Not even for you
1 Querer, não significa merecer.
Notas iniciais
O silêncio ao redor era agradável, não do tipo agourento. De todos os locais que esteve desde que invocado, aquele talvez fosse o mais tocado pela natureza. O calor do sol contraposto ao frio da estação, era uma oposição bem vinda. Archer saíra para uma última ronda ao redor, apenas para certificar-se da segurança de sua mestre, o que era parte de seu dever e instintos, porém, ao voltar, não contava encontrá-la dormindo debruçada sobre a mesa do pergolado onde a deixara anteriormente, a guarda completamente baixa. Todos cometiam erros, e ao que parecia, mesmo Tohsaka Rin era digna deles.
Fazia dias que o sono de Rin não era tranquilo, e Archer sabia muito bem de quem era a culpa, o laço que compartilhavam dizia muito, mas acima disso, a expressão com que a maga o encarava após acordar. Aquilo o fazia se odiar ainda mais, pois, não se achava no direito que vê-la tomando parte de seus demônios, afinal, a decisão de que caminho seguir fora somente dele, por isso, Archer era quem deveria carregar o fardo de suas escolhas, de suas esperanças e sonhos despedaçados.
Rin se encolheu diante de uma brisa, que fez a própria veste dele oscilar; o tecido vermelho abraçou os músculos bem estruturados das pernas do heroi, uma parca tentativa de imitação daquele que lhe envolvia tão perfeitamente os membros superiores, contornando-os como uma segunda pele. O ar gélido não fazia diferença para ele, mas para Rin sim. O arqueiro resolveu em instantes o pequeno empecilho à sua mestre, ao materializar o casaco de Rin — repleto da fragrância dela, um aroma que quase fazia parte dele —, colocando-o cuidadosamente sobre seus ombros. A aceitação foi imediata.
O heroi sentou-se próximo dela, jogando o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo, escorando despreocupadamente o queixo sobre as costas da mão, cujo cotovelo ele havia repousado sobre a mesa, dedicando-se a observá-la atentamente, algo que Archer só se permitia quando Rin não estava atenta a ele — o que raramente acontecia, já que a todo momento a tinha ao seu lado. Eles sempre se mostravam sincronizados, até nas coisas mais banais. — Um sorriso inicialmente convencido se estampou nos lábios dele, divertindo-se com o fato de estar fazendo algo que mesmo Rin, com seus passos sempre à frente dos demais, não poderia prever. Ele mesmo não previra! Mas o guerreiro aprendeu que lutar contra a necessidade dela, que muitas vezes se abatia sobre ele, era inútil. Foi obrigado a abrir os olhos, enxergar a realidade. Incrível como Tohsaka Rin ganhava uma briga mesmo quando não tinha tais intentos.
Estava prestes a deixar um dedo moreno correr pela face de Rin — movido pela impulsividade —, levemente corada pelo frio, quando ela franziu o cenho, sussurrando baixo, porém, alto o suficiente para que ele entendesse, ou talvez o heroi o fizesse apenas com leitura labial, já que seus olhos perspicazes estavam vidrados naquela área em especial.
— Archer…
O nome de sua classe — entre eles, o seu nome —, ecoou pela pele dele, desencadeando um arrepio de satisfação. Archer gostava de como a palavra soava na boca dela, mesmo quando em tom irritado ou repreensivo, e ainda que na obscuridade de seus pensamentos imaginasse Rin o pronunciando de forma mais íntima, o timbre de sua voz nada tinha de insinuante, muito pelo contrário, era quase angustiado; ela se sentia assim por causa dele.
O rosto do heroi cobriu-se de pesar — mesmo que a sensação aprazível ainda ressoasse por toda parte —, e o dedo que até então se dirigia para o rosto dela, desviou-se para o meio das sobrancelhas de Rin — nada de impulsividade desta vez —, fazendo uma leve pressão na área, obrigando-a a relaxar a expressão tensa, mantendo o contato com a sua tez por mais tempo que o necessário. A maga era como um imã para suas mãos, e estas pareciam ter sido feitas para se moldar perfeitamente ao corpo de Rin, envolvendo-a sempre em proteção e possessividade. Não conseguia — nem queria — evitar.
O arqueiro se perdeu em pensamentos ao perscrutá-la, ao absorvê-la em sua mente.
Archer não sabia se ela já havia descoberto quem ele era, mas poderia afirmar que Rin não imaginava a verdade — de jeito nenhum —, o objetivo estabelecido no exato momento em que percebeu em que era se encontrava, assim como a consternação vinda em acréscimo, ao ter ciência de que seus atos futuros, afetariam diretamente a maga alvo de sua estima. Talvez esse fosse mais um motivo para se ressentir, o fato que com as próprias mãos, traria dor àquela a quem mais queria resguardar, independente de passado, presente ou futuro.
Suspirou, deixando a mão deslizar para a face dela, acariciando-a com a pressa de quem vivera por séculos, com a leveza intensa de que apenas um sentimento cultivado por períodos de vidas poderia expressar. Seus olhos dardejaram ao fitá-la de cima a baixo, um misto de desejo e afeição, o pecado e o pedido de redenção.
— Desculpe, Rin… — Murmurou, a voz soturna perdendo-se no mundo, a mão ainda em contato com a pele dela, numa troca agradável de calor humano. — Mas nem mesmo por você, eu posso me perdoar.
Uma verdade dolorosa. Um fato imutável. Mais um motivo para não merecê-la.
Afastou a mão, suspirando longamente ao encarar os dedos, roçando uns nos outros, como se para não deixar que a calidez dela fosse levada pelo vento, guardando-a em si; mais um fragmento de Rin para manter. Então, ele simplesmente levantou, recostando-se contra o suporte do pergolado, numa distância segura o suficiente para que ao menos tentasse lembrar o que era bom senso. Deu uma última olhada para a maga — uma voz distante ansiando que ela acordasse, e visse em seus orbes a verdade crua que por hora revelavam —, antes de fechar os olhos — mascarando-a —, e desmaterializar-se, continuando a cuidá-la sob a segurança de sua invisibilidade, onde Rin não poderia saber o quanto Archer desejava que tudo pudesse ser diferente.
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