Not Over You
9 Capítulo 08 - Apartment 69.
Notas iniciais
Eu não atrasei, certo? Foram nove ou dez dias apenas.
Preciso dizer que eu estou muito feliz, de verdade. O número de comentários do capítulo passado foi maior do que eu podia esperar. Fiquei contentíssima.
Então, eu ainda estou decidindo se gostei ou não desse capítulo...mas realmente espero que vocês gostem. Falaram-me que estava bom.
Enjoy :3
Era um péssimo dia para o sol nascer tão forte em Londres.
Duas semanas depois de ser enganada por meu pai, minhas coisas que ainda estavam em Montana chegaram na casa de Claire sem aviso prévio. Definitivamente, ele havia mandado tudo. Minhas roupas, meus sapatos, meus livros...até mesmo meu carro. Eu duvidava que aquilo coubesse na casa de Claire, mas ela assegurou que meus livros ficariam ótimos no fundo de sua garagem temporariamente, e que tinha espaço para meu carro ao lado do seu e do de Matthew.
Claire, Matthew, Ethan e eu estávamos quase morrendo de cansaço por ficar andando para lá e para cá só para conseguir guardar todas as caixas na garagem, e para ajudar, aquele dia estava quente...não tanto quanto para uma cidade qualquer, mas para Londres e para quem convivia com o frio quase sempre, aquilo era um calorão.
Enquanto eu andava de um lado para o outro, carregando caixas pesadas cheias de livros, minha cabeça viajava para bem longe e eu tentava achar um motivo para aquilo. Tudo bem que nós brigamos feio, mas eu quem deveria estar chateada com meu pai, e não ao contrário. Ele quem mentiu pra mim. Mas ele nem pediu desculpas, só mandou minhas coisas para a casa de Claire como se estivesse desistindo de um caso perdido. Nem um telefonema eu recebi. Apenas um bilhete curto e prepotente que chegou junto com minhas coisas e mais um cartão de crédito:
"Lembra daquela conta que criamos quando você tinha quinze anos, filha? Esse cartão lhe dá total acesso ao dinheiro dentro dela. É todo seu. Não se esqueça de usar com responsabilidade enquanto não cria um mínimo de juízo e volta para casa, sua verdadeira casa. Estarei esperando você perceber seus erros. Mariah, Ty e eu estamos com saudades. Ass.: Papai."
Esse seu bilhete nada encantador me fez sentir muita, muita raiva. Raiva dele por não acreditar em mim. Meu próprio pai não acreditava que eu era capaz de viver por mim mesma. Talvez porque ele tenha me criado embaixo de suas asas, me ensinando a sempre precisar dele. Mas eu não era uma criança mais, e por mais que papai odiasse admitir, eu havia aprendido a viver sem sua ajuda. E comecei a querer provar isso a ele. Mas, principalmente, queria provar a mim mesma. Provar que eu cresci. E aquela parecia uma ótima oportunidade pra isso.
Por isso, o primeiro e o segundo passo já estavam dados.
— Aposto que os funcionários do restaurante vão amar você — Ethan falou empolgado, passando por mim com uma caixa um pouco maior que a minha e fazendo cara de convencido por estar me ultrapassando.
Naquela mesma manhã, assim que li o bilhete do papai, decidi que a primeira coisa que eu precisava fazer era procurar um emprego novo. Não que o emprego no Café não fosse bom, longe disso. Mas eu precisava de um emprego que pagasse melhor. E Ethan estava lá quando disse isso a Claire e quase explodiu de felicidade. Segundo ele, um dos restaurantes de seu pai estava precisando de um novo gerente, e isso estava levando-o a loucura. Ele ficou dizendo que iria me ensinar tudo o que eu precisava saber e que, se me conhecia bem, eu aprenderia tudo muito rápido. Naquela mesma manhã, ele foi comigo até o Café para que eu pedisse demissão...mas não saí de lá sem antes prometer que eu continuaria saindo com o pessoal.
— E eu aposto que você vai adorar o apartamento que o Ethan vai te mostrar — Matthew falou quando entreguei a caixa para que ele arrumasse em cima das outras, de modo que elas não caíssem.
— É tão espaçoso — Claire, que estava logo atrás de mim, falou. — E muito bem iluminado...você vai amar, Emma.
— É quase tão bonito quanto o vizinho da frente — Ethan falou convencido, soltando uma gargalhada quando todos nós reviramos os olhos diante do seu egocentrismo.
A segunda coisa que eu definitivamente precisava fazer era ter meu próprio apartamento. E, por tudo o que Ethan havia me falado, o emprego no restaurante pagava muito bem. Então eu conseguiria um ótimo apartamento para morar. E quando disse isso a Claire, Ethan ainda estava lá. E bem, a reação não foi muito diferente da que teve ao descobrir que eu queria um novo emprego. Ele começou a falar sem parar que tinha um apartamento incrível de frente ao deles e que eu conseguiria pagar o aluguel tranquila. Claire começou a falar — gritar — que apoiava a ideia do Ethan...e mais, que eu iria amar o apartamento.
Depois de ficar meio assustada com a empolgação deles por causa de um apartamento, acabei aceitando ir conhecer o lugar. E por tudo o que eles tinham falado pra mim entre seus gritos, eu realmente iria gostar.
Ethan me levaria para conhecê-lo ainda naquele dia.
Era impressionante...Ethan sempre estava lá.
Se eu fosse realmente ficar com o apartamento, Claire já tinha dito, eu poderia usar os móveis do apartamento que ela dividia com Gabriel antes de ir morar com Matt e Gabriel ir para...o lugar que fosse.
Aquele apartamento, aqueles móveis.
Céus, eu nunca esqueceria.
E por mais que isso tenha me deixado um pouco atordoada, eu aceitei. Não era por muito tempo, afinal de contas. E Claire ficou dizendo que poderia pagar o primeiro mês de aluguel pra mim, que isso seria como uma forma de pedir perdão por ter mentido para que eu fosse para Londres. Depois do que papai fez, ela ficou se comparando a ele...como se fizesse algum sentido. Não fazia, foi uma coisa completamente diferente. Bem, claro que eu "aceitei"...por hora. Eu iria pagar ela depois.
Porque não, eu não usaria nem um centavo do dinheiro do meu pai.
— Onde está Gabriel? — Claire perguntou, parando na frente de Ethan com as mãos na cintura e respirando rapidamente pelo cansaço e pelo calor.
— Trabalhando — Ethan respondeu, revirando os olhos logo em seguida. — Não parou nem por um minuto a semana toda...mal dormiu.
— Por que? Algum problema? — Matthew perguntou estranhando, então passou seus olhos para Claire, que deu os ombros, mostrando que não sabia de nada.
Virei de costas, fingindo que estava contando as caixas de livros e que não estava ouvindo nada do que eles falavam, mas estava, na verdade, prestando bastante atenção.
— Não que eu saiba...aquela secretária dele vive dando mais e mais coisas pra ele resolver — Ethan falou estressado, bufando logo depois. — Pelo que ele falou, ela disse que ficou muita coisa pendente por causa daquela época que ele ficou afastado do trabalho.
— Não é por nada não, mas já teve mais de dois anos para que ele resolvesse tudo isso — Claire falou, de maneira desconfiada e desaprovadora. — Nunca o vi trabalhar tanto.
— Eu meio que desconfio do motivo — Matt falou vagamente.
Eles ficaram quietos por poucos segundos, mas logo voltaram a conversar...agora sobre uma coisa banal, que não me importava, e me fez de fato não ouvi-los. Só conseguia pensar em Gabriel dentro de uma sala com sua secretária que era, possivelmente, tão jovem quanto ele. Fiquei me perguntando quem era sua secretária, o que era o "motivo" que Matt falou e, principalmente, por que Gabriel havia se afastado do trabalho em algum momento.
(...)
Olhei ao redor, admirada.
— Perfeito, não é? — Ethan falou sorrindo orgulhoso.
O apartamento era lindo. E ainda nem estava mobiliado.
A porta de entrada dava direto para um cômodo nem muito grande, nem muito pequeno, que eu já imaginava que seria a sala. Havia uma porta de vidro que pegava quase a parede do lado direito inteira e dava para uma pequena sacada com uma vista incrível. Ao lado da parede que ficava de frente para a porta de entrada, havia uma pequena bancada de madeira e atrás dela e da parede, ficava a cozinha, onde já havia um armário embutido de madeira clara, que era extenso e alto. Separando a copa da sala, havia uma parede construída de forma curiosa. Era como se ela tivesse suas prateleiras baixas para o lado da copa. Imaginei várias bebidas ali. A parede do outro lado da copa tinha três portas bem afastadas uma da outra. O primeiro cômodo do lado esquerdo era bem grande, e tinha uma porta que ia até um banheiro. A porta do meio era um banheiro simples e a última porta era um cômodo médio, apenas um quarto simples.
Eu já conseguia ver cada móvel em seu devido lugar ali, já conseguia enxergar cada coisa que eu colocaria, cada detalhe que eu queria que tivesse. E eu nunca foi ligada a detalhes. Mas eu os queria ali, eu imaginava-os perfeitamente.
— Incrível — respondi, olhando ao redor. — Já consigo me imaginar aqui.
— E por apenas mil libras por mês — Greg, que era um grande amigo de Ethan e, por uma feliz coincidência, o dono do apartamento; disse sorrindo.
— Eu preciso falar com a Claire e... — Ethan não deixou que eu terminasse de falar, apenas levantou o dedo na frente do meu rosto e sorriu para Greg.
— Isso vai demorar demais, e eu gosto de coisas práticas, Emma — ele disse com uma expressão convencida. — Façamos assim, eu pago esse mês e você me paga mês que vem, pode ser?
— Certo, pode ser — respondi após algum tempo.
Ethan deu um enorme sorriso e se virou para Greg que, também sorrindo, me estendeu alguns papéis, que eu julguei ser o contrato. Eram dois, provavelmente um ficaria comigo. Peguei-os animada, excitada e, evidentemente, com um sorriso que não cabia em meus lábios.
— Só preciso de sua assinatura e você pode mudar hoje mesmo se quiser.
Andei até o balcão de madeira, coloquei os papéis em cima e me enclinei sobre eles. Assim que terminei de ler, Greg me deu uma caneta e eu fui assinando aonde ele dizia para assinar. Assim que toda a papelada já estava assinada, eu estiquei meu corpo e me virei para Greg com um sorriso. Ele me estendeu um dos contratos e assim que peguei, ele disse:
— Esse fica com você — procurou alguma coisa no bolso e tirou de lá um molho de chaves, que me entregou logo depois. — E essas são as chaves do apartamento.
Segurei a chave com firmeza e me virei para Ethan, que foi até onde eu estava e me abraçou pelos ombros. Eu estava feliz, muito feliz. Sentia-me realizada. Agora eu tinha um bom emprego e um apartamento só pra mim. De que mais eu precisava? Eu tinha bons amigos e embora eu fosse morrer solteira com sete gatos ao meu redor, porque eu gosto de gatos, eu ainda estava contente. Contente porque eu estava acreditando em mim mesma, e acreditando na minha sorte. Que pessoa com azar poderia conseguir tudo isso?
— Passa no meu apartamento essa noite e eu te dou o dinheiro, certo? — Ethan falou para Greg que acenou a cabeça concordando.
— Se me dão licença, preciso ir — Greg falou, adquirindo um tom rosado as bochechas que o deixava...fofo. Ele deu um breve aceno com a cabeça e saiu andando com uma das mãos no bolso da calça. No segundo seguinte ele se virou e disse: — Antes que eu me esqueça, a vaga do estacionamento é o número do apartamento — assenti e ele se virou, saindo do apartamento sem bater a porta.
— Greg gostou de você — Ethan falou com um sorrisinho de deboche.
Pensei um pouco. Greg não era um cara feio, na verdade, ele era muito bonito. Seus olhos eram azuis, assustadoramente mais claros que os meus. E para deixá-lo ainda mais chamativo, ele tinha cabelos ruivos naturais. Sua pele era pouco mais branca do que a minha e ele tinha algumas sardas nas bochechas. Seus cabelos eram lisos e curtos, e estavam despenteados. Ele tinha uma beleza sutil, admirável, quase uma beleza frágil.
— Vamos ao meu apartamento, acho que tem torta do Gabriel na geladeira — Ethan falou animado, me fazendo olhá-lo alegre e lamber os beiços por reflexo. Ele riu e fez a mesma coisa, me puxando pela mão para fora do meu novo apartamento. Eu definitivamente não era a única louca pela torta que Gabriel fazia.
Eu fiquei me perguntando por que havia torta que o Gabriel fez na geladeira do Ethan. Mas logo deixei o pensamento de lado. Vai ver eles só tivessem um combinado ou Ethan ameaçasse ele com algum podre.
Ethan sacou as chaves do apartamento do bolso, e enquanto ele o abria, eu me peguei olhando para o número da porta. Segurei a risada e senti seus olhos em mim. Virei-me para ele e o mesmo abriu o apartamento ainda me olhando.
— Sem palavras sobre isso.
— Ah, qual é, você mora no apartamento 69, isso deve significar alguma coisa — falei, explodindo em gargalhadas e entrando em seu apartamento logo depois dele.
— Significa que eu sou um tarado e você está entrando no apartamento de um ninfomaníaco.
Rindo, Ethan e eu entramos em sua sala, mas logo nossas risadas ficaram mudas, inexistentes. Não era mais engraçado. Porque estávamos presenciando uma cena desagradável, muito desagradável. E dolorosa. Gabriel estava apenas com uma toalha amarrada na cintura, encostado em um pilar de tijolos que tinha entre a cozinha e a sala, suas mãos estavam segurando os braços de uma mulher loira que estava ajoelhada em sua frente. E ela estava com o rosto extremamente próximo de seu, hum, de sua...masculinidade.
Senti algo em mim se estilhaçar em milhares de pedaços, senti minhas pernas fracas e meu coração mudo. Meus olhos estavam embaçados, mas não por lágrimas...por mim. Eu estava triste. Desolada. Minha visão se embaçou de tristeza, confusão. Ainda assim, alguma coisa em mim me fazia ficar de pé, fazia minhas pernas moles se manterem firmes, fazia meu rosto perder qualquer expressão. Meu sangue congelou em minhas veias, eu não sentia calor. Era como se uma enorme onda de frio estivesse passando por mim, se escondendo em meu organismo. Estava gelada. Era como uma morta ali. Estava estática. Sequer conseguia pensar.
Saí do meu transe quando um barulho metálico se fez presente no cômodo. Minhas chaves tinham ido ao chão. Olhei para baixo, vendo-as caídas próximas aos meus pés, mas não quis me agachar e pegar. Não queria fazer nada, não conseguia. Naquele momento, eu não sentia nada, eu não era nada. Só me enxergava e me sentia quebrada. Era quase a mesma sensação de quando via Gabriel beijando alguma outra mulher.... Tinha algo diferente, algo ainda mais frágil sendo quebrado. Talvez fosse esperança. A esperança que sem saber eu estava alimentando. Esperança de que Gabriel fosse outra pessoa...ele parecia outra pessoa.
Voltei a levantar meus olhos para a cena, notando que Gabriel me olhava de olhos arregalados e boca meio aberta, em espanto. A garota loira agora estava sentada no chão, olhando para Ethan e eu de cima em baixo, tentando parecer assustada. Olhei-a bem. Eu conhecia aqueles olhos esnobes e aquele sorriso prepotente que ela tentava esconder. Eu já tinha visto-os antes. Semicerrei os olhos para ela, me obrigando a lembrar. Uma vaga memória do dia em que Gabriel me deu um selinho enquanto eu "dormia" invadiu minha mente. Hillary.
— Eu provavelmente deveria ter dito que Gabriel dividia um apartamento comigo — Ethan disse, parecendo irritado e magoado consigo mesmo. — Vamos embora, Emma.
Senti as mãos de Ethan em minha cintura, fazendo meu corpo se virar e caminhar até a porta com ele. Antes que ele abrisse a porta, olhei para trás, enxergando somente Gabriel em meu campo de visão. Seus olhos se curvaram estranhamente, como se ele se desculpasse. Sorri minimamente, fazendo o possível para não mostrar minha tristeza. Ele não tinha que se desculpar. Não éramos nada um do outro para que ele precisasse fazer isso.
Voltei a olhar para frente e saímos do apartamento. Em menos de cinco minutos, Ethan me tirou daquele prédio.
(...)
Três e meia da manhã e eu não conseguia dormir.
Abraçada ao travesseiro que Gabriel havia usado para dormir, eu conseguia sentir seu perfume nitidamente. Mesmo depois de mudar a roupa de cama, o perfume continuava ali. Como um castigo, talvez.
A cena que havia presenciado naquela tarde ficava passeando por minha mente. Estava mais parecido com tortura. A parte racional em mim ria da minha cara com amargura, a parte sentimental estava quieta, como se não estivesse ali...talvez estivesse se preparando para explodir a qualquer momento. Não parecia caber em mim mais, inchava, inchava e doía.
Fechei os olhos novamente, obrigando-me a dormir. Mas a única coisa que consegui foi voltar ao final de semana passado, quando nós todos fomos a um restaurante italiano. Aquela noite não estava fria como as outras, e as estrelas estavam brilhando tão fortemente que Claire insistiu que fôssemos andando. De fato, nós fomos. Não era muito longe, por isso nem meus saltos nem os de Claire incomodaram.
Foi um dos melhores jantares que tivemos. Gabriel e eu não estávamos brigados, e por mais estranho que fosse, até mesmo para mim, nós estávamos conversando muito bem...como antes de tudo, como amigos. Embora ele ainda lançasse olhares indiscretos para meu ombro nu.
Minha mente lançou-se para duas horas depois, quando Claire foi para a pista de dança com Matthew, e Gabriel me chamou para dançar uma música com ele, deixando Ethan sozinho na mesa com uma cara de sem vergonha para a gerente do restaurante.
Assim que nos enfiamos no meio de todas aquelas pessoas que dançavam ao som de lindas músicas, e Gabriel já me segurava com uma mão na altura da costela e a outra a minha mão, a música acabou e começou outra...muito conhecia por mim e por Gabriel. Não era italiana, mas era Andrea Bocelli cantando, e ele era um famoso cantor e compositor italiano.
Besame, (Beija-me)
Besame mucho (Beija-me muito)
Como si fuera ésta noche (Como se esta noite fosse)
La última vez (A última vez)
Ele sorriu para mim, puxando-me um pouco mais para perto, deixando nossos corpos com um centímetro de distância um do outro.
Besame, besame mucho (Beija-me, beija-me muito)
Que tengo miedo a perderte (Porque temo perder-te)
Perderte después (Perder-te depois)
Ainda sorrindo, Gabriel me conduzia leve e calmamente. Sua mão segurava-me com firmeza e delicadeza. Meu salto fazia com que nós ficássemos quase da mesma altura, facilitando que seu hálito de menta misturado com o vinho que tínhamos tomado chegasse em mim mais rapidamente, embriagando-me. Ele me puxou para mais perto, colando nossos corpos de maneira deliciosamente sufocante.
Quiero tenerte muy cerca (Eu quero você bem perto)
Mirarme en tus ojos (Para me ver refletido em seus olhos)
Verte junto a mi (Para te sentir bem perto de mim)
Piensa que tal vez mañana (Pense que talvez amanhã)
Yo ya estaré lejos, (Eu já estarei bem distante,)
Muy lejos de ti (Bem distante de você)
Lentamente, Gabriel aproximou seu rosto do meu. Inconscientemente, meus olhos foram para seus lábios, que estava vermelhos e úmidos, atrativos, me chamando. Mordi o lábio inferior, reprimindo meu desejo de beijá-lo e voltei a olhar para seus olhos, mas não os encontrei. Eles estavam na curva do meu pescoço, sedentos, e logo depois, se moveram para meus lábios. Gabriel ergueu seus olhos para os meus novamente e se aproximou ainda mais, fazendo nossos lábios quase se tocarem. Em menos de três segundos eu afastei meu rosto do seu, vendo-o abrir os olhos instantaneamente e me olhar confuso.
— Quero que sejamos amigos, Gabriel — falei e minha voz saiu indesejavelmente falha, como se eu não estivesse segura com o que dizia.
Talvez pudéssemos ser amigos. Talvez aquela amizade de seis anos atrás pudesse voltar. Eu tinha que acreditar nisso, por mais que a vontade de beijá-lo ficasse ainda mais forte quando ele ficava tão perto daquele jeito.
— Então...nada mudou? — Ele perguntou, e apertou seus lábios em uma linha reta. Sua voz saiu mais dolorosa do que eu gostaria de pensar, do que ele gostaria que saísse.
Neguei com a cabeça, sentindo meu coração se apertar com força.
Besame, (Beija-me,)
Besame mucho (Beija-me muito)
Que tengo miedo a perderte (Que temo perder-te)
Perderte despues (Perder-te depois)
Que tengo miedo a perderte (Que temo perder-te)
Perderte despues... (Perder-te depois...)
Ele deu um sorriso minúsculo, e me soltou assim que a música acabou, segurando-me pela mão e me levando de volta até a mesa.
Abri os olhos, saindo daquela lembrança, mais ainda tendo-a em mim.
Era errado me sentir estúpida, não era? Digo, estúpida por ter dito para sermos amigos, estúpida porque mesmo não querendo, eu me culpava. Talvez, talvez se eu o tivesse beijado, talvez ele não estivesse lá com ela.
Droga, me odiava por pensar nisso.
Senti alguma coisa, finalmente. Alguma coisa explodiu em mim, e ardia, doía, corroía...e eu chorei.
Simplesmente chorei.
Chorei porque havia dito ao único homem que amei e amaria na minha vida que não o queria mais como um homem. Porque eu queria enganar a mim mesma dizendo que não haveria problemas ser de Gabriel novamente, que poderia ser diferente e que ele havia mudado. Eu preferia ser magoada a ficar sem ele, eu realmente preferia. Mas eu estava tão cansada de ser idiota, tão cansada de abrir a cicatriz do meu coração e sentir sangrar e arder. Estava cansada de sentir o que sentia, estava cansada de ser eu. Não era agradável ter os mesmo sentimento todos os dias e o lugar em que eu menos queria estar era dentro de mim mesma. Queria apagar, esquecer. O nó na minha garganta parecia se apertar ainda mais, por mais que eu deixasse os soluços altos saírem livremente, por mais que as lágrimas rolassem por meu rosto sem pudor, uma atrás da outra. O lado esquerdo do meu peito se apertava, se encolhia, me causando dor, como se meu coração estivesse se espremendo ao máximo para abafar o sentimento tão forte que tinha por Gabriel. E a dor de não poder estar com ele.
Não parecia ser o suficiente. Chorar não parecia melhorar mais.
Enrolada nos cobertores e abraçada com o travesseiro enquanto minhas lágrimas ainda escorriam sem parar por meu rosto, fiquei. Sem esperanças de dormir, sem esperanças de que melhorasse...simplesmente fiquei ali, esperando o sono vencer qualquer sentimento.
Notas finais
Até o próximo.
Bjs :3
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