Notas iniciais
Nota: Alguns fatos cronológicos relativos ao X Japan e à carreira solo de hide são alterados aqui. Na realidade, o X Japan foi formado por Toshi e Yoshiki, não por hide e Yoshiki como é afirmado no texto; em segundo lugar, o show que contou com convidados especiais como membros do LUNA SEA e GLAY que cantaram e tocaram músicas da carreira solo de hide ocorreu em novembro de 1998, mas aqui acontece no dia 29 de abril do mesmo ano, quando hide, portanto, ainda estava vivo e participou normalmente do show.

Atenção: Death-fic.
— Yoshiki-san!

O baterista se virou na mesma hora em que seus ouvidos captaram seu nome, encontrando o vocalista de uma das bandas que havia ajudado a produzir e, conseqüentemente, tornar popular.

— Teru-san. Parabéns pela apresentação.

O antigo baterista e pianista do X Japan cumprimentou o vocalista do GLAY, ambos sorrindo um para o outro nos bastidores do show que ainda continuava com força total no palco.

Enquanto mais convidados especiais eram apresentados ao público, Teru enxugava o suor do seu rosto com uma toalha que lhe havia sido dada há pouco, curvando os lábios para cima mais uma vez antes de fitar seu produtor novamente.

— Arigatou, ne. Não é todo dia que se tem a oportunidade de cantar ao lado de um ídolo... Ou esbarrar em outro nos bastidores! — ele acrescentou uma menção bem-humorada ao próprio Yoshiki e os dois riram mais uma vez — Veio participar também?

O baterista loiro ficou em silêncio por alguns segundos, mordendo o lábio inferior ligeiramente antes de responder:

— Iie, não sou um dos convidados. Mas vim assistir a tudo. — o mais velho replicou, repentinamente grato por ter seus olhos escondidos pelas lentes dos óculos escuros que utilizava; ele não sabia se a tristeza súbita que o havia atingido com a pergunta de Teru era visível nas suas íris ou não.

— Wakatta. Eu... — Teru se interrompeu, olhando na direção de alguém que o chamava e fazendo um gesto com a mão em seguida; apesar de indicar que já estava indo, ele retomou sua conversa com Yoshiki — Avisei Takuro sobre a reunião como pediu, mas ele disse que já sabia. Bom, não me surpreende, viciado em trabalho do jeito que ele é...

— Verdade. — concordou o outro com uma curva nos lábios; Takuro era o líder da banda de Teru e certamente tinha uma afinidade maior que o normal com o trabalho. Aquilo não poderia ser saudável.

— Nos vemos segunda, então. Preciso ir. — o vocalista se desculpou e os dois se despediram mais ou menos na mesma hora em que o show acabava no palco. Os gritos e os aplausos do público encheram o ar enquanto Yoshiki moveu-se silenciosamente para um lugar mais reservado e menos à vista daqueles que deixariam o palco em segundos.

Da sua nova posição, o baterista assistiu à saída de todo o Spread Beaver e mais dois membros do LUNA SEA, seguidos momentos depois pelo maior astro daquela noite e também o homem que o havia trazido até ali.

— Hideto.

Piscando duas vezes antes de se virar na direção da voz, o guitarrista de cabelo pink encarou seu antigo companheiro de banda com grande surpresa, passando uma mão pela roupa que vestia inconscientemente.

— Yoshiki. Tudo bem com você? — ele perguntou em um tom casual que soara forçado para ambos, mas nenhum deles fez observações sobre aquilo.

— Tudo. Vejo que com você as coisas estão ótimas, não?

A pergunta aparentemente inocente do baterista calou o astro da noite por mais tempo que o normal. Lambendo os lábios para umedecê-los da repentina secura que havia se abatido sobre eles, hide olhou ao redor brevemente antes de falar:

— Incomoda-se se... — ele parou a frase no meio, dando uma risada que parecia conter um suspirou dolorido junto com uma boa dose de sarcasmo — Venha, vamos até o meu camarim.

A familiaridade com que hide se dirigiu a Yoshiki não foi fingida, fato que causou um pequeno sorriso nos lábios do baterista enquanto acompanhava o guitarrista em carreira solo pelo labirinto dos bastidores até seu camarim, declinando o convite do dono temporário do cômodo para se sentar. Preferindo encostar-se à penteadeira e ficar de pé, o loiro observou hide apossar-se de uma cadeira sem cerimônias.

— E então? O que faz aqui, Yoshiki?

— Vim prestigiar seu show, é claro.

Uma expressão profunda de descrédito instalou-se no bonito rosto do guitarrista, que optou por suspirar e largar a cabeça para trás na cadeira; naquele novo ângulo que o pescoço de hide havia assumido, Yoshiki conseguia ver todo o suor resultante do show brilhando na pele do outro ocupante do camarim.

— Conta outra, Yoshiki. Eu te conheço há tempo suficiente para saber quando está mentindo.

— Então deveria saber que estou sendo parcialmente sincero.

O homem de cabelos pink torceu os lábios de forma condescendente, mexendo levemente a cabeça em sinal de afirmação. Voltando a encarar Yoshiki mais uma vez, o astro da noite cruzou os braços sobre o peito e agradeceu o outro em silêncio.

— Arigatou. — ele falou depois de longos momentos calado — Por ter vindo hoje, digo.

— Não precisa agradecer; foi um bom espetáculo. E depois, alguns dos seus convidados especiais são meus pupilos.

— Você tem faro para encontrar talentos e formar bandas, Yoshiki.

Ao comentário de hide mais silêncio se seguiu, porém de curta duração: somente o necessário para que Yoshiki retirasse os seus óculos escuros e olhasse de uma forma penetrante para o seu ex-colega de banda:

— Sempre tive.

O efeito que Yoshiki esperava ao remover os óculos aconteceu, e hide desviou os olhos imediatamente. Foi o homem loiro que quebrou o silêncio, inclinando o corpo mais para trás enquanto isso:

— Você... Transformou seu apelido no seu maior sucesso, não é?

O tom da pergunta do baterista era ligeiramente orgulhoso, trazendo um sorriso à sua expressão. O mesmo aconteceu no rosto do outro homem que, no entanto, não encarava seu antigo companheiro de banda ainda.

— Pink Spider... — hide pronunciou as palavras inglesas com seu indefectível sotaque; elas simbolizavam ao mesmo tempo o apelido do guitarrista dado a ele pelo próprio Yoshiki em tempos passados e também seu último hit e maior sucesso.

— Se bem que Sugizo corre tanto pelo palco que, por um segundo... Achei que estava vendo duas aranhas.

— Consegue me confundir com outros agora, Yoshiki? — o homem de cabelos pink perguntou quando finalmente fitou o outro ocupante do cômodo com um brilho desafiador no olhar.

— Nunca.

A resposta veio rápida, certeira; no entanto, não soava automática. O sorriso que até então enfeitava as feições de hide ficou mais afetuoso.

— Yo-chan. — o guitarrista endereçou o outro de um jeito que não usava há anos, fazendo o semblante sério de Yoshiki se transformar em algo mais terno — Me diga a verdade: o que quer de mim?

O referido homem deu um leve impulso com seus braços e distanciou-se da penteadeira, começando a andar devagar pelo camarim; os olhos de hide seguiam seus movimentos abertamente.

— Eu estive pensando... Em voltar com o X Japan.

— O quê? — o guitarrista replicou, imediatamente girando o corpo na cadeira e buscando o olhar do outro homem que agora se encontrava de costas para ele — O quê foi que você disse, Yoshiki?

Antes que o baterista loiro pudesse fazer qualquer coisa hide já estava na sua frente, visivelmente agitado. Seus olhos carregavam vários sentimentos, mas o que se destacava dentre todos eles era o medo.

— Estou pensando em voltar com o X Japan. Mas você sabe que para isso dar certo... Eu preciso de você.

Os dois homens ficaram parados de pé, sem interromper a troca de olhares que haviam iniciado. A respiração de hide estava ligeiramente ofegante, parte por causa das notícias que Yoshiki havia trazido e parte por causa das palavras que o mesmo escolhera ao final da sua revelação.

— Você... — hide suspirou e fechou os olhos, virando a cabeça para outra direção que não fosse o rosto do baterista — Você quer que eu seja um degrau, uma etapa paras alcançar seu sonho?

O loiro piscou, andando até o outro e tocando-o no ombro como que pedindo para que o homem de cabelos pink se virasse silenciosamente. hide, porém, permaneceu como estava.

— Não estou usando você para nada.

— Ah, não? É o que parece. Escuta aqui, Yoshiki. — o guitarrista deu meia-volta abruptamente e o loiro deu um passo para trás sem querer com o ato — Só porque você não seguiu em frente depois do X não quer dizer que os outros não possam... Não quer dizer que os outros queiram voltar ao que era antes.

As palavras de hide afastaram Yoshiki como se o guitarrista tivesse jogado ácido na sua direção; os olhos do baterista refletiam uma surpresa honesta e uma mágoa mais genuína ainda. Atordoado, o agora produtor de bandas caminhou até a cadeira que hide ocupara antes, jogando-se na mesma sem elegância alguma e apoiando o rosto nas mãos espalmadas.

— Você não sente... Falta de nada daquele tempo?

A voz do baterista saiu abafada pelas suas mãos, mas foi clara o suficiente para que o outro compreendesse a pergunta. O barulho de passos calmos pelo aposento foi tudo que o loiro cabisbaixo ouviu antes da voz de hide soar novamente no aposento:

— Sinto falta de muita coisa, Yoshiki... Mas não posso tê-las de volta porque o tempo delas passou. — sabendo que sua resposta havia sido vaga, ele continuou — A parte da minha vida dedicada ao X foi marcante, com certeza. Mas as memórias são dolorosas, não sei se quero experienciar toda essa dor de novo, voluntariamente.

— Do que você tem medo, Hideto? — veio a pergunta em uma voz calma e controlada, mas quando Yoshiki e hide se olharam novamente, o guitarrista viu uma lágrima solitária descendo pela face do outro homem.

— Medo?

— Eu vejo isso nos seus olhos... Desde o momento em que mencionei meus planos sobre o X Japan. O que é? — ele insistiu.

— Eu... Eu tenho medo de que você me tire tudo de novo, Yoshiki. — pronunciada em um fio de voz, a resposta do astro daquela noite quase não foi ouvida — Tenho medo que você leve embora esses últimos meses de conquistas minhas.

O loiro sabia que hide se referia à sua carreira solo depois do final da banda e aos shows, músicas e sucesso que eram mérito exclusivo dele. Os olhos de Yoshiki se acirraram brevemente, apesar de ainda estarem brilhantes por causa das lágrimas.

— Quando foi que eu tirei tudo de você pela primeira vez, Hideto? — o baterista perguntou amargo — Você sempre teve tanto poder de decisão quanto eu. Se montamos o X foi porque você também desejava isso.

De repente, os olhos do guitarrista também estavam adornados por lágrimas cristalinas que, presas nos seus cílios, ainda não rolavam pelo seu rosto.

— Você tirou tudo de mim quando aceitou que Toshi terminasse a banda, Yoshiki. — o homem de cabelos pink respondeu, deixando-se cair sobre uma mesinha de centro com estrépito e derrubando alguns objetos que estiveram sobre ela com o impacto — Nunca ocorreu a você que para iniciar um relacionamento é preciso o consentimento de duas pessoas... Mas para terminar essa relação basta a vontade de apenas um dos envolvidos?

— E o quê você queria que eu fizesse? — exclamou o baterista com uma forte pontada de indignação, jogando os braços para cima quando se levantou da cadeira para deixar os mesmos caírem ao lado do seu corpo depois — Não havia outra saída. Todos nós tentamos demover o Toshi da idéia, mas não conseguimos. Tentar levar o X adiante seria...

— Como investir num casamento fracassado, eu sei. — Yoshiki olhou hide com surpresa quando ouviu seu frase ser prontamente completada pelo outro — Você fez essa comparação tantas vezes antes que não tem como não lembrar.

Um silêncio desagradável tomou conta do ambiente; enquanto o loiro caminhava pelo camarim sem dizer nada, hide se deu conta da sede que sentia desde que abandonara o palco naquela noite, e esticou seu corpo para apanhar uma garrafa d\'água que rolara da mesa para o chão quando ele se sentou ali.

— O que mudou na sua cabeça para enxergar uma solução agora, meses depois? — perguntou o guitarrista logo após terminar sua com a água, interrompendo a peregrinação do outro.

— O que não mudou, você quer dizer. — Yoshiki falou, encarando novamente seu antigo companheiro de banda — X Japan sempre foi minha vida... Eu só quero continuar vivendo.

hide suspirou, balançando a cabeça negativamente e largando a garrafa d\'água vazia de volta no chão.

— Yo-chan. — o homem de cabelos pink sussurrou o apelido inesperadamente, surpreendendo até ele próprio com o gesto — Toshi decidiu voltar a cantar?

— Iie.

— Então como planeja voltar com a banda se o problema que terminou com ela não foi resolvido?

O baterista sabia que o questionamento era válido, mas não pôde deixar de notar que se hide estava formulando aquele tipo de pergunta era porque ele havia considerado a idéia do retorno, nem que fosse por alguns segundos.

— Pata e Heath... E quanto a eles? — o astro da noite continuou perguntando sem esperar por uma resposta para a sua primeira dúvida.

— Tenho razões para acreditar que eles voltariam... Mas você é o primeiro com quem falo oficialmente sobre essa idéia. — esclareceu Yoshiki, imprimindo um sentimento às suas palavras finais que fizeram hide estremecer.

— E como você propõe algo assim para mim sem ter certeza da opinião deles? — o guitarrista perguntou numa voz suave, o olhar focado em um ponto qualquer na parede.

— Porque você sabe tão bem quando eu que não existe qualquer tentativa de reviver o X sem você.

— Ou sem você.

— Suponho que sim. — o loiro replicou com modéstia, sentando-se em uma cadeira novamente — Já disse isso antes e vou repetir: eu preciso de você.

— Isso é diminuir a importância do Pata e do Heath... Sem mencionar o Toshi. — hide brincou, mas a sua observação não fez o potente olhar do baterista deixar seu rosto nem por um segundo.

— Isso é ser sincero com nós dois.

— Yoshiki, Yoshiki... — o guitarrista passou as duas mãos pelo seu cabelo, desarrumando-o completamente como se aquilo o ajudasse a colocar seus pensamentos em ordem — E Toshi? Ele que era tão importante, ele que era a voz para suas criações... Ele é dispensável agora?

Encarando profundamente os olhos de hide, Yoshiki reconheceu de pronto o sentimento que estava ali:

Ciúmes.

Sentimento que havia sido tema das suas letras e que também estivera presente entre os integrantes do X Japan. Em especial, entre ele e o outro ocupante do cômodo.

Yoshiki suspirou longamente, esfregando os olhos e apoiando as mãos nos seus joelhos dobrados.

— Toshi foi a voz para as minhas músicas, mas... Não é mais. — ele completou a frase meio hesitante.

— E por quê? — o outro insistiu — Pensa em retomar a banda sem nem menos consultar seu antigo protegido?

— Toshi não era meu protegido, Hideto. — o baterista replicou com uma voz firme, endurecendo a sua postura na cadeira subconscientemente.

O guitarrista deixou seu corpo cair para a frente, acirrando os olhos:

— Ah! Então devia ser coincidência o fato de que ele sempre tinha idéias que eram aprovadas por você e que os arranjos também...

— Pare com isso, Hideto! — o loiro elevou a voz e se levantou, fitando o outro duramente e não gostando do tom irônico que havia escutado — Nós tínhamos gostos semelhantes e afinidades musicais, é isso! Eu nunca favoreci Toshi para atingir você!

— Então por que de repente ele não é mais importante? — o homem de cabelos pink também se ergueu da sua posição sobre a mesa.

A intensidade do olhar do guitarrista aliado à verdade das suas palavras vez Yoshiki desviar o rosto.

— Eu não considero traidores importantes. Eu não consigo mais escrever pensando na voz dele para dar vida às minhas letras.

Suspirando novamente e parecendo de certo modo humilhado, o loiro foi para perto da penteadeira novamente onde ele apoiou as duas mãos, não se atrevendo a encarar o outro pelo espelho.

Um sorriso pequeno tomou conta dos lábios do guitarrista, que teve a rigidez das suas feições instantaneamente transformada em algo mais carinhoso. Devagar e com um quê de hesitação nos seus passos, hide foi até onde o outro estava, enlaçando-o devagar pela cintura.

Yoshiki ficou tenso quando sentiu os braços daqueles que havia sido seu companheiro de banda ao redor do seu corpo. Era uma sensação esquisita, uma recordação boa e ao mesmo tempo dolorosa.

— Você não precisava ter feito todos esses rodeios para admitir que sentiu a traição do Toshi tanto quanto eu.

— Eu não...

— Shhhh. — o guitarrista sussurrou perto do ouvido do outro, apoiando seu rosto no ombro esquerdo do loiro — Não tem problema em deixar o seu lado imparcial e líder e ser humano e odiar alguém de vez em quando... Contanto que não seja eu a ser odiado.

Yoshiki finalmente relaxou no abraço e deixou-se amparar pela presença atrás de si, erguendo o rosto e encontrando um pequeno sorriso nos lábios de hide pelo espelho.

— Sabe... — ele riu baixinho para si mesmo, como se não acreditasse nas próximas palavras que iria dizer — Eu já odiei você.

— Eu também.

A réplica veio tão rápido que Yoshiki levou um momento para arregalar seus olhos castanhos e então deixá-los voltar ao normal. O guitarrista prontamente se encarregou de responder:

— Eu odiava você porque... Toshi parecia ter toda a sua atenção... As suas músicas eram sempre mais profundas do que qualquer uma que eu escrevia, sem contar que viravam sucesso instantâneo. Eu odiava e invejava seu talento em não apenas um, mas dois instrumentos.

O baterista e pianista do X Japan piscou várias vezes, como se tentasse absorver o que ouvira. Sem perceber, suas mãos haviam deixado a penteadeira e repousavam sobre as do homem de cabelos pink.

— Sua vez.

— Eu te odiava... Principalmente por causa da sua liberdade, por poder correr no palco e trabalhar com a platéia, por encantar a audiência com sua personalidade. Eu... Me torturava por não possuir a sua coragem ou criatividade e ainda faço isso. Eu invejo a sua carreira solo porque eu não fui em frente depois do fim da banda.

— Você sabe que amor e ódio são bem próximos, não? — murmurou o astro da noite antes de inclinar seu rosto apenas o suficiente para colar seus lábios ao pescoço de Yoshiki e beijá-lo suavemente ali, sem deixar de fitar o baterista pelo espelho.

Em questão de segundos, o loiro desvirou-se no abraço e com um movimento rápido, colocou hide contra a penteadeira do camarim, prendendo-o naquela posição com o seu corpo.

— Você sabe que já fizemos isso antes...

O loiro não terminou a frase, sendo cortado pelo outro:

— Eu sei. Deu saudades daquele tempo... Você não perguntou se existiam coisas das quais eu sentia falta? Essa é uma delas.

O guitarrista foi de encontro aos lábios de Yoshiki sem aviso, quase sorrindo ao sentir que o outro respondia com o mesmo furor; furor esse que geralmente era fruto da tensão, inveja e desejo mútuos que ambos possuíam.

A sensação que os dois homens tinham quando se beijavam era sempre a mesma, desde anos antigos: como se todas as outras coisas que estivessem acontecendo passassem a ser somente pano de fundo e não tivessem mais importância. Paralelamente a essa sensação de letargia vinha a necessidade de dominar, conquistar a supremacia no simples ato que era um beijo.

Yoshiki invadiu a boca do guitarrista sem delicadeza alguma, relembrando a textura e o gosto de hide conforme o guitarrista afundava seus dedos no cabelo loiro do outro e comandava-o silenciosamente, ordenando que ele colocasse mais pressão no contato entre os dois corpos.

Alguns minutos se passaram antes que hide quebrasse o beijo, empurrando o baterista para trás. Passando a língua pelos lábios, o produtor musical viu o homem de cabelos pink jogar as cadeiras na direção da mesinha de centro e abrir espaço no chão do camarim, para onde Yoshiki foi prontamente empurrado e logo depois acompanhado pelo corpo do dono do aposento.

Uma sensação de triunfo preencheu o baterista por dentro: hide nunca levava as coisas além de simples beijos quando não estava convencido das propostas do antigo líder do X Japan. Ser jogado daquele jeito pelo homem que normalmente era mais calmo e controlado na banda significava que era o seu modo silencioso de dizer "sim" ao convite de Yoshiki.

As figuras dos dois homens se entrelaçaram no piso gelado, as mãos de ambos os corpos procurando cegamente por fechos, botões e zíperes que pudessem afrouxar e afastar o incômodo momentâneo que eram as roupas; parte da camisa de Yoshiki já havia sido aberta e o guitarrista se ocupava em pregar beijos famintos no tórax do outro, enquanto o loiro finalmente deslizava a sua mão direita pela pele clara de hide, atingindo o local onde seu toque era mais requisitado.

— Ah! — hide exclamou de repente ao sentir o contato, sua voz lentamente assumindo as características de um gemido no final — É assim... — o homem de cabelos pink ergueu levemente o tronco e, mudando a posição das suas pernas, encaixou perfeitamente seu corpo ardente na mão habilidosa do baterista — É assim que pretende me conquistar para reviver o X?

— Não se conquista o que já se tem, Hideto. — o loiro arrematou com um sorriso ligeiramente vitorioso, usando seus dedos para aplicar uma pressão prazerosa no corpo do outro antes de subir e descer sua mão devagar, observando com gosto as mudanças na expressão do outro homem conforme ele alterava seus gestos.

— O quê... — o guitarrista gemeu, deixando seus quadris se movimentaram por instinto e completarem deliciosamente os toques de Yoshiki, apoiando suas mãos espalmadas no corpo do outro — O quê houve com a sua modéstia?

— Foi substituída pela confiança. Você sabe que isso sempre acontece quando você está ao meu lado. — o baterista murmurou, aumentando a velocidade da sua mão e deixando um barulho rouco escapar da sua garganta quando sentiu os lábios e os dentes de hide no seu pescoço, descendo até chegarem no seu mamilo direito.

— Devia estar com saudades dessa confiança, então.

— Você não imagina quanto.

Palavras não foram mais trocadas dali em diante, com exceção de meros insultos ou pedidos por uma movimentação mais rápida e eficiente. Não demorou muito para que o guitarrista chegasse ao seu clímax, deitando-se novamente por cima de Yoshiki e sentindo que o outro homem ainda não estava satisfeito biologicamente.

Mas a compensação psicológica que o loiro experimentava era mais que suficiente no momento.

— O quê faço com os rapazes? — inquiriu hide depois de longos momentos de silêncio, ainda deitado sobre o corpo do baterista no chão do camarim.

— Você pode deixá-los seguir carreira solo ou... Não sei. — confessou o loiro com um suspiro misto de contentamento e cansaço — Ainda temos tempo para pensar em tudo, convocar Pata e Heath para conversar...

— Quem vai cantar, Yo-chan?

Yoshiki sorriu ao ouvir o apelido:

— Já faz um certo tempo que descobri que uma certa aranha canta muito bem.

hide deslizou para o chão onde cruzou as pernas. O outro homem copiou seus movimentos, com um pouco de dificuldade na hora de entrelaçar a parte inferior do seu corpo.

— Você está falando sério? Acha que posso fazer isso?

— Acho. A questão é o que você... — Yoshiki encostou o seu dedo indicador direito no peito do homem sentado à sua frente — Acha disso. E se acha que consegue conviver novamente comigo... — o tom de voz do baterista ficou mais baixo e levemente tocado por uma sensualidade que ele raramente utilizava de propósito ao aproximar certas partes da sua anatomia ainda nada satisfeitas da perna dobrada de hide.

— Posso agüentar tudo isso e muito mais, Yoshiki... — o homem de cabelos pink murmurou enquanto colocava seu corpo em quatro apoios para se levantar completamente, demorando mais que o necessário nessa fase intermediária entre estar sentado no chão e de pé para provocar o seu antigo e agora futuro companheiro de banda.

— Interessante. Muito interessante e promissor. — o baterista concordou com um sorriso, também se erguendo do chão e arrumando suas roupas enquanto o astro daquela noite marcante para a dupla de músicas fazia o mesmo.

— Pretende avisar Toshi disso? — hide perguntou enquanto colocava as cadeiras de volta à posição original.

— Acho que os comerciais do nosso primeiro single do novo X servirão como telegrama. — o baterista replicou com um belo sorriso que se espelhou no rosto do outro homem.

O guitarrista abriu a porta do camarim para um corredor que àquela hora estava deserto, puxando Yoshiki de repente para si e beijando-o novamente de uma maneira que poderia ter sido classificada como apaixonada.

— Me dê alguns meses para acertar tudo, está bem? — o homem de cabelos pink pediu e obteve consentimento imediato — Estamos no final de abril e preciso falar com os rapazes, organizar tudo...

— Claro. Eu também tenho muita coisa para fazer. Acho que podemos deixar as notícias oficiais para junho ou julho, no verão.

— Perfeito. Até logo então, Yo-chan. Espero que tenha matado as saudades dos velhos tempos.

— Não todas... — o baterista piscou um olho para o outro antes de recolocar seus óculos escuros que haviam escapado ilesos das atividades dos dois no chão — Nunca vou matar todas as saudades.

— Nostálgico. — zombou o guitarrista, penteando seu cabelo desarrumado com uma das mãos.

— Não tenho culpa se o passado é melhor que o presente. Mas parece que o futuro tem tudo para ganhar. Até logo, hide.

Com um beijo rápido porém à vista de qualquer um que estivesse no corredor, os dois se despediram, cada qual com um sorriso hipnotizante no rosto.

Sete de maio de 1998.

Vestido totalmente de preto e novamente portando óculos escuros, Yoshiki encaminhou-se para o microfone que estava montado no velório de hide.

Depois daquele que havia sido o último show do guitarrista e cenário da conversa que havia acertado o retorno do X Japan, apenas pouco mais de quarenta e oito horas haviam convertido um sonho em pesadelo quando o antigo líder do X Japan descobriu que hide acabara morrendo a caminho do hospital após se enforcar na porta do banheiro da sua casa com uma toalha.

As mãos do baterista tremiam assim como todo seu corpo quando ele parou na frente do microfone e do suporte do mesmo, sem coragem de erguer a cabeça para fitar os presentes do local. Desconsiderando que Toshi estava ali, ele havia planejado reunir Pata, Heath, a imprensa além de hide e si mesmo para um anúncio, mas certamente não para dizer as suas palavras finais sobre a morte do guitarrista que para ele seria sempre muito mais que apenas um músico de talento.

Ele mal conseguiu ler o discurso que havia preparado entre muitos goles de uma forte bebida e choro quase constante, em casa durante os cinco dias de intervalo entre a morte do guitarrista e seu velório. Suas lágrimas ainda insistiam em rolar pela sua face e borrar as pequenas letras pretas que haviam sido impressas antes do velório, em um papel já todo amassado. Era o fruto tensão e do pesar que Yoshiki sentia e que havia descontado no mesmo.

Sentando-se ao piano para tocar uma última vez Forever Love juntamente com os outros integrantes presentes do X Japan, as palavras do falecido guitarrista sobre o seu talento com aquele instrumento e a bateria vieram à sua mente, e ele teve de se controlar muito mais para não falhar justamente naquela apresentação inteiramente voltada para o homem que havia dominado seus pensamentos nos últimos dias e por grande parte de toda a sua vida.

Embora ninguém pudesse saber, os olhos de Yoshiki estavam completamente cerrados, seus dedos deslizando pelas teclas com uma familiaridade adquirida com a prática e os anos. Sentimentos diversos se misturavam dentro do seu coração e tudo que o loiro desejava era que hide, de onde ele estivesse, tivesse a certeza de que o baterista nunca colocou tanto empenho numa apresentação sua. Nem mesmo quando aconteceu o último show do X Japan.

Assim que conseguiu, o baterista deixou o evento, dirigindo até um parque que ele costumara freqüentar em Tokyo. A maioria dos fãs de hide e do X Japan se encontravam no funeral que acontecia no templo budista, e pelo menos aquilo serviu para que o loiro ficasse em paz em meio às árvores e passarinhos que insistiam em cantar alegremente como se aquele fosse um dia como qualquer outro.

Parte da mente de Yoshiki pensava em como honrar a morte e a memória daquele que provavelmente havia sido o seu maior rival e companheiro, o homem com quem ele havia travado as mais complicadas e profundas relações que um ser humano poderia ter com outro.

No entanto, outro pedaço dele tentava entender os fatos e aceitar que hide não voltaria; encarar a realidade e perceber que daquele momento em diante, o passado iria sempre ganhar do presente e infelizmente, do futuro.

Eternamente nostálgico.

Nostalgia: saudades de algo, de um estado, de uma forma de existência que se deixou de ter; desejo de voltar ao passado.

FIM

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