Not Like The Movies
2 Capítulo 1 - Cruel World
Notas iniciais
–Isso realmente dói. Pode acabar logo? – Me encolhi ao sentir o remedi arder sob a ferida em minha bochecha.
–Calma, Collin. Se ficar quieto, juro que vai acabar logo. – Mamãe tentava usar de sua delicadeza, apesar do contato com sua pele gelada ainda me fazer estremecer por vezes. – Eu estou esperando a sua boa vontade em contar o feito.
–Ué, qual feito? – Cruzei meus braços e olhei fixamente para a frente.
–O feito para que conseguisse este braço arranhado, para que conseguisse esta marca na bochecha.
Havia algo sobre a minha mãe que era bem difícil de tentar mudar, o fato de normalmente querer ter o controle da situação. Desde pequeno as coisas foram sempre assim, como se eu fosse um boneco de porcelana que quebraria se tropeçasse na primeira calçada. A resposta era a mesma para todas as vezes que perguntei: “Quando for pai um dia, irá ver como eu tinha razão.” – É, digamos que é uma coisa que você tenta acostumar. Aliás, acostumar foi algo que juntamente com diferenças, fez nossa familiar ir levando. Como posso começar isso? Um casal de Franceses havia me dado para adoção, quando meus pais justamente buscavam um filho, uma vez que, minha mãe não podia gerar filhos. Apenas pouco tempo atrás eu havia descoberto toda a verdade por trás da esterilidade.
Desde que fui adotado por meus pais atuais, jamais tive notícias daqueles que me geraram. Uma vez ou outra eu tenho a curiosidade de saber quem eram, o motivo pelo qual de mim abriram mão. Mas eu olho para Rosalie e Emmett, e eu percebo que eles são meus pais, embora nunca tenha sido da forma como a maioria das pessoas sempre acha válida. A confiança que eu tinha neles era tão extrema, que mesmo após saberem por tanto comportamentos meus, eles me aceitaram acerca da minha sexualidade divergente. Muitos adolescentes na podem dizer isso sobre sua realidade no mundo, mas é graças a estes dois que eu pude ser verdadeiramente eu, ainda que, isso tivesse me causado os machucados.
–Mãe, calma. Eu te falei que foi um acidente. Eu estava caminhando no corredor do colégio, de repente eu me descuidei e bati numa garota do primeiro ano. – Mantive uma expressão natural e disfarçando toda e qualquer suspeita que entregasse tudo.
–Ele está mentindo. Perceba a expressão. – Papai apareceu na soleira da porta. Seu olhar era ameaçador, como se fosse matar o primeiro que aparecesse em sua frente. Não era algo de que eu duvidasse.- Qual é Rose, repare nas feições dele. Ele pode ser um bom ator, mas nós temos as manhas da mentira. Fala quem foi Collin! – Ele caminhou até próximo de mim na cadeira. Mamãe continuou a passar o medicamento em minha pele, permitindo que apenas parte de mim o olhasse não totalmente direto.
–Qual é o problema de vocês? Eu já falei que na foi nada. Nada. – Senti minha voz vacilar consideravelmente, logo me calei.
Mamãe retirou o pequeno pano úmido do meu rosto e permaneceu na altura do meu rosto. S cabelos loiros caíam por sob seus ombros e desciam até suas costas. Minha mãe era como uma daquelas modelos que envelheciam, mas não deixavam sua beleza mudar. Eu bem conhecia aquele olhar, da mesma forma que conhecia o olhar desconfiado que meu pai me lançava. Desviei o olhar quando ela segurou minha mão:
–Collin, eu sei que está mentindo. Olha, precisa confiar em mim e no seu pai. Se você foi sincero conosco sobre algo que era tão pessoal, por que não é sobre o machucado?
–Isso não importa, mãe. – Falei de forma calma.
–Isso importa, Collin. Pode pensar que isso é chato, no entanto a gente se preocupa com você.
Levantei da cadeira e dei um passo à diante, ficando de costas para ela. Meu pai permaneceu com a cara carrancuda e cruzei os braços. Me mantive entre os dois e os olhei momentaneamente, sabendo que ninguém iria sair dali sem uma explicação devida. Isso até teria sido a única coisa incômoda, até mamãe se lançar sobre mim e segurar meus ombros de maneira forte e me jogar novamente no braço da cadeira. Cai com um solavanco:
–Eu ainda não terminei!- E ela ergueu a mão com o medicamento.
–Sabe, isso cansa. Eu não tenho dez anos de idade, nem sou um boneco de porcelana. Todo mundo se machuca, por que eu sou especial? – Falei alterado.
–Por que nós sabemos muito bem onde estamos, conhecemos as pessoas. Acha que todo mundo lida bem com sua opção sexual, Collin? – Meu pai caminhou até mais perto de mim.
Normalmente sua figura cobria a minha, e se não fosse meu pai eu não gostaria de arrumar alguma encrenca com ele. Ou eu talvez nem queira, mesmo assim. Coloquei as mãos nos bolsos e o encarei. Ao olhar para baixo, praticamente eu havia entregado parte do jogo. Erguia cabeça posteriormente e exibi confiança e imponência:
–Ser gay não me torna de porcelana.
–Te torna julgado e vulnerável. – Disparou minha mãe, enquanto num rápido movimento das pernas, juntou-se ao lado do meu pai.
–Me empurraram dos dois últimos degraus da escada principal do colégio...- Cortei a fala e olhei para os lados. Não os encarei de jeito algum, pois não queria que me vissem como um perdedor. Eu não era um, não mesmo. Onde deveriam haver lágrimas, pus uma feição natural. – Me empurraram e eu me machuquei como podem ver.
–Quem? – De todos os tons ameaçadores do meu pai aos quais eu tinha conhecimento, eis que aquele fora de longe o pior.
–Citar nome é antiético. – Falei sarcasticamente.
–Eu vou ter de usar de outros meios mesmo, Collin? – Mamãe me olhou nos olhos fixamente.
–Ora, ora, vai usar seu charme para me manipular? Parece bem o que uma mãe deve ensinar a um filho. Obrigado.
–Esta é a última vez que perguntamos. Quem foi que te empurrou? – Minha mãe posicionou-se de frente para mim. Ficamos na mesma altura. Diferentemente das outras vezes, esta forma de perguntar veio acompanhada por um algo mais. Era como uma indução, mas não uma indução perceptível. Era algo “Natural”, porém que me fez olhá-la.
–Eric e Augustus. – Disparei sem pestanejar.
O rosto de ambos se chocou com a resposta. Eric Rogers e Augustus Reed eram meus melhores amigos desde o Jardim de Infância. Eram aqueles tipos de amigos que te acompanhavam até mesmo nas viagens familiares bobas. Aliando-se à eles, sequentemente vinha Carice Arnolds. Juntos éramos um quarteto. As coisas começaram a mudar há algum tempo, exatamente quando eu me assumi para as pessoas. Aos poucos eles foram cortando os laços, e eu tive de fingi-los vivos para os meus pais. Afastar teria sido algum ruim, todavia foram as provocações que começaram em seguida.
Em pouco tempo eu já nãos os conhecia, pelo menos não com relação a mim. Era comum passar nos corredores e ouvir piadinhas como: “Volte para o desenho, Pônei de brilho.” ou “A bixinha é bem elegante.”. – Eu me tornei bom em relevar as coisas, principalmente as que não me engrandeciam, por mais que viessem de pessoas que um dia eu tive abaixo da minha marquise e do coração. Carice, por sua vez, foi a única a não aderir à campanha deles. Ela me apoiou, e o que antes era o quarteto fantástico, tornou-se os super gêmeos.
–Foi só isso? – Mamãe continuo a me olhar.
–Me chamavam de Pônei de Brilho e bixinha elegante. – Falei de cabeça baixa.
–Vou acertar as contas com os dois. – Papai bateu na pequena mesinha de cabeceira com um chute. Foi inevitável que o barulho e o estrago não fossem notáveis. O objeto se espatifou no chão.
–Perdeu a noção das coisas, Emmett? Sabe que não pode fazer nada escondido deles? – A palavra “Deles” soou ameaçadora e estranha. Meu olhar se estreitou. Logo, mamãe o interpôs com as mãos.
–Quem são essas pessoas que citou agra, mãe? – Meus olhos dirigiram-se inquiridores até ela.
–Não é nada, Collin. Calma! – Ela bateu no peito do papai e se virou para mim uma vez mais. – Vamos resolver isso da melhor forma. Vai ter de sair do colégio, Collin. Acharemos outro.
–O quê? Mãe, por favor, não foi nada demais. Eu estou inteiro. – Respirei de maneira agitada e não queria pensar naquela possibilidade. Eu não queria deixar Carice, nem tampouco uma escola renomada e com influência suficiente para me mandar até a escola de artes que eu desejava. – Olhe nos meus olhos, confie em mim. Eu estou bem.
E ela olhou nos meus olhos. Aquilo tudo foi como mais um misto de surpresa e horror. A forma com a qual ela se afastou de mim, fez com que eu me sobressaltasse. Retirei as mãos dos bolsos e as ergui:
–Qual foi? Estão se repelindo de mim agora? – Minha voz foi incrédula.
–Você viu, Emmett? Viu aquilo? – Mamãe segurou o braço do papai e me fitou com os olhos bem abertos.
Os olhares chocados deles caíram sobre mim. Em dezessete anos a minha mãe nunca tinha agido como eu agora via, nem tampouco meu pai. Dei um passo à diante e os encarei. Os olhei nos olhos e eles fitaram-me incrédulos outra vez:
–Seus olhos...Seus olhos estavam vermelhos. – Assim disse minha mãe.
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