Notas de Sal e Papel
11 O Homem e o Pombo
Creio que nos perdemos.
Perdido em tamanha confusão
Eu grito para mim mesmo
E para os que cachorros abandonados
Que nos perdemos
Na pressa de nos tornarmos algo novo
De nos provarmos singulares e suficientes
Creio que nos perdemos
Creio que perdemos cada dia mais
Nossa humanidade
Ela se esvai pelo ralo voraz das noites de Sábado
E das tardes de Segunda
Creio que com o passar do tempo e das novelas
Perdemos a fé
Ou talvez nunca tivéssemos muitos motivos para tê-la
Creio que no desenrolar dessa nossa história
Ansiamos por viver uma vida fantástica
E sonhamos tão alto que nos derretemos no sol
E também há aqueles outros tantos...
Nós voamos tão baixo... com medo de bater em um avião
E atrapalhar os pilotos com a nossa existência
Que acabamos por nos afogar.
Creio ainda que existe um numero infinito de nós
Que voam há uma altura precisamente confortável
E passam a vida fazendo malabares
Para eles a vida é uma brisa suave
A água é fria
E o sol é quente
Mas existe um óleo suave que eles passam nas costas
E se esquecem
Creio que nos perdemos
Não por não sabermos voar
Isso é uma mentira do rádio vespertino e da imprensa marrom
Nós voamos
Preocupados demais com a altura
Com a velocidade
Com o vento
Com o céu
Com a terra
Com Deus
E com a morte
Tão preocupado que ignoramos completamente
Que somos nós
Nós todos
Que voamos
E nós todos voamos
No alto azul do céu
Nessa bela tarde de agosto.
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