Not Over You

11 Capítulo 10 - Moving On


Notas iniciais
HEEEY, AMORES!
Demorei, né? É, eu sei, eu sei... mil desculpas por isso, mas eu realmente não consigo evitar meu bloqueio criativo, que aparece de tempos em tempos para me fazer companhia...acho que ele se apaixonou por mim.
Certo, tenho que agradecer com todo o carinho do mundo a Sophia, pela recomendação "megamente" maravilhosa que ela fez para NOY, que ficou incrivelmente linda, apaixonante, e que eu simplesmente amei! Muito obrigada, linda!
Bem-vindas leitoras novas que deixaram comentários! Vocês são uns amores e eu amei o comentário de cada uma de vocês!
Leitores fantasmas que estão aparecendo: DEIXEM COMENTÁRIOS, qual é...escrevo com tanto carinho. Comentários são importantes para que eu saiba que estou fazendo algo que vale a pena ler!
Enfim...eu incrivelmente gostei desse capítulo, AUHSUAHS. Ele ficou muito grande, aliás, foi o maior até agora...mas ele é superimportante para a história, então...
Espero que gostem tanto quanto eu!
Boa leitura!!!

Fazia duas semanas que eu estava focada em não fazer nada mais do que me concentrar em alguma coisa banal e não pensar em Gabriel. Era quase inútil, mas funcionou de certo modo. Tentei, ao máximo, não martelar em minha cabeça quais foram seus motivos para virar de costas e ir embora depois de, hipoteticamente, ter me ouvido declarar meus sentimentos por ele em alto e bom som. Também não tentei entender porque as duas semanas seguintes ele passou tentando ignorar minha presença o máximo possível nos lugares em que nos encontrávamos.

"Vai ver ele não ouviu tudo e ficou mal por te ver chorando assim", Claire falava, tentando me convencer de que Gabriel não ouvira nada de nossa conversa. Não adiantava. De alguma maneira, eu sabia que ele tinha ouvido. Se eu voltasse naquela cena, por mais frios e inexpressivos que seus olhos estivessem, eu conseguia enxergar neles que Gabriel agora sabia de todo o meu sentimento. Não que ele não soubesse antes, ele não seria tão cego assim...mas naquele dia ele ouviu as palavras saindo da minha boca, naquele dia ele ouviu a certeza.

Mas então, em vez de tentar entender ou me convencer de alguma ilusão, eu me foquei no trabalho, na organização do meu mais novo apartamento e dos "problemas" de Claire segundo o casamento. De um jeito ou de outro, acabou funcionando. Mesmo que às vezes minha mente se voltasse para Gabriel, um cliente insatisfeito ou um vestido "branco demais" me fazia voltar a prestar atenção no que deveria ser essencial.

Mas aquilo ainda me enxarcava de tristeza...ele estava me ignorando depois de ouvir tudo o que eu disse e, mesmo que eu tentasse não me importar, inconscientemente eu me importava.

— O que você acha desse? — Claire perguntou, segurando um vestido preto em minha frente.

Esse era bonito até, de longe o mais bonito de todos os outro vinte e três que ela havia me mostrado até aquele momento. Era um vestido que ficaria provavelmente uns três dedos acima do meu joelho, com a barra e as mangas compridas de renda e um decote em U discretíssimo, que provavelmente não mostraria nada. O tecido era fino e suave, frágil.

— Ele é usado com um cinto bem fininho aqui — a costureira falou, passando o dedo indicador pela linha que havia a uns três dedos abaixo do busto, quando começava a saia do vestido.

— É bonito — eu falei vagamente, sem ao menos me levantar da cadeira para observar melhor o vestido. — Mas pensei que quisesse uma coisa mais formal...tipo damas de honra usando vestidos longos.

— Quero uma coisa diferente — ela falou, voltando a passar os olhos pelo vestido. — Vamos, vá lá experimentar — voltou a me olhar e eu assenti, mesmo não querendo fazer aquilo, me levantando no segundo seguinte e pegando o vestido antes de entrar no provador.

Saí do provador depois de dez minutos, três deles usados apenas para conseguir puxar o zíper das costas do vestido. Parei de frente para Claire e para a costureira que, sorrindo com certa satisfação, passou um cintinho fino branco por minha cintura e o afivelou. Virei-me para o espelho e fiquei feliz com o que vi. O vestido caía muito bem em mim, minha pele branca cadavérica entrava em contraste com o preto do vestido.

— Ficou perfeito, Emma — Claire falou. — Tem que ser esse...é esse!

— Também gostei bastante.

Continuei em frente ao espelho mais alguns minutos, virando de um lado para o outro para ter certeza de que o vestido se ajustara perfeitamente ao meu corpo, sem problemas. Claire passou os dedos por mais alguns vestidos enquanto isso, talvez para se certificar de que era exatamente aquele vestido que queria nas damas de honra.

Ouvi meu celular tocar em algum lugar. E, depois de alguns segundos para tentar encontrar a origem do som, me lembrei de que havia deixado-o no provador e corri até lá. Quando peguei o celular, vi a foto e o nome de Ethan piscando na tela.

— Oi, Ethan! — Atendi, voltando para onde Claire estava.

— Emma, até que enfim! — Ele falou exasperado. — Você entra às oito hoje, certo?

— Sim — respondi casualmente, vendo meu amarrador de cabelo amarelo florescente caído entre meus pés e sentindo meus cabelos deslizarem pelas minhas costas e por minhas bochechas.

— Pode entrar às sete? — Perguntou e então ouvi um barulho de porta batendo. — Eu preciso sair agora, é um assunto importante sobre o restaurante.

— Ah, claro que posso — respondi, tirando rapidamente o celular do ouvido para olhar a hora e vendo que já eram seis da tarde.

— Perfeito...tente, por favor, não se atrasar nem cinco minutos — falou e eu concordei, desligando o celular logo em seguida.

— Lauren, pode me ajudar com isso? — Perguntei para a costureira, que estava a alguns passos de distância de mim, apontando para o zíper nas costas do vestido.

— Claro, querida — ela andou até onde eu estava, me deixando de frente para o espelho enquanto puxava cuidadosamente o zíper do vestido para que ele não estourasse.

Abaixei para pegar meu amarrador antes de ir para o provador e ouvi uma voz familiar falar um pouco atrás de mim.

— Por Deus, Claire, você não atende o celular? — Gabriel perguntou.

Endireitei o corpo bruscamente, vendo seu rosto pelo espelho e vendo-o esguer os olhos logo depois de fazer a pergunta encarando Claire, só então me notando ali. Seus olhos claramente emitiam uma certa surpresa.

Lembrei que o zíper do vestido estava aberto e ele era comprido, acabando na minha cintura, quase na mesma reta que as covinhas que eu tinha ali. E, por mais que aquilo fosse besteira, me senti envergonhada. Sim, Gabriel já havia visto muito mais do que apenas minhas costas nuas, mas aquilo ainda era desconfortável. Não éramos mais íntimos um do outro.

Olhei no espelho antes de me virar para correr para o provador, contemplando minha imagem animalesca — cabelos bagunçados, totalmente descoordenados, e as bochechas coradas. Maravilha. Aquele era um ótimo jeito de ficar perto de Gabriel: parecendo uma louca — como se ouvir tudo o que ouviu já não fosse o suficiente para ele duvidar de minha sanidade.

Dez minutos depois eu saí do provador e Gabriel já não estava mais lá.

— Desculpe por isso, Emma, o Gabriel precisava resolver uma coisa da empresa comigo e não sabia que você estava aqui — Claire falou prontamente, se levantando da cadeira e se aproximando de mim assim que apareci em sua frente.

— É, imagino que ele não sabia mesmo — murmurei, sabendo que Claire não ouvira mais do que um grunhido quando ela afagou meu braço e pegou o vestido preto de minhas mãos, se encaminhando até Lauren.

— Bem, de qualquer forma, preciso ir — falei alto, fazendo Claire se virar para me olhar. — Ethan quer que eu entre às sete e eu tenho menos de quarenta minutos para chegar ao apartamento, me arrumar e estar no restaurante pronta para trabalhar.

— Certo, boa sorte na correria — Claire desejou alto, enquanto eu já andava quase correndo para fora da loja, com uma risadinha que foi abafada assim que coloquei os pés porta a fora.

(...)

Passei essas duas semanas aguentando firmemente o modo frio com que Gabriel vinha me tratando, tentando fingir que ele não estava me ignorando, porque isso era o que ele estava fazendo.

Fui tratada como uma desconhecida por ele no jantar que Claire deu em sua casa, não recebi palavras suas dirigidas à mim no jantar que seus pais deram, não ficamos nem cinco minutos sozinhos quando nos encontramos no corredor do nosso andar por acidente, pois, segundo ele, estava muito atrasado para uma reunião. E foi como se nunca tivéssemos nos visto quando acabei trombando com ele no restaurante do pai de Ethan três dias atrás. Fora, é claro, a cena vergonhosa de duas horas atrás. Mas eu aguentei. Aguentei e não fui grossa, não forcei a barra.

E lá estava ele, em uma linda e agradável noite de sexta-feira, sentado em uma mesa perto de uma das janelas de vidro do restaurante, vestindo um terno preto elegante, com os cabelos penteados e recém cortados e a barba bem feita. Em sua frente estava Hillary, usando um vestido vermelho sangue que ia até o joelho e que era tão apertado no busto que fazia os peitos dela desejarem saltar para fora para respirar.

Ri com amargura enquanto, de um canto do restaurante, via os dois conversando incessantemente um com o outro. Gabriel só podia estar fazendo aquilo propositalmente. Seria muita inocência trazer Hillary para jantar no restaurante em que eu trabalho sem a intenção de me provocar. Uma inocência que Gabriel não tinha nem em minúsculas proporções. Mas qual era a necessidade daquilo? Enraivecer-me? Entristecer-me? Fazer-me ir parar na prisão por assassinar ele e Hillary com uma faca cega de restaurante?

Meu contato visual foi brutalmente interrompido quando Owen, um dos funcionários do restaurante, parou em minha frente, tapando a visão.

— Senhorita, temos um problema — ele falou, atraindo toda a minha atenção para suas palavras.

— O que é, Owen? — Perguntei, um pouco preocupada.

— Lilly Bennet ligou avisando que não poderá vir trabalhar essa noite — ele falou gesticulando com as mãos. — E, por parecer que não fará falta pois é apenas um funcionário, mas fará. O restaurante está cheio hoje...é sexta-feira!

Certo. Eu tinha um problema em mãos. Um problema que ia além de uma sopa salgada demais, um suco feito de frutas "estragadas" ou uma salada sem o devido tempero "suave e saboroso". E Ethan não estava ali para me socorrer.

Fechei meus olhos por milésimos de segundos, tentando me lembrar da primeira coisa que Ethan me disse em meu primeiro dia de trabalho: "Preste atenção, Emma, quando você estiver com um problema maior do que clientes que só reclamam nas mãos, respire fundo antes de tudo. É um pouco assustador na primeira vez, mas você se acostuma...é mais fácil do que parece na hora. Tente assimilar seu problema com alguma coisa do seu cotidiano. Como, por exemplo, Claire com problemas nos preparativos do casamento. Você deve se manter calma para que ela não entre em desespero. E precisa arrumar um jeito rápido de resolver o problema, para que ele não interfira no andamento das coisas". Bem, na verdade, a primeira coisa que ele me disse foi o clichê "os clientes sempre têm razão".

— Owen, ligue para Jessica, Elizabeth, Jane e Julieta e veja qual delas pode vir trabalhar hoje — falei, enquanto atravessava o restaurante em direção à cozinha, com Owen ao meu lado. — Enquanto isso, preciso de um uniforme.

O uniforme de garçonete do restaurante se resumia a uma saia social de oxford preta que ia da altura do meu umbigo até o joelho, uma camisa social branca, que deveria terminantemente permanecer com as mangas dobradas até um pouco abaixo do cotovelo, e um sapato social com um salto de dez centímetros, mais ou menos. E eu deveria estar com o cabelo preso em um coque firme e bem feito.

— É muito simples — Owen falou, me instruindo. — Você não pode anotar pedidos, guarde-os na memória até chegar à cozinha. Imagino que conheça bem nosso cardápio... — falou, meio duvidoso, me olhando com certa expressão de interrogação. Assenti com a cabeça. — Muito bem, então não haverá problema se algum cliente lhe pedir um palpite de prato.

— Certo — respondi prontamente, indo em direção à uma mesa onde um homem sozinho acabara de se sentar segundo as instruções de Pablo, que tinha como dever checar reservas e levar, o mais rápido e educadamente possível, o cliente até sua mesa.

Seria a primeira vez que eu serviria alguém de um jeito...formal. No Café, nosso uniforme era só uma camiseta do estabelecimento, e qualquer tênis e qualquer calça que quiséssemos. Fora que tínhamos um bloquinho para anotar pedidos e não precisávamos sugerir pedidos para nenhum cliente. Estava levemente trêmula, como havia ficado na minha primeira semana de trabalho como gerente, mas tentei mostrar determinação, certeza, seriedade e respeito quando cheguei à mesa em que o tal rapaz estava sentado.

— Bom noite — falei educadamente, me perguntando se deveria sorrir ou não, ficando com a opção de tentar transparecer satisfação em tê-lo ali por meio de um sorriso sem mostrar os dentes.

— Boa noite — ele falou, erguendo o rosto em minha direção com um sorriso aberto, cheio de dentes brancos e luminosos.

Devo ter ficado momentaneamente boba diante de sua beleza e do brilho do seu sorriso, porque só me lembrei de onde estava quando ouvi sua discreta e simpática risadinha. Pisquei algumas vezes antes de, voltando a ter compostura, lhe entregar o cardápio.

— Serei rápido, senhorita — falou educadamente, agora com o sorriso fechado, deixando apenas o canto direito da boca erguido. E então voltou sua atenção para o cardápio.

Engraçado como que, nele, o sorriso de canto ficava extremamente natural e caloroso, enquanto que em Gabriel, não demonstrava outra coisa se não ironia, egocentrismo e uma tentativa, sempre vitoriosa, de sedução. Tentei não pensar em Gabriel para não me distrair demais e acabar fazendo algo errado enquanto, mesmo sem saber se era o que eu deveria fazer, ficava parada ao lado da mesa do homem educado esperando-o escolher seu pedido. Furtivamente, indo contra minha razão e todas as vozes que gritavam em minha cabeça para eu ignorar sua presença, virei a cabeça disfarçadamente para trás, em direção à mesa de Gabriel e Hillary. Ele estava olhando para o relógio impaciente, com uma evidente expressão de desconforto no rosto. Só conseguia ver Hillary pegando a taça de vinho e levando-a até a boca, já que estava de costas para mim. Eles não estavam conversando mais.

— Acho que uma, hum, vamos ver...sopa de tomate seria uma boa pedida — o cliente falou, fazendo-me virar a cabeça e olha-lo instantaneamente.

— É uma ótima pedida — falei educadamente, sorrindo timidamente ao ver uma expressão de diversão passar por seu rosto. — O que o senhor desejaria beber?

— Um suco de limão — disse normalmente, me entregando o cardápio.

— Gostaria dele agora ou acompanhado da refeição?

— Acompanhado...pode me dizer, por favor, onde fica o banheiro masculino? — Perguntou.

— Por ali, senhor — falei, virando-me para trás e apontando discretamente para uma entrada moderna, que levaria ao banheiro. Passei os olhos por Gabriel rapidamente e o peguei me olhando. — Em instantes trago-lhe o pedido — falei, voltando meu olhar ao cliente, vendo-o se levantar, mostrando-se consideravelmente alto e concordando com a cabeça enquanto os lábios se curvavam em um sorriso.

Comecei a caminhar em direção à cozinha ao mesmo tempo em que o homem caminhou em direção ao banheiro.

— Emma! — Logan falou, assustando-me por ainda não ter percebido que ele estava ao meu lado, enquanto eu pendurava um papel com o pedido do homem educado e de sorriso bonito no painel de pedidos da cozinha.

— Sim? — Virei-me para ele, vendo-o com o rosto corado.

— É aquele cliente de novo — falou, sua voz levemente alterada. — Sr. McAdams...está reclamando, mais uma vez sobre o tempero da salada. Por Deus, ele vem um dia sim e um dia não, pede a mesma coisa e reclama em todas as vezes! Quem é que reclama do tempero de uma salada?! E por que ele não muda o pedido? Ou melhor, por que não para de vir aqui?

— Certo, Logan, quero que se acalme — falei, afagando de leve seu braço antes de começar a andar de volta para o salão. — Vá atendar outra mesa, pode deixar que eu cuido dele, okay?

Ele assentiu, suspirando pesadamente, e indo para a esquerda enquanto eu ia para a direita, em direção ao Sr. McAdams, ou como os funcionários o apelidaram, Sr. Ranzinza.

Sr. McAdams era um homem de uns 45 anos, que ia no restaurante um dia sim e um dia não, pelo menos era assim desde que eu comecei a trabalhar lá. Estava sempre sozinho! E, apesar de ter um rosto simpático e ser um homem bonito para sua idade, o cara era insuportável. Como alguém tinha a paciência de reclamar do mesmo prato no mesmo restaurante pelo menos três vezes por semana? Realmente, ele parecia um lunático sem nada melhor pra fazer além de ir encher a paciência dos outros em seu local de serviço. Não culpava Logan por ficar tão irritado daquele jeito. Mas, por sorte, eu havia treinado minha paciência com Gabriel e com papai, por isso, aquele era um homem que precisaria de muito para me tirar do meu estado normal.

— Sr. McAdams, que prazer em vê-lo — menti descaradamente, com um sorriso nos lábios, assim que cheguei em sua mesa. — Como posso ajuda-lo?

— É essa maldita salada! Como não conseguem fazer um tempero decente para ela? — Perguntou, visivelmente mal-humorado... mais do que o normal, aliás.

— Bem, peço desculpas por isso — falei, tentando soar o mais educada possível. — Tenho certeza de que o senhor ficaria satisfeito com nossa lagosta. Não é salada, sem dúvidas, mas tem um tempero leve que tenho certeza que lhe agradaria.

— Pois bem — ele bufou alto, colocando as duas mãos em cima da mesa com força. — Traga uma lagosta pra mim, acompanhada do melhor vinho italiano que vocês tiverem.

— Sim, senhor — falei, chamando Logan com a mão e depois, quando já tinha sua atenção, apontei para a salada para que ele viesse busca-la. — Seu pedido estará aqui o mais rápido possível.

Sorri e me virei, saindo de perto daquele homem o mais rápido possível. Nunca havia visto ele sorrir e provavelmente nunca veria. Nem a mais forte dose de educação lhe rendia um tom agradável na voz.

Voltei para a cozinha para anotar e pendurar o pedido do Sr. McAdams no painel.

— Emma, o pedido da mesa 36 está pronto — Lucius, um dos ajudantes do cozinheiro do restaurante, disse ao passar do meu lado, apontando para a enorme mesa que ficava perto do painel, que estava sempre carregada de pedidos.

Andei até a bandeja com um papel com o número 36 ao lado, e a peguei, tentando ter o máximo de cuidado para não derrubar a pequena jarra de suco de limão, o copo de vidro com gelos dentro e, principalmente, a grande tigela com sopa de tomate.

Cheguei a mesa 36, do homem de sorriso bonito, em menos de dois minutos e sem derrubar nada, comemorando mentalmente isso.

Coloquei o copo de vidro com gelos na mesa primeiro, depois coloquei tigela de sopa de tomate — com alguma dificuldade, mas consegui -, controlando-me para não olhar para trás e checar a mesa em que Gabriel estava com Hillary. Mas, levando em conta três anos caindo na tentação que o Gabriel era, estava claro que meu controle não era dos melhores, o que me fez, já não aguentando mais, olhar para trás... Coisa que, decididamente, foi um erro. Gabriel estava afagando a mão de Hillary por cima da mesa carinhosamente.

Senti minhas mãos tremerem levemente...de raiva. Virei meu rosto para frente lentamente, focando meus olhos em algum ponto da mesa e atirei minha mão para frente, na intenção de pegar a jarra de suco, mas com força demais e no lugar errado, já que eu não estava prestando atenção nos meus movimentos, o que fez a jarra ir para o lado e trombar com a borda da bandeja, caindo deitada e despejando todo o suco no colo do homem-de-sorriso-bonito, e depois de vazia, caiu sobre seu colo.

— Oh meu Deus! — Exclamei, depois de sair do choque de perceber a burrada que eu havia feito por não conseguir controlar meus impulsos e sentimentos. — Mil perdões...me perdoe, senhor, realmente.

E, como se a merda feita ainda não fosse o suficiente, coloquei a bandeja em cima da mesa apressadamente, tirei a jarra de seu colo, colocando-a também na mesa, peguei um guardanapo de pano que estava na bandeja e abaixei-me de joelhos ao lado do homem, passando-o em suas coxas desesperadamente, enquanto minhas mãos tremiam, saindo completamente da ética do restaurante.

Além de derrubar suco em um cliente, eu estava tocando-o impropriamente.

Depois daquilo, eu mesma escreveria minha carta de demissão.

— Ei, ei, ei — ele falava apressado, enquanto eu, sem dar ouvidos aos seus chamados, continuava a passar o guardanapo em seu colo. — Certo, se acalme — ele segurou minhas mãos, levantando-as na altura de seu peito e fazendo-me olhar em seus olhos alarmada. — Não tem problema, coisas assim acontecem...acredite, não estou chateado e não pretendo reclamar sobre esse acidente. Se acalme!

Enquanto falava daquele jeito comigo, sua voz era baixa, suave e levemente rouca. Ele começou a abrir um sorriso quando viu que eu comecei a me acalmar e controlar minha respiração.

— Qual seu nome? — Ele perguntou, ainda sem soltar minhas mãos.

— Emma — respondi, sentindo minha voz falhar.

— Certo, Emma — falou, parecendo gostar de como meu nome tinha soado em sua boca. — Está calma agora? — Assenti com a cabeça. — Ótimo, então se levante e finja que nada aconteceu aqui, porque é isso que vou fazer.

Ele soltou minhas mãos devagar, sem desgrudar seus olhos dos meus e eu fui me erguendo aos poucos, sentindo minhas pernas bambas. Eu havia feito uma merda tão, mas tão grande.

E, mais uma vez, Gabriel tinha parte nisso.

— Certo, olhe, mil perdões por isso, senhor — falei, tentando controlar o leve desespero que começava a aparecer em minha voz novamente. — Deixe o jantar por conta do restaurante...e eu vou lhe trazer outro suco agora mesmo!

— Não, não — ele falou, negando com a cabeça. — Primeiro, eu sou novo demais para que você me chame de senhor...Ian é realmente muito melhor. E eu insisto em pagar essa conta. Inclusive esse suco.

— Mas-

— Nada de "mas", estou falando sério, Emma — falou divertido.

Respirei fundo e, fazendo o que ele pediu, fingi que não havia acabado de derrubar suco em sua calça, peguei a bandeja e a jarra vazia e levei para a cozinha, voltando à mesa 36 apenas para levar outra jarra de suco.

Meia hora depois e o tal de Ian havia terminado sua refeição e eu já estava levando, contra a minha vontade, a conta para ele.

— Estou muito satisfeito, Emma — ele falou, me entregando um cartão de crédito dourado, com um sorriso realmente satisfeito no rosto, e não era irônico ou maldoso, era sincero.

Passei o cartão pelo aparelhinho e depois o virei para Ian, para que ele digitasse a senha, e assim ele o fez, sorrindo para mim logo depois. Lhe devolvi o cartão assim que o pagamento foi recebido.

— Espero que o jantar tenha sido agradável e lhe desejo uma boa noite — disse educadamente, mantendo um sorriso forçado e sem graça para ele. —...e, realmente, me desculpe — acrescentei, com a voz um pouco mais baixa.

Sorrindo, Ian se levantou, ficando frente e frente comigo, e olhando em meus olhos disse, casualmente:

— Eu gostaria muito de te ver novamente, Emma...e não como cliente e garçonete.

Corei violentamente. E, embora eu estivesse certa de que aquilo não faria mal nenhum, neguei com a cabeça.

— Desculpe, eu não posso, eu-

— Tudo bem, Emma — ele me cortou, ainda sorrindo.

Deus, aquele era um homem que não se incomodava em mostrar seu genuíno sorriso para o mundo contemplar.

— Mas, eu tenho um bom pressentimento sobre você, sabe? — Falou, abrindo ainda mais o sorriso quando minhas bochechas queimaram intensamente. — Caso você mude de ideia, eu adoraria ter uma companhia como você para jantar amanhã a noite — disse enquanto tirava a carteira do bolso traseiro, guardou o cartão de crédito e pegou um pequeno cartão branco de papel. — Eu gostaria mesmo de receber uma ligação sua.

— Certo, claro — falei, pegando o cartão entre seus dedos ainda meio incerta, não conseguindo evitar um sorriso tímido.

Ele ficou satisfeito quando me viu segurar o cartão com firmeza e, sorrindo, murmurou um tchau e se retirou do restaurante.

— Emma, Julieta já chegou — Owen falou quando eu estava me aproximando da cozinha. — Pode voltar para seu verdadeiro cargo — riu e eu sorri, assentindo com a cabeça e indo tirar o uniforme de garçonete.

(...)

Depois daquela noite, eu percebi que aguentar Gabriel me ignorando talvez não tenha sido tão ruim quanto eu pensei. Era até suportável e compreensível. Não é todo dia que você ouve alguém falando descontroladamente que te ama e que você é a coisa mais importante e drástica que já aconteceu na vida desse alguém. Mas levar Hillary para jantar no meu local de trabalho era maldade. Se eu praticamente soletrei que me magoava vê-lo com outras mulheres, por que diabos ele tinha que levá-la para jantar lá? Era pura maldade e eu estava cega de raiva e tristeza por isso. Meus sentimentos pareciam mudos e insignificantes diante dele e isso jogava na minha cara a pessoa fria e indiferente que ele era e eu fingia não ver, porque, por mais que eu estivesse certa de que ele não gostava de mim antes, uma coisa no fundo sempre estava acessa e falando bem baixinho em meu subconsciente que eu era especial para ele de alguma forma, e isso me dava, de algum jeito, esperanças. Mas diante do seu aparente desdenho para com os meus sentimentos, sabia que não era especial de maneira alguma. Nem como sua segunda irmã mais nova ou uma amiga.

A decepção que estava sentindo se transformou em algo mais forte e violento.

Eu estava realmente com raiva. E pela primeira vez, não era de mim.

Acordei com uma estranha sensação de conformismo. Mas ainda me sentindo perdida, sem saber exatamente o que fazer depois de ver Gabriel e Hillary juntos mais uma vez, o que certamente me magoou. Sem saber o que fazer depois de, além de vê-los juntos, vê-lo me ignorando novamente.

Porém, disposta a fazer alguma coisa.

Levantei da cama preguiçosamente, vendo no relógio de cabeceira que já era uma e meia da tarde e eu havia dormido mais do que deveria, mas também, não era por menos. Estava derrubada quando saí do restaurante às duas e meia e só deitei na minha cama para dormir depois das três.

Fiz minha higiene matinal antes de ir para a cozinha me entupir com alguma coisa, porque minha barriga ansiava por comida e meu cérebro ansiava por besteiras.

Depois de me empanturrar com dois tubos de Pringles, uma barrinha de cereal, três copos de suco de morango e um pouco mouse de maracujá que Claire havia feito pra mim no dia anterior, deitei no sofá, liguei a TV em algum canal onde estava passando Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, e peguei meu celular para responder a mensagem que Claire havia enviado dez e quarenta e seis da manhã.

Tudo bem?

Sim, o que eu faço agora?

Provavelmente, minha melhor amiga veria aquela mensagem de texto e ficaria se perguntando de que merda eu estava falando. E, honestamente, nem eu mesma sabia. Só sabia que estava deitada em um sofá, não conseguindo nem me concentrar em um dos meus filmes favoritos, sem saber o que fazer pelo resto da tarde, nem no dia seguinte e nem depois, e muito menos dali um mês, ou um ano, ou três...

Meu celular vibrou quando a resposta de Claire chegou. E, como se ela soubesse exatamente do que eu estava falando, como se ela lesse por entre as linhas e os acontecimentos recentes, sua resposta foi simples, prática e direta:

Você segue em frente.

Fiquei olhando para a tela, entendendo exatamente o que ela queria dizer, mas não sabendo como eu faria aquilo. Eu queria mesmo seguir em frente, ainda mais naquele momento, em que uma raiva contida e um determinismo anormal faziam residência dentro de mim. Mas eu não sabia como.

Levantei do sofá, indo até a cozinha para pegar um copo de suco bem gelado para depois ficar olhando para a mensagem de Claire e ficar martelando em minha cabeça como eu faria aquilo, até provavelmente enfraquecer novamente e voltar a pensar em Gabriel apaixonadamente, tentando entendê-lo, sem um pingo de raiva ou vontade de viver sem suas lembranças e sua presença.

Mas não foi exatamente o que aconteceu.

Não quando, enquanto eu preparava suco de limão porque o de morango havia acabado, eu me lembrei de Ian. Lembrei de seu cartão que eu havia deixado na mesinha do telefone ao lado do sofá e de como ele parecia ser simpático e havia sido compreensivo quanto ao meu erro.

E lembrei que ele queria jantar comigo.

E também pensei que aquilo seria, provavelmente, irresponsabilidade da minha parte, porque eu havia visto-o apenas uma vez em toda a minha vida e ainda por cima, no meu local de trabalho.

Mas espantei todos esses pensamentos porque eu precisava me arriscar por alguma coisa que não tivesse a ver com Gabriel. Precisava me arriscar para mudar o rumo que a minha vida estava tomando há muito tempo. Precisava me arriscar porque simplesmente precisava...seguir em frente.

— Alô? — Ele atendeu depois de dois toques.

— Ian? É a Emma... — falei, me sentindo totalmente envergonhada, atirada e quase arrependida. Quase.

— Emma! Nossa, que surpresa — ele falou, parecendo mais animado. — Fico feliz que tenha me ligado.

— Que bom — sorri, mesmo que ele não pudesse ver. — Você ainda está interessado em uma companhia para jantar essa noite?

Notas finais
E aí, vocês gostaram?? O que acharam do Ian? *.* E quantas de vocês querem matar o Gabriel? AUHSUAHSUAHS.
Até o próximo, que eu vou fazer até o impossível para postar na semana que vem!
Beijos :*