Notas de Sal e Papel

7 Confessionário de Praça


Como é alto

Como é profundo, este abismo

Esta depressão

Chega a hipnotizar

Atrair com o olhar

Atrai esta queda vertiginosa

Aprofundando-se nos interiores da terra

Furando a carne do homem

Mordendo, rasgando tudo no caminho

Fura meu ser

Macera meu coração perturbado

Este lento dedilhar

Uma valsa interminável

Um lamento

Que perfura o mundo

Afoga-me nos travesseiros

Inunda a existência

Com a miséria da vida

Em um ritmo lento segue a lua

Acompanha os ponteiros do relógio

Maldito

Maldito relógio

Insistente como uma dama louca

Atônito, implacável

Devora minha vida a cada segundo

Rouba a vitalidade do mundo

Deixa-me ao relento, moribundo

Sozinho com meus devaneios

Não existe a poesia

Não existem os versos

Existem a dor, pura e sincera

E mentiras

Muitas mentiras

Afogam-nos na alegra

A alegria dos tolos

Acreditam viver em um mundo justo

Em um mundo bom

Mal sabem, os pobres

Que vivem mergulhados na própria podridão

Vivemos mergulhados no ódio

Mergulhados na dor

Mergulhados na ignorância

Respiramos, brevemente ao longo das décadas

Arquejos arfantes de amor

Em bolhas de versos, pensamos isolarmos

Mas cá estou

Vencido pelo mundo

Escrevendo em uma noite vazia

Com a alma derramando-se, aos prantos

Num confessionário de praça

Revelando aos estranhos minha dor

A dor surda

A dor amarga

De depender do mundo

Para carregar minha leve alma

Desprovida de paz

Desprovida de esperança

Desprovida de música

Desprovida de poemas

Aguardando, pois, permaneço

Como num velório lotado

Aguardando o final.