Not Today

9 Capítulo 8 — Desconfie


Notas iniciais
Adeus, Writer's Block.

— Acorda aí.

Um chute na cabeça e o francês estava acordado. Abriu os olhos e encontrou o albino encarando-o. Seu rosto não transparecia emoção alguma. Francis franziu o cenho e estapeou o pé do outro.

— Tira isso daqui.

— Bom dia pra você também.

À beira do edifício, Erzsébet observava o nascer do sol. Suas pernas pendiam à falta de chão e à brisa fria da manhã. O local da mordida – logo acima do calcanhar, perto da batata da perna – já nem incomodava mais. Ainda tinham suprimentos médicos o suficiente, mas não sabia se durariam se tivessem que compartilhá-los com mais alguém além dela e de Gilbert. E aquela mordida no pulso dele não parecia nada saudável. Tinha pus, a pele parecia gangrenada num misto de cores horrendas: vermelho, roxo, azul, amarelo, verde e preto.

Gilbert. Fazia tanto tempo que não se viam… Ele mudara muito, mas ao mesmo tempo, não mudara em nada. Tinha medo dele, do que vira dentro de seus olhos. Entretanto, ainda sentia aquele calor num sorriso meio torto. Algum companheirismo que resistia ao tempo. Queria perguntar como estava a família, queria saber como ele estava, queria–

— Dormiu bem? — Gilbert sentou-se ao seu lado, tentando olhar para o sol pelas frestas de seus dedos enquanto protegia seus olhos sensíveis da claridade.

Ela assentiu com um som gutural. Olhou para o pulso enfaixado, preocupando-se novamente com o companheiro.

— Pare de se preocupar comigo. Usei uma injeção e tá tudo certo.

— Usou uma injeção?

— Lembra quando eu usei uma em você? Tinha duas.

— Não, mas onde você achou essas injeções?

— Lá naquele prédio, onde a sua amiga quase rachou minha cabeça em dois. Aliás, bom trabalho em equipe. Tinha pego essas coisas no começo do apocalipse e guardei comigo pra alguma emergência.

— E como você sabia pra que eram?

— Tava literalmente escrito que era pra casos de mordida infecciosa de não sei que vírus zumbificador. Aquele blá blá blá de Biológicas que eu não entendo.

Injeções curativas… Poderiam haver mais espalhadas por aí? Talvez houvesse uma chance de sobreviver, então. Mas será que seria a tempo de sair da cidade? O exército tinha ordens de atirar em qualquer um que se aproximasse das barricadas nas estradas de saída. Não esperava por nada disso…

— Pera. Você me classifica como uma “emergência” então?

— Ah… Sim? Bom, a gente foi amigo por muito tempo, não é?

Ele ainda a considerava uma amiga?

— Ei, vocês dois! — António chamava-os para reagrupar. — Eu sei que o nascer do sol é lindo, mas parem de namorar e venham logo!

Húngara e alemão se entreolharam e trocaram muxoxos antes de erguerem-se e caminhar em direção ao resto do grupo.

— Muito bem… Eu acho que tem um jeito de a gente sair daqui vivo e antes da ogiva. — Francis começou, suspirando um pouco aliviado. António e Emma se abraçaram, fazendo festinha. — Mas pode não dar certo.

— Acho que qualquer coisa é bem-vinda a essa altura. — A loira comentou, tentando manter a moral da equipe.

— Vamos lá. Esse acidente biológico com certeza não é algo natural. E se foi ou não algum plano do governo como o António sugeriu, deve ter começado em algum lugar apropriado.

— Como um hospital…

— Este hospital sobre o qual estamos, pra ser mais exato. Podemos entrar nele e procurar por alguma pista, alguma coisa pra comprar a nossa saída desse inferno. Fazemos contato com o mundo exterior e pronto.

— Então temos um problema. — Gilbert ergueu a mão com um sorriso cínico. — Não sei se vocês sabem, mas assim que o apocalipse começou, o hospital foi trancado com uma puta porta de metal. Soou um alarme e, tchum, uma chapona de aço desceu e prendeu todo mundo lá dentro. — O albino descrevia tudo como quem contava uma piada. — Uma galera desesperada começou a gritar e se jogar das janelas, mas foram todos pegos por uns infectados barra-pesada. Se formos entrar no hospital, preparem-se pra correr, porque só tem uma entrada e uma saída.

Francis encarava-o fixamente.

— Como você sabe disso tudo?

E Gilbert apenas riu.

— Ora, Fran… Eu estava lá quando tudo começou.

Tiraram a manhã de folga para terem energia para as pernas. De acordo com Gilbert, haveriam cerca de dez “corredores”, infectados com capacidade motora de correrem e perseguir e eliminar alvos humanos com sucesso. Emma era a única que não gostava do plano e até pedira para ficar no telhado, mas Francis insistira para que fosse junto, dizendo que a carregaria se necessário. Erzsébet recarregava a pistola e verificava os pentes de munição quando foi interrompida por Francis.

— Sua perna está bem pra você correr?

— Sim, eu disse que estou bem.

— Ah, isso é bom… — Ele comentou um pouco afobado. Parecia ansioso e inquieto. — Eu preciso muito conversar com você.

— Sobre?

— Gilbert. Não quero que confie nele.

— Também estou desconfiando dele. Sei que estava aqui desde o início do apocalipse, mas ele está escondendo o jogo.

— Sim.

— Aliás, ele me falou sobre injeções que parecem parar o vírus.

— Hmm. Ele te disse mais alguma coisa?

— Disse que encontrou duas, mas já as usou. Uma nele mesmo e a outra…

— Em você.

— Sim.

— … Guarde uma bala da sua pistola. Não quero que hesite se eu mandar você atirar nele.

— … Sim, senhor.

Francis sorriu tristemente e levantou-se. Ela manteve a mesma expressão fria no rosto. Não tinha certeza sobre o que acabara de falar. Não poderia atirar em Gilbert.

Eram amigos de infância e cresceram juntos naquela cidade. Depois que os pais dele se divorciaram, o garoto começou a se envolver com drogas. Começaram a brigar e afastaram-se. Ele repetiu um ano e a vida dela continuou. E finalmente tocaram suas próprias vidas à frente. Mas não tinha ódio dele. Até podia entendê-lo. Era muito próximo da mãe e não aceitou a madrasta. Ele não merecia aquilo.

Se pudesse fazer com que abrisse o jogo perante todos… Se pudesse ajudá-lo pelo menos nessa vez…

— Estão prontos? Teremos pouco tempo até o pôr do sol. Vamos descer e encontrar algum tipo de escritório, algum laboratório que nos leve a alguma pista. Fiquem juntos e tentem não fazer barulho. — Francis anunciou, logo sendo o primeiro a entrar no edifício hospitalar por uma janela aberta. António e Emma seguiram. Erzsébet seria a última.

Gilbert passou por ela, deixando seu último recado antes de entrar:

— Não confie no Francis.

— Ei, Arthur.

— Fala.

— Acho que ele não vem não.

— Calma, Alfred. Me dá mais uma semana.

— Arthur-san. Alfred-kun. A ogiva será enviada daqui a duas semanas. Não se esqueçam.

— É todo o tempo que ele precisa, Kiku.