Not A Bit Easy
8 08 – Armário
Notas iniciais
Limpei a mão no pano de prato e o joguei em cima do ombro observando a mesa do café da manhã que eu acabei de preparar. Era simples, tinha somente algumas panquecas, algumas torradas, suco natural e algumas frutas picadas.
Pra mim era o ótimo cardápio de café da manhã juntando com as caldas de mel e de chocolate para as panquecas e nutella e manteiga para passar nas torradas.
Assim como ontem tinha sido um ótimo fim de noite. A festinha que fizemos ontem foi muito boa e produtiva. Nico se deu uma chance e se deu bem com Robert, Jake – que ainda não tinham visto ele acordado – e Thomas.
Todos foram legais uns com os outros ontem, Paul ficaria orgulhoso de nós.
– Bom dia, Annie. – falou Jake entrando na cozinha junto com Nico.
Fazia algum tempo que Nico e eu tínhamos acordado. Nós dois já estávamos prontos para ir para escola só faltava tomar o café da manhã e quando eu estava terminando de arruma-lo a campainha tocou ao qual Nico foi atender.
Não era nem uma surpresa ver que era Jake principalmente porque ultimamente ele tem vindo muito comer aqui em casa, em menos de duas semanas e já estamos assim, ele já até trás algumas compras para mim como agora que ele estava carregando duas sacolas abarrotada de coisas do supermercado.
– Bom dia, Jake. E fique a vontade. – me sentei e comecei a me servir assim como Nico. – Algum pedido para a hora do jantar? – perguntei apontando para as sacolas em suas mãos.
Foi só Jake saber que eu sei cozinhar que eu praticamente virei sua chefe, mas não tenho do que reclamar. As coisas que ele pede são gostosas e ele sempre trás todos os ingredientes daquilo que pede.
– Sim e acho que vai gostar. – Jake foi até a cozinha e ouvi quando ele abria as sacolas e guardava as coisas. – Alex disse que sua mãe fez para ele ontem. Um prato divido.
Alex é o apelido de Alexander Page melhor amigo de Jake, os dois trabalham juntos para a mesma revista, mas se conhecem desde o primário. Jake é um dos fotografo – o fato de Jake ser fotografo foi o primeiro fato que fez com que ele e Robert começarem a se dar bem – e Alex é um dos caras que cuida do marketing.
– E o que seria esse prato? – perguntei a ele enquanto arqueava uma sobrancelha, confusa, para Nico que estava olhando estranho para mim e para Jake.
Ele deu de ombros enfiando um grande pedaço de panqueca com caldo de chocolate na boca.
– Só é estranho. – disse Nico por fim quando viu que eu ainda o encarava.
Queria entender o que eu quis dizer com estranho, mas ouvi a geladeira ser fechada e passos apressados virem em nossa direção. Jake sentou ao lado de Nico começando a se servir e eu já constatei que Jake tem um rombo na barriga desde o nosso piquenique no corredor quando ele comeu quase todo o nosso “piquenique” e ainda tinha espaço para mais.
O que me lembra que a “tia” que ele se referiu naquele dia na verdade era a mãe do Alex, Sonea. Nem uma relação de sangue, mas muito amor, como ele mesmo diz.
– Bife lasanha. – disse Jake finalmente terminando de montar sua serra de panquecas ao qual ele regou com as duas caldas colocando algumas frutas para enfeitar. – Trouxe algumas batatas também.
– Maníaco por batatas. – sempre que Jake vinha me pedir algo para cozinhar tinha que ter batatas no meio. Jake me mostrou a língua, lambuzada de calda. – E Nico é melhor comer rápido, esse cara ao seu lado tem um rombo no estomago você viu bem ontem. – Jake sozinho comeu quatro McDonald’s e uma pizza. Mas do que rombo, seria um buraco negro. – Ele só não come a mesa e os utensílios porque sabe que essa será sua ultima refeição se fizer isso aqui no meu apartamento.
Nico riu assentindo enquanto que Jake que estava com a boca cheia me olhava mal humorado apontando o garfo, se sentindo completamente ultrajado.
Em alguns minutos terminamos de tomar café – o bom dessa “boca nervosa” de Jake é que nunca sobra comida – e limpamos a bagunça bem a tempo. Robert me ligou avisando que já estava no hall do prédio esperando por Nico.
Como era o primeiro dia de aula Robert levaria Nico até a escola e o traria embora assim que terminasse, nós próximos dias Nico iria de metro como havíamos combinado, ele nem quis saber sobre o ônibus escolar, não me pergunte o por que.
Em meio a conversas sem sentido Nico e eu chegamos ao hall – Jake foi direto para o estacionamento – dando de cara não só com Robert, mas com Thomas também. Por um momento havia me esquecido o que havíamos combinado ontem.
Por Thomas não morar muito longe daqui, dois quarteirões para ser exata, eu seria a carona dele para a escola já que como o ônibus escolar tem que dar uma grande volta para pegar todos os alunos até chegar à escola, palavras dele, e o carro dele estava no conserto, qual iriamos hoje depois da escola buscar – eu sei, sou uma boa amiga.
Como já estávamos em cima da hora só deu tempo de roubar um beijo de Robert antes de Nico e ele se despedirem de mim e Thomas indo correndo até o carro de Robert.
– Aluna pegando o professor. – disse Thomas sorrindo malicioso para mim. – Bem clichê.
– Com cobertura de chocolate, TK. – pisquei um olho sorrindo marota para ele enquanto me dirigia ao elevador, para irmos até ao estacionamento.
– TK? – ouvi os passos apressados dele atrás de mim, sua voz soando confusa.
– TK. – confirmei entrando no elevador com ele logo atrás de mim. Apertei o ultimo botão, o do estacionamento. Ele assentiu sorrindo para o apelido, o que foi bom. – Eu assisti ontem três episódios de Digimon Adventure e cinco de Fullmetal Alchemist: Brotherhood quando todos foram embora. Não sei por que os de FMA baixaram mais rápido do que de Digimon.
Thomas havia me contado o que era Digimon e sobre os animes, fiquei bastante interessada e para começar ele me passou um link para eu baixar Digimon e FMA e eu não perdi tempo. Se fosse tão bom quanto Thomas estava falando eu não perderia tempo porque além de Digimon e FMA ele falou que ainda tinha muitos grandes animes até perder a conta.
Depois de ver que ambos os animes era legais eu fiz uma pesquisinha básica sobre eles. Sabe como é, né? Minha curiosidade e ansiedade às vezes não me deixam dormir e não acho que conseguiria dormir se não fizesse isso.
Talvez isso tenha sido um pouco de exagero da minha parte, mas enfim.
Quando eu estava vendo Digimon e apareceu o nome do personagem de Takeru Takashi, ou TK como ficou conhecido aqui no ocidente, eu logo pensei em Thomas. Seu nome completo é Thomas Kitsch, TK, achei perfeito e agora que ele aprovou, só vou me referir a ele assim.
Apesar da personalidade e físico deles serem bem diferentes.
– Uau. – exclamou impressionado, eu disse que assistiria, mas acho que ele não achou que fosse tão depressa assim. – Então... – ele parou um pouco para pensar, provavelmente fazendo as contas de quanto tempo gastei assistindo já que ele estava usando os dedos. – Passou a madrugada assistindo? – assenti confirmando.
Ele, Robert e Jake saíram ao mesmo tempo ontem do meu apartamento, por volta das onze horas da noite depois de limparmos a bagunça que tínhamos feito.
– Fiquei até às três da manhã assistindo sem parar. Digimon é muito envolvente apesar de eu ter achado ele um pouco infantil. – as portas do elevador se abriram e eu me apresei a sair com Thomas logo atrás de mim. – O que é bem justificável e FMA... – Thomas havia me ensinado algumas siglas também. – Meus Deuses. – falei animada. – É incrível e eu tenho que dizer que estou adorando a Riza.
– Acho que vamos ter muito o que conversar durante o caminho até a escola. – comentou Thomas divertido. – Não sabe como é gratificante ver você falando animada assim sobre animes depois de eu ter apresentado eles para você.
– Pode apostar que vamos e ainda tem a trilha sonora deles, gostei bastante das musicas de abertura e encerramento, apesar de eu não ter entendido nada, tem um toque muito legal. – parei perto do meu Audi S5 Cabriolet e apertei o botão do alarme, a capota se levantou se encolhendo até o compartimento na traseira do carro.
– Fala serio que esse é o seu carro? – Thomas estacou ao meu lado. Ele estava parecendo eu quando vi meu carro pela primeira vez, além de estar incrédulo. Ele se virou para mim abobalhado – S-s-seu apartamento...? Ess-esse carro...? – as palavras “tropeçavam” em sua boca.
– Não se esqueça da moto. – apontei divertida para a minha Yamaha XT 660R preta oque fez a boca dele escancarar e seus olhos se arregalarem. – Minha família tem gosto por dar presentinhos assim.
– Eu bem que queria estar na sua família. – comentou ele abobalhado.
– Ah você não iria querer não. – sorri de sua ingenuidade. – Vamos TK, temos aula daqui a pouco e não gosto de chegar atrasada.
– Como desejar, Primeiro-tenente Hawkeye. – Thomas bateu continência fazendo nós dois rirmos logo em seguida e nesse bom humor fomos para a escola.
Embalados em uma conversa animadora sobre os animes que eu assisti, eu deveria ter conhecido animes antes, nem percebi como o tempo passou e já estávamos entrando no estacionamento da escola.
Foi inevitável, eu acho, quando entramos e varias cabeças se viraram em nossa direção e continuaram a nós seguir conforme eu entrava no estacionamento da escola, o que eu achei bem estranho. Meu carro era bonito, mas havia carros inda mais bonitos no estacionamento dessa escola, na minha opinião.
– Acho que isso é minha culpa. – Thomas levantou a mão um pouco encabulado. – Sou um pouco antissocial e “estranho” na perspectiva da maioria dos outros alunos. E também nunca vim na escola acompanhado. Nem pelos poucos amigos que tenho aqui.
– Por quê? – Thomas apontou para uma vaga e segui naquela direção.
– Tenho somente três pessoas que posso realmente chamar de amigos aqui na escola e eles moram aqui perto, veem a pé. – estacionei o carro, que graças aos Deuses a vaga era em baixo de uma arvore, ou seja, nada de carro pegando fogo quando fosse embora, Thomas esperou nós dois sairmos para continuar. – Sempre recusaram meu convite de carona.
“Dizem que já que ficam muito tempo sentados precisam fazer um pouco de exercício. Mesmo que não levem nem dez minutos para chegarem a escola.”
– E você não se adepta a fazer isso também? – com a facilidade que eu tenho para sacar minha adaga eu ignorei os olhares e sussurros que algumas pessoas ainda estavam nós dando.
Serio, essa escola é muito estranha.
– Tenho uma esteira e uma bicicleta ergométrica no apartamento, faço exercícios enquanto assisto animes. – respondeu ele dando de ombros indiferente. – Minha mãe com suas manias de exercícios acabou me ajudando também.
Senti um olhar penetrante em mim, do tipo que estava me incomodando. Olhei em volta procurando quem seria o dono do olhar e logo o encontro, ou melhor, a encontro. Uma garota morena de cabelos castanhos curtos olhava para mim friamente, mas percebi que não era só para mim.
Não precisei forçar o cérebro para tentar entender porque ela nós estava olhando assim. Percebendo o olhar da garota sobre a gente TK ficou tenso ao meu lado e resmungou alguns palavrões acompanhados de “estou enrascado”.
Minha habilidade de percepção é muito boa.
– É sua namorada? – perguntei fazendo TK parar de se martirizar e olhar para mim com o cenho franzido com a clara pergunta estampada em seu rosto. – É a única explicação que eu consigo achar para ela estar me olhando assim e pela sua reação já que você disse ontem que não tem irmãos.
Ele engoliu em seco e colocou o indicador contra os lábios. Foi a minha vez de ficar confusa, apesar de agora ter certeza que ela realmente é sua namorada – um namoro complicado pelo jeito – mas respeitei seu pedido mudo.
– Vamos até a secretaria. – ele suspirou e apertou o passo começando a subir as escadas. – A aula já vai começar e temos que pegar nossos horários e o numero de nossos armários.
No corredor a caminho da secretaria TK diminuiu o passo e ficou perto de mim.
– É complicado e delicado, só meus amigos sabem sobre a gente. – sussurrou ele mantendo a atenção a nossa volta apesar de não ter ninguém por perto. – Te explico depois quando sairmos da escola. – ele balançou a cabeça em negativa e mais uma vez se martirizou. – Droga, devia ter me lembrado de contar a ela hoje cedo sobre você.
– Hoje cedo?
– Como disse é complicado. E depois eu te explico. – novamente ele apertou o passo, mas dessa vez TK segurou em meu braço e me arrastou junto com ele.
Depois de termos pegados nossos horários e o numero de nossos armários saímos rapidamente da secretaria. Não falamos mais sobre o namoro complicado e delicado de TK.
Ele me mostrou a onde era o meu armário, no meio do corredor embaixo de uma janela enquanto que o dele ficava no final do corredor, TK odiou isso e tentaria trocar de armário com alguém.
Eu não tinha nem um problema com o lugar do meu armário, até chegar nele. E eu estava me odiando por estar achando aquilo um problema.
TK e eu estávamos conversando sobre como Paul, eu tenho certeza, arranjou para que nós dois tenhamos os mesmos horários nas matérias que escolhemos que eram iguais – e reclamou como ele não fez nada para coloca-lo em um armário melhor. As únicas diferentes eram nossas eletivas e língua estrangeira.
Minha eletiva seria Oficina Avançada, Desenho de projetos – na escola não tinha essa eletiva, esse será o primeiro ano, acho que minha mãe tem algo haver com isso já que eu adorei saber que tinha essa matéria nas eletivas – enquanto que a de TK seria de artes – ele disse que gosta de desenhar do mesmo jeito que gosta de animes, então supus que ele ama desenhar.
Língua estrangeira, que é obrigatória, eu faria Frances e TK Espanhol.
Mas voltando ao meu armário. Assim que TK me mostrou a onde era o meu armário meu coração se apertou em meu peito sem permissão. Engoli em seco vendo Percy e Dona se beijando em frente ao qual seria o meu armário.
Eu estava sem reação, ocupada de mais brigando mentalmente comigo mesmo por meu corpo estar reagindo mal ao ver essa cena. Eu não devia ficar assim, eu tinha tomado minhas decisões, minha mente já estava preparada e eu achava que meu corpo também. Traiçoeiro.
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