Not Over You

4 Capítulo 03 - Knock before entering.


Notas iniciais
Olá, amoras. Tudo bem com vocês?
Eu adorei os comentários do capítulo passado...vocês são tão amáveis, perfeitas, mordíveis!
Notei que chegaram alguns leitores novos, mas que não está deixando comentário. Por favor, né?! Vamos ter consideração aqui.
Espero que gostem do capítulo.
Boa leitura!

Decidir ficar em Londres havia sido uma decisão fácil no momento em que Claire me disse todas aquelas coisas. Agora que eu havia parado para pensar, talvez estivesse sendo muito precipitada.

Quando dissesse ao papai que talvez fosse ficar em Londres por mais tempo, tinha certeza absoluta de que ele ficaria frustrado, no mínimo me mandaria voltar para Montana no mesmo minuto. Mas, embora eu tenha vivido à custa dele por três anos, eu sabia que devia mesmo isso a Claire e, por isso, teria que desobedecê-lo. E é claro que eu não poderia viver por e com meu pai para o resto da vida. Também não poderia me esconder dos problemas e do meu passado para sempre.

Mas assustava, de qualquer jeito.

Arrumar um emprego não seria a coisa mais difícil do mundo. Talvez conversasse com Ethan para que ele me arrumasse um emprego em um dos restaurantes de seu pai. E, em último caso, Claire poderia me arrumar um emprego na empresa de seus pais. Mas só em último caso mesmo. Só depois de eu levar pelo menos vinte "não" na cara.

Assim que tomei café da manhã com Claire e Matt, arrumei a bagunça matinal do meu quarto e fui tomar um banho rápido. Se eu queria mesmo um emprego, era bom começar a procurar por um cedo. Sem me esquecer de que papai e eu ainda tínhamos que conversar. Peguei a toalha pendurada no Box de vidro do chuveiro e me enrolei nela, sequei bem os pés antes de abrir a porta para ir até o quarto.

Com as pontas dos pés corri silenciosamente até o quarto e quando abri a porta, esperando tudo, menos o que eu vi, tomei um susto. Na verdade, a sensação era bem conhecida por mim. Coração acelerado, quase saindo pela boca. Mas eu fiquei surpresa pelo que vi, pois de fato, naquele momento, nunca esperaria por isso.

Minha cama estava com as cobertas um pouco amarrotadas agora, Gabriel estava deitado sobre ela, com o travesseiro todo torto embaixo de seu pescoço, de forma com que sua cabeça ficasse mais alta, segurando um livro meu aberto sobre seu rosto, e dando total atenção àquilo. Estava usando seus óculos de armação transparente, que provavelmente não era o mesmo de três anos atrás. Vestia um terno preto, uma camisa azul clara e uma gravata também preta. Lindo, perigosamente lindo.

— Gabriel? — Chamei, me esquecendo de que estava usando apenas uma toalha branca e nada mais. Ele sequer levantou o rosto. — Gabriel, o que você está fazendo aqui? — Falei, agora um pouco mais alto do que antes.

— Hm? — Ele pareceu acordar do transe e então abaixou o livro ao mesmo tempo em que ergueu os olhos para mim. Tirou os óculos um pouco devagar demais, e então se levantou da cama. — Emma...poderia ter se vestido, pelo menos — ele falou meio constrangido, embora não tenha tirado os olhos de mim nem por um segundo.

— E você deveria ter batido na porta, em vez de sair entrando no quarto dos outros sem permissão — falei meio nervosa por notar o jeito como ele me olhava e perceber o quanto isso mexia comigo.

Andei em direção à minha mala, que eu havia deixado aberta do lado direito da cama, onde o livro que Gabriel havia pegado se encontrava. Puxei as primeiras peças que vi, e saí andando para fora do quarto, mas algo me impediu. Ou melhor, alguém.

Primeiro senti as pontas geladas de seus dedos compridos e grossos tocarem minha pele, na região do ombro, para depois sentir sua mão inteira apertar naquele mesmo lugar. Meu corpo entrou em estado de alerta no mesmo instante, e eu me afastei de seu toque, depois me virei e o encarei perto demais de mim.

— Precisamos conversar, Emma — falou duro, mas sua muralha de gelo parecia estar derretida quando disse aquilo, me olhando no fundo dos olhos.

Gabriel ficou me olhando nos olhos pelo que me pareceu uma eternidade, e tudo o que seus olhos transmitiam me dava medo, me causava arrepios. Desviei meus olhos. Como se eu já não me sentisse culpada o suficiente, ele ainda tinha que me olhar de uma forma tão acusadora, como se soubesse, como se apontasse o dedo na minha cara e dissesse: "você não tinha esse direito". Seu olhar era uma coisa com a qual eu não poderia conviver enquanto mentisse, enquanto o enganasse. E, eu tenho certeza que meu olhar denunciava exatamente minha culpa, minha tristeza, minha dor. Para Gabriel, pelo menos, denunciava.

— Não temos o que conversar.

— Pois eu acho que nós temos — deu um passo para frente e eu um para trás.

Gabriel ficou me olhando por alguns segundos, me analisando. E alguma coisa me dizia que ele percebeu que não importa o quanto perguntasse, o quanto tentasse arrancar de mim, eu nunca diria nada. E, sinceramente, não sei o que ele esperava ouvir. Porque eu via, eu sentia que ele queria que eu dissesse alguma coisa, ele estava esperando por isso. Mas percebeu que era um passo em vão, uma tentativa sem chances de sucesso.

— Posso só perguntar uma coisa? — Perguntou depois de alguns segundos em silêncio, depois de me analisar, depois de me despir com os olhos. Fiz que sim com a cabeça, embora estivesse incerta e receosa. — Por que foi embora três anos atrás?

Fiquei encarando-o sem dizer uma palavra, sem expressar nenhuma reação. Meu subconsciente viajou. Lembrei-me da nossa despedida, lembrei-me da nossa última noite, nosso último beijo, suas últimas palavras. Lembrei-me do quanto doeu depois, da dor que eu senti em me afastar. Lembrei-me de papai me jogando no chão e repetindo várias e várias vezes sem parar: "pare de pensar nele, pare de amá-lo". Lembrei-me da solidão, lembrei-me do escuro, das lágrimas salgadas, do aperto no peito, do vazio. Mas, sobretudo, me lembrei do motivo. Fui embora porque por mais que doesse ficar longe de Gabriel, também doía ficar perto dele. Doía de uma forma inexplicável. Queimava. Eu sentia queimar dentro de mim, e doía, mas eu não conseguia me livrar. Doía de uma forma tão prazerosa, que eu chegava a me sentir doente. E isso não podia estar certo.

— Você sabe por que — foi o que respondi, segurando as lágrimas, engolindo o enorme nó que se formou na garganta.

Virei às costas e saí do quarto, sem ser impedida por Gabriel dessa vez. Tranquei a porta do banheiro e encostei-me a ela, descendo lentamente o corpo, até ficar sentada no chão.

Só tinha um único motivo para eu ter ido embora. Ele era o motivo e sabia muito bem disso. Entretanto, eu também era o motivo. Ou seja, nós dois juntos fomos o motivo. Nós dois éramos perigosos demais juntos, sofríamos demais juntos. E eu simplesmente aceitei isso. Dentro do meu coração sei e sinto que fomos feitos um para o outro, mas não para ficarmos juntos. Sei que nunca vou amar tanto alguém e nada no mundo nunca vai me causar tanta dor quanto o ter longe de mim. Mas não é como se eu pudesse mudar isso. As coisas eram assim, e não tinham outra maneira de ser.

Era assim que tinha que ser. Assim foi destinado.

Distantes, separados, sofrendo, amando.

Troquei-me no banheiro, segurando as lágrimas por sentir uma dor tão grande que mal cabia no meu peito, uma dor que eu não permitiria transbordar pelos olhos, pois por experiência própria eu sabia que não resolveria.

Quando saí do banheiro, Gabriel não estava mais lá.



— Eu acho que você acabou de conseguir um emprego, então — Nicholas, meu mais novo chefe, disse sorrindo. — Como combinado, você começa segunda-feira, às sete.

— Perfeito! — Falei com um enorme sorriso no rosto.

Como não era um emprego cheio de formalidades e eu havia sido entrevistada por Nicolas em um dos sofás do próprio Café, apenas nos levantamos e trocamos um aperto de mãos, para que eu saísse logo depois, com passos apressados, pois já estava vinte minutos atrasada para meu almoço com Claire no Subway mais próximo a empresa, que devo dizer, não ficava tão perto do Café.



Entrei no táxi que parou em minha frente depois de eu sacudir a mão por alguns eternos minutos.

Consegui um emprego, e isso era um ótimo motivo para me atrasar. Tudo bem que não era um emprego excelente nem nada disso, mas eu ganharia muito bem apenas para servir café e trabalhar sete horas por dia. Nos sábados eu só trabalharia da uma as quatro e domingo era minha folga. E, bem, as pessoas que trabalhavam no lugar, incluindo Nicholas, pareciam pessoas de fácil convivência. E, melhor ainda, o Café era há duas quadras da casa de Claire. Parecia bom pra mim.

Não demorou muito para chegar ao Subway, e assim que o táxi parou, eu quase que joguei o dinheiro para o taxista e saltei para fora do carro. Claire estava em uma das mesas de fora, então logo que cheguei já podia avista-la. Junto dela estavam Matt e Gabriel. Infelizmente não tinha como apagar a cena de Gabriel deitado na minha cama essa manhã, e por um instante eu quase me permiti sorrir. Quase.

— Finalmente, Emma — Claire exclamou assim que eu me aproximei.

Puxei a cadeira entre Gabriel e Claire, que era a única vazia, e me sentei.

— Eu consegui um emprego — falei normalmente, então ergui meus olhos para Claire e sorri. — Foi mais rápido do que imaginei.

Quando Matthew abriu a boca para falar alguma coisa, que seria um provável “parabéns, você bem que merece”, devido a sua gentileza e carisma, Gabriel se levantou sem falar nada e entrou no restaurante. Todos nós ficamos calados por alguns segundos, depois que eu o segui com o olhar. Olhei para Claire e ela estava de olhos baixos, então olhou para Matthew e ele se levantou.

— Vou pegar algo para nós — falou sorrindo e saiu.

Claire e eu não falamos nada por alguns segundos, apenas ficamos nos encarando, o que foi realmente estranho, porque isso nunca aconteceu antes.

— Gabriel está meio chateado hoje, desde que chegou à empresa, então não ligue para seu comportamento — ela finalmente falou, parecendo meio receosa e um pouco preocupada.

— Tudo bem — falei dando um sorriso fraco. — Não que seja relevante, mas eu não esperava por outro tratamento quando voltei.

— Não sei por que, oras. Gabriel sempre te tratou bem em nossa frente, sabe, quando vocês tinham aquele...relacionamento.

Dei um sorriso de canto e não falei mais nada. Nem daria tempo já que no segundo seguinte ouvi o barulho da porta de entrada do restaurante, e por ela saíam Matt e Gabriel. Matthew estava cochichando alguma coisa no ouvido de Gabriel, enquanto o tal fazia uma cara feia e revirava os olhos.

Gabriel colocou a bandeja com os quatro copos de suco de laranja em cima da mesa, e Matt fez a mesma coisa com a bandeja dos lanches. Sentaram-se em seus lugares logo depois.

— Algum problema? — Claire perguntou ao notar a cara feia que Gabriel fazia.

Ele levantou os olhos, encarando-a e quando abriu a boca para falar, foi interrompido por Matt:

— Ele só estava querendo ir embora, pois tem umas coisas importantes pra resolver na empresa, mas eu o convenci que o estômago vazio não o ajudaria.

Todos na mesa ficaram calados e Claire apenas levantou a sobrancelha, para depois desviar o olhar de Gabriel e dar os ombros. Eu percebi, muito sem graça e um tanto quanto magoada, que aquela era uma desculpa inventada de última hora. Gabriel queria ir embora por minha causa, porque eu estava lá, e não era muito difícil notar que eu lhe causava certa...repugnância, talvez. Não sei bem o que pensar quando o assunto é ele.

Só não entendia o motivo de ele ter ido falar comigo essa manhã, já que eu lhe causo tanto desconforto assim. Gabriel nunca foi um ser humano decifrável, de fácil entendimento.

— Sabe o que me lembrei? — Falei meio sem graça, e todos viraram os olhos para mim. — Eu tenho que telefonar para papai, e só de lembrar, meu estômago se embrulha... Porque, bem, acredito que vamos ter uma séria discussão.

Abri a bolsa, peguei a carteira de dentro e tirei uma nota de vinte euros. Joguei-a em cima da mesa e depois me levantei, me atrapalhando um pouco e batendo com a bolsa na cadeira de forma desajeitada. Nada melhor do que deixar bem claro que havia entendido a péssima desculpa de Matt para a falta de educação e desconforto de Gabriel com a minha pessoa.

— Melhor ligar pra ele agora, certo? — Sorri sem jeito e fui me afastando de costas aos poucos. — Desculpem por ter me atrasado, aliás.

Virei-me e saí andando com a maior pressa, sem olhar para trás, ou sequer cogitar a ideia de voltar e pedir perdão por minha total falta de educação.



Seja raiva ou não – provavelmente era -, cheguei à casa de Claire batendo a porta. Andar por quase duas horas para tentar aliviar minha vergonha e entender Gabriel não havia sido uma ideia tão boa. Ele era o ser humano bipolar da história. Eu quem deveria querer ficar longe dele e não vice-versa. Eu quem deveria ter coisas importantes pra resolver e nem fazer questão de olhar na cara dele. É um idiota estúpido mesmo.

Abri a porta do quarto com força e, pela segunda vez naquele dia, Gabriel estava lá dentro. Mas dessa vez ele não estava deitado preguiçosamente lendo meu livro, e sim andando de um lado para o outro, impaciente. Não notou minha presença e parou de costas para mim, bufou e passou a mão pelo cabelo, o desarrumando.

— E pela segunda vez, você não bate antes de entrar — falei de forma grosseira, indo em direção à cama e jogando minha bolsa em cima dela.



— Você saiu do restaurante já tem duas horas — falou depois de alguns segundos em silêncio "digerindo" minha presença. — O que estava fazendo?

O fitei incrédula, quase acreditando que não ouvi realmente aquilo.

Finalmente eu conseguia enxergar o Gabriel mandão e arrogante. O dono da verdade, aquele egocêntrico desgraçado que me fazia sofrer de tanto amor. Gabriel sempre achou que tinha que saber de tudo, que não importa o quanto nossa relação era "não oficial", ele tinha direito de saber tudo sobre mim, sobre meus passos, minha vida. Achava que tinha o direito de sentir um ciúme enlouquecido de mim, mas que eu não tinha o mesmo direito sobre ele. Eu não deveria perguntar com quem ele estava, nem aonde ia, mas ele me fazia responder a essas perguntas. E, mesmo agora que não estávamos mais dormindo juntos, mesmo depois de três anos afastada, ele ainda achava ter esse direito.

— E desde quando minha vida é da sua conta? — Falei afiada e ele cerrou os olhos para mim.

Como sempre quando eu era grossa, o desafiava, o provocava, ele tinha aquela quase perda de controle. Seus olhos faiscavam, suas mãos se fechavam com força, sua mandíbula ficava visivelmente tensa e sua respiração mais pesada. E tudo isso por causa de uma simples resposta mal-educada, tal como a pergunta sempre fora. E isso acontecia quase sempre. Mas, bem, Gabriel é Gabriel, ele tinha um jeito muito bom de escapar dessas brigas, conseguir uma resposta de verdade e ainda se dar bem no final.

— Você sempre tem que ser grossa assim, Emma?

— Você sempre tem que achar que é meu dono, Gabriel?

Seu nome soou provocativo em minha boca, desafiador.

Ele quase deu um passo em minha direção, mas não o fez. Respirou fundo, tentando controlar a provável raiva por minha tão exuberante educação, então falou mais calmo, mais manso:

— Você não precisava ter saído daquele jeito.

— Ou eu ou você, certo? — Provoquei com um sorriso cínico.

Não podia controlar isso em mim, estava tremendo de tanta raiva e incredulidade por sua arrogância, sua falta de vergonha na cara.

— Porque todo mundo notou que ficar perto de mim estava difícil pra você.

Gabriel deu um passo para frente, parecendo um pouco fora de controle, e eu um para trás, assustada. Esbarrei a perna na cama e quase caí sentada, mas consegui me equilibrar. Ele ficou me olhando por um tempo, e talvez minha expressão não fosse tão boa, pois algo em seus olhos quase fez meu coração despedaçar. Ele deu dois passos para trás, olhando no fundo dos meus olhos, como se tentasse encontrar alguma coisa. Parecia...triste.

— Você tem medo de mim, Emma? — Perguntou baixo, com a voz rouca.

Desde que cheguei a Londres, cerca de oito dias atrás, enxerguei alguma coisa em Gabriel que jamais havia enxergado antes. Ele parecia tão vulnerável, tão exposto. Como se não conseguisse impedir. Se isso era impressão minha ou não, eu não sabia. Mas era o que parecia, era o que eu sentia. Uma coisa entre nós me fazia sentir mais próxima dele, embora não estivéssemos sequer aguentando olhar um para a cara do outro naquele momento, embora nós estivéssemos afastados há três anos.

Sem responder sua pergunta, falei do jeito mais frio que conseguiria naquele momento, sabendo o esforço estava fazendo:

— Eu acho que você deveria ir embora agora.

Era difícil falar tão friamente, pois, apesar de nossa discussão ridícula, sua presença fazia meu coração se aquecer de tal maneira que sempre me assustou.

Gabriel bufou e sem falar nada, saiu do meu quarto como um raio, fechando a porta com força. Era óbvio que ficar sem resposta o deixa irritado, ainda mais quando ele tenta mostrar pelo menos um pouco de educação ou...sentimentalismo. Tenho que dizer que fiquei surpresa com o jeito que ele me olhou quando me afastei. Aquilo parecia realmente afeta-lo.

Sentei na cama, olhando a porta do quarto.

Eu não tinha medo de Gabriel, não me afastei por medo do que ele pudesse fazer comigo, pois tudo o que tinha para fazer, infelizmente, ele já fez. Eu me afastei por medo de mim mesma. Medo de ficar perto demais dele e não resistir. Era mais fácil manter o controle enquanto estávamos distantes, mas a conversa era outra quando ele se aproximava me olhando nos olhos daquele jeito meio furioso e selvagem. Eu sei que eu me trairia. Eu sei que meu desejo e meu sentimento falariam mais alto do que a minha consciência, minha cabeça.

Apoiei meus braços nas minhas pernas e afoguei meu rosto em minhas mãos.

Algo me dizia desde que desci daquele avião, que as coisas iriam acontecer de forma surpreendentemente rápida. E essa "briga" no quarto, embora não tenha sido muita coisa, era a prova disso. Era impossível não pensar que as coisas iriam piorar, sendo que essa era a tendência.



— Você sabe que eu não sou a favor disso, não sabe? — Papai perguntou pela décima sétima vez desde que estamos ao telefone. Mas agora sua voz era um pouco mais cautelosa, como se fosse a última vez que iria perguntar.

— Eu sei, pai — respondi, então soltei um longo suspiro.

Queria ficar por Claire, porque ela precisava. Mas também queria ir embora. Eu temia tanto que algo acontecesse entre Gabriel e eu outra vez. E, caso acontecesse, não sei se suportaria. Não conseguiria me afastar de novo, e doeria ainda mais, porque, por mais que eu tentasse me enganar às vezes, eu sabia que só conseguia ama-lo cada vez mais. E isso não poderia ser certo. Não tinha como ser. E eu cansei de me perguntar por que acontecia comigo, por que não podíamos ter uma relação normal. E só de pensar em nós dois, não importa o que fosse, doía. Sempre doeu. Mas agora estava amenizado, como se eu tivesse tomado uma injeção para não sentir mais, para que isso adormecesse. Não queria passar por isso de novo, sentir isso de novo. E estar em Londres só me deixava cada vez mais aterrorizada, vê-lo vir atrás de respostas tão cedo me deixou assustada, saber que meu controle ficava abaixo de zero com ele por perto me causava arrepios. Perceber o quão loucamente eu ainda o amo acabava comigo.



— Eu vou te mandar um dinheiro até você conseguir um emprego um pouco melhor, porque seu salário não vai dar pra muita coisa — papai disse depois de alguns segundos em silêncio. — Me ligue pelo menos duas vezes por semana, ok? Gostaria de saber se você está bem.

— Obrigada, pai — falei sinceramente. — Eu vou ligar.

— Nunca, sob qualquer circunstância, se esqueça de que eu te amo — ele falou, como sempre falava todas as noites antes de eu dormir nos últimos três anos.

— Eu também te amo.

Papai finalizou a chamada após obter minha resposta.

Conversar com papai não foi tão ruim quanto eu pensei que fosse. Claro que, no começo, ele ficou frustrado e se recusou a aceitar que eu ficasse, mas depois que falei tudo o que Claire disse pra mim, ele conseguiu entender a culpa que senti e, como sempre teve um carinho grande por minha melhor amiga, entendeu que o certo para eu fazer era ficar. Mas não sem antes dizer mil vezes que era para eu ficar o mais longe que conseguisse de Gabriel.

Confesso que estava torcendo para que papai não fosse nem um pouco gentil e me mandar voltar para Montana e eu, fraca e covarde, voltaria. Mas também estava torcendo para que ele dissesse que está tudo bem – como ele, de fato, fez – e então eu ficaria por perto, perto da minha amiga, perto dos meus amigos. Perto de Gabriel...perto de mim mesma.

Deitei na cama, abracei o travesseiro e, aos poucos, enquanto Gabriel reinava em meus pensamentos tal como o meu medo, adormeci.

Notas finais
E aí, gostaram? Vão me deixar seus lindos comentários? Estarei esperando!
Até o próximo, amoras.
Beijos ;3