Not Over You

3 Capítulo 02 - Change of plans.


Notas iniciais
Olá, cogumelos ;3Então, fiquei muito feliz em ver que vocês estão gostando da história até agora. Isso me anima bastante, acreditem.Esse capítulo explica tudo o que você devem saber por agora, então tudo vai ficar bem claro. E, tenho que dizer, esse é o capítulo que eu mais gostei até agora, porque...bem, não sei dizer.Espero mesmo que gostem!Boa leitura.

Meu corpo ficou tenso, meus ossos congelaram, minha boca secou e eu sentia meu coração ameaçar sair por ela a qualquer momento. Eu estava completamente paralisada, surpresa, estática, aterrorizada, feliz, triste, não sabia dizer ao certo. As emoções se misturavam dentro de mim e eu não sabia dizer qual delas dominava.

Antes, eu não fazia ideia do que iria sentir quando encontrasse Gabriel, não tinha ideia do que faria quando nos víssemos novamente. Isso não havia mudado com ele a alguns metros de distância. Eu continuava sem saber o que fazer e meus sentimentos estavam bagunçados dentro de mim, como se eles lutassem ardentemente para um dominar todo o resto.

Tudo o que passamos voltou em minha cabeça de uma vez só, e eu tinha certeza que não me esquecera de nada. Lutei para tentar afastar todas as lembranças, mas o vendo ali, na minha frente, depois de tudo o que passamos, depois do que eu passei, era como se eu tivesse escrito todas as nossas noites, conversas, beijos, danças, brigas; e memorizado cada uma até seu último detalhe. Desde a parte em que ele me abraçou no hall de entrada de seu apartamento, onde tudo começou, até nossa noite de adeus, sua indiferença fria e cortante, porém esperada, sob mim.

Tudo começou seis anos atrás. Embora já tenhamos nos conhecido há muito mais tempo, as coisas eram diferentes. Com quinze anos, eu fui para Montana morar com papai. Estava um pouco magoada, fui traída não só pelo meu namorado que eu, como a adolescente boba e iludida que era, acreditava ser meu "verdadeiro amor", como também por uma das minhas melhores amigas. Voltei três anos depois. Estava diferente. Continuava alegre, saltitante e brincalhona, mas eu já não me iludia mais.

Eu estava com dezoito anos, Gabriel com vinte e dois. Ele estava namorando, fiquei feliz por ele, afinal, era como meu irmão mais velho. Mas ele não me olhava mais como sua segunda irmã mais nova.

Uma semana depois, demos nosso primeiro beijo porque ele estava bêbado e eu era boba demais para impedir alguma coisa. Duas semanas depois, dormimos juntos por desejo. E assim foi, até que encontros semanais se transformaram em encontros diários, até que ciúme de amigo se tornou ciúme obsessivo de dois apaixonados.

Nos provocávamos ao máximo e magoávamos um ao outro, ficamos dependentes um do outro — eu, pelo menos, fiquei. Nossas brigas eram normais, mas mais normal ainda era nós dois acabarmos juntos na cama depois de cada uma. Era normal eu sentir ódio de mim mesma por sempre ceder, era normal eu me sentir como se fosse somente dele, como se eu não devesse ser de mais ninguém, sendo que ele dormia com outras garotas sempre.

Não tínhamos um relacionamento. Todas as pessoas a nossa volta sabiam disso. Todos eles odiavam o que nós tínhamos, porque ao contrário de nós, eles perceberam que isso estava nos destruindo e nos afundando de uma forma perigosa, sem volta.

Isso durou três anos. Então eu cansei. Cansei do que nós tínhamos e ao contrário de Gabriel, eu consegui enxergar o mal que aquela "relação" estava nos fazendo. Fugi. Peguei um avião para Montana em nossa última noite juntos e fui embora. Só eu sei o que passei longe dele. Só eu sei o que eu sofri, o quanto doeu, a enorme vontade que eu tinha de dormir e não acordar mais, meu desejo intenso de poder esquecer tudo o que aconteceu.

Escondia uma coisa de Gabriel. Uma coisa da qual ele não precisava saber, porque apesar de ter feito um grande estrago em minha vida, não mudaria em nada na dele. O máximo que ele faria seria me olhar friamente, do jeito que sempre me olhou, e não dar a mínima importância. Eu tinha medo de que isso acontecesse, e papai me garantiu que aconteceria e que, por isso, eu deveria ficar quieta e seguir minha vida sem aquele "traste".

Claire era minha melhor amiga e irmã de Gabriel. Eu não contei nem para ela para onde eu havia fugido, apenas para ele. E ele nem sequer foi me procurar. Embora eu estivesse fugindo com a – falsa – intenção de ficar longe dele, tinha esperanças de que ele fosse atrás de mim, de que ele mostrasse que se importava, de que ele me amasse, nem que fosse pelo menos um pouco. Mas a realidade me chocou mais uma vez.

Três anos depois, eu estava ali, eu voltei. Voltei por Claire, pois ela se casaria em duas semanas. Ela e Matthew estavam a duas semanas de um lindo futuro juntos, como marido e mulher. E eu tinha que me lembrar, a cada segundo desde que tinha saído daquele avião, de que era por isso que estava ali, pelo casamento. E que no dia seguinte ao da cerimonia, eu voltaria para Montana.

— Por que tanta surpresa assim? — Consegui dizer para Ethan, tentando lhe oferecer o melhor sorriso que conseguia naquele momento, porque se tinha uma coisa da qual eu era ótima, era fingir indiferença. — Claire se casa em duas semanas, era óbvio que estaria presente.

— Duas semanas? — Ethan perguntou sorrindo e andou até onde eu estava, rodeou minha cintura com os braços e me apertou em um abraço carinhoso.

Fechei os olhos, e devolvi o abraço na mesma intensidade. Olhos fechados, pois sabia que a única coisa que conseguiria olhar seria Gabriel, e estava, ao máximo, tentando evitar isso... Embora minha vontade de correr para abraçá-lo, afogar meu rosto na curva de seu pescoço e inalar seu cheiro para dentro de mim outra vez ficasse cada vez mais forte. Gabriel havia se tornado a única pessoa para quem eu queria dizer tudo o que aconteceu nesses últimos três anos, mas também era a pessoa de quem mais tinha medo de contar. Desejava ardentemente que ele me aninhasse em seu colo e me deixasse chorar tudo o que vinha segurando desde que fui embora, dissesse que está tudo bem e que, embora o tenha magoado, ele conseguia me entender. Era tudo o que eu mais queria, mas era o mais longe do possível na minha linha de possibilidades.

— Eles se casam em novembro, Emma — falou assim que me soltou. — Ainda estamos em fevereiro.

Franzi as sobrancelhas, confusa.

Como assim só em novembro? Eu comecei a me sentir muito perdida. Digo, Claire disse que era dali a duas semanas, ela sabia que eu vinha para o casamento. Não tinha como isso ser um engano, era impossível que fosse.

— Ethan! Gabriel! — Ouvi a voz de Claire surpresa atrás de mim.

Virei-me no mesmo instante, vendo que Claire estava de olhos arregalados, provavelmente pensando a mesma coisa que eu: em minha primeira hora naquela maldita cidade, eu já tinha dado de cara com Gabriel.

— Então você se casa só em novembro? — Perguntei no mesmo instante, não conseguindo conter minha língua, como sempre acontecia quando eu estava chateada, com raiva ou triste. Essa era uma das coisas que mais causavam brigas entre Gabriel e eu, porque depois disso, vinham as provocações.

Por alguns segundos, Claire não sabia o que falar. Ela apenas ficou me encarando com a boca meio aberta e um guardanapo de pano na mão. Mas isso não durou muito, pois ela, como alguém que me conhecia muito bem, sabia que não passaria dois minutos e eu viraria as costas e iria embora.

— Emma, eu... — ela começou, mas não terminou. Não tinha o que falar. A única verdade evidente ali era que ela mentiu para mim, e eu sequer sabia o motivo. E Claire não parecia disposta a responder. Não naquele momento, pelo menos.

Conseguia pressentir um “eu ia te contar” saindo da boca da Claire, mas alguém foi mais rápido:

— É bom te ver, Emma — ouvi aquela voz. Aquela voz que até agora só tinha ouvido sussurrar meu nome em três anos. Aquela voz que me causava sensações irracionais. E o dono daquela voz... Ah, o dono daquela voz era perigoso demais para mim. Meus pelos do corpo se arrepiaram e senti um calafrio subir por minha espinha.

Era evidente que Gabriel estava tentando amenizar a situação, porque ele sempre odiou ver Claire e eu discutindo ou brigando.

Virei-me para Gabriel e o notei ao lado de Ethan agora. Perto demais de mim, mais perto do que eu deveria permitir. Podia sentir seu perfume masculino misturado com o cheiro de menta que saiu de sua boca. Ele continuava lindo. Seu cabelo cor chocolate parecia um pouco mais escuro do que de costume, mas era porque estava molhado e bagunçado, e talvez estivesse um pouco mais comprido. Seus olhos verdes continuavam escuros e perigosamente profundos. Sua barba continuava por fazer e ele também continuava uns bons vinte centímetros mais alto que eu, provavelmente mais. Gabriel usava uma calça jeans escura e uma blusa preta fina de manga comprida e gola V, e seu casaco marrom estava pendurado atrás da porta. Seus ombros ainda eram largos como me lembrava, mas ele parecia mais forte.

— Com licença — falei rapidamente, passando por Ethan e Gabriel, e ignorando as poucas vezes que Claire chamou por mim antes que eu desaparecesse escada a cima.

Claire mentiu para mim, e isso me fazia achar que era demasiada idiota. Ethan não me acharia uma péssima amiga, porque ficou claro que estava chateada com minha melhor amiga. E Gabriel, bem, eu queria que a opinião de Gabriel em minha vida fosse para o inferno. Tudo o que eu menos desejava era imaginar o que ele estava pensando. Mas era impossível.

Ele deve ter percebido o quão infantil eu continuava sendo. O quanto ficava magoada quando mentem pra mim, e o quão fraca isso me tornava. O quanto eu era ingênua, capaz de acreditar em qualquer coisa que me dizem. Ele deveria estar rindo de mim por ter agido de forma tão ridícula. Ou devia, no mínimo, estar me achando uma pessoa muito mal educada por tê-lo ignorado completamente. Talvez ele nem estivesse pensando nada, e por mais que seja estranho, era o que mais doía. Nem que fosse para me achar uma tola, mas que pelo menos pensasse alguma coisa.

Abri minha mala em cima da cama e tirei de lá uma calça jeans, uma blusa fina e um casaco, vesti-me rapidamente e calcei sapatilhas azuis. Joguei minha bolsa no ombro e desci as escadas depressa. Por sorte, não havia ninguém em casa, então saí rapidamente, antes que a minha sorte resolvesse se mostrar ausente como sempre, e alguém aparecesse.

Assim que virei para descer as escadinhas da entrada da casa de Claire, minha cabeça foi de encontro com um corpo bastante alto, tendo as costas cobertas por um fino tecido preto. Xinguei-me mentalmente por saber exatamente de quem se tratava.

Gabriel se virou para mim, e só então percebi que ele estava fumando. Dei três passos para trás, quase encostando minhas costas na porta e então, sem que ele pudesse ver, mordi o lábio levemente antes de erguer a cabeça para encara-lo. Senti-me uma garota boba de 18 anos outra vez. Ele soltou a fumaça do cigarro aos poucos, e sua boca parecia mais carnuda enquanto fazia um bico quase inexistente.

— Vai sair? — Perguntou devagar, então deu mais uma tragada em seu cigarro e virou o rosto devagar antes de soltar a fumaça, com a intenção de que ela não viesse para meu rosto.

— Vou dar uma volta — respondi meio sem graça. — Tchau — falei querendo acabar logo com aquilo, e então passei por ele rapidamente, mas Gabriel, como sempre, foi mais rápido, e segurou meu braço esquerdo enquanto passava por ele.

— É realmente bom te ver, Emma — falou calmo, e embora eu sentisse algo por trás daquilo, continuei quieta, evitando olhar em seus olhos. Ele respirou fundo, tentando manter a paciência. Eu sabia perfeitamente bem que Gabriel odiava quando não o olhava nos olhos. — Não demore muito, Claire pode e vai se preocupar — disse de forma paciente e então me soltou.

Saí de perto de Gabriel e da casa de Claire em passos largos e rápidos. O lugar onde sua mão me segurou estava formigando, embora sua pele não tenha de fato tocado a minha. Já estivemos tão mais perto que isso, que esse simples toque poderia não significar nada. Mas significava. Eram três anos separados. E embora eu soubesse antes, naquele momento uma certeza absoluta gritava em minha cabeça: nada mudou, talvez nunca mudasse. E a possibilidade de que eu fosse sentir isso eternamente me assustava. Pensar que iria sempre me sentir inteiramente dele era tortura.

Andei normalmente por um curto período de tempo, até encontrar uma pracinha quase vazia, se não fosse pelas três crianças brincando no gramado enquanto uma mulher observava tudo atentamente, e um velho sentado em um dos três bancos da minúscula pracinha.

Sentei no mesmo banco em que o idoso estava, mas mantive certo espaço entre nós dois. Talvez ele não quisesse companhia. Eu não queria conversar, mas não queria ficar sozinha. O senhor virou o rosto para mim, sorrindo, com as mãos apoiadas em sua bengala de madeira escura.

— Está esperando seu pretendente? — Ele perguntou simpático.

Sorri.

— Não. — Respondi. — Eu não tenho um pretendente.

— Todo mundo tem um pretendente — ele disse sorrindo e então voltou a olhar para frente, com uma expressão serena e concentrada.

Não disse nada por um tempo, nem o senhor. E entre todos os sentimentos que rodeavam meus pensamentos e o vento gelado que soprava em meu rosto, senti meus olhos arderem e antes que pudesse evitar, algumas lágrimas quentes, daquele tipo que parece machucar sua pele, escorriam por minhas bochechas.

Claire mentira para mim, e isso me levou a ter que rever Gabriel cedo demais, antes de estar preparada, embora eu soubesse que nunca ficaria preparada para revê-lo sem qualquer tipo de sentimento, fosse mágoa, amor ou desejo. Sempre teria alguma coisa ali. Talvez enterrada, talvez apagada. Mas sempre teria. E quando eu o encontrasse, essa coisa se acenderia, ressurgiria. E tudo aconteceria outra vez. Do mesmo jeito que não conseguia evitar pensar que seria dessa vez. Tinha medo de cair nas mãos de Gabriel de novo, de passar por todo aquele inferno misturado com o paraíso outra vez. Talvez isso fosse inevitável, talvez não fosse. Odiava pensar que minha vida, meu destino estavam baseados em tantos "talvez". Odiava não ter controle sobre mim, sobre meus sentimentos, sobre meus sentidos. Mas eu também gostava. Por mais que fosse cortante e machucasse demais ser tão de Gabriel como eu era, não conseguia me imaginar desse jeito com outra pessoa, não conseguia acreditar que um dia, talvez, eu não fosse mais sua. Doía. E eu não queria que isso doesse. Eu queria sentir dor por ficar perto dele, queria sentir repulsa de Gabriel. Mas eu simplesmente não conseguia, não parecia uma coisa plausível nem possível para mim. E ninguém nunca entenderia isso. Nem eu entendia.

A mentira de Claire parecia ser inexistente naquele momento e a única coisa que me fazia chorar era o desespero. Puro e simples medo. Medo de voltar a passar tudo o que passei antes. Desespero por não ter a mínima ideia do que fazer, por não saber para onde correr, nem o que temer. Desespero e medo por estar perdida, fraca. Desespero e medo por saber que não tinha controle e que, a qualquer momento, eu iria me render, e que eu sabia disso...também sabia que uma parte de mim queria desesperadamente fugir e a outra queria ardentemente ficar. Uma parte de mim lutava para não ter Gabriel sobre mim outra vez, e a outra parte desejava isso, e somente isso.

No momento em que ergui meus olhos, notei que a mão do senhor estava esticada sobre meu colo, alguns centímetros acima de minhas mãos, que estavam com os dedos entrelaçados, sob minhas pernas. Ele segurava um lenço de pano branco com a letra G bordada no canto, em vermelho.

— Obrigada — agradeci timidamente, pegando o paninho e secando minhas lágrimas. Que vergonhoso, chorando no meio da rua como se fosse uma garotinha quando machuca o joelho.

Quanto tentei devolver o lenço ao velho, ele apenas negou com a cabeça e voltou a olhar para frente, como se aquilo fosse a melhor coisa do mundo. Ele parecia um homem calmo, sem qualquer tipo de conflito recente com a vida. Olhei para frente também, na busca de alguma coisa que me fizesse encontrar a mesma serenidade que ele. Mas não vi nada. Apenas casas.

Levantei do banco e puxei as mangas da blusa. Olhei o senhor uma última vez antes de voltar para a casa de Claire e sorri sem mostrar os dentes. Ele continuava sem me olhar, mas abriu um pequeno sorriso antes de eu virar as costas.

Claire não costumava mentir pra mim. Então com certeza havia um grande motivo para ter feito o que fez. Embora não fosse uma mentira tão grande e pudesse ser possível que eu estivesse sendo dramática, voltar para Londres era um grande passo para mim e Claire sabia disso. Ela sempre soube do meu amor doentio por Gabriel, e sem dúvidas deve saber o quanto foi difícil para eu ir embora, e como seria ainda mais difícil voltar e ter de me controlar. Isso porque ela nem sabia de tudo.

Mas eu definitivamente precisava ir embora. E só voltaria para o casamento.

Foi com o pensamento de que Claire e eu tínhamos que conversar que eu cheguei a sua casa, de táxi, já que não conseguia lembrar o caminho de volta.

Entre bater ou não na porta, eu me sentiria muito mal educada se não batesse, mas tenho certeza que Claire me bateria caso o fizesse, então entrei em sua casa e não havia ninguém na sala, mas conseguia ouvir conversas vindas de algum outro cômodo.

Pendurei meu casaco atrás da porta, notando que o casaco de Gabriel continuava ali, junto com mais três. Segui as vozes e cheguei até uma das portas que tinham por ali, e ao abrir, encontrei a cozinha, onde Gabriel, Ethan e Matthew conversavam sentados à mesa da cozinha, e Claire fazia alguma coisa no fogão.

— Demorou — Claire comentou baixo, sem se virar para ter certeza de que era mesmo eu que havia entrado. Ela estava tentando ir com calma, mas sua preocupação falava um pouco mais alto, embora fosse visível que ela estava receosa. Talvez pensasse que eu fosse ser grossa ou fingir que ela era invisível.

— Estava com saudades de Londres, fui dar algumas voltas — dei os ombros e me sentei ao lado de Matthew, de frente para Ethan, tentando ignorar a presença de Gabriel ao máximo. Pendurei a bolsa nas costas da cadeira.

— Foi o que Gabriel falou.

Claire, os rapazes e eu ficamos sentados na mesa da cozinha, conversando, comendo panquecas e tomando chá, como fazíamos antes. Foi o único momento em que me esqueci das coisas que Gabriel e eu passamos, e consegui agir normalmente e rir com vontade, embora quando nossos olhares se cruzavam ou quando via seu sorriso divertido brincando em seus lábios, não conseguia fingir que aquilo não me arrepiava nem mexia comigo. Até mesmo quando nos lembrávamos das coisas absurdas que Gabriel e eu fizemos todos se meterem, eu ria e ele também. Mas conseguia me lembrar de que depois de cada uma dessas coisas, eu só amava Gabriel mais e mais, e o final da noite éramos nós dois em sua casa, nos amando loucamente em sua cama.

Talvez eu não tivesse me esquecido das coisas que Gabriel e eu passamos nem nesse momento, mas consegui bloquear as ruins. E embora minha cabeça estivesse gritando sem parar que aquilo era perigoso, eu dei os ombros e continuei rindo. Eram meus amigos ali, apesar de tudo.

Depois de duas horas de conversas engraçadas e lembranças embaraçosas, Ethan e Gabriel foram embora. Gabriel e eu preferimos nos despedir um do outro a distância e eu agradeci silenciosamente por isso, pois do jeito que ele era cara de pau, era bem capaz de me abraçar, e caso isso acontecesse, eu não poderia afirmar que continuaria "sob controle". Deixar bem claro que eu me mantinha fisicamente sob controle, mas não mentalmente e sentimentalmente, é importante.

— Emma? — Claire chamou baixo, colocando a cabeça para dentro do meu quarto.

Fechei o livro Orgulho e Preconceito, o coloquei sobre a cama, ao meu lado, e levantei a cabeça, encarando Claire. Ela sorriu ao olhar para o livro e notar que era aquele que ela me deu quando ainda tinha quatorze anos.

— Acho que você precisa de explicações, certo? — Falou meio envergonhada, e andou até a cama, se sentando devagar na pontinha.

Desencostei as costas do travesseiro, ficando com as costas eretas, e puxei as pernas, sentando igual a uma índia.

— Só queria entender por que você mentiu pra mim — confessei sem evitar mostrar que eu estava mesmo confusa, magoada. — Você sabia que era uma enorme dificuldade voltar para Londres, mas eu voltei por você. Voltei para então descobrir que você mentiu pra mim. Por que, Claire? Por quê? — Falei rápida e de forma acusadora, o que me fez sentir uma péssima amiga nos minutos seguintes.

— Porque você me abandonou, Emma — ela confessou, se levantando da cama e começando a andar de um lado para o outro, enquanto gesticulava gestos com a mão. — Você foi embora, sem nem me dizer para onde estava indo. Ligava-me a cada dois meses e isso quase me matava. Eu nunca sabia se você estava bem ou não. No começo, tinha a dolorosa impressão de que você estava se afundando em uma dor horrível e não eu tinha ideia do que fazer. Imaginei que você estivesse em Montana, você sempre foge pra lá quando quer escapar das dificuldades e dos problemas. Aliás, você sempre foge, não é? Mas esqueceu-me aqui. Esqueceu que eu sou sua amiga e que a cada dia eu me roía de tanta preocupação. Esqueceu que sempre precisava de você, principalmente quando Matthew ficou doente e eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer — respirou fundo. — Então eu vou me casar, e queria que, pelo menos pra isso, minha melhor amiga estivesse do meu lado. Ajudando-me a escolher tudo, me ajudando a manter tudo sob controle, me acalmando... Será que minha mentira foi tão cruel assim? Você vai me deixar outra vez, por tentar te ter por perto? — Perguntou, finalmente parando no lugar e me encarando no fundo dos olhos.

Fiquei muda, estática, completamente sem reação. O que fazer? Não tinha nada que eu pudesse fazer. Eu era a errada da história. Pensei que estava fazendo o melhor para mim indo embora e mantendo segredo de onde estava, mas magoei Claire e isso, consequentemente, me magoava também. Depois fiquei brava por ela ter mentido para mim, mentido para me ter por perto, porque ela me conhece bem o suficiente para saber que eu não voltaria se ela dissesse que só me queria ao seu lado, sem um motivo aparente. Porque eu andei sendo uma amiga péssima durante três anos.

E depois de tudo isso, minha determinação de ir embora e só voltar para o casamento evaporou. Não era como se eu tivesse outra escolha. Eu devia isso a Claire, devia isso aos meus amigos. Talvez devesse isso a mim mesma. Talvez fugir não tenha sido a escolha certa, e eu estava cansada de tomar decisões erradas para fugir outra vez.

— Desculpa, Claire — pedi, me levantando e parando em sua frente. — Eu não fazia ideia de que você ficava tão preocupada, nem de que precisasse tanto assim de mim... Porque você sempre foi tão forte, que eu sempre pensei que fosse eu quem precisava de você o tempo todo, e nunca cogitei ao contrário. — Mordi o lábio e desviei os olhos para baixo por alguns segundos. — Eu não vou embora agora — falei devagar. — Vou procurar um emprego, sabe? E caso eu consiga alguma coisa, eu fico por aqui, pelo menos até o seu casamento — dei um sorrisinho sem graça e observei Claire me olhar sem expressar reação.

— Tudo bem — ela gritou animada depois de alguns segundos de silêncio e um sorriso enorme nasceu em seus lábios.

Ás vezes eu ficava chocada com a facilidade que Claire tinha de perdoar as pessoas.

— A gente vai ter tanta coisa pra arrumar pro meu casamento — ela falou empolgada, me abraçando pelos ombros e me guiando para fora do quarto, até a cozinha. — Nossa, vai ser tão divertido fazer tudo isso com a minha melhor amiga.

Era impossível não rir da enorme empolgação de Claire.

— Tudo bem, mas primeiro, você tem que me ajudar a conseguir um emprego — comentei ainda rindo, vendo a alegria tão grande da minha melhor amiga.

Notas finais
E aí, o que acharam? Espero mesmo que tenham gostado e que deixem seus comentários cativantes e inspiradores.Beijos, amoras ;3