Nota de passagem
1 Capítulo 1
Notas iniciais
~ Eu olho para você e vejo todos os jeitos que uma alma pode se machucar
E eu desejo poder mergulhar minhas mãos dentro de sua carne
e acender laternas dentro de sua espinha para que você saiba
que não há nada dentro de você que não seja luz ~
~ Shinji Moon ~
Nenhuma palavra poderia definir Jane Rizzoli tão bem como ‘espirituosa’. Ela anda pelos corredores da clínica de fisioterapia na qual trabalha como se fosse a própria dona do lugar. Seu cabelo preto e ondulado, rebelde e indomável, balança para cima e para baixo acompanhando cada passada determinada que dá, combinando com a personalidade da dona. Mesmo agora, sendo colocado num coque mal feito e apertado, os fios continuam se rebelando, mexas espetando para todos os lados enquanto a mulher suspira, cansada depois do expediente de trabalho.
‘Ei, Rizzoli, acabou teu turno?’ Millie, uma estagiária em fisioterapia pergunta, um sorriso no canto da boca entregando uma provocação futura. Ela deve ter em torno de vinte e dois anos, Jane acha, mas enquanto doce, é um tanto sarrista.
‘Não me venha tentar arrumar nenhum encontro para essa noite, ok Millie? Da última vez, você me meteu numa fria.’ Rizzoli brinca, assinando algumas fichas, ainda que sinta ser verdade.
‘Olha só! Eu fui muito legal em te oferecer meus dois ingressos para o concerto na semana passada, Jane. Não foi culpa minha ele ser cancelado de última hora.’ Ela rebate com um dar de ombros, nada ofendida.
‘É, é... Eu sei. Quer saber? Fiquei aliviada, na verdade. Você sabe que sentar e ouvir uma orquestra tocar por horas não é minha praia.’ Ela suspira e adiciona um segundo pensamento: ‘mas obrigada pelo presente, de qualquer forma.’
‘Mas você não fica horas sentada num estádio quando assiste baseball?’ Ela brinca enquanto lê a ficha de algum paciente. ‘E por nada.’
‘Baseball é interessante pra caramba, Millie. Você não entende.’ Jane resmunga, revirando os olhos.
‘Tá, tá... Se você diz.’ A outra diz baixinho, franzindo o cenho. Atrás de Jane, ela vê o diretor da clínica se aproximar.
Thomas é um homem alto, um tanto quanto forte, mas parece cansado a maior parte do tempo. Jane acha que é por causa de toda burocracia que o homem tem que lidar no dia a dia, papeladas e mais papeladas, alguns pacientes desagradáveis, gestão e tudo o mais.
‘Boa noite, senhoritas.’ Ele cumprimenta as duas mas logo se volta à mulher mais velha. ‘Rizzoli, posso tomar alguns minutos antes de você sair?’
‘É claro.’ É tudo o que diz. Ser chamada de ‘senhorita’ a faz lembrar das mulheres dos filmes dos anos 50, e ela não se sente, definitivamente, nenhuma dama.
‘Me acompanhe, por favor.’ Ele acrescenta e gesticula com a mão.
Millie meneia com a cabeça, se despedindo dos dois.
‘No que posso ajudar, senhor?’ Rizzoli pergunta, soando um tanto mais educada do que o normal — apenas para aqueles que não conhecem seu lado sarcástico.
‘Deus me ajude.’ O homem suspira e murmura, conhecendo bem todas as facetas da fisioterapeuta. ‘Recebemos hoje uma paciente um tanto quanto... incomum. Se posso colocar assim.’
‘Com duas cabeças ou algo do tipo?’ A outra brinca, mas fica séria em seguida, erguendo as sobrancelhas em puro interesse.
‘Não...’ Ele diz pacientemente. ‘Bem, tudo o que estou dizendo é que estou confiando a saúde dela à você, Rizzoli.’ Ele continua dizendo enquanto os dois andam juntos pelo corredor. De repente, pára de andar e aponta para um dos quartos. Pelo vidro que serve como uma janela é possível ver a paciente em questão deitada na cama, dormindo.
‘Qual o caso?’ A morena pergunta, mais interessada na explicação do outro do que, de fato, na paciente dentro do quarto.
‘Queda, causando uma lesão na coluna. Não há nenhuma fratura da coluna vertebral, apenas inchaço, e nada de coágulos. Há uma fratura estável no quadril, de modo que nenhuma cirurgia foi feita.’
‘Que tipo de lesão na coluna, senhor?’ As sobrancelhas se franzem em concentração ao analisar o caso.
‘Lesão incompleta. As funções sensitivas parecem estar intactas, mas você vai precisar trabalhar a função motora.’ Ele diz com os olhos pregados na morena.
‘Você disse que isso tudo foi por causa de um tombo?’ Ela finalmente olha para dentro do quarto, analisando a pessoa na cama. ‘Ela me parece jovem para machucar o quadril assim, tão facilmente...’
‘Bem, o tombo foi de uma escada. Isso complica as coisas, não?’ Ele oferece, encolhendo os ombros.
‘Certo...’ Ela suspira. Um pensamento lhe ocorre e ela quase pula ao lado do homem quando nota que ele começou a andar novamente para a recepção da clínica. ‘Senhor, você disse que ela é uma paciente incomum. O que isso significa?’
Ele dá uma risadinha e vira o rosto para ela. ‘Ora, Rizzoli, você não sabe quem ela é?’ E pergunta com um tom de graça.
‘Não, senhor.’ Seus olhos se arregalam e de repente ela parece animada. ‘É alguma famosa ou algo do tipo?’
Ele ri baixinho de novo e continua a andar, dessa vez sem a mulher, que está parada no lugar, um tanto impressionada demais para se mexer.
‘Ora, bem... Vou deixar que você mesma descubra amanhã quando a ficha dela estiver pronta. Ela é tua primeira sessão na parte da manhã. Não estrague as coisas, Rizzoli. Eu confio em você. Até mais.’ E some ao virar na esquina de um dos corredores.
Rizzoli olha ao redor para procurar por Millie e lhe perguntar se ela sabe algo da paciente nova. Derrotada pela solidão — não há mais ninguém perambulando por ali — ela chacoalha os ombros e tenta se livrar da curiosidade. Amanhã é outro dia, ela diz para si mesma, agarra os pertences pessoais e cai fora da clínica direto para o ar fresco da noite.
Fale com o autor