Not Some Twins
1 Capítulo Único
Era o dia da graduação da turma de medicina.
– Ei, K, estou indo buscar o carro. — Falou uma das irmãs, a mais velha. Keira, que terminava mais uma taça de vinho, anuiu e sorriu.
– Tem certeza que você não sente nenhum amor incestuoso pela Natalie? — Falou um dos seus amigos, que estava comemorando junto a ela.
– Pare com isso, ela é minha irmã!
– É por isso que se chama "incestuoso" . É sério, Keira, se vocês não fossem tão fisicamente parecidas, qualquer um confundiria vocês com um casal e, se me permite a observação; o casal mais bonito que já vi.
– John, isso é constrangedor.
– Outros diriam nojento. Você realmente gosta dela. — Disse e sorriu.
– Pa... — Antes que pudesse terminar a frase, ouviram o som da buzina.
– O príncipe te espera. — Apontou com a cabeça e um sorriso.
Natalie a esperava no carro. E sorria.
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Dois meses antes da graduação.
Natalie agora andava com Mike, seu melhor amigo, iam ver um filme no cinema.
– Como vai a Keira?
– Sua graduação é daqui a dois meses. — Respondeu Natalie, sorrindo.
– Eu sei disso, você já havia me contado. Ei, Natalie, quando pretende contar pra ela?
– Do que está falando?
– Vamos lá, Natalie, não acha que já está na hora?
– Mike, ela é minha irmã.
– Eu nunca vi você olhar pra ninguém do jeito que você olha aquela garota. Fale a verdade pra ela.
– E você acha que isso vai mudar o quê? Escute, Mike, eu convivi com isso por toda a minha vida, as coisas estão dando certo desse jeito.
– Dando certo pra quem!? Natalie, a Keira já não é mais nenhuma criança e, mais cedo ou mais tarde a verdade vai vir à tona.
– Não quero perdê-la, Mike.
– Então faça com que ela descubra por você.
– Ei, vocês dois! A Sessão já vai começar, apressem-se! — Gritou Keira, mais a frente.
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Dia da graduação.
– Eu acho que bebi um pouco além da conta. — Falou Keira no carro, enquanto voltavam pra casa.
– Tudo bem, hoje é o seu dia, você merece. — Falou Natalie, sorrindo.
– Você tem razão, hoje é o dia. Você lembra de como foi sua graduação? Você ficou gritando pela janela do carro, depois de ter colocado o som no último volume.
– É, eu estava muito bêbada.
– Não que você precise estar bêbada pra fazer essas coisas.
– É, tem razão.
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Seis meses antes da graduação.
Então, Keira, você, hum... quer sair qualquer dia, ver um filme talvez? Que tal amanhã depois da aula?
– Desculpe, vou sair com a Natalie.
– Já entendi, você é gay, né? — Keira riu.
– O quê? Não, não sou gay, quer dizer...
– Você é gay.
– A verdade é que eu nunca me interessei por ninguém, só isso.
– Sei... E como vai a sua gêmea?
– Natalie está ótima e ela não é minha gêmea, ela é mais velha, já falei. E não entendi o tom suspeito. — Ao ouvir aquilo, John sorriu.
– Que tom suspeito? — E ouviram um som de buzina.
– Engraçadinho! Tenho que ir, Natalie está me esperando. Até amanhã! — E ela se foi com um sorriso.
– Nunca sentiu interesse por ninguém, hein? — E riu, enquanto acenava pra Natalie.
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Algumas semanas antes da graduação.
– Mike, eu prometi a meu pai. — Disse Natalie.
– Você prometeu ao seu pai que cuidaria dela, mas não necessariamente como irmã.
– Ela vai me odiar...
– Já conversamos sobre isso. Quanto mais você adiar, vai ser pior. Você ama aquela menina e você mesma está se impedindo disso.
– Como se fosse tão fácil assim...
– Bom, você nunca vai chegar a lugar nenhum se não tentar.
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No dia da graduação.
As duas chegaram em casa.
– Você deve estar cansada de hoje, né? Vou ajeitar a cama. — Disse a mais velha.
– Não antes de comemorar comigo. — Falou Keira, indo até a cozinha. Voltou com uma garrafa de vinho e duas taças. — Você foi a única que não bebeu porque tinha que dirigir de volta. Não é justo, quero comemorar com você também. Além do mais, — ela sorriu. — ainda está cedo. — E Natalie também sorriu com aquilo.
– Meu vinho favorito. — Falou.
– Nosso. Temos um gosto muito parecido.
– E refinado.
– Claro.
Foram até a varanda e sentaram-se lá, para logo servirem a primeira taça.
– Graduação... Você está crescendo, hein? — Falou Natalie.
– Pare com isso, você é só um ano mais velha! — As duas sorriram. — Espero que papai e mamãe estejam orgulhosos, de onde quer que estejam. — Falou Keira, fitando o céu estrelado e Natalie perdeu o sorriso por um momento.
– Tenho certeza que estão. — Falou, fitando a mais nova, que ainda olhava o céu. — Também estou muito feliz por você. — E então a atenção de Keira foi pra Natalie e as duas se fitaram por alguns segundos, antes de desviarem o olhar. — Ah! Comprei uma coisa pra você, espera! — Natalie levantou-se e se direcionou até a sala, voltou com um embrulho em forma de caixa levemente retangular.
– A coleção de Trauma Center? — Disse Keira, abrindo o embrulho com um sorriso.
– Assim você poderá ser uma boa médica. — Sorriu.
– Foi o melhor presente de todos!
– Eu sabia que você iria gostar.
Duas e meia da madrugada e estavam sentadas no chão, encostadas no sofá.
– Vai, me ajude aqui! — Gritou Keira.
– O quê!? Calma, eu... !
– Ele tá morrendo!
– Não! Não, não, não! — Falou Natalie em desespero e a essa hora, Keira já estava rindo. — Ele morreu! Seu paciente morre e você ri? Que tipo de médica desnaturada é você? — Falou também rindo e pausando o jogo.
– É por isso que não se deve fazer plantão bêbada. — Elas ainda riam, enquanto se fitavam. E então, como se não fosse nada, Keira beija Natalie. A princípio, a mais velha paralisou-se completamente, mas foram poucos segundos até ela responder o beijo da outra. Porém o senso de responsabilidade não tardou a cair sobre Natalie e então ela parou o beijo.
– Keira... — Falou
– Eu amo você, Nat.
– Eu também amo você, mas agora você tá bêbada e precisa dormir. Vem, vamos pra cama. — Natalie ajudou Keira a ir pra cama e deitou-se ao seu lado. Naquela noite, Natalie demorou a dormir.
No outro dia quando Keira acordou, Natalie já estava desperta.
– Precisamos conversar, Keira. — Falou a mais velha.
– Natalie... Você está bem? — Disse aproximando-se da irmã. — Andou chorando? — Completou perguntando, após tocar em seu rosto e Natalie segurou firme a mão de Keira entre as suas.
– Keira, de que parte da sua infância você se lembra? — Ao ouvir aquilo, Keira franziu o cenho com a estranheza da pergunta.
– Bem, pra falar a verdade, só me recordo bem dos doze anos pra cá, você sabe.
– Escute, Keira... Há muito tempo, quando papai e mamãe ainda eram vivos, eles tiveram dois amigos muito próximos. Se conheceram desde sempre, estudaram juntos, enfim, eram realmente bons amigos. Inclusive... inclusive também foram padrinhos de casamento uns dos outros. Esse casal que papai e mamãe eram muito amigos, tiveram uma filha ao longo dos anos, e eles também foram escolhidos como padrinhos dessa criança. Só que, anos depois, o pai dessa criança morreu em um acidente e, depois desse acidente, a mãe da menina nunca foi a mesma, eventualmente foi perdendo as condições de criar essa menina. Como grandes amigos desse casal, meus pais não podiam ver a vida da filha deles desmoronando, então decidiram criá-la como sua própria filha. Nessa época, Keira, na época que de fato você entrou nas nossas vidas, você tinha dez pra onze anos e eu tinha acabado de fazer treze. Três anos depois houve aquele outro acidente que levou papai e mamãe e, em seu leito de morte, papai me fez prometer que eu iria cuidar de você. — Ao terminar de falar, Natalie apenas esperou pela resposta de Keira, que se permaneceu calada por um bom momento.
– O... o quê?
– E eu estava conseguindo cuidar de você... — Algumas lágrimas teimaram em cair pelo rosto da mais velha. — Só que aí eu comecei a sentir coisas por você, entende? E aí eu pensei "Porra, eu não posso sentir essas coisas pela minha irmã", mas aí eu lembrava que você não é de fato minha irmã, o que me deixava ainda pior, sem saber o que fazer. Eu estava mentindo pra você e sabia que quando você descobrisse, você iria me odiar. Me desculpe, ok? Eu tentei, eu tentei te proteger e te imaginar como minha irmãzinha, e eu te amo, tá bem? Só que irmãs não deviam sentir vontade de beijar suas irmãs! Eu sei que deve estar doendo agora pra você, mas, acredite, está doendo aqui também. — Calou-se novamente e Keira apenas a olhava surpresa.
– Doze anos...
– Keira, me desculpe por ter mentido...
– Então eu não beijei minha irmã...
– ... O quê!? Você... você ainda está bêbada? — Disse Natalie sem entender, e Keira a olhou com uma expressão indecifrável.
– No final das contas eu não me apaixonei pela minha irmã. — Disse a mais nova e Natalie continuava olhando pra ela sem entender. — Natalie, a gente ainda vai ter que conversar direitinho sobre isso. Mas ontem, quando te beijei e disse que te amava, não foi conversa de bêbada. — A expressão da mais velha mudou de confusa para surpresa de tal modo que sua boca ficou levemente aberta. — Não me olha desse jeito que me faz parecer boba.
Elas passaram o dia todo em casa conversando.
– Eu quero procurar minha mãe, Nat. Quero saber se ela ainda está viva e se está bem. Também quero me lembrar da minha infância, saber o que aconteceu. — Disse Keira, certa hora.
– Tudo bem, podemos fazer isso juntas. E você, está bem?
– É claro que foi tudo muito de repente e foi um puta choque. Mas... não é como se fosse o fim do mundo. Além do mais, agora eu tenho você.
– Ei! Você sempre me teve! — Protestou Natalie e a mais nova sorriu.
– É verdade, é verdade, desculpe. Mas... — E então Keira encosta seus lábios no de Natalie, beijando-a. — Mas agora eu posso fazer isso.
– Sem precisar estar bêbada.
– Sem precisar estar bêbada. — Concordou sorrindo.
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