Notas de Sal e Papel
9 Amar
Amar
Que absurdo
Extraordinário verbo
Permeia as ruas desta cidade
Desta noite tão quente
Aconchegante
Cheirando a álcool, suor e gasolina
Eu me pergunto
Tonto em um canto qualquer
De que serve a vida se não se pode amar?
Mas se pode amar
É permitido amar
E amamos a liberdade inerente ao verbo
Amamos amar
Por breves dias, por noites breves como essas
Em que a existência se resume a amar
Mas existe algo nas profundezas da urbe
Existe algo sóbrio, algo secreto
Guardado a sete chaves pelas prostitutas e poetas
Um segredo inigualável, horrendo
Um absurdo
Dizem que já foi o amor
Mas deixou de ser a muito tempo
Morreu quando as pessoas foram embora
Para se divertirem nas casas animadas da cidade
A muito tempo atrás, antes das coisas chegarem
Aquelas coisas
Esquisitas
Belas
Ricas
Com dois olhos
Uma boca bela
E uma alma feia
Uma alma vazia
Plástico
“Aquilo”, hoje, refugia-se no subúrbio
Nos becos e tavernas
E as mães nos ensinam a ficar longe dele
Pois “Aquilo” nos faz tolos
O que chamávamos amor nos desvia da vida
Nos tira nossas preciosas cédulas
Faz perder o brilho o ouro
E faz crescer algo extraordinário
Perigoso
Letal
A piedade
Afastem-se da piedade
Esta perdeu seu homem para a vida
Perdeu seu homem pois é burra
É burra e sente a dor do mundo
E dela se compadece
O que era amor é hoje uma droga
Mas não a encontramos em qualquer esquina
Não a encontramos nas festas dos presidentes
A encontramos onde menos se espera
Em natais memoráveis, encontros fora de época
E ele corrompe seu coração
Condena-o a sarjeta
Contamina-o com a piedade
E o faz olhar a sua volta, preocupar-se
Chorar pela aquela bela, linda menina
Mas tu, desgraçado
Não deve amar
Não pode amar
Fujas para a noite, consomes alegria
E volta a te questionar
Por que ainda vives, José?
Se não pode amar, por que ainda vives?
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