Not Today
7 Capítulo 6 — A Base Militar
Notas iniciais
Deviam ser umas seis horas e tantas quando acordaram. Pela manhã, os zumbis eram estranhamente mais inativos. Juntos pela primeira vez, os quatro sobreviventes aproveitaram o tempo para barricar o supermercado de vez, movimentando toda a comida que ainda pudesse ser consumida para o depósito.
— Bom, acho que já podemos estabelecer uma base aqui — comentou António, satisfeito e com um sorriso genuíno. Sua namorada também sorria para ele com ternura, como um casal que acabara de se mudar para uma casa nova. Francis e Erzsébet riam de canto.
— Como está hoje, Erzsi? — Perguntou ele, ainda sorrindo. — Espero que esteja ok eu te chamar assim. Diminui um pouco a tensão do momento, não é?
— Eu estou normal. A mordida arde um pouco, mas tá cicatrizando como um machucado qualquer.
— Nenhum outro efeito colateral? Tonturas? Vômito?
— Eu tô bem! Pode ficar tranquilo.
O casal se aproximava dos dois que conversavam.
— E aí? Hoje vamos checar aquela base militar ou não? — Abordou com uma animação que faziam-lhes esquecer de sua situação.
Por sorte, as instalações do centro da cidade eram quase todas muito próximas umas das outras. Do mercado para a tal base militar atrás do hospital era uma questão de cinco ou seis quadras de caminhada.
Com os sentidos levemente mais apurados que os dos mortos, os sobreviventes facilmente contornaram qualquer obstáculo. Francis, António e Erzsébet locomoviam-se com destreza por terem trabalhado em cargos militares durante algum momento de suas vidas. Emma… Bom, Emma dava o seu melhor para acompanhar o ritmo de seus amigos.
Sem energia, as cercas elétricas eram inúteis. Com certeza não segurariam uma horda inteira, mas como conseguiram passar desapercebidos, os zumbis não teriam motivo nenhum para invadir uma construção protegida.
Era um prédio cinzento. Camuflava-se bem entre as outras construções, mas com certeza levantava suspeitas de quem passava por perto. O que mais chamava a atenção, entretanto, era a grande antena no teto. O grupo discutira sobre a possível existência de um meio de comunicação ali.
Entrar na construção foi mais fácil do que acharam: Estava aberta. Francis comentou que alguém poderia já ter visitado o lugar. Com o dobro de cautela, sorrateiramente subiam as escadas do edifício que não tinha mais de quatro andares. Armas empunhadas, ouvidos atentos e suando frio, o quarteto permanecia em máximo silêncio. Uma troca de olhares ou alguns gestos aqui e ali. O ambiente parecia completamente vazio.
Último andar. A última sala a ser verificada estava no fim do corredor. Estava fechada. Francis, que andava na frente, baixou a pistola e limpou o suor da testa. António procurou por possíveis perigos nos arredores e baixou a arma, confiando no líder do grupo. Erzsébet continuava atenta. Emma não se aquietava.
Tanto é que as duas foram as primeiras a perceberem que foram seguidos o tempo todo.
— Eu tenho duas armas e cada uma delas tá apontada pra uma cabeça. — A voz era rouca, baixa, quase um rosnado. Mas por trás do tom ameaçador, podiam perceber um sorriso. — A minha mira também é muito boa, então sem gracinhas vocês dois aí na frente.
Como alguém poderia ter seguido o grupo sem ser percebido por quatro pares de olhos atentos? O cara era bom.
— Agora ponham as armas no chão.
Não tinham escolha, tinham?
Sim, eles tinham. António e Erzsébet rapidamente trocaram olhares e captaram imediatamente o plano. Com uma sincronia sobrenatural, ambos se ergueram de supetão, praticamente voando em direção aos braços do estranho, cada um imobilizando um membro. Mas ele estava preparado.
O homem magro rapidamente jogou-se contra a parede, prensando Erzsébet contra ela. Com uma cabeçada, acertou o espanhol, livrando-se dele. Francis apontava sua pistola para a confusão. Não tinha um tiro limpo e não poderia arriscar atingir um de seus companheiros.
O estranho tentava lidar com os dois adversários, quando um estrondo ecoou pelo corredor e ele caiu inerte no chão. Emma tivera tempo de pegar um extintor de incêndio e atingi-lo no momento certo, bem na cabeça.
— … Bela mira, Emma! — Erzsébet lentamente raciocinava o que acabara de acontecer, dando-lhe tapinhas nas costas. Francis respirou aliviado. António apenas riu e abraçou-a.
Uma vez livres do problema, o grupo tentava utilizar o rádio comunicador. Logo depois de terem lidado com o estranho (agora, amarrado a uma cadeira e desacordado pela pancada na cabeça), conseguiram ligar o gerador de energia do prédio. Emma concordara em vigiar o novo “refém”.
— Ok, mas esse rádio tá procurando sinal há uns dez minutos já, — António resmungou para Francis, que verificava os arredores a procura de alguma coisa útil.
— Continue tentando. Deve demorar mesmo pra achar sinal, sei lá, — respondeu um pouco afobado. — Droga, não tem nada aqui. Armas, comida, munição… Nada.
— Esse cretino deve ter pego tudo, — Erzsébet rosnou para o homem amarrado. — Aliás, já está mais do que na hora de a gente fazer alguma coisa com ele.
O estranho continuava encapuzado, o moletom vermelho ocultando sua face.
— Pera! Talvez ele saiba alguma coisa? — Interrompeu sua amiga.
Com todo o alvoroço ocorrendo na sala, o homem amarrado acorda com um gemido.
— Ai, caralho, a minha cabeça… — comentou, chiando um pouco antes de emendar em uma pergunta. — … Onde é que eu tô?
— Quem faz as perguntas aqui sou eu, desgraçado, — a ex-policial virou-se para ele, arrancando-lhe o capuz com violência. A luz da sala bruscamente invadiu-lhe os olhos vermelhos como rubis. Sua pele era clara demais, não fosse pela sujeira e pelo sangue. Alguns cortes recém-cicatrizados decoravam sua face de surpresa ao ver e reconhecer sua interrogadora.
— Ou melhor… Fantas– Gilbert?
— Erzsi?
— Essa droga de rádio não tá funcionando nem a pau– Gilbert?! — António virou-se de supetão. — Amigo, é você? Que cê tá fazendo aqui?
— Pera, rádio?! Cê tá tentando ligar o rádio?!
— É, — interveio a mulher belga. — Pra pedir socorro!
— Seus imbecis, então cês ligaram a bosta do gerador?! Essa porra tá com defeito e pode explodir a qualquer momen–
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