Amar

Que absurdo

Extraordinário verbo

Permeia as ruas desta cidade

Desta noite tão quente

Aconchegante

Cheirando a álcool, suor e gasolina

Eu me pergunto

Tonto em um canto qualquer

De que serve a vida se não se pode amar?

Mas se pode amar

É permitido amar

E amamos a liberdade inerente ao verbo

Amamos amar

Por breves dias, por noites breves como essas

Em que a existência se resume a amar

Mas existe algo nas profundezas da urbe

Existe algo sóbrio, algo secreto

Guardado a sete chaves pelas prostitutas e poetas

Um segredo inigualável, horrendo

Um absurdo

Dizem que já foi o amor

Mas deixou de ser a muito tempo

Morreu quando as pessoas foram embora

Para se divertirem nas casas animadas da cidade

A muito tempo atrás, antes das coisas chegarem

Aquelas coisas

Esquisitas

Belas

Ricas

Com dois olhos

Uma boca bela

E uma alma feia

Uma alma vazia

Plástico

“Aquilo”, hoje, refugia-se no subúrbio

Nos becos e tavernas

E as mães nos ensinam a ficar longe dele

Pois “Aquilo” nos faz tolos

O que chamávamos amor nos desvia da vida

Nos tira nossas preciosas cédulas

Faz perder o brilho o ouro

E faz crescer algo extraordinário

Perigoso

Letal

A piedade

Afastem-se da piedade

Esta perdeu seu homem para a vida

Perdeu seu homem pois é burra

É burra e sente a dor do mundo

E dela se compadece

O que era amor é hoje uma droga

Mas não a encontramos em qualquer esquina

Não a encontramos nas festas dos presidentes

A encontramos onde menos se espera

Em natais memoráveis, encontros fora de época

E ele corrompe seu coração

Condena-o a sarjeta

Contamina-o com a piedade

E o faz olhar a sua volta, preocupar-se

Chorar pela aquela bela, linda menina

Mas tu, desgraçado

Não deve amar

Não pode amar

Fujas para a noite, consomes alegria

E volta a te questionar

Por que ainda vives, José?

Se não pode amar, por que ainda vives?