Not Friends
2 capítulo I - coming of age
Rose Weasley nunca teve um motivo real para odiar Scorpius, mas também nenhum motivo para gostar dele. Tinha todos os motivos possíveis para odiar os Malfoy.
Ela sabia que não devia se aproximar de nenhum Malfoy, e Scorpius parecia ter recebido instruções parecidas. Ele jamais era visto perto de um Weasley. Misturava-se com os Potter, mas nunca com os Weasley. Era como se houvesse um acordo silencioso que os impedisse de se aproximarem fisicamente ou trocarem mais do que poucas palavras secas, onde seus olhos jamais se encontrassem.
Só que isso mudaria naquele ano.
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Durante os quatro primeiros anos em Hogwarts, Rose o ignorava a todo custo. Não sabia se temia mais o peso do sobrenome Malfoy ou o julgamento de seu pai caso eles resolvessem se tornar amigos.
Não que Scorpius não fizesse o mesmo com ela. Ela odiava como ele sempre respondia de forma fria, sem sequer manter contato visual. A diferença estava no fato de que, mesmo sem cordialidade constante, Rose tentava tratá-lo com decência — ou ao menos era o que acreditava.
Após anos de convivência, continuava inconformada com o quanto a presença dele a incomodava. Por que não conseguia sentir apenas indiferença? Scorpius tinha a capacidade de despertar nela emoções confusas e quase sempre desconfortáveis.
Ele parecia prestar atenção em tudo que ela dizia nas aulas, só pelo prazer de corrigi-la ou completar sua fala, deixando Rose vermelha e irritada.
Quando isso acontecia, ela sempre lembrava das palavras do pai antes do primeiro ano:
— Mas não fique muito amiga dele, Rosie. Vovô Weasley nunca a perdoaria se você se casasse com um puro-sangue.
Aos onze, ela ficou apavorada com a ideia. Aos quinze, tinha certeza de que algo assim jamais aconteceria, ainda mais quando mal conseguiam fingir amizade. Era impossível uma amizade crescer entre eles.
Ainda assim, por mais estranha que fosse a tensão, suas órbitas nunca deixavam de gravitar uma em direção à outra. Por mais que fugisse, Scorpius estava sempre perto demais para seu conforto. Ele estava em suas aulas favoritas, no grupo de estudo, e até dividiam o melhor amigo, Albus Potter.
Albus, possivelmente seu primo favorito, dizia que os dois tinham mais em comum do que imaginavam e que Scorpius tinha tanto medo dela quanto ela tinha dele. A aversão, portanto, era recíproca — o que só aumentava a antipatia de Rose.
Como assim ele tinha medo dela? Ela não era nada além de uma boa pessoa. E repetia isso para todos, como se treinasse para o dia em que o confrontaria. Como se precisasse se convencer de que o que mais a incomodava era sua própria preocupação com a imagem que passava.
Durante as aulas juntos, Rose se pegava observando os olhos cinzentos de Scorpius, questionando seu comportamento estranho. Quando era pega encarando, recebia um sorriso tímido e sarcástico que a deixava flamejante de raiva — dele e de si mesma.
As perguntas nunca cessavam: seria instrução do pai? Cresceu ouvindo que Draco Malfoy fora criado por monstros, mas a teoria não fazia sentido. Scorpius andava com Albus e já visitara N’A Toca no verão.
Às vezes, ela queria agarrá-lo pelos ombros, chacoalhá-lo e arrancar palavras dele. Queria perguntar tudo, principalmente se o incômodo que sentia era recíproco. E, ao final do quinto ano, sua teimosia quase lhe custou mais do que pontos descontados para a Grifinória.
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Era fim de ano letivo, últimos jogos de quadribol da temporada. Rose não era boa em campo, mas amava assistir e torcer por primos e amigos. O vento frio do outono cortava sua pele, fazendo o céu parecer ainda mais azul, e o barulho da torcida ecoava pelo campo, misturado com o cheiro de churrasco, cerveja quente e folhas molhadas.
Na final, Jia Chang, sua melhor amiga, provocou os Sonserinos:
— Grifinória vai ganhar! — disse, com um sorriso travesso. Rose riu nervosa, atraindo olhares fulminantes.
— A gente? — repreendeu Jia, puxando-a para longe de Georgie Goyle e Luke Zabini. — O jogo é da Sonserina, você é da Corvinal.
Hugo, seu irmão mais novo, entrou na provocação:
— Se a gente não ganhar, vou me jogar no Lago Negro! — gritou, os olhos brilhando de excitação.
Rose sentiu o coração acelerar. Mesmo com o medo, Hugo foi carregado por Luke e Georgie em direção ao lago. Ela gritava e suplicava para que ninguém fizesse nada absurdo.
— Gente, sério, já foi longe demais! — tentou controlar a situação, mas sua voz se perdeu entre os gritos e risadas.
Antes que pudesse reagir, mãos a empurraram para a água turva do lago. A água gelada engoliu seus gritos e o frio queimou sua pele. Não havia lulas, apenas lama, escuridão e desespero que se enroscava nos seus braços e pernas, paralisando-a. Então, braços firmes a seguraram e a levaram à superfície.
Seus olhos azuis encontraram os cinzentos de Scorpius. Ele a segurava com firmeza, e o toque — mesmo que breve — enviou um choque pelo peito de Rose, acelerando seu coração como se fosse quebrar o próprio peito. Ele não disse nada, mas não precisou; o silêncio entre eles dizia tudo que ambos negavam há anos.
Quando acordou, encontrou Hugo chorando ao lado da cama na enfermaria. Respirar ainda doía, como se o frio da água tivesse se instalado em seus pulmões.
— Você acordou! — disse Hugo, abraçando-a com força.
— Espero que tenham aprendido alguma coisa com tudo isso — Rose respondeu, com dificuldade, a garganta arranhando.
— Pode ter certeza. Não sei o que seria de nós sem o Malfoy. — Hugo segurou sua mão com carinho, e Rose sentiu uma pontada de confusão: aquele era o mesmo garoto que ela tentava ignorar há anos.
— Malfoy? — Rose franziu o cenho, ainda recuperando o fôlego.
— Foi ele que te tirou da água! — confirmou Hugo, o tom sério misturado com admiração.
Mais tarde, Rose teve alta. Durante o jantar, não conseguiu sequer pensar em Scorpius; ambos estavam cercados de pessoas. Ainda assim, em algum canto da mente, a imagem dele a segurando no lago não a deixava. Aquele havia sido o dia com mais acontecimentos de todo o ano, culminando com uma Weasley devendo favores a um Malfoy — e a sensação de que nada seria mais simples entre eles.
♡
Devido às férias, Rose não via mais Scorpius todos os dias, mas também não conseguia parar de pensar nele. Sentia como se tivesse um assunto inacabado com o garoto, e seu peito inflava de raiva só de lembrar.
Que cena mais estúpida ela havia proporcionado! Como se não bastasse quase ter morrido afogada, ainda fora salva por ele. Duas semanas depois, ela ainda remoía tudo, sem previsão de superar.
Ela bufava todas às vezes que lembrava do seu “salvador”, não importava aonde ou com quem estivesse, a ponto de sua mãe começar a ficar preocupada com seu comportamento. Ainda mais quando sabia que o acontecimento havia vazado e chegado até o Profeta Diário.
Príncipe Malfoy estava estampado por toda parte — provavelmente o termo mais positivo, em anos, usado para se referir aos Malfoy desde a Batalha de Hogwarts.
Talvez Scorpius fosse parte do projeto de redenção arquitetado por Lucius Malfoy. Ou talvez fosse apenas uma teoria sem fatos concretos que Ron Weasley havia criado ao saber de toda a história.
— Olha só, a Sonserina salvando uma Weasley… nunca pensei que veria o dia! — Ron resmungou, balançando a cabeça, com um sorriso amargo.
O único lado positivo era que Rose nem precisou dedurar o irmão para os pais. Quando chegaram à estação de trem, Hugo já havia sido ameaçado com um castigo eterno. Seu pai queria ir atrás de todos os envolvidos na confusão, e sua mãe estava tão desesperada com a hipótese de Rose se machucar na escola — como se Hermione Granger nunca tivesse passado por momentos piores — que jurou matriculá-la em alguma aula de natação, para que ao menos esse tipo de problema pudesse ser evitado no futuro.
— Vai ser bom para você — disse ela, enquanto caminhavam pelas ruas de Londres trouxa. Era uma das coisas que Rose mais gostava nas férias: explorar o mundo trouxa. — Sempre bom conhecer pessoas novas, mesmo fora do mundo mágico.
Rose resmungou e revirou os olhos. Talvez fosse bom para ela, mas para alguém que odiava entrar em lagos, piscinas e até no mar, aquilo parecia um pesadelo. Porém, aprender a nadar seria eliminar uma fraqueza, e ela gostava dessa ideia.
“Menos chance de passar vergonha de novo… e menos molhar o cabelo arrumado por nada,” pensou, cruzando os braços.
A conversa sobre natação morreu assim que esbarraram em uma mulher saindo de uma loja de artigos artísticos. Assim que sua mãe abriu a boca para se desculpar, a mulher exclamou animada:
— Hermione! — tinha um sorriso bonito e, sem dúvidas, a figura mais elegante que Rose já havia visto.
— Boa tarde, Astoria — sua mãe respondeu, com um misto de felicidade e tensão. — Está sozinha comprando pincéis novos?
— Não, estou com meu menino — ela apontou para o garoto loiro logo atrás.
Rose prendeu o fôlego.
Scorpius Malfoy.
Ela queria desviar o olhar, mas não conseguia. De bermuda e camiseta de alguma banda trouxa que Rose sentia que deveria reconhecer, mas estava chocada demais para processar os detalhes. Seus olhos estavam magneticamente presos nos dele.
Scorpius parecia surpreso também. Ao contrário de Rose, que provavelmente estava pálida, as bochechas dele assumiram um tom avermelhado.
— Rose, como você cresceu! — disse Astoria, admirando a Weasley, que desviou o olhar dele para a mãe de Scorpius. — A última vez que te vi foi em um porta-retratos no escritório da sua mãe, e você ainda era uma criancinha.
Rose sentiu as bochechas corarem e agradeceu baixinho.
Astoria Malfoy não era nada como ela imaginava. Em sua cabeça, devia se assemelhar a uma cascavel, olhos penetrantes, sombria, como todos que se tornavam Malfoys. Mas ali estava uma mulher alta, esguia, presença colorida e marcante, nada fria ou sombria como Rose pensava. O sorriso caloroso, delineado com batom vermelho, era contagiante, e Rose se pegou sorrindo.
Notou também que, apesar da pele pálida e dos cabelos loiros herdados do pai, Scorpius carregava mais de Astoria do que de Draco. O sorriso dele era a cópia exata do dela — mesmo que Rose tivesse visto poucas vezes — e havia algo no jeito como franzia a testa, pensativo, que a fez parar por um instante. Quase podia ver a mãe ali, em miniatura, refletida nos traços do filho, como se a própria Astoria tivesse espiado o mundo através dele.
Perto da mãe, Scorpius parecia diferente do que costumava enxergá-lo: mais feliz, mais animado, olhos e cabelos vibrantes, como se a energia de Astoria tivesse passado para ele.
— Scorpius cresceu muito… mais alto que o Albus, hein? E obrigada por salvar minha filha — disse Hermione, sorrindo.
Rose engoliu em seco, desviando o olhar por um instante para o Malfoy.
— Não foi nada — Scorpius fitou os próprios pés, claramente constrangido.
Rose puxou levemente a manga da mãe, implorando com os olhos para que parasse com aquela cena, mas apenas incentivou a mulher a continuar:
— Foi sim! Erro meu nunca ter ensinado minhas crianças a nadar, ou a ter limites.
— Mãe! — Rose a repreendeu, quase implorando para desaparecer.
— Estou mentindo? Você sempre odiou ficar na água, mas há males necessários — Astoria continuou. — Adoraria chamá-lo para jantar, mas acredito que nos veremos n’A Toca esse ano mais uma vez, certo?
Antes que Scorpius pudesse responder, Astoria adiantou-se:
— Com certeza, acho que ele morreria se Draco negasse que ele fosse, ainda mais este ano — deu uma piscadinha para Rose, fazendo Scorpius a repreender e a Sra. Malfoy cair em uma gostosa gargalhada. — Serei eternamente grata pela amizade dele com o jovem Potter, ficarei aguardando pelas histórias deste verão.
Depois de alguns longos e desconfortáveis minutos das duas mães conversando sobre os filhos e as férias daquele ano, elas partiram. Segundo Astoria, em algumas horas teriam um tedioso jantar na casa dos Greengrass, e Rose e Hermione precisavam encontrar Ron no Beco Diagonal.
— Papai não iria gostar nada disso — Rose comentou sobre o convite da mãe, assim que saíram do campo de visão de Scorpius e Astoria.
Sua mãe revirou os olhos, como se a adolescente da relação fosse ela:
— Seu pai não tem que achar nada, Scorpius não precisa pagar pelos pecados da família — respondeu em tom sério. — Ele já deve lutar todos os dias contra o preconceito. Condená-lo pelo sangue seria dar oportunidade à podridão dos ancestrais de perpetuar, você não acha?
Rose passou o restante daquele dia quieta, pensando nas palavras da mãe. Depois daquele encontro, descobriu que, embora seus pais pudessem se odiar, suas mães se davam bem, ou ao menos sabiam ser educadas uma com a outra. Hermione comentou como Astoria era uma ótima artista e estava responsável por renovar a decoração e as pinturas do Ministério da Magia.
Rose nunca havia ouvido falar mal dos Greengrass. Não sabia em que lado da guerra haviam apoiado ou se eram apenas uma família rica, oportunista e pragmática como tantas outras no mundo bruxo. Única coisa que ela sabia era que os Greengrass eram conhecidos por sua elegância fria e discrição cortante; não se misturavam com qualquer um, e isso deixava Rose curiosa e um pouco apreensiva.
Rose fechou os olhos por um instante, deixando que a brisa da tarde trouxesse uma sensação estranha de leveza, enquanto ela e a mãe esperavam por seu pai e Hugo para voltar para casa. Tudo parecia estar mudando — os dias quentes, os encontros inesperados, as conversas e até o silêncio entre ela e Scorpius. Pensou na letra de coming of age, da Maisie Peters, e sorriu baixinho: talvez aquele fosse apenas o começo de algo novo, e aquele verão marcaria o início de uma história que ela ainda não sabia como terminaria.
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