Not Myself
1 He Can Only Hold Her
Notas iniciais
Ela está apenas preocupada.
As vezes, quando não falamos nada, Annie se manifesta com alguns suspiros. Nunca foi fácil para nós manter uma conversa. Do contrário, Annie Cresta faz gestos que eu, com o tempo, aprendi a interpretar. Ela está preocupada agora, porque seu corpo fica rígido de tensão, e ela se agarra a mim forte demais para uma pessoa tão pequena quanto ela, e encosta a cabeça no meu peito, tentando fazer de mim um casulo, tentando fazer de mim sua morada, tentando se livrar do que quer que esteja em sua cabeça naquele momento.
No seu ouvido, eu sussurro palavras de conforto: Está tudo bem Annie. Estamos sozinhos aqui. Estamos no Distrito 4, na praia, sozinhos. Não está sentindo as águas nos seus pés? Está tudo bem, vamos. Relaxe.
Annie Cresta continua com os braços em volta ao meu corpo, com a cabeça em meu peito. Eu não digo mais nada, pois reparo que se mantém menos tensa.
Ela e eu nunca conversamos muito. Para mim, Annie Cresta estava morta antes de sua edição nos Jogos Vorazes começar realmente. O fato é que ela não treinava junto com Carreiristas dentro do Distrito e, pelo que eu sabia, somente passava os dias costurando redes com a família. Naquele ano, naquela edição, eu era mentor pela terceira ou quarta vez. Não deixei de auxilia-la em momento algum – mas escolhi o garoto naquele ano. Quando ele morreu e ela enlouqueceu, abandonei a televisão e me preparei para ver dois corpos chegando ao Distrito Quatro num caixão fechado, e certo de que no ano seguinte, algum garoto de 18 anos iria se voluntariar para os jogos.
Foi a primeira vez que Annie me impressionou.
Quando eu soube de sua vitória.
Quando ela sobreviveu.
Desde que ela enlouqueceu, tenho a visitado para saber sobre sua saúde mental. Mags o fazia mais do que eu, mas quando percebi que Annie preferia minha companhia – por meio de gestos, que naquela época, ainda aprendia a compreender – eu me vi cercado. Ela tinha me cercado. Seus olhos, azuis, me olhavam em expectativa. Seus lábios formando sorrisos raros, que eu por diversas vezes passava horas a persuadi-la para exibi-los. Cabelos ruivos, que brilhavam quando eu conseguia fazer com ela ao menos deixasse a sala da casa na vila dos vitoriosos e olhasse para o céu, o sol, o mar. Ela segurava a minha mão quando eu mal previa. Ela não entendia nenhum sinal de charme que eu, inconscientemente, possa ter mandado. Ela não entendia piadas, sarcasmos, malicias, mas me fazia sorrir de verdade quando constatava coisas como uma criança. Quando um detalhe lhe fazia perceber que estava vivendo, que ainda respirava, e que o mundo horrível do qual presenciou foi abandonado numa arena. Diferente de qualquer outra mulher, e diferente de mim, Annie era pura. Me cercando com perguntas sem respostas e olhos curiosos, e crises que só eu conseguia fazê-la parar. E quando vi, quando eu reparei, eu a amava.
Desde então, todas as vezes em que Annie perde a cabeça, eu me perco um pouco também.
Annie ainda me faz de casulo, quando move os lábios devagar entre sussurros, completando toda uma sentença. Ela trabalha com as palavras de forma devagar, praticando-as, tendo a certeza de que são as certas, de que são aquelas que ela gostaria de pronunciar.
“Suponha que eu diga, que eu estou... no meu melhor comportamento” ela diz. “E há momentos em que eu perco minha mente preocupada. Minha mente defeituosa. – louca” ela sussurra ainda mais a ultima palavra. As vezes, procuro fazer com que Annie não diga, cite ou pense nisso. Ela tem saído mais pelo distrito, e com isso, ouve ainda mais o que as pessoas dizem – que ela ficou louca. Ela se importa hoje um pouco menos do que chegou a se importar um dia, mas ainda sim, Annie sabe o que é. Annie sabe o que diz, e o que sente. É a pessoa mais sensitiva que conheci.
Annie Cresta, minha amada, nunca nega ajuda, nem oprime sentimentos, nem esconde pensamentos. Ela doa alimentos às crianças mais pobres. Ela abriga pessoas doentes ao relento e tenta curá-las. Ela abraça pessoas aleatoriamente, se percebe um traço de tristeza em seus rostos. Eu a chamo de solidária. Eles a chamam de louca.
Que sejamos loucos, então.
“Você ainda iria me querer quando eu não sou eu mesma?”. Me pergunta. “Você me esperaria enquanto eu sou outra pessoa?” Termina sua linha de raciocínio.
Eu não sei qual parte de mim ainda não conseguiu mostrar abertamente a ela tudo o que sinto. Qual parte de mim ainda não demonstrou aquela mulher o quão grato eu sou pelo seu amor, por me amar e perdoar em todas as minhas partes sujas, pervertidas e perdidas. Eu a abraço ainda mais, a ninho próxima a mim. Procuro mostrar em gestos como a amo, mas não sou tão perceptivo quanto ela. Não sou bom nisso. Não sou metade da pessoa que Annie é. Tê-la comigo é uma benção.
“Amo cada parte de você” Respondo. “Cada parte que te trás até mim. Amo cada parte afetada, lúcida, neutra. Eu amaria todas elas, mesmo que elas não me amassem reciprocamente. Eu te esperaria quando você não fosse você mesma, e eu te amaria quando você mesma não for você. Eu só sei que, se há você no meio, e lá onde eu estou.”
Annie enrola suas mãos em minha camisa durante todas as minhas palavras. Percebo que está anoitecendo, que temos que voltar para nossas casas, ou ao menos acender alguma fogueira para nos manter aquecido, mas não me sinto capaz de quebrar a bolha em torno de nós que Annie criou ao me levar a falar como sou apaixonado por ela.
Como eu sou louco se ela for.
Tiro um pedaço de corda que prendia minha bermuda e dou a Annie, para suas mãos agitadas e seu olhar fixo nos nossos pés. Annie olha para mim, para corda, e se põe a praticar nós.
Se torna menos agitada. Mais segura. Mais calma.
“Eu também amo você” Ela sussurra, próximo ao 10° nó, fazendo-o e desfazendo. Sussurra pro mais e mais vezes. Sussurra palavras soltas: “Finnick”, “amor”, “luz”.
Annie não quebra nossa bolha. Eu não quebro nossa bolha. Estaremos ali para sempre.
Fale com o autor