Nota de passagem
3 Capítulo 3
III
‘Eu toco piano?’ É o que Jane diz entrando no quarto de Maura, jogando a mão para cima, teatralmente, como se dissesse ‘sério?’. Na noite anterior, ao chegar em casa e depois de muito prelúdio, a morena tinha debatido se deveria ou não pesquisar por Maura Isles no Google, sabendo que de certa forma aquilo era uma invasão de privacidade. Decidiu a favor de sua curiosidade, em vez de ceder ao peso da vergonha pela sugerida especulação, e apertou as teclas do laptop.
O que ela encontrou a deixou de queixo caído.
Ela não tinha idéia de que Maura Isles era uma musicista renomada, muito menos de que tinha dois albuns gravados e que tinha sido indicada ao Grammy na categoria de ‘revelação do ano, categoria piano’ há três anos atrás... E que tinha levado a estatueta para casa. Embalada pela empolgação, ainda procurou por um vídeo de Maura no Youtube. Embora a morena não fosse familiarizada com música clássica, seu peito se inflou e aqueceu de maneira deliciosa ao assistir uma concentrada Maura Isles tocando uma balada de Frédéric Chopin. Não é a toa que todos estão encantados por ela, Jane pensou enquanto assistia dedos talentosos criando música com tanta naturalidade que parecia ser fácil e banal como assinar o próprio nome. Além disso, algo mais do que a música fluía por ela; uma delicadeza, confiança, um diálogo que despertava uma sensação deliciosa dentro de Jane.
Agora, dentro do quarto, a morena se dá conta de que ela e Maura não são as únicas ali. Millie a encara com diversão escrita em todo o seu rosto, aparentemente achando a situação engraçada.
Jane se recompõe e continua, ‘foi a apresentação pessoal mais despretensiosa que já vivenciei.’
‘Uau, Rizzoli. De todas as pessoas, você era a que eu menos esperava que fosse agir como uma fangirl.’ Millie provoca, rindo de leve.
‘Uma o que?’ Jane franze o cenho, fazendo uma cara confusa e engraçada.
‘Você precisa perdoar essa aqui.’ Millie diz, apontando o dedo para a fisioterapeuta. ‘Ela não tem um nível cultural muito... amplo, vamos dizer assim.’ Jane parece levemente ofendida, mas ela continua, ‘só entende de baseball, marcas de cerveja e, para tua sorte, ossos e músculos e tendões.’
O comentário faz Maura rir baixinho, dando de ombros levemente. ‘Parece bom o suficiente para mim.’
‘Bem, a Millie aqui te contou a novidade de hoje?’ Jane desvia o olhar para a colega, e depois de volta para Maura.
‘Ahn... Não.’ A loira franze o cenho numa mistura de curiosidade e concentração.
‘Hoje nossa sessão de fisioterapia é na água.’ Jane diz enquanto amarra o cabelo num rabo de cavalo firme.
Por um instante, Maura parece congelar. Suas mãos apertam a coberta de cama, discretamente, mas Jane não perde o movimento sutil. ‘Na água? Na água... na piscina?’ Maura parece perder um pouco da coerência na fala.
‘Na piscina aquecida!’ Jane diz com ânimo, ainda que forjado, para tentar espantar a inegável apreensão crescente da outra. ‘Vai ajudar com a dor, no relaxamento dos músculos e facilitar movimentos durante a fisio. Mas não há com o que se preocupar, não vamos movimentar muito seu quadril.’ Jane explica, depois aponta para Millie. ‘Ela vai te ajudar com a troca de roupa e, depois disso, vai levar você até lá.’
É natural que Jane interprete a ansiedade da outra como preocupação em sentir dor durante a atividade, mas ela apenas se dá conta de como estava errada agora, já dentro da piscina, com Maura segurando firmemente com as duas mãos na barra metálica.
‘Maura...’ A morena franze o cenho, tocando o ombro da outra com a mão. ‘Se lembra que você se sentou no espaguete para boiar?’ Um menear de cabeça, mas dedos ainda pressionando com força. ‘Você precisa relaxar um pouco. Você tem que inclinar o corpo para trás, relaxar a coluna. Esse é o principal objetivo de termos vindo aqui.’
‘Eu não sei nadar.’ A loira diz com urgência, como se se não dissesse, no segundo seguinte Jane fosse afogá-la na piscina. “Eu não sei nadar, e não consigo ficar em pé sozinha.’
É claro. Claro. Jane se dá um tapa mental. Não lhe tinha ocorrido de perguntar sobre isso antes, até mesmo porque a maior parte de seus pacientes anteriores (todos eles?) estavam habituados a frequentar piscinas, ainda que só por diversão. Ela abre um sorriso gentil e dá de ombros, esperando poder contornar a situação. ‘Bem, eu fui salva-vidas de plantão nos verões da faculdade. Ninguém nunca se afogou durante meus turnos, prometo. E também, eu não disse antes, mas vou apoiar suas costas com minhas mãos, desse jeito você não vai afundar mesmo.’
Maura não parece muito confiante a princípio, e o que conseguem é um meio termo: apenas uma mão na barra, o lado direito da menor encostado na barriga de Jane, enquanto os braços servem de apoio para as costas e pescoço.
A posição inadequada e ineficaz. O correto era que Maura repousasse a cabeça em sua barriga, como se estivesse de costas para a morena e tivesse deitado para trás. É possível notar os músculos do trapézio e pescoço tensos, o olhar aterrorizado de Maura, ainda que controlado, e Jane se debate muito em fazer o que considera fazer em seguida.
‘Vamos tentar algo diferente.’ Ela sugere, e levanta a menor com cuidado.
‘Fora da piscina?’ Maura pergunta com esperança, e Jane não pode deixar de sorrir em simpatia.
‘Não, apenas algo mais fácil.’ Ela aguarda pela aprovação da outra e continua. ‘Nós não vamos mais usar o espaguete, então você precisa segurar nos meus ombros, ok? E eu vou segurar na tua cintura.’
‘Certo.’ A outra cede, parecendo não muito convencida do que está por vir.
Quando estão finalmente em posição, frente a frente e os pés de ambas tocando o chão, a diferença de tamanho entre elas é evidente; Maura é quase uma cabeça menor do que Jane.
A água bate na cintura da morena, e ela sabe que precisa de um pouco mais de profundidade do que aquilo. ‘Tá vendo aquela parte ali?’ Ela aponta com a cabeça, sem tirar os olhos da loira. ‘É um pouco mais fundo do que aqui, nós vamos para lá, ok?’
‘Não.’ Maura diz, decidida. ‘Não mesmo. Se é mais fundo, eu não alcanço o chão, e nem você. E é no meio da piscina e não tem nenhuma barra, e eu não sei nadar.’
Jane não mexe um centímetro, mas estreita os olhos para ela. ‘Tenho certeza que oitenta por cento desses argumentos estão corretos. Exceto que eu alcanço, sim, o chão. Já viu meu tamanho? As pessoas não me chamavam de girafa na escola a troco de nada.’ Ela revira os olhos enquanto diz em tom de brincadeira, mas a outra parece não ceder — ao contrário, parece a ponto de gritar por ajuda. ‘Um passo de cada vez, então?’ Jane a motiva. ‘E quando você quiser voltar para cá, eu prometo que voltamos.’
A intensidade com que Maura a estuda é quase assustadora. Ela vasculha com desconfiança o olhar de Jane, depois seu rosto, pescoço e ombros. Quando parece meio convencida, pisca os olhos verdes e afiados, mas quando fala, é com voz aveluldada e doce. ‘Você cumpre o que promete?’
Jane meneia a cabeça. ‘Eu só prometo o que posso cumprir.’
Maura passa o antebraço ao redor do pescoço da outra, diminuindo a distância corporal entre elas. Seus olhos claros ainda interagem com os da morena, não em busca de aprovação, apenas indicando que essa é a condição essencial para seguirem para águas mais profundas.
Apesar das batidas aceleradas do coração, Jane maneja um sorriso. É uma dança lenta, ela descobre. Primeiro quando Maura descobre que seus pés não tocam mais o chão; dedos pressionam com força contra o ombro da morena, e um braço se aperta em torno do seu pescoço. Depois, quando a água bate quase a altura do pescoço da menor; Jane acha que ela vai ter um ataque de pânico, mas sabe que de alguma forma pode reverter isso.
‘Você não quer estragar seus dedos de pianista.’ Ela se refere à força com que Maura pressiona seus dedos no seu ombro, e diz com a voz calma e brincalhona, um sorriso no rosto.
‘Perdão.’ A outra relaxa um pouco da força nos dedos. ‘Eu só não me sinto a vontade na água.’ Seu olhar examina o de Jane, talvez esperando julgamento, mas não encontra nada senão compaixão.
‘Você nunca aprendeu a nadar?’ Jane aperta sua cintura, apenas para lembrá-la de que está segura ali.
‘Eu passava muito tempo tocando o piano. Nunca me interessei por piscinas ou pelo mar.’ Ela oferece facilmente, parecendo relaxar um pouco mais.
‘Nem mesmo quando criança, nas férias de verão?’
‘Bem, não. Mas eu costumava ver outras crianças brincar com...’ Ela pisca os olhos, dispensando uma lembrança — Jane acha — e dá de ombros em seguida, sem saber como terminar.
‘Ei, tudo bem, você não precisa falar sobre isso se não quiser.’ Depois de um segundo, Jane ergue uma sobrancelha e segura o sorriso. ‘Mas eu adoraria saber como é estar na noite do Grammy!’
Maura ri baixinho e balança a cabeça em negativo. ‘Foi horrível.’ Ela confessa.
O queixo de Jane cai em incredulidade. ‘Mentira!’ Ela exclama de forma quase infantil, fazendo Maura rir outra vez.
‘Verdade. Eu fiquei muito nervosa. Não sabia o que vestir, calçar... No dia anterior, tinha decidido não ir.’
‘Você tá brincando.’ Foi tudo o que Jane conseguiu elaborar.
‘Não. Eu quase vomitei antes de chegar na cerimônia.’ Ela confessa e ri baixinho em seguida, balançando a cabeça na negativa, como se repreendesse o próprio comportamento.
‘Por que? Quer dizer, por que você ficou tão nervosa?’ Jane morde o lábio inferior enquanto aguarda a resposta, como se estivesse se concentrando demais para analisar o que fosse ouvir.
‘Acho que na época eu senti como se estivesse sendo avaliada, como se precisasse ser aprovada.’ Ela admite, ainda que com um pouco de vergonha.
‘Mas você não estava. Você estava entre as melhores! E você ganhou!’ Jane completa o raciocínio, ainda que Maura não fosse colocá-lo em palavras para não soar arrogante. Ela sabia que era apenas a verdade — Maura era extraordinária, e estava sendo reconhecida por isso.
‘Eu não faço música pelo dinheiro, ou reconhecimento.’ A loira observa, estudando Jane com curiosidade.
‘Não acho que faça.’ A morena oferece.
‘É parte de quem eu sou.’ Ela sorri de um jeito que faz Jane acreditar que está escutando parte de um segredo. Depois de uma pausa na conversa, é sua vez de perguntar. ‘Por que fisio?’
‘Hum...’ A maior encolhe um pouco os ombros. ‘Nada de romântico na escolha. É só algo que sempre gostei, da capacidade do corpo humano se recuperar, adaptar, mudar. Dancei ballet clássico e, ei!’ Ela exclama quando Maura faz uma cara de surpresa, ‘foi só por um ano. Depois mudei para dança urbana, por dois anos. Finalmente comecei jogar baseball e basket.’
‘Tudo relacionado ao corpo.’ Maura observa.
‘Isso. Mas jamais conseguiria ser uma dançarina profissional, ou jogadora. Fisio me caiu muito bem, e depois que comecei a estudar me apaixonei pela profissão.’
‘Me parece uma transição simples. Foi simples?’ Maura inclina a cabeça levemente para o lado, em curiosidade, e Jane não consegue evitar de pensar no gesto como fofo.
‘Acho que posso dizer que sim.’ E depois... ‘Você considerou outra profissão, além de tocar piano?’
‘Nenhuma outra. É como disse: música é parte de quem eu sou, desde cedo.’
Depois de menear a cabeça, a morena acrescenta: ‘como se sente sobre a água agora?’
Ela parece se lembrar de que está numa piscina, mas seus dedos não voltam a se apertar no ombro de Jane. Em vez disso, ela segura o olhar da morena e oferece com honestidade, ‘do mesmo jeito, mas só que agora eu confio em você.’
A retribuição aparece em forma de sorriso. ‘Eu conto com isso. Você precisa relaxar seus ombros e músculos da coluna. Esse é o primeiro passo para a recuperação. Essa posição que você tá, ajuda, mas a anterior, se executada corretamente, era ideal. Acha que dá pra gente voltar pra lá e tentar de novo?’
A confirmação não vem logo, e Jane acha que talvez não apareça.
‘Deitar de costas na água... É como perder o controle de tudo.’ Maura diz com certa ansiedade.
‘Eu não vou deixar você afundar, Maura. Eu não deixei aqui, deixei?’
Sem dúvidas, não. A loira balança a cabeça.
‘O mesmo continua se aplicando lá. Confia em mim?’
Maura estuda braços e ombros fortes. Parece julgar de novo o caráter de Jane. Por fim, ela se decide. ‘Tudo bem, mas se eu disser que quero parar...’
‘No segundo seguinte te coloco em pé.’
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