Not Over You
21 Capítulo 20 - Take care of you
Notas iniciais
Triste. Era isso que definia Ethan Smith nas últimas semanas.
Uma das coisas que eu sempre admirei em Ethan era o fato de que ele estava sempre sorrindo, mesmo quando as coisas não estavam tão fáceis. Mas fazia um tempo que ele não estava nem tentando esconder o quanto estava desolado. E, segundo Gabriel, era assim que você sabia que o cara estava realmente mal.
Ele não estava sorrindo para as garçonetes do restaurante fazia dias – peguei Julieta lhe olhando com a maior preocupação outro dia –, e distribuir sorrisos galanteadores era o que ele fazia de melhor. A única vez em que seu pai tentou falar com ele foi um fracasso, porque eu vi que mesmo depois de Ethan ter se distanciado, ele continuava com as sobrancelhas franzidas em preocupação. Então, sim, Ethan estava realmente mal.
E era uma droga vê-lo assim.
– Quer ir almoçar? – Perguntei à Ethan, parando ao seu lado e observando os pintores pintarem uma das paredes do restaurante, assim como ele estava fazendo.
Estávamos em reforma.
– Seu pai acabou de chegar, disse para nós irmos comer.
– Claro – ele respondeu e suspirou, descruzando os braços e se virando pra mim. – Pode ser comida japonesa?
Ri e assenti, virando-me de costas e fazendo um aceno com a cabeça para que ele me seguisse. E assim ele fez.
Nós fomos para um restaurante oriental que ficava na mesma rua que o de seu pai. Ethan fez um pedido enorme, com direito a especialidades japonesas que eu sequer tinha ouvido falar um dia na vida. O garçom falou que talvez a comida demorasse um pouco para chegar. Nós entendemos, afinal aquele lugar estava lotado.
– E aí, tá tudo bem? – Perguntei, o vendo brincar com os saquinhos de palitinhos de dente. Ele assentiu sem dizer nada, mantendo os olhos presos na sua “diversão”. – Ethan – chamei firme, fazendo-o levantar o rosto lentamente para me encarar –, tudo bem?
Sacudiu a cabeça de um lado para o outro.
– Eu liguei pra mãe dela – ele disse, e eu franzi o cenho, confusa. – Da Sophia. Eu liguei pra mãe da Sophia.
Oh. Eu não tinha ideia.
– Porque, sabe, ela trocou de número – continuou. – A mãe dela ficou feliz em falar comigo – deu um sorrisinho de canto. – Mas depois disse que não podia me passar o novo número da filha, e que sentia muito por isso. Ela... – Parou, engoliu em seco e voltou a olhar pra baixo. Levei minha mão até a sua, tentando passar algum tipo de... conforto, talvez. Não parecia que aquilo ajudaria, mas eu queria que ele soubesse que eu estava ali. Por ele. Para ele. – Ela sofreu, a Sophia. Muito. E então foi embora. Ela não mora mais aqui.
Ethan deu um sorrisinho triste, e vi lágrimas brilhando em seus olhos.
– E eu não queria ficar triste por isso – voltou a falar depois de longos segundos. – Mas parece que ela ter ido embora mudou tudo. Enquanto ela estava aqui, eu poderia ir até ela a qualquer momento, e isso era reconfortante. Mas ela foi embora. E eu nem sei pra onde. Eu a perdi por capricho.
Revirou os olhos e riu com, pelo que parecia, escárnio de si mesmo.
– E eu que chamava o Gabriel de idiota. Olha pra mim agora, exatamente igual. Acho que é por isso que somos amigos, na verdade.
– Não fale assim, você não é idiota – eu disse –, só estava com medo.
Mordi meu lábio inferior. Talvez eu não devesse perguntar, mas... se Ethan gostava tanto assim dessa Sophia, por que diabos os dois haviam se separado? Eu não conseguia entender.
– Ethan – pigarreei, fazendo-o erguer as sobrancelhas e me olhar. – Por que vocês se separaram? Sabe, se você gosta tanto dela…
– Porque ela é incrível – ele respondeu. – E eu sou um idiota. Ela é incrivelmente perfeita do jeito dela, tem uma bondade e um sarcasmo que me desmonta... e eu fui estúpido o suficiente para traí-la.
Engoli em seco, vendo as lágrimas que estavam presas em seus olhos finalmente escaparem, fazendo Ethan erguer uma das mãos para limpá-las de maneira furiosa. Seu peito subia e descia rapidamente, e eu sabia que ele estava tentando segurar a agonia que estava engasgada em sua garganta. Apertei sua mão com mais força, sentindo-a apertar a minha de volta.
Sua dor era tão palpável que se eu fizesse algum esforço, poderia senti-la apenas por tocar em sua mão.
– Eu poderia te contar mil coisas que fariam você amá-la – ele falou com a voz fraca. – Mas tudo o que vem na minha cabeça agora é que eu a perdi. Eu realmente a perdi, Emma.
– Sinto muito, Ethan – falei sinceramente, sentindo meus olhos arderem. – Eu realmente sinto.
. . .
Outra tosse. Outra vez o gosto doce e insistente nos cantos da boca. E pela terceira vez eu estava inclinada sobre a vaso sanitário acreditando colocar a minha alma pra fora do corpo pela boca. Porque não era possível que ainda houvesse alguma coisa em meu estômago para sair.
Tateei a descarga cegamente quando acabei, apertando-a ao encontrá-la e fechando os olhos para não ser obrigada a ver meu vômito rodopiando e indo embora. Levantei do chão me apoiando na pia de mármore e sentindo minhas pernas bambearem ao ter que aguentar o peso do meu corpo. Liguei a torneira, ainda com a visão turva, e lavei as mãos, logo depois jogando água fria no rosto, tirando qualquer vestígio de que eu havia vomitado. Escovei os dentes lentamente, mantendo os olhos fechados e uma das mãos apoiadas na pia, e tomando todo o cuidado para não colocar a escova de dentes muito fundo na boca.
Saí do banheiro e agarrei o cobertor cinza em cima da cama, me embrulhando nele e estremecendo ao sentir o vento gelado de Londres soprar pela janela para dentro do quarto. Fui até a cozinha e peguei uma garrafinha de água na geladeira, logo a virando na boca e tomando todo o conteúdo de uma vez só em menos de um minuto.
Cada golada era uma fisgada na minha garganta, que parecia extremamente machucada.
Ouvi batidas na porta enquanto fazia meu percurso para me jogar no sofá, embolada no cobertor. Suspirei e andei até a entrada do meu apartamento, sentindo gotas de suor escorrerem por minha testa e pescoço, embora meu corpo continuasse a tremer de frio e eu usasse mais força ainda para apertar o cobertor em volta de mim.
Abri a porta e dei de cara com Gabriel, que segurava uma rosa vermelha em uma das mãos e carregava um sorriso enorme no rosto, mas que se desfez no momento em que ele me olhou. Eu havia me olhado no espelho há poucos minutos, sabia que haviam profundas olheiras embaixo dos meus olhos, mesmo que elas não estivessem ali por falta de dormir, e sim porque meu rosto estava mais pálido que o normal. Também sabia que meu cabelo estava desgrenhado e meu olhar caído.
– O que aconteceu? – Ele perguntou, entrando no apartamento e fechando a porta.
– Meu estômago rejeitou meu almoço – respondi, enquanto Gabriel passava o braço ao meu redor e me levava para o sofá.
Gabriel se sentou ao meu lado e virou nossos corpos, fazendo-me deitar com as costas coladas em seu peito. Ergui as pernas para cima do sofá e as encolhi debaixo do cobertor, escondendo os meus pés que já estavam gelados. Ele levou uma das mãos até minha testa e eu senti meus olhos pesarem, mas percebi que fechá-los queimava minhas pálpebras.
– Você está com febre, amor – Gabriel falou, tirando a mão do meu rosto. – Que tal um banho? Acho que ajuda, Claire fez isso com Matt quando ele ficou doente.
Balancei a cabeça devagar e encolhi ainda mais minhas perns.
– Está frio, Gabriel – disse, sentindo minha garganta doer ao ser forçada. – Eu não vou pra debaixo da água gelada.
– Mas Emma – insistiu –, você está tremendo nos meus braços e suando. Um banho vai te fazer sentir melhor.
E foi quando eu percebi que estava tremendo, e que os pelos do meu corpo estavam arrepiados. Fora a umidade que senti nas costas, indicando que o suor não tinha se contido em ficar apenas no meu rosto.
– Eu não consigo nem parar em pé – respondi em um sussurro, fazendo todo o esforço para que minha garganta não arranhasse ou ardesse. Não estava funcionando.
– Eu estou aqui pra segurar você, não estou? – Respondeu igualmente em sussurro, deixando um beijo no topo da minha cabeça antes de escorregar o corpo para o lado e passar um braço pelas minhas costas e outro por baixo dos meus joelhos, pegando-me no colo ainda com o cobertor.
Gabriel me carregou para o banheiro do quarto, e parecia que meu peso em seus braços era mais leve do que uma pena. Ou eu que estava me sentindo leve como uma pena. Colocou-me no chão, sem soltar minha cintura, e eu passei um dos braços ao redor do seu pescoço, porque parecia incrivelmente difícil continuar de pé sem ajuda. Ele deixou meu cobertor cair no chão e automaticamente meu corpo se arrepiou.
– Está frio, Gabriel – sussurrei, apertando mais meu braço em seu pescoço e virando para colar meu corpo no seu, em busca de ficar aquecida.
– Eu sei, amor – sussurrou de volta, passando os braços quentes e grandes ao redor dos meus ombros, me apertando com uma força delicada e acariciando meus braços numa tentativa de me esquentar. – Mas vai ser um banho rápido. E logo nós vamos deitar na cama, debaixo das cobertas, e eu juro que não saio do seu lado até você melhorar.
Esfreguei a ponta do nariz por seu peito coberto pela camiseta, sentindo meus olhos arderem como se eu quisesse chorar – mas era só a provável febre que se instalara em meu corpo. Meus pelos ainda estavam arrepiados, eu ainda estava tremendo de frio e realmente não queria ir para debaixo do chuveiro naquele momento. Meu corpo estava fraco, minha barriga estava literalmente vazia e eu estava com aquela falta de coragem que qualquer pessoa tem quando fica doente. Mas Gabriel parecia fazer as coisas ficarem mais fáceis.
– Promete? – Perguntei infantilmente, sentindo seu peito tremer ao que ele soltou uma gargalhada fraquinha.
– Mas é claro que sim, princesa.
Princesa. Esse apelido era novo.
Sorri de canto e me afastei um pouco, finalmente dando espaço para que eu pudesse ao menos me despir.
Mas ao olhar para baixo, na intenção de tirar a calça de moletom, senti minha visão se embaçar e meu corpo cambalear, como se eu não tivesse controle dele. Gabriel apertou sua mão em minha cintura com mais força, me mantendo presa no lugar. Então suas duas mãos agarraram meu quadril com força e ele me tirou do chão, girando rapidamente nossos corpos para, logo em seguida, me colocar em cima da bancada do banheiro.
Nem eu nem ele dissemos nada.
E eu sabia o que ele faria.
Suas mãos deslizaram pela lateral do meu corpo – de forma tão delicada que eu facilmente acreditaria que ele não estava de fato me tocando –, e quando chegaram em minhas axilas, continuaram subindo, porém levantando os meus braços. Eu sabia que ele não precisava usar toda aquela lentidão. Despir-me ao menos era uma coisa nova para Gabriel. Mas eu podia perceber que era apenas cuidado exagerado e que, apesar de saber que eu não me oporia, seus dedos ainda estavam vacilantes.
Quando, mantendo o ritmo lento, Gabriel finalmente tirou minha blusa, meu corpo tremeu violentamente. Não parecia, e eu não tinha ideia, mas aquela blusa estava me aquecendo de alguma forma.
E, de repente, a coragem de tomar um banho desapareceu.
Meu corpo e eu não queríamos isso.
– Vai ser rápido, Emma – Gabriel falou, parecendo ler meus pensamentos. – E esse banho pode ajudar você a melhorar.
Assenti com a cabeça, mesmo que continuasse não querendo aquilo.
Ele desceu as mãos para a barra da minha calça de moletom e a puxou um pouquinho, instigando-me a levantar as pernas e inclinar o corpo para trás, de modo que ele pudesse tirar a calça sem maiores complicações. Minha blusa e calça foram jogadas para o lado, e então eu estava apenas de roupas íntimas na frente de Gabriel depois de tanto tempo. Quase me desmanchei de lamentar em sua frente, porque não era desse jeito que eu havia imaginado... Mas eu não planejei ficar doente, e o olhar preocupado de Gabriel e suas sobrancelhas franzidas faziam com que qualquer pensamento fosse embora, lembrando-me que eu estava ali para tomar um banho pela minha saúde, e que era Gabriel quem estava cuidando de mim. A sensação de euforia que nasceu em mim, mesmo com o corpo doente, foi embora e trouxe a acolhedora.
Gabriel estava cuidando de mim. E claramente sem segundas intenções.
Mas ele estava olhando para baixo, seu polegar acariciando um pouco abaixo do meu osso da cintura por cima do tecido da calcinha, onde uma fênix havia sido tatuada, mesmo que ela não estivesse mais ali. Eu gostaria que estivesse.
Meu corpo se arrepiou, e eu sabia que dessa vez não era por causa do frio, por mais que eu estivesse quase congelando em cima daquela bancada. Era por causa das lembranças daquela noite que voltavam em minha cabeça. Minha mente naquele momento não estava raciocinando direito por causa das sensações horríveis que passavam pelo meu corpo, parecendo criar nós no meu estômago que só se desfariam caso em vomitasse em meu vaso sanitário mais três vezes; mas eu lembrava com clareza de cada minuto daquela noite na praia. Tudo o que ele me contou, minha tatuagem, sua tatuagem, minha escolha de finalmente me entregar para ele como eu queria fazer há muito tempo – e que continuava parecendo a melhor escolha que eu já fizera na vida.
– Vou te colocar no chuveiro assim – Gabriel finalmente falou quando sentiu meu corpo se arrepiando. Seus olhos subiram para os meus e ele sorriu confiante. – Prometo que vai ser rápido.
Assenti sorrindo de lado e ele me tirou de cima da bancada, me obrigando a sentar rapidamente de lado no vaso sanitário, de costas para ele, para desfazer meu rabo de cavalo, logo depois enrolando-o em um coque apertado e o amarrando-o com um pouco de dificuldade. Eu queria rir, mas ele estava fazendo aquilo por mim.
– Talvez você devesse mesmo cortar o cabelo – falou quando finalmente conseguiu prender meus fios ruivos, e então eu ri, me arrependendo ao sentir minha garganta arder. Fazia muito tempo que eu havia falado sobre isso com ele.
Gabriel suspirou e passou o braço por minhas costelas, me ajudando a ficar de pé. Ligou o chuveiro ainda me segurando e eu vi quando ele mudou a temperatura para morna. Aquele pequeno ato quase me fez usar a pouca força que eu tinha para me afastar e sair correndo, mas isso parecia impossível demais. Primeiro porque Gabriel era forte, e um empurrãozinho medíocre de uma baixinha doente não o faria me soltar, e segundo porque, do jeito que minhas pernas estavam moles, eu provavelmente cairia ao alcançar a porta do banheiro.
Banho morno nem era tão ruim. Mas eu precisava de uma água tão quente que deixaria minha pele extremamente vermelha. Porque o frio que eu estava sentindo me fazia quase acreditar que eu estava prestes a congelar.
E então sem aviso, sem palavras de conforto – e como se esperasse uma reação fugitiva minha –, Gabriel me colocou debaixo da água com uma simples virada de corpo. Minha cabeça estava baixa quando ele me moveu para o chuveiro, e quando eu ia levantá-la para lhe olhar indignada, ele a segurou, mantendo-a abaixada com quase nenhuma força. Não queria que meu cabelo molhasse.
E então um choque se passou por meu corpo. A água estava gelada. Extremamente gelada. Ou era assim que eu a sentia. Gabriel já não segurava mais minha cabeça para que eu não a levantasse, apenas segurava minha cintura com as mãos fortemente para que eu não caísse, se mantendo afastado o suficiente para não se molhar, mas dentro do box comigo.
Se eu estava achando que estava quase congelando antes, naquele momento eu tinha certeza. Na verdade, já estava esperando o momento em que sentiria minha pele trincar e meu corpo parar de obdecer as minhas tentativas fracas de se mexer.
Meu queixo estava tremendo, meu corpo não parecia querer parar de ficar arrepiado e o frio se alastrava com mais força em cada pedacinho que poderia do meu corpo. Eu precisava sair dali. Precisava ir para debaixo de cobertores quentes, precisava ficar seca. Precisava de calor.
Movimentei meu corpo para frente fracamente, e Gabriel apertou os dedos em minha cintura.
– Emma, só mais cinco minutinhos, okay? Rapidinho passa – ouvi sua voz falar entre suspiros, e ele não pareceu muito certo ao falar que os minutos passariam rápido.
Levantei um pouco a cabeça, ainda sem molhar meu cabelo, mas o suficiente para que pudesse olhar Gabriel nos olhos. Ele estava com as sobrancelhas franzidas, seus olhos em uma mistura de preocupação, pena e determinação. Era como se ele realmente quisesse me tirar dali, mas sabia que não o faria.
– Gabriel, por favor – implorei em um sussurro, enquanto meu queixo ainda tremia.
Gabriel afrouxou o aperto em minha cintura e eu realmente pensei que ele iria me tirar de debaixo da água e que depois eu iria para um lugar quente, seria colocada debaixo de cobertores quentes e ganharia uma xícara de chá bem quente. Mas a surpresa foi grande quando, em vez de levar uma das mãos até o registro e fechar o chuveiro, ele passou o braço pelo meu pescoço e entrou debaixo da água junto comigo, de roupa e tudo. Sua mão que ainda segurava a lateral da minha cintura a envolveu, completando o abraço.
Perguntei-me, naquele momento, se o que eu mais sentia era frio ou surpresa.
Mesmo que por poucos segundos – pois logo Gabriel estava tão molhado e gelado quanto eu – senti o calor de seu corpo mergulhar em mim, afundar por minha pele, invadir cada pedacinho do meu organismo. E foi reconfortante. Foi o que me fez, ainda com o queixo tremendo e a pele arrepiada, abraçá-lo pelas costelas e afundar meu rosto em seu peito já ensopado; esperando que aqueles cinco minutinhos realmente passassem rápido.
. . .
Aqueles minutos pareceram durar uma vida. Eu não sei se havia melhorado um pouco ou se meu corpo que havia se acostumado com a temperatura, porque já não estava mais tão insuportável ficar debaixo daquela água. E Gabriel não havia me soltado nem por um só segundo, ou mesmo afrouxado o abraço.
Ele desenlaçou meu pescoço para desligar o chuveiro e logo depois puxou a toalha branca que havia pendurada no box de vidro. O tecido macio foi colocado em meus ombros, logo me embrulhando e me aquecendo um pouco – quase nada. Meu corpo ainda tremia e meu queixo voltou a bater, apesar de Gabriel acariciar meus braços continuamente na intenção de secá-los parecer melhor um pouco as coisas.
– Não foi tão ruim, foi? – Gabriel perguntou, enquanto atrás de mim me encaminhava para fora do banheiro.
– Foi pior – respondi, e minha garganta já não parecia arranhar tanto.
Ele riu e não falou mais nada. Logo fui colocada sentada na cama, ainda com a toalha me envolvendo, e meus dedos agarraram suas laterais desesperadamente, apertando-a cada vez mais ao redor do meu corpo. O entorpecimento que ficar debaixo da água havia causado em mim fora embora, e novamente tudo o que eu queria era calor. Gabriel foi até a porta e a fechou, logo depois caminhando até a mesinha da cabeceira ao lado esquerdo da cama e pegando o controle branco do aquecedor, ligando-o.
– Vou trocar de roupa, tudo bem? Para podermos cuidar de você – ele falou, indo até uma das gavetas do meu guarda-roupa onde sabia que haviam algumas trocas de roupa suas porque, apesar de morarmos um de frente para o outro, Gabriel era preguiçoso o suficiente para não gostar de ir até seu apartamento “só para tomar banho e se trocar sendo que depois voltaria pra cá”, como ele mesmo gostava de dizer.
Ele pegou algumas peças de roupa e sorriu para mim antes de entrar no banheiro e fechar a porta, recebendo um sorriso como resposta.
Gabriel voltou menos de dois minutos depois, vestindo uma calça de flanela azul marinho e uma camiseta branca e fina de mangas compridas. Seu cabelo – que assim como o meu haviam molhado, apesar das tentativas fracassadas de mantê-los secos – estava todo bagunçado. Ele andou até o meu guarda-roupa e o abriu, procurando alguma coisa. Quando se virou, tinha em mãos uma calça de moletom, uma blusa branca e uma calcinha preta. Eu poderia pegar fogo com o calor que senti em minhas bochechas.
– Agora vamos te secar – ele falou lentamente, deixando as peças de roupa em cima da cama e se sentando ao meu lado, puxando a toalha até que ela deslizasse por minhas costas e fosse parar inteira em suas mãos. – Fique de costas para mim – falou e eu assenti, colocando as pernas para cima da cama e virando o corpo até ficar na posição que ele queria, ainda sentindo o frio se alastrar por meu corpo, embora o aquecedor do quarto já houvesse começado a fazer um pouco de efeito.
Senti os dedos de Gabriel subirem por minha espinha e pararem no fecho do meu sutiã. Sem complicações, ele abriu a peça íntima, enganchando dois dedos de cada mão em cada alça e puxando-as para baixo, deslizando-as por meus braços, até tirar o sutiã completamente. Ele foi parar no chão ao lado da cama. Logo as mãos de Gabriel voltaram a deslizar por minhas costas, dessa vez cobertas pela toalha branca, secando cada gotícula de água que havia ali. Ele secou toda a extensão da minha coluna delicadamente, logo descendo uma mão por braço ao chegar nos ombros.
Meu estômago se revirava violentamente. Sentir Gabriel me tocar de forma tão cuidadosa e íntima fazia meu coração se acelerar e um calor tomar conta do meu colo. E ele estava me tocando de um jeito tão puro, sem malícia, mostrando que realmente queria apenas cuidar de mim naquela noite. E isso não poderia me deixar mais feliz. Apesar da situação debilitada, de sentir cada parte de mim derreter cada vez que sentia a respiração de Gabriel perto demais da minha pele, de ficar nua em sua frente depois de tanto tempo por estar doente... apesar de tudo isso, eu estava feliz. Feliz porque a pessoa que estava cuidando de mim era ele, porque o calor que estava atravessando meu corpo era dele, porque eu sempre me lembraria da forma preciosa com a qual ele me tocara nessa noite.
Gabriel depositou um beijo em meu ombro nu quando suas mãos enlaçaram minha barriga com a toalha e começaram a secar a parte da frente do meu corpo. Ele sabia tanto quanto eu o quanto aqueles toques eram especiais e íntimos. Portanto, quando suas mãos rodearam meus seios com sensibilidade, eu quase arfei. E ele suspirou. De alguma forma, meu subconsciente parecia disposto a ignorar o frio, deixando o ambiente um pouco mais quente. E não por causa do aquecedor. Mas nem eu nem Gabriel dissemos nada, de forma que em poucos segundos suas mãos voltaram para trás, levando a toalha junto.
Sem muita dificuldade Gabriel colocou uma camiseta azul-marinho bem larga em mim, e então eu me virei para ele.
– Consegue colocar a parte debaixo sozinha? – Ele perguntou ternamente.
Assenti. Meu corpo já não parecia ter tanto frio e meu corpo não estava mais tão mole – pelo menos não pelos mesmos motivos de antes.
– Então faça isso enquanto eu preparo alguma coisa para você comer.
Quando Gabriel saiu do quarto, eu não tive muita dificuldade para tirar a peça íntima molhada e colocar uma seca, e logo depois a calça de moletom que imediatamente deu-me uma sensação de conforto enorme. Ela era quente, e era disso que eu precisava.
Juntei as peças molhadas e fui até o banheiro, jogando-as perto da pia, onde as roupas de Gabriel estavam – me incomodaria de cuidar delas depois –; e estendi a toalha no box do banheiro. Voltei para o quarto e peguei uma blusa de mangas compridas e um par de pantufas brancas. Cada ato com uma lentidão que me assustava.
Fui até a cama e puxei os cobertores, logo me sentando com as pernas para cima e puxando-os de volta. Depois disso não demorou muito para que Gabriel batesse na porta e a abrisse, colocando apenas a cabeça para dentro e sorrindo ao me ver já debaixo dos cobertores.
– Adivinha só, eu fiz chá – falou entrando completamente no quarto, numa das mãos carregava uma xícara verde e na outra um prato com algumas torradas com geleia de morango e manteiga.
Sorri abertamente ao que ele se aproximou, sentando-se ao meu lado na cama e me entregando a xícara. Colocou o prato em cima da mesinha de cabeceira.
– Obrigada, amor – disse sinceramente, ainda com um sorriso, passando a assoprar o chá.
Gabriel levantou e subiu totalmente na cama, deitando-se de atravessado e apoiando a cabeça em minhas coxas.
– Sabe de uma coisa? – Ele perguntou e eu o olhei, murmurando um “hm?” para que ele continuasse, logo voltando a assoprar o chá. – Eu gostei de cuidar de você – disse divertido e eu arqueei a sobrancelha, rindo.
– Gostou, é? – Indaguei divertida.
– É – confirmou. – Cuidar de você me deixa feliz.
O sorriso permaneceu em meu rosto depois dessas palavras. Eu amava e odiava a forma como Gabriel conseguia me deixar sem uma resposta e apenas com um sorriso idiota no rosto. Ele sorriu de volta e então fez um biquinho, inclinando a cabeça para cima e fechando os olhos. Coloquei a xícara de chá em cima da mesinha de cabeceira e abaixei a cabeça, fechando os olhos e depositando um beijo terno em sua boca.
– Obrigada por cuidar de mim – sussurrei contra seus lábios.
Gabriel apenas sorriu, ainda de olhos fechados.
. . .
Depois de comer as torradas que Gabriel havia preparado, optamos por apenas ficarmos deitados na cama, debaixo dos cobertores, abraçados e conversando sobre qualquer coisa. Ethan foi um desses assuntos. E por mais que não quiséssemos sentir isso por ele, porque não era nada agradável, ambos estávamos com pena. E ficamos nisso, nessa coisa de conversas sussurradas, murmúrios e beijos preguiçosos.
Até que eu olhei no relógio ao lado da cabeceira e arregalei os olhos, segurando-me para não pular da cama. Passava poucos minutos da meia-noite. E isso significava apenas uma coisa. Abri um sorriso para Gabriel, que me olhava com as sobrancelhas franzidas. Passei uma das pernas para o outro lado do seu corpo e me sentei em sua barriga. Ele pareceu surpreso, já que até poucos minutos eu ainda estava sussurrando e reclamando de frio excessivo.
– Vou pegar uma coisa, fica aqui – falei empolgada, deixando um beijo estalado em seus lábios antes de pular do seu colo e sair correndo do quarto.
Peguei na geladeira um bolo pequeno – que daria para umas três pessoas –, que fora feito como se fosse um cupcake com tamanho desproporcional, e na gaveta do armário peguei uma vela em formato de língua que havia comprado ainda naquele dia, antes de voltar para casa e vomitar todo o meu almoço; e uma caixinha de fósforos. Coloquei a vela no bolo, logo depois o pegando e indo para o quarto.
– Parabéns pra você – cantei com um sorriso quando entrei no quarto, tendo a visão de Gabriel deitado na cama apenas com as pernas cobertas, as mãos atrás da nuca e uma expressão relaxada.
Ele gargalhou quando me olhou, imediatamente se sentando.
Apaguei a luz do quarto antes de me direcionar para a cama, de forma que apenas a luz que vinha da janela iluminava o quarto.
– Eu não acredito que você fez isso – disse divertido.
Ri e me aproximei, subindo em cima da cama e caminhando com os joelhos para me aproximar. Sentei em cima dos meus calcanhares e estiquei as mãos, mostrando o pequeno bolo em forma de cupcake.
– Você está tentando me conquistar pela barriga? – Perguntou, pegando o morango enorme que estava na ponta do bolo, por cima do glacê azul bebê e ao lado da velinha.
– Oh, mas como é que você adivinhou? – Brinquei rindo.
Ele mordeu metade do morango, deixando um pouco de glacê nos lábios, e esticou a mão para mim, fazendo-me comer o resto. Mastiguei a fruta e lambi os lábios, tirando o resto do glacê que eu sabia que tinha por ali. Gabriel sorriu e continuava com os lábios sujos azuis.
Inclinei o corpo para o lado, deixando o bolo e a caixa de fósforos na cabeceira da cama e depois sentei em Gabriel, como havia feito antes de sair para a cozinha, a diferença era que dessa vez ele estava sentado. Suas mãos foram para a minha cintura, por debaixo do tecido da camiseta, como ele parecia adorar fazer. Aproximei nossos rostos e suguei seu lábio inferior lentamente, sentindo o gosto de glacê dele se misturar com o meu. Nenhum dos dois fechou os olhos, mesmo que a escuridão do quarto impedisse que eu visse a cor verde de suas irís. Logo depois suguei seu lábio superior com a mesma lentidão, rindo ao que ele inclinou o cabeça para frente, para iniciar um beijo, e me afastando.
Gabriel criou um bico manhoso nos lábios e fechou os olhos.
Ficou apenas muito adorável.
Selei nossos lábios. Sem línguas, sem malícia ou afobação. Apenas um movimentar de lábios lento e úmido, com sabor doce de glacê e a preguiça de uma noite passada na cama. Ficamos apenas nisso por talvez dois minutos, até que eu desgrudei nossos lábios e encostei minha testa na sua, respirando fundo.
– Você tem que fazer um pedido – sussurrei e sorri, abrindo os olhos e afastando meu rosto do de Gabriel.
Ele sorriu e revirou os olhos, mas assentiu mesmo assim.
Peguei o bolo nas mãos e com um dos fósforos acendi a vela, fazendo uma luz amarelada nascer entre nós dois.
– Vamos, agora faça um pedido – disse.
Gabriel fechou os olhos. Alguns segundo depois ele assoprou a vela e o fogo se apagou, deixando-nos novamente sob a luz da lua.
– O que foi que você pediu? – Perguntei distraidamente, tirando a vela de cima do bolo e o estendendo divertidamente para que ele mordesse, esperando para ver se ele faria mesmo isso. Meus olhos presos em seus lábios.
– Você – ele respondeu e eu o olhei no mesmo segundo –, para sempre.
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