Eu amo assistir os castelos queimarem”

Sam Tinnesz

Mantenha a boca fechada. Eles já acham que você é culpada.

A sensação predominante dentro daquela sala apertada e quente era que eu estava vendo uma personificação do meu segundo interrogatório, eu também estava sentada numa cadeira dura e que rangia toda vez que eu me mexia, os rostos que me encaravam se fechavam em expressões cada vez mais sérias e insatisfeitas a cada resposta vaga ou desconexa que eu dava.

Tsunade mantinha a mesma postura de quando atravessei aquele corredor minúsculo da diretoria até a sua sala ainda menor: olhos atentos e corpo ereto do outro lado da mesa; o assistente social de cabelos ruivos bem aparados e dentes amarelados, mas retos, estava sentado à direita da diretora e seus olhos pareciam maiores quando ele abria a boca.

Mas não eram eles a minha real preocupação. O homem alto e musculoso parado na porta mantinha os braços cruzados em frente ao peito protegido pelo colete à prova de balas, enquanto a mulher de terninho e calças pretos segurava um joelho depois de cruzar as pernas, ela se ajeitou na cadeira encostada na parede à minha esquerda com elegância e permaneceu em silêncio desde que passei pela porta.

A função de um era garantir a segurança, enquanto o outro deveria analisar até que ponto eu abalava essa segurança.

— Preciso que você colabore, Sakura — a voz gentil e firme do assistente ecoou pelo cômodo e mantive as minhas mãos geladas sobre os joelhos quando ele sorriu, uma tentativa de ser amável e autoritário ao mesmo tempo. — Nos ajude a te ajudar.

— Sakura — desviei os olhos para Tsunade e continuei em silêncio. — Não seja idiota por orgulho ou qualquer porcaria que você use como justificativa para não contar a verdade — arqueei a sobrancelha e a irritação de Tsunade foi nítida. — A situação é séria. Não torne tudo mais difícil.

— Nós queremos entender o que aconteceu — lá vinha o sorriso amável e os olhos analíticos brilhando de pura convicção de que suas palavras surtiam qualquer efeito.

Há-há, parece que temos um comediante na plateia hoje! Ele não é engraçadinho?

— Conte o aconteceu. Estamos aqui para ajudar — Tsunade atalhou.

Há-há-há! Ele tem companhia!

Eu já havia escutado aquelas mesmas palavras durante a audiência, com os membros tão rígidos e o maxilar tão trincado quanto agora, e todos os interrogatórios começavam com aquela curiosidade de esclarecer os fatos, logo o meu esforço em abrir a boca e contar o que eu sabia apenas reforçava a versão de que eu era culpada. Então eu parei de colaborar, já que eles eram tão perspicazes e bons no que faziam.

Não seria diferente dessa vez, eu já conhecia o roteiro e estava empenhada.

— Vocês não precisam da minha ajuda — repeti com a dose certa cinismo para fazê-los trocar um olhar e perceber a mulher de terninho inclinar a cabeça. — Então por que eu precisaria da sua ajuda?

“Não seja idiota”, era a mensagem muda no rosto de Tsunade quando a encarei por alguns segundos antes de desviar minha atenção para o assistente social. Ele abriu a pasta verde que estava sobre a mesa e folheou os papeis rapidamente; não demoraria muito até que ele começasse a entender minha recusa como algo além de rebeldia de uma garota traumatizada e trataria a questão como uma espécie de afronta ou distúrbio.

— Tudo o que você precisa fazer é nos contar o que houve, Sakura — ele insistiu, mas o sorriso já não era tão amável. Outra pausa longa e lá estava a reação que eu queria quando ele se concentrou em alternar sua atenção para os documentos em suas mãos e no meu rosto. — É sua última chance. Fale o que aconteceu.

Ele não é mesmo engraçado?!

— Você agrediu e ameaçou uma pessoa por razões fúteis. Você, Sakura Haruno, está sob a tutela do Estado, já que seu histórico apresenta irresponsabilidade e alta periculosidade — tentei imaginar se ele e seus colegas trocavam figurinhas sobre as entrevistas que faziam, o tipo de pessoa que tinham de ver e escutar. Ele cuspia as frases com praticidade e não havia mais resquício de amabilidade em seu rosto ou gentileza em sua voz — Essa é a primeira queixa formal registrada contra você desde que foi internada aqui, e há testemunhas e depoimentos claros sobre o aconteceu.

Minha garganta apertou quando reconheci a mesma expressão sábia que acompanhava os rostos de todas as pessoas que queriam esclarecer os fatos. Eu estava revivendo a mesma cena de tantos outros interrogatórios e parecia que eu nunca estaria realmente preparada para a fúria que bagunçava meus pensamentos.

Eu poderia dizer e agir como se não desse a mínima, mas cada palavra abria um pouco mais minhas feridas e cutucava os fantasmas adormecidos por doses de Profaxim.

A minha única e precária defesa era ficar em silêncio.

— Sua situação não é boa, Sakura. Você sabe disso — o tom acusatório foi mais notável e havia uma sombra de convicção em seus olhos. — Até agora você tem mostrado claramente que não sabe se comportar dentro de uma sociedade, não importa quem faça parte dela.

Não abra a boca. Não abra.

Um sorriso cínico repuxou o canto dos meus lábios e finquei as unhas nos joelhos, porque tudo o que eu tinha de fazer era escutar em silêncio as acusações e a versão em que eu era a grande responsável ser contada com descaso, raiva e um leve toque de ofensa.

Então recorri ao roteiro mais uma vez e permaneci quieta quando ele ergueu os olhos dos documentos em suas mãos.

— Você ao menos tem algo a dizer em sua defesa? — O desdém era palpável e desviei o olhar para o segurança de braços cruzados, porque eu também já havia escutado essa pergunta outras vezes e a única coisa que eu havia aprendido é que ninguém dava a mínima para a sua defesa. — Estou falando com você, então olhe para mim. Sakura. Olhe para m...

(...olhe para seu...)

— Você não me diz o que fazer!

Avancei sobre a mesa e puxei o assistente social pela gola do suéter, não houve qualquer resistência de sua parte além dos olhos esbugalhados; a respiração agitada dele batia no meu rosto.

— Não me diga o que fazer — rosnei as palavras e o puxei um pouco mais antes de soltá-lo e contornar a mesa; ignorei as vozes exaltadas e as ordens para permanecer onde estava, meus músculos enrijeceram ainda mais quando o segurança deixou seu posto.

Minhas mãos tremiam quando senti meu antebraço ser segurado, virei o corpo e puxei meu braço com força. Tsunade mantinha as mãos abertas como se quisesse me acalmar enquanto o assistente social apontava na minha direção, berrando que eu devia ser contida e levada dali; ele me via como um monstro, uma coisa a ser controlada antes que causasse mais danos.

— Não me toque! — Avancei um passo na direção do assistente social e a minha voz soava baixa, raivosa e beirando à loucura. — Não me faça ir aí e...

— Eu estou tentando te ajudar, droga! — Tsunade berrou e olhou ao redor rapidamente, tentando saber o que ela devia fazer primeiro: me conter ou evitar que o segurança saltasse para me imobilizar. — Todos nós vamos respirar fundo e manter a calma, me entenderam? — O tom professoral estava presente e sorri em puro escárnio.

— Vão pro inferno, todos vocês — falei e marchei até a porta.

— Eu perguntei se você me entendeu, Sakura — a raiva afinou a voz dela e contornei o segurança rapidamente, agarrei a maçaneta antes que ele me tirasse dali e escancarei a porta.

A minha cabeça explodia entre os berros irritados de Tsunade e a verdade ácida de que os interrogatórios não parariam, as boas intenções em esclarecer os fatos sempre apontariam para a versão condensada e clichê em que eu era a grande responsável.

Grande desfecho para a grande Sakura.

Tentei ignorar o barulho dos passos atrás de mim assim que alcancei o corredor largo, continuei empenhada a me afastar dali o mais rápido possível enquanto minhas pernas rígidas me mantinham em movimento até o pátio externo. Pela segunda vez fui puxada pelo antebraço e repeti a mesma reação.

— Que porcaria você acha que está fazendo, hã? — Os olhos dela me analisaram com raiva, como se esperasse algo melhor do que um sorriso torto. — Você vai voltar para lá agora mesmo e...

— Não! Você não me diz o que fazer! — Cuspi as palavras com o mesmo volume de voz dela. — Você pode mandar nos seus funcionários e na porra do seu escritório, mas não foda comigo, Tsunade. Não me diga o que eu tenho que fazer.

— Eu estava tentando...

— Me ajudar — cortei e o sorriso torto repuxou ainda mais meus lábios, dei um passo em sua direção e continuei: — Eu não quero a sua ajuda. Então pára de agir como se você desse a mínima para o que acontece e como se isso fosse importante. — Aquela maldita sombra de convicção, de sabedoria e descrença me irritaram mais ainda.

Girei os calcanhares e não havia avançado mais do que três passos quando a voz dela ecoou, mais severa e irritada do que antes:

— Nós não terminamos, Sakura.

— Eu acho que você não me entendeu — interrompi meu trajeto e recuei alguns passos. — Nós já terminamos.

Trotei para longe de Tsunade e de seu olhar raivoso, contrariado com o que estava acontecendo; o barulho dos meus passos era irritante e as palavras do assistente social se misturavam a velhas condenações e as conclusões de sempre começavam a trabalhar a todo vapor, bagunçando o que ainda me restava de controle emocional.

Eu sabia que havia confirmado cada anotação que estava naquela pasta, havia dado razão à todas as notas de rodapé no meu mandado de prisão e que havia acabado de aumentar minha estadia por aqui.

Grande desfecho para a grande Sakura. Não era isso o que você queria? Ser grande?

* * *

O silêncio da biblioteca não era acolhedor como das outras vezes, apenas serviu para rebobinar o interrogatório na minha cabeça com dedos imaginários estavam apontados na minha direção, acusando como era simples me desestabilizar e que tipo de postura eu deveria assumir.

Escancarei a porta e meus passos ecoavam pelo corredor com o mesmo ritmo frenético quando escapei do interrogatório de horas atrás; cruzei os corredores até chegar ao meu quarto e interrompi meu percurso ao avistar Hinata vindo na direção oposta. Aquela raiva ácida e cega continuava fervilhando meus pensamentos.

Você devia ter ficado de boca fechada.

— ...boa hora, não é? — Pisquei confusa quando Hinata me encarou, levei alguns instantes para tentar assimilar o que ela queria dizer. — Você... quer dar uma volta ou comer alguma coisa? Nós podemos fazer alguma coisa, se você quiser.

Havia uma pequena parte minha que simplesmente queria aceitar a proposta de Hinata e continuar naquela versão mais fácil de lidar, em que havia piadas e farpas entre conversas bobas e mais do que viver no piloto automático. O problema era que eu não conseguia abrir mão da versão calejada, muda e protegida por cinismo, ignorância e culpa.

Ah não, querida... Você achou que seria fácil? Achou que podia mesmo mudar? Sakura Haruno sendo uma pessoa melhor depois de ter mat...

— Agora não, Hinata — minha voz soou estrangulada e me esforcei para ser convincente.

— Talvez mais tarde — Hinata acrescentou e eu me detestei, com todas as minhas malditas forças, por balançar a cabeça numa concordância muda, apenas para que ela ficasse quieta e me deixasse sozinha no corredor. — Você tem cert...

— Eu estou ocupada — as palavras soaram ríspidas, irritadas.

Respirei fundo assim que Hinata passou ao meu lado e eu queria mesmo que o silêncio voltasse a ser acolhedor, que aquelas vozes na minha cabeça sumissem antes que elas trouxessem à tona todo o ciclo infernal de memórias e análises existenciais.

Mas não era apenas isso o que me assustava – eu ainda sabia como lidar. Era a porra do silêncio, do olhar magoado de Hinata que deixavam a minha garganta mais apertada porque eu me detestava por ser esse tipo de pessoa. Você conseguiu, estragou tudo de novo, continuava arranhando o restante da minha sanidade.

É. Eu havia conseguido.

— Ei — girei o corpo para enxerga-la e insisti, forçando minha voz a soar mais baixa e cautelosa: — Hinata, está tudo bem?

— Não precisa se preocupar, Sakura. Eu estou legal — a frase foi mecânica e hesitei quando ela forçou um sorriso para dar ênfase à sua resposta. — Nos vemos depois.

Outro ponto para Sakura Haruno, senhoras e senhores! Essa garota consegue estragar as coisas!

A sensação de incapacidade era tão ruim quanto a de indecisão quando observei Hinata ser parada por duas garotas, avancei apenas um passo e xinguei quando reconheci as guarda-costas de Karin; minhas pernas continuaram paradas mesmo quando Hinata foi empurrada e encurralada contra a parede.

Faça alguma coisa reaja reaja reaja

Eu queria que Ino se materializasse bem ali, que ela tomasse a dianteira e gritasse alguma coisa provocativa para chamar a atenção daquelas garotas que faziam Hinata olhar assustada para os lados; congelei quando o olhar dela focou em mim.

Meus pés estavam em movimento quando a garota mais alta, de cabelos curtos e castanhos, pôs um braço na parede e pendia a cabeça, acompanhando o olhar de Hinata. Franzi ainda mais o cenho quando percebi que, na direção oposta, Sasuke andava apressado até onde as três estavam e era acompanhado por um garoto ruivo.

Faltava pouco mais de meio metro para alcança-las quando minhas pernas travaram e estanquei.

Reaja reaja reaja

— Tudo certo por aqui, garotas? — A voz de Sasuke soava relaxada e a garota de cabelos castanhos girou o corpo para encará-lo. — As coisas parecem tensas olhando de longe — o olhar tenso dele parou em mim por um instante antes de se focar em Hinata.

— Claro, nada poderia estar melhor — a mentira animada e totalmente confortável da outra garota de cabelos com pontas laranjas saiu com facilidade.

— Nós só estávamos... relembrando bons tempos... — um sorriso preguiçoso apareceu no rosto da menina de cabelos castanhos, o tom de ameaça implícita estava no olhar dela. — Mas não sei porque você está tão curioso, Sasuke. As coisas estão tranquilas.

— Ah... Você sabe que eu não consigo controlar a minha curiosidade, Matsuri — ele retrucou. — É um dos meus defeitos.

— Como você pode ver, está tudo certo por aqui. — Ela se afastou um passo e ajeitou os cabelos curtos. — Não conte a eles o nosso segredo, Hinata. Odiaria que isso se espalhasse — me movi para frente assim que Matsuri inclinou o corpo na direção de Hinata, a risada alta e escandalosa dela me fez parar outra vez. — Eu não vou te morder, Hyuuga. Relaxe.

— Por que você não pega o seu bichinho de estimação e dá o fora daqui? — O garoto ruivo sugeriu e a menina de cabelos coloridos se encararam, o olhar dele era inflexível quando Matsuri sorriu novamente. — Vocês podem latir à vontade com a Karin. Aposto que vocês vão se divertir como sempre.

— Vamos lá, garotas... — Sasuke se esforçou para conter o riso zombeteiro e ficou na frente de Hinata. — A cavalaria está chegando, então é melhor vocês darem o fora. — Ele apontou com o queixo para trás de Matsuri e seu sorriso aumentou um pouco quando ela virou o pescoço.

— Mova a sua bunda, Uchiha. Você está no meu caminho — embora Ino se esforçasse para soar bem-humorada, seu corpo estava tenso assim que ela avançou o corredor em passos largos e ladeou Hinata no momento em que Sasuke se afastou. — Aconteceu alguma coisa aqui, Hinata?

— Não, Ino — ela respondeu da mesma forma mecânica de antes e aquilo foi o suficiente para que a loira exibisse um sorriso reto, livre do bom humor que ela tentava mostrar.

— Então eu não vejo por que você não pode arrastar a droga da sua bunda para longe daqui Matsuri — ela deu um passo à frente e mantinha os punhos cerrados ao lado do corpo. As duas se analisavam. — Não teste a minha paciência.

— Sasame — o anúncio fez a menina de cabelos laranjas se endireitar automaticamente. — Vamos.

— Mas...

— Você disse alguma coisa? — O silêncio foi igualmente automático e o olhar feroz de Matsuri ficou mais nítido ao encarar a outra. — Foi o que eu pensei. — Ela direcionou sua atenção para Hinata e depois para Ino, mas havia desafio em seus olhos castanhos quando ela me encarou. — Eu me lembro de você, Sakura Haruno... Você estava em todos os jornais. Estava bonita perto daquele carro.

Achou mesmo que...

— Você sabe que eu odeio me repetir, Matsuri — Ino falou mais baixo.

...ninguém ia descobrir?

Foi a risada escandalosa de Matsuri que me fez interromper o ritmo desesperado da minha respiração e amenizou o nó na minha garganta por tempo suficiente até que eu empurrasse meu cabelo para dentro do capuz, num reflexo quase involuntário, e tentasse respirar outra vez.

Os meus músculos continuavam tensos e inúteis quando as duas se afastaram em silêncio, giravam as cabeças por alguns instantes e acenaram até dobrarem um corredor. Soltei o ar e tentei controlar o tremor das minhas mãos e ignorar a taquicardia no meu peito; Ino e Hinata passaram por mim e me obriguei a segui-las.

— Você podia agradecer, Yamanaka! Isso não vai arrancar um pedaço! — Virei a cabeça quando Sasuke gritou, as mãos ainda estavam ao redor da boca quando Ino ergueu o dedo do meio em resposta e continuou marchando pelo corredor.

A porta do quarto estava aberta quando finalmente entrei, Hinata estava sentada na cama de baixo do beliche e parecia catatônica, presa numa bolha de inércia enquanto Ino marchava de um lado para o outro, atravessava o espaço entre a cômoda e os beliches pisando duro.

— Que porra tem de errado com você?! — Era mesmo uma boa pergunta. Então quando Ino apontou um dedo na minha direção, a voz histérica de raiva e os olhos brilhando em pura descrença, eu não contive porcaria nenhuma. — Por que você não fez nada? Por que deixou que eles se intrometessem e...

— O que é que você queria que eu fizesse, merda?! — Minha explosão foi igualmente raivosa e mesquinha. Ótimo. Foda logo com a merda toda.

Ah não! Você quer que eu desenhe, Haruno? — Ela avançou na minha direção e mantive as mãos cerradas rente ao corpo. — Você devia ter se mexido e não agido como uma estátua enquanto a Hinata estava sendo encurralada pela dupla maravilha lá fora!

— Eu não sou a porra da segurança dela! — Apontei para Hinata e continuei: — Ela disse que estava tudo bem antes de ter saído e...

— Então você vai começar a agir como a droga da segurança, Sakura — Ino foi enfática e me interrompeu outra vez. — Você vai ser a porcaria da sombra dela, porque entre todas as malditas pessoas desse lugar, ela é quem mais precisa de proteção.

— Eu não sou uma criança, Ino — Hinata comentou irritada, mas nós não a escutamos mesmo naquele momento. Não quando estávamos trocando acusações e dedos na cara.

— Ela sabe se defender — cuspi embalada naquela névoa de raiva e indignação. — E além disso...

— Você é idiota por acaso? Metade desses vagabundos quer socar a Hinata até a morte porque foi o pai dela quem trancou todo mundo nessa merda de lugar! — O silêncio foi cruel e tentei assimilar o que Ino havia dito. — Ou você pensou que a outra metade que faz piadinhas pelos corredores faz isso como um tipo de passatempo?

— Ela disse que estava tudo bem!

— Eu vou sair daqui — Hinata levantou e passou pela porta com pressa. — Assim vocês podem mesmo falar de mim como se eu não estivesse aqui.

Ino e eu trocamos olhares acusatórios e irritadiços assim que Hinata desapareceu do quarto, o sorriso irônico repuxava os lábios dela e nunca detestei tanto ver aquela droga de sorriso.

— Mesmo quando você olha na minha cara e mente que está tudo bem, eu sei que não está — minha garganta apertou ainda mais e Ino respirou fundo antes de continuar: — Não me trate como idiota, Sakura. Você sabe que devia ter feito alguma coisa.

— E que merda eu devia ter feito, Ino?

— Bem... Amigos se ajudam. Eles se protegem e fazem alguma coisa quando o outro precisa — ela respondeu prontamente e a mágoa transbordava em sua voz. Isso feria mais do que as farpas, os berros e o sorriso irônico. — É isso o que você devia ter feito, mas foi cagona demais para tomar uma atitude.

Minha voz soou extremamente estrangulada e cruel quando cuspi as palavras:

— Não desconte tudo em mim porque foi ele quem defendeu a Hinata.

Eu sou uma filha da puta.

O rosto dela foi tomado pelo choque e ela abriu a boca, sem saber exatamente qual reação teria enquanto assimilava o que eu havia acabado de dizer. Outro ponto para a grande Sakura! A mágoa foi mais intensa dessa vez e o sorriso dela era torto.

— Vai à merda Sakura.

Ela atravessou o curto espaço até a saída pisando ainda mais duro do que antes e o estrondo da porta sendo fechada com violência me irritou. Girei a maçaneta com pressa e passei pela soleira; Ino já havia percorrido um bom pedaço do corredor quando berrei:

— E você pode ir se ferrar também, Ino!

— Ótimo!

Ótimo! — Fechei a porta com a mesma violência e soquei a madeira com força, grunhi frustrada quando percebi que aquilo não adiantaria de nada e não resolveria as coisas.

Eu era muito boa em estragar as coisas, havia confirmado a teoria mais uma vez e puxei o capuz com raiva. Encarei meus próprios pés. Eu era terrivelmente boa em estragar as coisas e destruir relações.

Não pela primeira vez, me detestei por isso.

Notas finais
YOOO! Cá estou. Espero que tenham gostado do capítulo, porque esse foi, excepcionalmente, muito bom de escrever. Já bancando a advogada do diabo: o receio da Sakura sobre o que fazer se deve, em grande parte, sobre o passado dela e as barreiras que ela criou em torno de si mesma, sempre acreditando que ficar sozinha é o que ela merece. Então, por isso a falta de reação sobre a situação da Hinata. Altos e baixos, personas. Altos e baixos... Em contrapartida, a relação Naru-Hina será mais explorada nos próximos capítulos e um pouco sobre o porque da Hinata ter ido parar nessa prisão de adolescentes. Sasu-Saku e Gaa-Ino aparecerão e serão mais presentes daqui a poucos capítulos também. Qualquer dúvida, cá estou também. A continuação será postada na sexta-feira, na parte da manhã. Então, é isso. Até o próximo! o/