Nossos Vizinhos: Os Addams
18 Somos só eu e você
Notas iniciais
Joey atravessou a rua, e como já era de costume, bateu à porta.
— Wandinha, filha, abre a porta – ele ouviu Mortícia gritar lá dentro.
— Não quero! – e depois uma batida de porta.
Após alguns instantes, Tropeço abriu a porta, Feioso atrás dele.
— Oi, Joey. Entra.
Eles seguiram para o quarto onde costumavam “brincar”.
— Senta na cadeira – disse Wandinha, sem olhar para nenhum deles – Anda logo, Feioso, senta na cadeira! – ele obedeceu – Vamos jogar um jogo.
— Que jogo?
— Se chama “Deus existe?” – ela disse, apenas.
Wandinha pôs a mão sobre a alavanca e a puxava, eletrocutando Feioso, e ignorando completamente a presença de Joey.
Geralmente ao ver a eletricidade percorrer o corpo do irmão, os olhos dela brilhavam de satisfação. Mas não dessa vez. Ela parecia distraída, entediada. Como se estivesse assistindo a uma aula de álgebra.
Ela estava estranha, e talvez, até um pouco menos sombria do que o normal.
O dia inteiro Joey pôde perceber que ela estava mais afastada do que de costume.
Conforme as horas iam passando, e eles iam caminhando pela casa, a garota ia se distanciando mais e mais deles, até que começou a caminhar na direção oposta à que eles iam.
Joey parou e resolveu segui-la, onde quer que ela estivesse indo. Precisava saber o que estava acontecendo.
— Vai indo lá, Feioso, que eu já te alcanço.
Ele a encontrou sozinha em um dos cômodos, alguns corredores a leste.
— O que você quer? – ela perguntou, no centro da sala, assim que Joey entrou – Vamos, o que você quer? – ela perguntou, elevando a voz.
— Quero saber o que está acontecendo – ele disse, por fim – Qual é? Você tá estranha. Tá mais quieta que o normal, tá distraída, distante.
— Joseph, essa é quem eu sou. Mau-humorada e mandona. Só isso.
— Não, Wandinha, você é mais, muito mais. E eu te conheço o suficiente para saber que tem algo estranho com você. O que é? Aconteceu alguma coisa? É... É algum cara?
— Ah, Joseph! Me deixa em paz! – ela voltou a caminhar a esmo pelos corredores. Qualquer lugar era bom, desde que fosse longe dele.
Joey correu até ela e a alcançou ainda no corredor, antes que entrasse em algum outro quarto, e a pôs contra a parede, bloqueando com os braços, impedindo que fugisse para os lados.
Ele olhou fundo nos olhos dela, procurando por alguma explicação.
Tudo o que recebeu em troca foi um beijo.
Doce e suave, aquilo o pegou de surpresa, mas logo ele se deixou envolver pela situação, enquanto seus braços deslizavam para a cintura dela, abraçando-a.
Assim que ela tirou os lábios dos dele, desabou em seus braços em seguida.
— Joseph... – sua voz era trêmula, fraca, quase um sussurro, quase choramingando – Por que isso acontece comigo? Porque... Porque eu te quero tanto? Porque...
Ele a acariciava carinhosamente, enquanto sentia as lágrimas lentamente pousando sobre seu ombro, aos poucos encharcando a camisa.
Após longos instantes, ele ousou tentar consolá-la.
— Calma... Calma. Ei, porque você tá chorando? – ele secava as lágrimas dela com o polegar. Sua voz era suave, compreensiva, reconfortante – Não tem nada de errado em gostar de alguém.
— Você não entende... Eu quero te odiar, mas não consigo. Quanto mais eu tento, mais eu te desejo.
— Tem... Uma coisa que eu queria que você ouvisse. E agora mais, porque eu sei que você também quer ouvir.
Ele tomou o rosto dela em suas mãos e lentamente a beijou.
— Te amo – ele sussurrou em seu ouvido.
Ela apenas o envolveu com os braços, exatamente como ele fazia. Era tão bom sentir o calor que ele transmitia.
— Eu também... – ela continuava sussurrando – Fica comigo... Joseph... Fica comigo... – o jeito como ela falava... Parecia que estava implorando.
— Claro, amor – ele a beijou, sentindo as bochechas molhadas dela.
Quando se soltaram, ela olhou nos olhos dele, e em seu rosto esboçava-se o que podia ser chamado de sorriso.
Após alguns segundos de tranquilidade, ela voltou a ficar inquieta, como se caindo em si, como se estivesse acordando de um lindo sonho.
— O que é que eu estou fazendo? Viu só, Joseph, eu te disse, a história está se repetindo! Te disse que isso não ia dar certo – ela enxugava as próprias lágrimas, tentando parecer forte.
— O quê? Está falando do Max de novo? A gente já tocou nesse assunto uma vez – ele se aproximava dela – Lembra o que eu te disse? – ele acariciava seu rosto, e sussurrou em seu ouvido: — Eu não sou ele.
— Tá, mas e aquela garota, a ruiva?
— A Beth? Se mudou mês passado pra Connecticut. E mais: eu não quero e nunca quis nada com ela – ele disse – Viu? Está tudo bem. Por enquanto, somos só eu e você.
Ela voltou a repousar a cabeça no ombro dele, após um longo e apaixonado beijo.
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