Not Over You

28 Capítulo 27 - All this time


Notas iniciais
Oioi, gente ♥ Tudo certinho com vocês? Então, eu queria dizer um enorme obrigada para a Virna Lopes, que deixou uma recomendação perfeita em NOY... Gata, eu fiquei imensamente feliz e amei demais, de verdade mesmo! Muito obrigada pelo carinho!!! Esse capítulo vai deixar todo mundo meio "wtf?", mas né, fazer o que, faz parte. Eu espero realmente que vocês gostem, porque eu gostei bastante ^~^ TÁ PRONTO DESDE SEGUNDA-FEIRA, GENTENEY AUHSUAHSUAHS. Fiquei feliz que a quantidade de comentários subiu!!! Obrigada, doces ♥ espero que continue assim! Boa leitura!

– Em? – Sophia chamou, parecendo, por incrível que pareça, envergonhada.

Ergui os olhos para vê-la me olhando um tanto quanto receosa, esquecendo-se do que estava comendo por alguns segundos, então terminei de mastigar a comida que estava em minha boca para respondê-la.

– Sim?

– Você falou para o Ethan? – Perguntou e eu franzi o cenho, não entendendo. – Sobre morar com a ex dele, você sabe…

Ergui as sobrancelhas, surpresa por ela tocar naquele assunto. No dia em que fiz a ligação de tudo, ela apenas me explicou brevemente como sabia que era eu, mas não falou sobre ela e Ethan propriamente, sobre a relação deles… e eu não fiz pergunta alguma. Achava que, se era como Ethan havia me falado, ainda deveria doer nela falar sobre aquilo – ainda mais se eu pensasse pelo meu lado que acreditava que ela ainda estava apaixonada por ele.

Olhei rapidamente para Anne Welch, vendo-a parar de comer para olhar a filha com mais atenção ao que ela citou o nome de Ethan… não era uma ação normal, afinal de contas.

Por conta do feriado de dia das mães e do trabalho de Sophia, que não a permitia viajar para outro país – já que ela teria que voltar no mesmo dia e isso era praticamente impossível, além de muito cansativo e nada proveitoso –, sua mãe havia saído de Londres para passar duas semanas conosco. Ela iria embora na terça a noite, por isso estávamos saindo para vários lugares: para que ela aproveitasse sua estadia.

– Eu não acho que essa é o tipo de notícia que se dá por telefone – falei sincera. – Ele estava atrás de você quando saiu de lá e, quando fala comigo pelo telefone, fala sobre como queria poder saber onde você está e, pelo menos, tentar conversar…

– Emma! – Ela interrompeu, fazendo-me ver que estava falando demais e até gesticulando com as mãos para dar uma certa ênfase nas minhas palavras. – Você não pode contar pra ele – falou com firmeza, e então parei para olhá-la de verdade Suas bochechas estavam coradas, seus olhos arregalados e, diferente do que eu pensava, ela não parecia com dor por ouvir ou falar sobre aquilo… parecia apenas assustada.

– Por que não? – Perguntei, embora entendesse de certa forma.

– Olha, você mesmo me disse que, quando foi embora alguns anos atrás, deixou um recado para Gabriel e esperou que ele fosse atrás de você – ela falou lentamente, dando um longo suspiro antes de continuar: – Eu não quero que Ethan venha me procurar.

– Por que? – Perguntei confusa.

Certo, talvez aquela fosse uma pergunta babaca e talvez não fosse tão difícil de entender… mas isso envolvia Ethan, e ele era tão incrível e tão apaixonado por Sophia e… e ela estava envolvida com a felicidade dele. Parecia simplesmente errado concordar sem fazer perguntas.

– Ele me traiu, Em – disse com uma pitada de dor na voz. – Eu não consigo perdoá-lo por isso, mas também não consigo dizer não a ele. Meu orgulho vai embora quando o assunto é o Ethan.

Suas sobrancelhas estavam franzidas e ela me olhava como se implorasse em silêncio para que eu simplesmente concordasse. Balancei a cabeça e soltei um suspiro.

– Tudo bem – falei. – Se é isso o que você quer, tudo bem.

Eu a entendia, afinal de contas.

Anne pigarreou, se mostrando presente na mesa desde que a filha começara a falar.

– Você sabe, Sophia, que eu não concordo com isso – ela disse sem rodeios, colocando uma das mãos em cima da mesa para agarrar a da filha. – Entretanto acho que você é adulta o suficiente para que eu não opte nas suas decisões. Apenas ouça o meu conselho: se você for sempre tão orgulhosa e rigorosa com a vida e as pessoas, ficará sozinha.

Sophia bufou, coisa que me fez morder o lábio para conter uma risada, já que fazendo isso ela parecia uma criança emburrada.

– Mãe, ele errou comigo.

– Errar é humano – soltei sem pensar, ao menos percebendo que Anne havia aberto a boca para falar. – Todo mundo tem o direito de errar.

– Isso! – Exclamou alegremente, olhando para mim rapidamente e me dirigindo um sorriso. – E, pelo que eu saiba, essa foi a única vez que ele errou com você.

Sophia abriu a boca para responder, mas pareceu pensar duas vezes e a fechou, pressionando os lábios e não dizendo mais nada, voltando a comer suas batatas fritas com queijo, coisa que fez a mãe suspirar e voltar a dar atenção para seu prato de comida japonesa. Eu então voltei a comer meu lanche natural em silêncio, acreditando que a conversa havia se dado por encerrada.

– Apenas pense – Anne falou num sussurro e eu a olhei, vendo que ela mantinha sua atenção em sua comida como se aquela fosse uma conversa casual. – Algumas pessoas valem uma segunda chance.

Sorri e voltei a comer, lembrando da minha mãe e de como ela e Anne se dariam bem…

Minha mãe.

Abri a bolsa azul escura que estava sempre pendurada em meu ombro e conferi para ver se todos os meus documentos estavam lá. Tinha tudo o que eu precisava e um pouco mais, inclusive meus cartões internacionais. Suspirei quando, enquanto vasculhava por entre todos os pertences e toda a bagunça que havia dentro da bolsa a procura dos meus óculos de sol, encontrei o envelope amarelo que havia guardado ali há dias. A carta para Gabriel. Eu não sabia se um dia teria a coragem de lhe enviá-la ou simplesmente entregá-la em suas mãos, mas a mantinha dentro da bolsa para que talvez um dia eu resolvesse que queria, de fato, colocar um ponto final em tudo… porque era isso que ela significava para mim. E eu não acreditava estar pronta para algo assim.

Larguei a carta lá dentro e fechei o zíper da bolsa, a jogando em meus ombros em seguida.

Peguei a pequena mala marrom pelas alças em cima da cama e saí do quarto em passos decididos, enquanto os saltos quase inexistentes das minhas botinhas faziam barulho no chão de madeira do apartamento.

Sophia estava na sala assistindo a Miss International Queen – programa ao qual nós duas estávamos completamente viciadas há semanas. Ela estava jogada no sofá, usando uma blusa larga e cavada e shorts minúsculos. Típica tarde de domingo. Quando virou os olhos e me viu parada ao lado da poltrona segurando uma pequena malinha logo após gritar vivas por sua candidata preferida continuar na competição, arqueou uma sobrancelha e colocou a televisão no mudo.

– Vai sair? – Perguntou.

Soltei uma risada e balancei a cabeça.

– Vou visitar minha mãe – respondi.

Eu havia tomado essa decisão fazia uns dias – quando Anne chegou em New York, melhor dizendo. Perguntei a James se poderia pegar alguns dias de folga do restaurante para visitar minha mãe e, como eu havia trabalhado algumas noites a mais do que o meu contrato intitulava, ele permitiu sem se importar. Fazia quase cinco anos que mamãe e eu não nos víamos… ou nos falávamos. E, para uma garotinha que sonhava em ter o sorriso iluminador e contagiante da mãe, eu havia crescido uma péssima filha. Eu não fazia ideia de que tinha se passado tanto tempo… três anos em Helena junto com papai, pensava eu, haviam sido um total desperdício de vida. Não que eu me julgasse por ter sido fraca e ter me jogado nos braços do martírio, mas em algum lugar no fundo de mim sabia que eu deveria e poderia ter sido mais forte… há tantas coisas que eu poderia ter feito. E ficar com minha mãe era uma delas. E eu vi aquele feriado como uma das tantas outras oportunidades que eu faria questão de ter para me redimir.

– Pensei que vocês não se falassem há anos – disse confusa, levantando do sofá e começando a caminhar até a cozinha.

– Sim, mas é dia das mães – respondi, a seguindo. – E eu venho sendo uma filha de merda.

Anne estava na cozinha fazendo panqueca doce.

– Bom dia, Anne – falei, me escorando no balcão para poder deixar um beijo em sua bochecha.

– Bom dia, querida – falou. – Ouvi que vai viajar…?

– Vou visitar minha mãe em Montana – respondi. – Consegui quatro dias de folga no trabalho e vou aproveitar para passar com ela.

– Isso é ótimo – ela disse sorridente.

– Sim… espero compensar pelo menos um por cento da minha falta como filha por não nos vermos ou nos falarmos por tanto tempo – confessei, dando um suspiro longo e deixando minha bolsa no chão, logo me jogando sentada no banquinho.

– Andou ignorando as ligações? – Perguntou estreitando os olhos, embora ainda mantivesse um dos cantos da boca puxado em um meio sorriso.

Balancei a cabeça.

– Antes fosse – suspirei. – Passei por uma situação um tanto quanto deprimente alguns anos atrás e, depois disso, nunca mais nos vimos ou nos falamos. Eu por sequer conseguir ser eu mesma e ela por não ter ao menos ligado… Mas eu conheço meus pais, entende? Sei que ela abaixa a cabeça para qualquer coisa que papai lhe fale e que ele, por sua vez, pode ser muito cruel.

– Pois então vá, meu amor – falou carinhosamente. – Eu garanto que ela ficará feliz em te ver.

Sorri e concordei.

Anne me lembrava bastante mamãe, exceto, é claro, por saber cozinhar.

– Quando sai o voo? – Sophia perguntou, parando ao lado da mãe e passando o braço por seu pescoço.

– Em uma hora – respondi. – Ia pedir pra você me levar, na verdade… Conseguir um táxi nessa cidade é um inferno!

Ela riu e deu um balanço rápido com a cabeça.

– Vou me trocar e já te levo.

E então saiu, deixando Anne e eu conversando sobre tudo e coisa nenhuma.

Demorei cerca de cinco horas para chegar em Butte. A cidade não ficava muito longe de Helena, o que sempre fora fácil para mim. Quando eu era pequena, era muito simples passar as férias com papai e ainda assim ver mamãe nos finais de semana – já que eu passava quase o ano inteiro sem ver nenhum deles, graças ao colégio interno em Londres que papai garantiu ser o melhor pra mim.

Eu só esperava que ela estivesse em casa…

Elizabeth Garth era uma das mulheres mais bonitas que eu já havia visto na vida. Para os seus quarenta e cinco anos de idade, ela estava num estado de deixar cair o queixo, pelo menos era assim da última vez em que eu a havia visto. Meus cabelos ruivos, meus olhos azuis puxados para cima, meu nariz fino, meus lábios cheios e o formato do meu rosto vinham dela… Todos diziam que eu era sua cópia, mas eu jamais seria tão bela quanto ela fora.

A pequena e antiga casa de dois andares continuava exatamente como há cinco anos. Pintada de um amarelo-claro que, de alguma forma, a deixava bonita, e com alguns detalhes e contornos feitos em branco, ela permanecia conservada. Porém as flores que ficavam na frente da casa, a cercando, haviam morrido… todas as rosas vermelhas e brancas. A grama era de um amarelo seco e maltratado, e, de alguma forma, isso acabava com toda a vivacidade que a pequena casinha colorida, no meio de todo aquele marrom sem graça, costumava ter. Também não havia mais a cadeira branca de balanço que costumava ter na varanda de madeira, sempre coberta por almofadinhas floridas.

A casinha amarela onde eu costumava passar minhas férias quando mais nova parecia morta.

Senti um sorriso singelo se formar em meus lábios ao me lembrar como mamãe ficava brava quando eu me jogava entre as rosas, dizendo que eu as estragaria, mas, quando eu apenas dizia amar flores, ela colhia algumas, tirava os espinhos e criava uma coroa de flores que eu usava por dias até que não restasse mais sequer uma pétala. A menina das flores, era como Sr. Albert me chamava. Ele era o dono do mercadinho que ficava na esquina da rua da casa da mamãe e que morreu justamente no meu aniversário de quatorze anos. Ver aquela casinha tão morta era como dizer adeus a um passado que eu, horas atrás, nem me lembrava que existia.

Olhei para o cima e sorri ao perceber que ao menos aquilo não mudara. O sol continuava brilhando fortemente e o céu continuava a ter um límpido azul o colorindo. Suspirei e decidi que era hora de parar de pensar e chamar por Elizabeth. Entretanto era quase óbvio que ninguém mais morava naquela casa… minha mãe jamais deixaria que o jardim ficasse naquele estado e qualquer novo dono jamais se permitiria ter um jardim daquela forma.

Virei o corpo e comecei a andar em direção a casa vizinha. Era onde Anastásia, a desde sempre melhor amiga de minha mãe, morava. Haviam duas crianças brincando com terra no quintal, o que me lembrava que, bem diferente de Elizabeth, Anastásia não tinha a menor paciência e não dava a menor importância para a manutenção de seu jardim. Então ela apenas deixava a terra livre para que sua filha brincasse a vontade.

E não pude evitar sorrir quando a vi. Seu cabelo preto estava curto e repicado, completamente diferente de como ela usava antes, sempre longo e trançado. Ela estava sentada num banco de madeira, as pernas para cima, apoiadas na cerca baixa que cercava a pequena varanda em frente a casa e com um livro nas mãos, dando total atenção a ele.

– Anastásia? – Chamei num tom de indagação, coisa que fez não só ela levantar o rosto para me olhar, como também as duas criancinhas loiras que estavam brincando. Um menino e uma menina.

Ela abriu a boca ao me ver.

– Emma! – Exclamou, se levantando com pressa do banco para andar até onde eu estava.

Deixei minha mala cair no chão quando ela se aproximou, recebendo um abraço apertado e usando a mesma força para retribuí-lo.

– Quanto tempo, garota – ela falou, se afastando apenas o suficiente para conseguir me olhar. – Você está tão diferente, mais bonita, com traços mais maduros… a cara da sua mãe!

Abri um sorriso enorme.

– Obrigada – disse. – Você está incrível.

Ela sorriu de volta.

– Estou surpresa de te ver aqui!

– Eu também estaria se fosse você – falei com um tom brincalhão na voz. – Mas resolvi que era hora de visitar minha mãe, sabe? Não nos vemos há cinco anos! Aliás, onde ela está? Eu duvido que aquele jardim ainda pertença a ela.

Ela estreitou os olhos, inclinando o corpo para trás levemente.

– Emma… você não ficou sabendo?

Franzi o cenho, confusa.

– Sabendo do quê?

Anastásia mordeu o lábio inferior brevemente, antes de dizer:

– Vamos entrar, que tal? Eu fiz bolo de chocolate, estava apenas esperando esfriar!

Dei um sorriso vacilante, estranhando o motivo de ela não ter respondido onde estava minha mãe.

– Tudo bem – respondi por fim, vendo-a sorrir e se virar, mexendo a mão para que eu a seguisse.

– Vão lavar as mãos para comer bolo, crianças – ela falou alto, batendo palmas numa tentativa de apressar as crianças. Eu não sei se ela realmente precisava desse incentivo, porque só com a palavra “bolo” eles já estavam correndo para dentro da casa.

Ri com aquilo.

– São seus netos? – Perguntei, enquanto entrávamos em sua casa. Ela confirmou com um aceno de cabeça. – Estão enormes!

– Têm apenas cinco anos, Em – disse rindo.

– Não muda o fato de que estão enormes! – Exclamei, deixando que o sorriso de felicidade por estar ali dançasse por meus lábios.

A casa de Anastásia ainda tinha os mesmos móveis. Ela tinha mudado várias coisas de lugar e mudado alguns objetos de decoração, mas ainda tinha a mesma essência de quando eu passava as férias por lá, entrando em sua casa pela janela da cozinha quando sentia o cheiro de frango assado que ela fazia aos domingos – sempre com vontade de me acabar neles, já que mamãe era um fracasso na cozinha. Cada móvel de madeira brilhava como se fosse novo, mostrando-se extremamente conservado, e seus papéis de parede haviam sido trocados, entretanto não por algo muito diferente.

Ela serviu suco em copos plásticos e colocou pedaços de bolo num pratinho, os levando até a sala, deixando lá para que as crianças comessem enquanto assistiam a algum desenho na televisão. E depois nós duas nos sentamos a mesa da cozinha para comer e botar a conversa em dia. Ela me contou sobre Lucinda, sua filha, que havia começado um emprego de corretora e, vez ou outra, precisava viajar para outras cidades – e que, por conta disso, ela cuidava dos netos o tempo todo. Eu contei sobre Claire estar grávida e ter se casado, sobre meu emprego, minha colega de apartamento, o pensamento de possivelmente começar uma faculdade. Era realmente confortante conversar com alguém que sabia da minha vida, que havia me visto nascer e crescer e reconhecia minha tristeza até no maior sorriso.

O problema era que… eu também a conhecia. E sabia que seus sorrisos eram vacilantes e que, todas as vezes em que ficamos mais de cinco segundos em silêncio, ela parecia desesperada em busca de um assunto. Não era natural, era tudo muito forçado.

– O que houve? – Perguntei, por fim, interrompendo sua fala sobre como “os tomates estavam maduros demais naquela época”.

Ela piscou os olhos lentamente.

– Perdão?

– Vamos, An, eu conheço você tão bem quanto você me conhece – respondi. – Sei que está escondendo alguma coisa.

Anastásia suspirou e abaixou a cabeça, evitando me olhar. Ela soltou um suspiro longo e trêmulo, e quando subiu seus olhos para mim outra vez, segundos depois, tinha-os inundados por lágrimas. Fiquei surpresa ao vê-la daquela forma, de certa forma até preocupada… ela não era o tipo de mulher que chorava muito fácil, bem diferente da mamãe e de mim.

– Você está me preocupando – confessei, franzindo o cenho.

– Em, você realmente não ficou sabendo, não é? – Indagou, soltando outro suspiro falho, coisa que me apertou a garganta. – Querida – pegou minhas duas mãos com as suas, colocando-as em cima do meu colo e as apertando com uma força desnecessária –, Lizzy faleceu há mais de dois anos.

Demorei alguns segundos para entender a força e seriedade daquelas palavras. E então o ar, de repente, se esvaiu. Eu não conseguia respirar, senti como se alguém segurasse meus pulmões nas mãos e apertasse os dedos em volta deles com uma força extraordinária. Nada seria jamais comparado com a sensação de saber que minha mãe estava… morta. Apenas o pensamento causava dor em cada fibra minha. Seus cabelos ruivos ondulados, cortados até o ombro de maneira rebelde, seus olhos azuis tão semelhantes aos meus, aquele sorriso tão bondoso e tão puro, sua voz melodiosa num canto que passeava pelos meus ouvidos enquanto cuidava das flores do jardim, seu toque tão suave, seu cheiro de jasmins… eu jamais teria aquilo novamente. E pensar nisso doía absurdamente.

Eu havia me esquecido dela. A filha que se esquecera da própria mãe. Por anos.

E então ela estava morta.

A dor e a culpa, naquele momento, me consumiam.

– Como? – Sussurrei, sentindo minha garganta se fechar.

– AVC – respondeu com a voz embargada, e senti suas mãos apertarem as minhas com mais força. – Eu a encontrei na cozinha.

Minha visão estava desfocada, eu não enxergava um palmo na frente do rosto. Sabia que Anastásia estava chorando, podia sentir isso em sua voz, mesmo que ela parecesse estar tão distante; mas não a via. Eu não via coisa alguma. E, a esse ponto, lágrimas já escorriam livres por meu rosto, embora eu ao menos pudesse senti-las ou sequer tivesse controle sobre elas.

Tudo o que eu pensava era que minha mãe estava morta. Que eu vivi anos sem saber disso, que chorei e reclamei de coisas que, naquele momento, pareceram imensamente banais. Enquanto isso, mamãe tinha um AVC no chão da cozinha e morria. Enquanto eu tinha minha vida inteira para ser feliz e escolhi me trancar num quarto e chorar, e esquecer que, apesar de tudo, eu tinha uma vida para viver, uma família e amigos que me amavam… que eu tinha minha mãe comigo, para me ajudar quando eu precisasse, para me amar até quando nem mesmo eu conseguia fazê-lo, para me abraçar quando tudo fosse muito insuportável e para me ajudar a carregar o peso da dor quando ela pesasse demais. Esqueci que algumas coisas faziam mais feliz do que outras deixavam triste.

– Em – Anastásia chamou, dando uma fungada em seguida –, eu não queria que você soubesse dessa forma… eu jurava que seu pai havia te contado.

Ouvir aquelas palavras foi como ser despertada de um transe.

– Peter sabia? – Indaguei, ouvindo minha voz soar alta e fanha demais aos meus ouvidos.

Anastásia sacudiu a cabeça, e dessa vez eu podia vê-la com clareza. Rosto encharcado pelas lágrimas, assim como o meu, como eu aos poucos ia sentindo, estava. Os olhos estavam vermelhos e a expressão abatida.

– Foi a primeira pessoa para quem liguei para dar a notícia – falou. – E no dia do enterro ele disse que você não estava em condições de participar da cerimônia.

Antes do som daquelas palavras, eu pensava que sabia como era perder o chão abaixo dos meus pés, acreditava que conhecia a força de uma punhalada no coração, achava que já tinha experimentado ter um sentimento sobrenaturalmente forte jogado contra mim. Naquele exato momento, naquele exato segundo… eu provei cada milésimo de cada uma dessas sensações ao seu extremo. Era quase inacreditável. Fui atingida por algo tão grande e tão pesado que fiquei com medo de que, se não estivesse encostada nas costas da cadeira, cairia para trás e não teria forças o suficiente para me levantar mais. Parecia mentira. Eu queria que fosse mentira. Queria gritar com Anastásia por mentir, queria perguntar como ela tinha a capacidade de inventar algo assim, queria colocar minha garganta para fora aos berros de como ela era uma mentirosa sem escrúpulos. Eu queria. Mas sabia que não podia. Sabia que cada palavra que saíra de sua boca era verdadeira. E isso acabava comigo.

– Preciso de dois favores, An – falei após alguns segundos.

– Pode dizer, meu amor – ela se inclinou na cadeira, relaxando os dedos das mãos que ainda não haviam soltado as minhas.

– Quero que me leve até o túmulo da mamãe – sussurrei, finalmente prendendo meus olhos azuis nos seus cinzas – e depois me leve até a rodoviária.

Ela franziu as sobrancelhas.

– Vou para Helena.

– Desculpe, mãe – murmurei com a voz rouca.

Não havia mais palavras a dizer, nem lágrimas a chorar. Estava diante do túmulo de Elizabeth Garth há uma hora e havia despejado cada palavra de amor, de culpa e de saudade que estavam pesando meu coração em formato de lágrimas e soluços. Não havia maneiras de descrever nenhuma delas, não havia uma forma de dizê-las. Ali, agachada diante do seu túmulo, tremendo e chorando e sentindo falta de sua presença física, sabia que cada lágrima era vista por ela, cada perdão aceito e cada sentimento que eu não conseguia expressar sentido.

– Eu vou amar você até meu último suspiro – sussurrei, mantendo meus olhos presos na foto sorridente que fora escolhida para ilustrar sua imagem no túmulo. – E prometo que vou me lembrar de você em todos os dias da minha vida.

O choro voltou e deixei que um soluço preso em minha garganta soasse livre pelo lugar completamente vazio.

– Juro que vou ser forte por você – continuei entre lágrimas – e que vou em busca da minha felicidade por mim.

Notas finais
E aí? Espero que tenham gostado!!! Deu pra saber um pouquinho mais da vida da Emma, né? Me contem nos comentários o que acharam, o que vocês acham que precisa ser melhorado, se vocês esperavam por isso e... o que vocês acham que acontece agora. Até domingo que vem, amores ♥