crescia de que nem sempre eu poderia ter tudo que quisesse. Nesse quesito, eu sabia que os pais de Edward não haviam o instruído de forma diferente; tanto que foi ele quem fazia questão de poupar cada centavo, assim que o Richie nasceu e nossa situação financeira não era uma das melhores. Naquela ocasião, nós não imaginávamos que Elizabeth e Edward Masen viessem a falecer tão repentinamente deixando-nos em uma situação bastante confortável hoje em dia.
Por mais que eu desejasse poder dar o mundo ao filho, tinha consciência de que como mãe, Richie precisava aprender que nada vinha facilmente nesta vida. Era preciso dizer não para ele, evitando que ele se tornasse um adulto sem limites. Além de quê, qual era a necessidade de uma criança que nem havia completado sete anos ainda ter um aparelho daqueles? Sem contar que tudo o que eu menos queria nessa vida era que meu filho se tornasse um maria-vai-com-as-outras, e se preocupasse mais com bens materiais do que engrandecer seu espírito.
– Ok Richie – eu comecei, puxando-o para perto de mim -, você sabe que ainda não tem idade para ter um celular, certo?
– Porque não tenho idade se todo mundo lá na escola têm um?
– Porque um rapazinho como você ainda não sabe o verdadeiro significado de ter um celular, principalmente um modelo como este – expliquei, alisando seus cabelos enquanto falava
– Mas é que eu queria ter um...
–Filho, você não pode querer uma coisa apenas porque todo mundo tem um igual. — expliquei docemente – Quer dizer então que se todos os seus amigos da escola resolvessem usar mochila da Barbie você também iria querer uma, certo?
– Ewww, mãe! É claro que não, né?
– Viu? A mesma regrinha vale para o Iphone. Não correto desejar alguma coisa só porque todo mundo tem um igual. Então, um dia quando você estiver crescidinho o suficiente, seu pai e eu iremos...Oh!
Minha explicação foi interrompida quando eu sentir aquela sensação parecida com a de uma pequena borboleta batendo asas perto no meu baixo ventre. Não havia dor, incômodo ou nada parecido com isso; foi apenas a surpresa que me fez reagir daquela maneira. Já havia sentido isso outras vezes alguns anos atrás, e me lembro como fiquei chocada, a ponto de ligar para minha mãe — que na época, não estava nem um pouco satisfeita comigo — só para lhe perguntar se ela sabia o que era aquela sensação, embora hoje eu soubesse muito bem o que isso significava:
Os primeiros movimentos do bebê que crescia dentro de mim.
Meu sorriso cresceu exponencialmente a medida em que as leves vibrações dentro de meu corpo continuavam – Nada... foi apenas seu irmãozinho que acabou de se mexer. .
Os olhos de Richie se ampliaram — Sério? E ele se mexe aí na sua barriga? – perguntou espantado e eu ri.
– Todo bebê faz isso, docinho. Inclusive você quando estava aqui no lugar dele.
Seu cenho se franziu enquanto encarava minha barriga como se pudesse perceber qualquer movimento diferente – E porque ele tá fazendo isso?
Dei de ombros, tentando arrumar seus cachos sempre bagunçados – Ninguém sabe ao certo, Richie. Talvez ele faça isso porque só esteja feliz ou queira brincar um pouco, eu acho.
– Isso é estranho. Parece até aquele filme de terror que eu assisti escondido e fiquei com pesadelo, lembra?
Rolei os olhos e fiz cócegas em sua barriga — Eu me lembro muito bem disso, mocinho!
O som da risada alta de Richie não conseguiu abafar totalmente o som de um carro parando a porta de nossa casa. Poderia ser estranho, mas eu já conhecia o ronco suave do motor do Volvo enquanto esperava que o portão da garagem eletrônica se abrisse por completo, no entanto o mais diferente nisso tudo era a chegada dele no meio da tarde; algo raro ultimamente.
Meu filho também percebeu isso e conseguiu desviar do meu ataque e ficar de pé rapidamente, olhando para a porta da cozinha. – Acho que o papai chegou –, disse ele um tanto que receoso.
Mesmo que ele ainda fosse apenas uma criança, Richard tinha percebido que seu pai e eu não estávamos muito bem. Odiava tal apreensão vinda dele com a chegada de seu pai em casa, porque tinha noção do quanto isso era prejudicial para ele. Sem contar que nosso filho nunca tinha visto seus pais em um clima tão estranho antes, e por mais que nós não entrássemos em conflito na frente dele, Richie era esperto o suficiente para notar que havia algo de errado entre Edward e eu.
– Mamãe, você acha que se eu falar pro papai que meu irmão mexeu na sua barriga, ele vai ficar feliz? – Richie me perguntou com um sorriso esperançoso.
Senti meu sangue gelar imediatamente. Eu tinha plena certeza de que a última coisa que meu marido gostaria de ouvir justamente quando chegasse mais cedo do trabalho era que aquela criança dentro de mim demonstrava os primeiros sinais de que estava se desenvolvendo como qualquer outra. Um misto de raiva e frustração me dominava sempre que lembrava o quanto Edward estava sendo absurdo em relação ao novo bebê, afinal, não podia entender como ele poderia rejeitar uma criança. Em momento alguém de minha vida pensei que Edward fosse o tipo de pai que poderia rejeitar uma criança, só porque ela era um pouco diferente dos outros.
– Richard, você não pode comentar nada sobre isso com seu pai -, afirmei séria o que assustou levemente meu menino, amenizei meu tom de voz e continuei — Vamos deixar só entre nós dois, ok?
– Porque a gente não pode contar pra ele?
– Por que é segredo, Richie.
- E quando é que a gente pode falar pra ele?
Bufei frustrada, sem o mínimo de paciência para a quantidade de perguntas que Richard parecia ter justo naquele momento – Eu te conto quando for a hora certa, ok?
– Hora certa de que?
Richard e eu nos viramos ao mesmo tempo para ver Edward pousando suas chaves na pequena mesa de canto perto da entrada da sala. Ele tinha um sorriso em seu rosto e uma expressão relaxada que eu não via há dias, o que achei extremamente estranho para alguém que ultimamente parecia viver em um mal humor eterno.
Veio até o sofá, onde puxou Richie para o seu colo, sentando-se ao meu lado. – Então, vocês vão me contar o que está acontecendo?
Mordi meu lábio enquanto nosso filho respondia por mim – Mamãe tem um segredo, mas só vai contar para você na hora certa.
Edward ergueu uma sobrancelha curioso e por mais que sua voz parecesse leve, pude perceber o tom acusatório dele – Outro, Bella? Será que omitir certas coisas de mim já não foi o suficiente.
Respirei fundo, buscando o máximo de controle que meu corpo hormonal demais pudesse me oferecer — o que eu tenho a dizer não é algo que realmente você se interesse, Edward. – sibilei ao cruzar os braços sobre o peito – tenho certeza de que você tem coisas muito mais importantes para se preocupar ultimamente.
– Sim, eu tenho. — ele rebateu de volta, ainda mantendo o tom cínico em suas palavras, — mas isso não impede de saber o que você anda aprontando, querida.
Puxei o ar com força, tentando apaziguar a raiva pelo fato de ele querer começar uma discussão na frente de nosso filho. Ergui-me do sofá e abri o sorriso mais sarcástico que eu pude — Pode ficar despreocupado, Edward. -, comecei — Afinal o que eu tenho para dizer com certeza não é do seu mínimo interesse.
Subi as escadas com força devido a toda raiva que eu vinha acumulando em relação ao Edward. Essa cena havia se tornado bem comum entre nós dois ultimamente; essa troca de farpas nas entrelinhas, tentando não demonstrar para nosso filho o desgaste de nossa relação, apesar de ele já haver percebido há um bom tempo.
Fui até até o meu quarto, indo direto para a suíte onde liguei a torneira da pia e joguei um pouco de água sobre minha face. Senti minhas bochechas quentes, como sempre ficavam todas as vezes que eu ficava alterada, e respirei fundo algumas vezes em busca de um pouco de equilíbrio que me parecia ser essencial. Tentei me concentrar e percebi que os movimentos ao pé da minha barriga haviam se intensificado um pouco mais, mesmo que ainda fossem bastantes discretos.
Peguei a toalha para enxugar meu rosto e recostei-me contra a pia, tentando controlar as batidas do meu coração ao respirar profundamente. Em um movimento instintivo, levei minhas mãos até o meu ventre e comecei a acariciar a pequena protuberância que havia por ali
– Vai ficar tudo bem, bebê. – eu murmurei, pela primeira vez falando em voz alta com aquela vidinha que eu carregava dentro de mim. – Nós vamos ficar bem, você vai ver.
– Falando sozinha agora, Bella?
Levantei meu rosto para encarar Edward no vão da porta, retirando sua camisa enquanto entrava no banheiro. Apesar da sua postura fingidamente relaxada, eu pude perceber a tensão que emanava dele devido ao seu maxilar retesado e rigidez de seus ombros na medida em que caminhava.
– Não, – sibilei duramente – você sabe que eu estava falando com nosso filho.
Ele riu sem humor. – Não que isso faça muita diferença. É o mesmo que conversar com as paredes.
Joguei a toalha com força no cesto, a raiva que estava quase se apaziguando voltando a se inflamar outra vez. – Como é que você pode dizer uma coisa dessas, Edward? Como você consegue fazer isso com seu próprio filho?
– Nós já discutimos isso antes, Bella. Você é quem quer manter essa criança. – ele murmurou, desatando o cinto e jogando-o no canto do banheiro – Não vou me opor mais contra essa gravidez, mas não me peça mais nada além disso.
Mais uma vez, as lágrimas tinham a intenção de aparecer, porém busquei forças para não parece mais uma idiota sentimentalista na frente dele.
– Porque você é assim, Edward? Você passou dias insistindo para que tivéssemos outro bebê e agora, simplesmente o ignora só porque ele é um pouquinho diferente!
– Pouquinho? – ele protestou, apesar de ainda manter sua voz fria – Algumas semanas atrás você pensava completamente diferente.
- É, mas eu vi que isso não é o fim do mundo! – disse exasperada. – Pelo favor, somos os pais dela! Podemos amá-la independente de qualquer coisa!
Ele deu de ombros, terminando de tirar sua roupa e entrando no chuveiro. – Eu já te disse que não queria essa criança, Bella. – antes que eu pudesse replicar qualquer coisas, ele completou – Se eu quisesse qualquer tipo de afeição por um ser irracional, eu teria passado em algum pet-shop e comprado um cachorro.
Foi como se eu tivesse recebido um soco. O sangue gelou em minhas veias e tive que buscar equilíbrio ao segurar mais forte na bancada de mármore da pia para poder me sustentar. Nem meu corpo e muito menos minha mente tiveram capacidade de reagir às palavras de Edward; apenas fiquei ali, parada sem acreditar que ele havia chegado ao ponto de dizer algo tão grotesco, como se fosse algo banal. Fiquei o observando sem realmente vê-lo à medida que ele entrava debaixo da ducha e começava seu banho. Eu me perguntava o que havia acontecido com aquele doce, benevolente e com um imenso senso de justiça, que nunca ousaria fazer uma comparação neste nível com outro ser humano.
Meu estômago se embrulhou de uma forma estranha. Por mais que meus olhos não negassem que havia um espécime perfeito do sexo masculino completamente nu à minha frente, não havia sequer uma célula de meu corpo que se sentia atraída por ele naquele momento. Pelo contrário; a imagem dele me repelia de tal maneira que nunca pensei que fosse possível pelo homem que eu amava.
Naquele momento, eu tinha repulsa por Edward.
Sentindo-me sufocada dentro daquele banheiro, eu dei um passo para trás e fugi praticamente correndo dali. Mesmo que meus olhos estivessem marejados, não me permiti chorar mais por aquele assunto; nem eu e muito menos o bebê que estava em meu útero merecíamos esse tipo de tratamento vindo de Edward. Se para ele este bebê não significava muito, eu iria ama-lo mais do que minha própria vida, assim como acontecia com Richie. Iria defende-lo de tudo e de todos, não permitindo que ninguém mais ousasse falar uma só palavras de mal dele. Principalmente que esse alguém fosse seu próprio pai.
Ao sair do meu quarto, encontrei Richie usando apenas uma camiseta e uma cueca, com certeza procurando por algum brinquedo que ele não conseguia encontrar. A visão dele agachado, com seu bumbum arrebitado para o ao fuçar por trás de uma mesa de canto trouxe uma risada aos meus lábios. Aquilo chamou sua atenção e ele voltou-se para mim com seu cenho franzido em frustração.
- Mãe, você viu meu chinelo do Homem-Aranha?
Aproximei-me dele, segurando sua mão e levando-o até seu quarto — Não. docinho. Procurou no seu armário?
Ele revirou os olhos e bufou ao me responder — É claro né, mãe!
- E porque essa pressa toda para achar esse chinelo?.
Seu sorriso aumentou consideravelmente — Papai disse que vai me levar para o parque! — respondeu empolgado e se desatou a tagarelar — Você vai também, né? Ele disse que vai levar a bicicleta e depois a gente vai comprar um álbum de figurinhas e tomar um sorvete de chocolate bem grande!
Eu sorri para o meu menino, no entanto por dentro meu coração se apertava. Por mais distante que meu marido estivesse nas últimas semanas, eu não poderia negar que Edward praticamente idolatrava Richie. Tinha sido assim desde quando descobrimos que eu estava grávida; ele passava horas conversando com minha barriga, acariciando-a, mimando nosso filho que não havia nem sequer nascido ainda. O mesmo havia acontecido alguns meses atrás, logo que descobrimos minha segunda gestação, embora hoje, depois que tínhamos descoberto que o bebê tinha Síndrome de Down, suas atitudes haviam mudado completamente.
Arrastei Richie de volta para seu quarto, onde juntos buscamos seu chinelo, pegamos uma bermuda para que ele pudesse brincar a vontade e logo em seguida, comecei a pentear aquela bagunça de cachos marrons que havia sobre sua cabeça. Em momento algum, Richie parou de tagarelar e eu forcei um sorriso em meu rosto, assentindo quando necessário e demonstrando empolgação nos momentos certos. Por mais que fosse errado de minha parte agir desta forma com meu filho, eu não conseguia me concentrar em nada além da última declaração que Edward fez lá no chuveiro. Minha cabeça latejava pesadamente e tudo o que eu mais queria era me deitar um pouco para tentar esquecer que eu tinha escutado tal declaração do meu esposo.
- Mamãe, tem certeza que você não quer vir com a gente? – Richard pareceu perguntar pela enésima vez.
- Não filhote. Eu estou com um pouquinho de dor-de-cabeça, então irei ficar aqui descansando.
Ele fez um leve biquinho e retrucou enquanto ia até sua caixa de brinquedos – Seria mais legal se você tivesse lá também...
- Eu sei, Richie. Só que a mamãe está realmente cansada; e eu acho que o bebê também quer dormir um tico, sabe?
Ele continuou fuçando por alguma coisa, até que parou e virou seus grandes olhos verdes para mim – Mãe, eu posso te perguntar uma coisa?
- Claro, docinho. O que é?
Ele voltou a procurar algo entre seus carrinhos, não me encarando quando questionou; — Você ainda vai gostar de mim depois que o bebê vier pra casa, né?
Meu coração se apertou um pouco por conta da insegurança que senti vinda de meu garotinho; entre tantos exames, consultas, estresse com Edward e conflitos comigo mesma, talvez estivesse mesmo negligenciando meu filho.
Puxei meu menino para mais perto, beijando o alto de sua cabeça e murmurei — É lógico que eu ainda vou amar você, seu bobinho. Você e seu irmãozinho são as pessoas mais importantes do mundo para mim.
- Mas você vai gostar mais de mim, né? — ele inquiriu
- Bem, quem é que você ama mais; eu ou o seu pai? — rebati erguendo uma sobrancelha.
Ele deu de ombros e disse — Eu gosto dos dois igual.
- Viu? É o mesmo para mim, filhote. Não posso escolher entre um e outro, entende?
- Acho que sim... Não dá pra escolher ninguém.
Deixei outro beijo em seu rosto e assenti — Exatamente, mocinho.
Naquele mesmo instante, Edward apareceu na porta do quarto com o cabelo ainda úmido do banho, usando um jeans claro e uma camiseta azul, tão casual como eu mal costumava vê-lo ultimamente. O sorriso verdadeiro que ele estampava para Richie enquanto nosso menino corria para se jogar em seu colo era uma coisa agridoce de se ver para mim; em momentos como esse, Edward se mostrava o pai que ele verdadeiramente era, capaz de amar Richie incondicionalmente. Era inconcebível para mim que ele não pudesse agir da mesma maneira com esse bebê, só por conta de sua condição mental.
- Pronto para ir campeão? — Edward perguntou enquanto arrumava Richie em seus ombros.
Ele assentiu com um grande sorriso — E eu quero mega sorvete de casquinha com calda e chocolate e tudo!
Rolei os olhos e me aproximei deles, entregando para Richie um de seus bonecos. — Nada de muito doce. E obedeça ao seu pai, ok?
Ele meneou a cabeça e Edward aproveitou o momento para me perguntar — Quer que eu traga alguma coisa pra o jantar?
Ainda ressentida pelo o que ele havia dito, não me delonguei ao responder o mais seca possível — Não precisa.
Edward não pareceu incomodado com minha resposta e voltou-se imediatamente para nosso filho- Ok. Vamos indo, carinha.
- Ei, pai! Você não pode sair sem dá um beijo na mamãe!
Tanto Edward quanto eu ficamos congelados com aquele pedido do nosso filho; Richie não poderia ter escolhido um pior momento para lembrar-se deste detalhe que outrora costumava ser um hábito entre nós dois. Antes, nós nunca saiamos sem despedirmos um do outro, trocávamos mensagens ao longo do dia, tínhamos sempre uma desculpa para nos manter conectados um com o outro. Agora, agíamos como dois estranhos que dividiam o mesmo teto, onde tudo e qualquer coisa poderia virar uma discussão.
O pior nisso era que eu realmente sentia falta de Edward. Ele sempre fora meu melhor amigo, meu amante, aquele que eu confiava todos os meus temores. Não tê-lo me apoiando na decisão mais difícil que já tomei em toda minha vida tinha um gosto amargo, como se ele estivesse me julgando por aquilo que eu achava certo; algo que nunca fiz nas milhares de vezes em que Edward teve que decidir entre suas dúvidas.
Ele vacilou antes de se aproximar, até que finalmente se inclinou sobre o meu rosto,.para que beijasse minha boca, no entanto, virei meu rosto a tempo de que seus lábios pousassem na minha bochecha.
Senti os olhos de Edward sobre mim durante um bom tempo, contudo não ousei encara-lo; depois do que pareceu serem longos minutos, escutei-o suspirar e colocar outro beijo sobre a meus cabelos — Te vejo mais tarde, Bella.
Assenti levemente a medida que os dois se afastavam pelo corredor, com o Richie o tempo todo acenando para mim do ombro de seu pai. Assim que os dois sumiram na escada em direção ao andar de baixo, retirei o sorriso de meu rosto e segui para o meu quarto, onde me encolhi no lado da cama que pertencia a Edward.
Puxei seu travesseiro contra mim e aspirei o cheiro dele que sempre me confortava desde quando eu era apenas uma adolescente cheia de sonhos. Por aquele instante, me permiti imaginar que era o próprio Edward que estivesse ali, me confortando e dizendo que tudo ficaria bem. Comentando que amava essa criança independente de qualquer coisa. E assim, apenas sonhando que tudo isso se tornasse verdade, que acabei sucumbindo ao cansaço e adormeci rapidamente.
Quando acordei, notei de imediato que já tinha escurecido lá fora. Assustada, me levantei em um único movimento e fui assolada por uma vertigem estranha que me derrubou de volta na cama, o que foi estranho para mim. Respirei profundamente algumas vezes e, as poucos, a tontura foi se esvaecendo até que eu me senti normal outra vez, pronta para sair do quarto, indo em direção a cozinha onde terminaria o jantar.
Antes mesmo que eu chegasse ao alto da escada, já escutava a risada alta do meu filho e de Edward vindas da sala. A curiosidade me venceu e fui até lá, onde os encontrei um de frente para o outro, sentados no chão e com o centro entre eles Acima da mesa, havia um jogo de tabuleiro, fichas e peões espalhados por ela.
- Eu não disse que você iria perder, papai?
- É, mas isso só porque você trapaceou, espertinho — Edward resmungou, apesar de não conseguir esconder sorriso.
- O que vocês estão fazendo? — inquiri, me aproximando do meu filho e percebendo que algumas partes do jogo de tabuleiro haviam a estampa do Bob Esponja.
Richie abriu um sorriso e me respondeu — Jogando Banco Imobiliário. É muuuuito legal, mãe!
- Só é legal porque você está ganhando... — Edward retrucou, antes de jogar os dados mais um vez.
- Ele é não é um pouco novinho para isso? — perguntei ao ver Richie escrevendo vários números em uma folha em branco
- Eu vou fazer sete anos, mãe. — meu filho respondeu, rolando os olhos..
- Richie me pediu um IPhone agora de tarde. — Edward começou, sorrindo para mim — Então decidi mostrar para ele que dinheiro não se vem facilmente com esse jogo. Mas parece que o tiro saiu pela culatra porque eu estou a beira da falência enquanto ele já virou um milionário mirim.
Meio sem jeito, lhe sorri de volta, reconhecendo o meu Edward naquele pequeno gesto — Eu pensei que nós já estivéssemos conversados sobre esse telefone, Richie.
Meu garotinho deu de ombros — Eu pedi, mas esse jogo aqui é bem mais melhor.
- Bem melhor, filho. — respondi acariciando seus cabelos — Enquanto vocês meninos continuam por aí, eu vou terminar o jantar.
Quando já estava me levantando, Edward me interrompeu — Eu já coloquei a massa no forno alguns minutos atrás Bem, era para ir no forno, não era?
- Oh... sim, era sim. Obrigada. — murmurei, sem saber ao certo o que fazer.
Ele ri de canto, e continuou brincando com nosso filho, que a cada jogada parecia ficar mais e mais rico. Era estranho, mas me sentia uma intrusa ali entre os dois, por isso decidi ir de todo jeito para cozinha onde preparei uma salada. Ocasionalmente, eu escutava as conversas dos garotos; a felicidade de Richie por estar vencendo e os resmungos de Edward sobre sua eminente derrota. Sobre essa trilha de fundo, eu preparei o jantar e momentaneamente pude esquecer todo e qualquer problema quando meu filho ria daquele jeito.
O que mais me angustiava era essa mudança de comportamento de Edward. Ora ele parecia o mesmo homem que eu me apaixonei; ora era alguém frio e insensível que exigia racionalidade para tudo. Era difícil acompanhar suas mudanças de temperamento, me dando aquela sensação de estar "pisando em ovos" quando estava perto dele. Talvez, já estivesse mais do que na hora de voltar alguma séria conversa com ele, gostasse ele disso ou não.
Não demorou muito para que tudo estivesse pronto e eu fosse chama-los para comermos. Ambos vieram praticamente correndo, ainda trazendo o clima leve da sala para nossa mesa. Edward me ajudou a terminar de por a mesa a medida em que Richie pegava um pouco de refrigerante na geladeira. Começamos a refeição em um relativo silêncio, apenas sendo quebrado pelas eventuais divagações de Richie e suas aventuras de hoje a tarde no parque e na loja de brinquedos.
- … daí então o papai prometeu que no dia do meu aniversário eu vou ganhar aquele vídeo-game que vocês prometeram.
- Isso se você continuar se comportando bem tanto na escola quanto em casa — eu interrompi, me servindo de um pouco mais de suco.
- É eu sei... — ele resmungou com uma careta. — O bebê que tá na sua barriga vai demorar muito ainda para ir pra escola, mãe?
O silêncio dominou o ambiente de tal forma que seria possível escutar um alfinete caindo na sala dos nossos vizinhos. Meu estômago se encheu de nós e meu corpo inteiro tencionou ao escutar aquela pequena pergunta do meu filho. Voltei rapidamente minha face para Edward, que tinha exatamente a mesma postura que eu; mandibula cerrada e ombros retesados, demonstrações físicas de que ele estava claramente alterado por aquela questão também.
Richie continuava esperando sua resposta, então engoli em seco antes de lhe responder — Eu acho que isso ainda irá demorar um pouquinho. Ele ou ela terá que crescer primeiro antes de ir para qualquer canto.
- Na verdade, — Edward começou depois de limpar sua garganta — eu tenho a impressão de que ele nunca irá a canto algum, Richie.
- Como assim, pai?
Edward me olhou de um jeito que fez com que toda minha coluna tremesse — A mamãe não te contou ainda, filho?
- Edward, por favor, não comece. — Eu sibilei.
- Começar o que, mãe?
- O que, Bella? Você não pretende contar ao nosso filho que o irmão dele tem um problema? — Edward bradou, seu tom de voz começando a ficar alterada.
Nosso filho assistia a nossa troca como se visse uma partida de pigue-pongue, os olhos arregalados parecendo não querer perder nenhum lance, apesar de sua expressão assustada. — O que é que ele têm, pai?
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Edward respondeu — Seu irmão é doente, filho. Ele não vai ser um bebê normal como as outras pessoas. Ele não irá para a escola, nem sairá de casa porque ele não é igual aos outros e nem...
- Richard, sobe. — eu o interrompi, agora sem medo algum de fuzilar Edward com meus próprios olhos.
O cenho de meu garoto se franziu ainda mais. — Por quê? O que foi que eu fiz?
- É, Bella. Por que Richie não pode saber a verdade sobre o irmão dele? Ou você pretende ficar escondendo isso de todo mundo para sempre, huh?
Tremendo de raiva, pedi outra vez ao meu filho — Por favor, suba, Richard.
- Mas mãe, eu nem...
Edward bateu o punho sobre a mesa e tanto eu quanto meu filho tivemos um sobressalto- O Richard fica. Já chega de ficarmos escondendo que ele terá um irmão que é maluco. Ele devia ser um dos primeiros a saber sobre isso.
- Como assim que meu irmão é maluco?
Puxei uma respiração profunda antes de falar — Richard, nós conversamos sobre isso mais tarde. Eu preciso falar com seu pai primeiro.
- Eu não vejo motivos para que tenhamos essa conversa sem que Richie esteja presente. A não ser que você queira continuar omitindo as coisas de seu filho.
- Ótimo, você quer agir como um estúpido e começar uma briga na frente do nosso filho, tudo bem.
- Eu não quero começar uma briga, Isabella. — Edward silvou — E única pessoa aqui que está sendo irracional é você.
Eu não tinha mais como controlar minha raiva, e acabei explodindo. Levantei-me de uma vez só da mesa e o movimento repentino fez com que derrubasse o copo que estava ao meu lado e o mesmo se quebrasse no chão. — Você é um idiota, Edward.
Com as mãos tremulas, peguei a louça que havia usado e partir em direção à cozinha. Escutei Edward pedindo finalmente para que nosso filho subisse, no entanto, estava tão alterada que nem me preocupei de verificar se Richie havia de fato obedecido ao seu pai. Joguei os pratos sobre a pia, e logo em seguida pude ouvir os passos de Edward se aproximando, contudo não ousei de modo algum encara-lo.
- O que? — Edward começou, agora sua voz tão afiada quanto podia — Não aguenta escutar algumas verdades sobre essa criança?
- Que verdade, Edward? — gritei de volta — Desde que eu neguei o aborto tudo o que você fez foi criticar... E agora se acha no direito de inventar essas mentiras para o Richie. Isso é tão mesquinho!
- Mesquinho? Você esconde a merda da verdade do nosso filho e o egoísta nisso tudo acabo sendo eu?
Virei-me apenas para encará-lo de frente, não demonstrando covardia diante dele — Eu iria contar para ele no momento certo!
- Ah, é? Quando?
- Provavelmente, quando nenhum de nós dois estivéssemos gritando um com o outro!
Ele soltou uma risada sarcástica — Faça me o favor, Bella. No fundo, você tem tanta vergonha dessa mongolóide quanto eu.
Eu não medi a consequência do meu ato; naquele instante, a raiva que havia tomado todo meu corpo fez com que eu erguesse a mão e esta se conectasse com força na face de Edward. Rápido, impulsivo e intenso, o tapa que havia lhe dado chocou a nós dois.
Por mais irritada que eu estivesse, sabia que havia feito besteira assim que Edward cobriu seu rosto e me olhou completamente abismado. Justo eu que abominava qualquer atitude violenta, havia feito algo impulsivo no qual havia me arrependido no momento seguinte.
- Oh meu Deus, Edward. Me desc...
- Não, Bella — Edward respondeu com a voz mais baixa, erguendo suas mãos em uma postura defensiva e dando alguns passos para trás. — Não me venha me pedir desculpas depois de ter feito isso.
Ele se afastou mais um pouco, e antes de sumir da cozinha, ele afirmou — Sabe, eu acho que cheguei a uma conclusão nisso tudo. — ele não esperou que eu lhe perguntasse para concluir — que talvez a pessoa insana dessas gestação não seja esse bebê, mas sim, você.
Com isso, Edward deu as costas voltando para a sala de jantar, me deixando sozinha mais um vez. Desconforto, raiva, angústia, ira e arrependimento formavam uma mistura amarga de sentimentos dentro de mim, onde eu não sabia sequer determinar com coerência o que de fato eu estava sentindo naquele instante. Quem sabe, talvez Edward tivesse mesmo razão sobre a minha sanidade.
No mesmo instante, o corpinho se desenvolvendo dentro de mim resolveu se mostrar outra vez, e aquela estranha e gostosa sensação de algo se movimentando por dentro de mim. E, apesar de tudo, consegui abrir um pequeno sorriso; eu era mesmo uma pessoa maluca, talvez.
Maluca de amor pelo meu filho.
Notas finais
Comentários, por favor, que eu necessito desse feedback de vocês.
Beijos e até o próximo capítulo!
Line
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