Nossos Demônios
3 Capítulo 3 ∞ Proposta
Notas iniciais
Tento fazer minhas respiração voltar ao normal, mas a ansiedade impede. O que ele está fazendo aqui? O que Logan está fazendo aqui? Seus olhos brilham de um jeito misterioso e tentador.
Meu pai abre um largo sorriso. Faz alguns dias que não o vejo, e provavelmente meses que ele não vê Henry. Ele abre os braços em um sinal de acolhimento enquanto vem em minha direção.
“Rebecca, minha querida!” Thomas me abraça. Tento fazer o esforço de retribuir o ato de carinho, mas não consigo por completo. Ainda estou assustada.
“Oi pai.” Digo esboçando um sorriso. Tenho que parecer o mais natural possível. Não seria nem um pouco bom mostrar para o homem número três, o efeito que ele tem sobre mim justo agora.
Meu pai me solta e vai em direção a Henry. Os dois esticam suas mãos, que se tocam. Com um impulso os dois se puxam para um abraço clichê, onde tapinhas são depositados por ambos nas costas um do outro.
“Deu tudo certo lá?” nosso pai pergunta animado.
“Como planejado.” Henry responde sorrindo enquanto apoia sua mão em meu ombro.
“Ótimo! Crianças, este é Dominic. Já devem conhece-lo.” Thomas se aproxima do amigo, que nos olha igualmente feliz.
“Certamente.” Respondo.
“É um prazer rever vocês.” Dominic diz enquanto se posiciona ao lado do terceiro homem. “Este é meu filho, Logan. Ele trabalha no ramo das indústrias Hilbert.”
Filho? Logan é filho de Dominic? Como? Desde que nasci convivo com a família Hilbert, mas nunca o tinha visto antes.
Logan continua a me olhar com um sorriso de canto, desde que entrei na sala. Mas não se arriscou a se aproximar de mim. A última vez que nos vimos eu estava fugindo dele, e olha só agora! O destino o trouxe de volta.
“Prazer.” Henry estende sua mão livre a Logan, que a segura o cumprimentando.
Ele se vira para mim e pega a minha mão direta, levando-a aos seus lábios, depositando um leve beijo.
“Encantado, Srta. Waldorf.” Diz em um tom polido, mas ao mesmo tempo provocador. Ele está omitindo o fato de já nos conhecermos, o que me deixa tranquila.
“Igualmente.” Digo corando um pouco. Merda Rebecca! Não mostre os efeitos... Não mostre. Espero que ele não perceba, que ninguém perceba. Para o meu desespero ninguém se pronuncia durante e depois da cena.
“Henry, eu gostaria que participasse da reunião das nove e meia comigo e com Dominic. Os juízes querem saber algumas coisas sobre os casos da Califórnia.” Meu pai interrompe o silêncio, me deixando mais calma.
Tento não manter contato visual com ninguém, como sempre eu provavelmente estou mostrando meus sentimentos abertamente através das minhas expressões faciais.
Mesmo assim não consigo me deter. O fato do peitoral de Logan estar na linha dos meus olhos é uma terrível distração, fazendo com que eu levante levemente a cabeça e o encare. Mantenho minha expressão séria. Meus olhos se encontram com os dele, que de alguma forma parecem sorrir para mim. Há algo ali.
“Rebecca, querida. Eu não tenho tempo hoje na minha agenda para te acompanhar até o seu andar. Sinto muito. Eu vou chamar Susan para que te ajude a se inteirar com o ambiente.
“Não é necessário. Se a senhorita Waldorf não se incomodar, eu mesmo posso lhe mostrar o caminho. Não estou muito ocupado na parte da manhã.” Logan diz com um tom profissional.
“Não seria um incomodo?” meu pai pergunta preocupado, sabendo o quanto o tempo de alguém que trabalha ali é precioso.
“Certamente que não.” Logan responde me lançando um sorriso de canto de rosto. Nossa...
Desvio o meu olhar para os outros que estão na sala. Dominic e Thomas estão sorrindo, apreciando o caridoso ato de Logan ao ceder seu tempo a mim. Já Henry me encara curioso, suas sobrancelhas estão arqueadas. Eu odeio quando isso acontece. Ele vai me encher de perguntas depois sobre o que está acontecendo, mas eu nem sei exatamente o que está...
“Ótimo! Henry, Dominic, temos de nos preparar para a reunião. Peguem o relatório dos casos.” Meu pai diz animado saindo de sua sala, enquanto é seguido pelos outros dois.
Henry já saindo pela porta, se vira para mim com um sorriso malicioso no rosto de “Eu sei o que está rolando por aqui.”. Ainda bem que seu movimento é rápido, e este sai de cena.
Eu e Logan estamos sozinhos. Ninguém se move, ninguém se pronuncia. Sinto que seus olhos estão percorrendo toda a minha silhueta, mas finjo que não percebo. Mantenho minha atenção aos meus pensamentos. Meu coração está novamente disparado, e um frio no estômago começa a crescer. Estou me sentido confusa e insegura. O que ele está fazendo comigo?
“Vamos?” é a única coisa que consigo dizer com muito esforço. Sai como um sussurro pelos meus lábios.
“Você primeiro.” Ele responde com um tom rouco. Um tom de alguém desesperado por algo. Um tom ao mesmo tempo cheio de promessas.
Dou passos firmes para fora da sala. Mesmo não o vendo, sinto sua parecença atrás de mim. Passamos por Susan que sorri educadamente nos dizendo “Tenham um bom dia.”.
Chegamos até o corredor de elevadores que há no andar. Logan se posiciona na minha frente e aperta o botão do elevador número três com seu comprido dedo indicador. Esperamos ali parados até as portas se abrirem.
Quando elas finalmente abrem, ele estende seu braço fazendo sinal para que eu passe em sua frente. Entro devagar, meus saltos ecoam no chão do elevador. Ele entra em seguida e aperta o botão do vigésimo oitavo andar. As portas se fecham e começamos a descer.
Agora é a minha vez de descer meus olhos sobre seu corpo. Ele está de lado para mim, com o paletó aberto e suas mãos colocadas nos bolsos das calças. Sua camisa é branca e sua gravata é azul, destacando ainda mais seus olhos claros.
Seus cabelos negros brilham sob a luz, eles estão um pouquinho compridos, fazendo com que as pontas rocem no colarinho.
“Surpresa?” Logan pergunta num tom divertido, quebrando minha linha de pensamento sobre ele.
“Um pouco. Nunca passou pela minha cabeça que você era filho de Dominic.”
Ele sorri, mas o sorriso não alcança seus olhos. Sua expressão se fecha um pouco. Algo parece que o incomoda. Será que ele tem algum problema com o pai? Isso explica eu nunca tê-lo visto antes, ou já o vi?
“Eu não esperava que pensasse.” Sua expressão volta a ficar suave e serena como antes. O que foi isso?
O elevador diminui sua velocidade até parar. As portas se abrem mostrando uma parede de vidro fosco com Indústrias Waldorf escrito em preto. Dou um passo para frente, aumentado minha velocidade aos poucos. Ao passar por Logan sinto sua mão descer do meu ombro até o final de minha coluna, assim como Henry faz. Mas diferente de meu irmão, os dedos de Logan deslizam de uma forma provocadora, o que faz o meu frio na barriga aumentar e os pelos dos meus braços se arrepiarem. Finjo que não sinto nada e mantenho a postura.
Será que ele quer causar estes efeitos sobre mim, ou apenas me sinto assim ao seu lado?
Com sua mão ele me guia para dentro do saguão que há atrás da parede de vidro. As pessoas andam agitadas de um lado para o outro segurando pastas e relatórios. Enquanto passamos por elas, as escuto cochichando.
“O que Logan Hilbert está fazendo aqui?”
“Aquela é Rebecca Waldorf?”
“É sim! Os dois estão juntos?”
“Nossa... Ela é muito bonita.”
“Melhor do que na People.”
“E ele é bem melhor do que na Forbes.”
Tanto mulheres quanto homens nos olham admirados, e pelo o que percebo um pouco enciumados também. Seus olhares parecem nos devorar vivos. As mulheres arrumam seus cabelos e sorriem, enquanto os homens arrumam suas gravatas. Esse é o efeito que eu e Logan causamos juntos.
Levanto minha cabeça para olhá-lo. Em seu rosto uma sombra de humor se transparece. Ele acelera o passo, me levando na direção da recepcionista. Ela nos olha enquanto se meche na cadeira, está desconfortável.
“Bom dia.” Ela sorri mostrando todo o seu charme. “No que posso ajuda-los?”
“Poderia nos informar onde é a sala da Srta. Waldorf?” Logan pergunta em um tom profissional e sério.
“É a penúltima sala a direita no final do corredor.”
Ele não responde nada, apenas volta a me guiar dentre as pessoas. Que falta de educação! Viro minha cabeça para trás observando a mulher.
“Obrigada.” Grito para ela, que assente positivamente.
Entramos no corredor enquanto permanecemos calados. Nossas respirações são as únicas coisas que fazem barulho. Paramos de andar quando chegamos na porta de madeira com o meu nome escrito.
Logan estende sua mão a maçaneta, e a gira, abrindo a porta. Entro na sala de paredes brancas, com uma enorme janela de vista para a cidade. A decoração é simples e neutra. Há uma estante cheia de livros e documentos a minha direita, uma mesa de vidro com um Macbook Pro à esquerda, e um sofá de couro no canto. É lindo.
Logan me segue fechando a porta atrás de si. Ando até a janela para apreciar a vista, consigo ver as pessoas andando calmamente na rua. O dia está bonito, o céu azul sem nenhuma nuvem. Sinto a respiração quente de Logan o meu pescoço. Levanto o meu olhar e encaro nosso reflexo no vidro. Seu corpo está um pouco arqueado para que fique do meu tamanho, afinal ele deve ter um metro e oitenta e cinco de altura. Seus olhos estão fechados e seu nariz encostado em minha pele.
“Me desculpe pelo o que já fiz a você. Eu sei que não vai gostar do que eu vou dizer, mas eu...” sua voz sai como um sofrimento. Ele respira fundo fazendo os pelos do meu corpo se arrepiarem. Ele é tão intenso que eu não tenho a menor ideia do que fazer. “Está dormindo com alguém?”
Me quer? Pera aí! Entendi o seu jogo Logan, e não vou cair nele.
“Quer meu corpo?” pergunto imitando sua voz.
“Sim.”
“Me quer na sua cama?”
“Sim.”
“Me quer na sua vida?”
“Isso é negociável, dependendo de como tudo vai desenrolar entre nós.” Ele diz abrindo os olhos.
Isso só pode ser piada. Negociável? Sério mesmo? Ele diz isso de maneira tão casual, que me dou um minuto para registrar tudo.
“Você é broxante demais. Trata isso como se fosse mais um de seus contratos da empresa.” Digo me virando de frente para ele. Coloco minha mãos em seu peito e o empurro para longe de mim. Um sorriso malicioso se forma em seus lábios. “Eu não estou interessada Logan.”
“Rebecca, estabelecer parâmetros logo de início não é broxante, é apenas uma maneira de fazer com que nossas expectativas não sejam exageradas. Sexo casual não precisa ter flores e nem corações, não sou este tipo de homem.”
“Pode me achar uma louca, mas não sou como as mulheres com quem você sai. Gosto de conhecer o cara e ter uma relação de confiança com ele antes. Não precisa ser nada íntimo, e sinceramente, nunca fui muito a fim de flores e corações também, mas eu preciso conhecer a pessoa antes de dormir com ela.” Digo ríspida.
Negar o toque de Logan é algo que me deixa decepcionada e arrependida. Mesmo assim, sempre deixei bem claro em meus antigos relacionamentos que era assim que funcionava. Sempre deu certo deste jeito, e não seria agora que eu iria mudar. Nunca sofri de ansiedade ou até mesmo arrependimento por não agarrar o cara no primeiro minuto, mas com Logan há algo diferente. Meu coração se aperta em meu peito quanto estou ao seu lado.
“Mas sábado a noite na boate, você não recusou ao meu toque assim de primeira como você está falando.”
“Aquilo foi um erro. Eu tinha bebido demais... Não quero as mesmas coisas que você.”
“Quer sim, só não quer assumir. Seus olhos estão te entregando.”
“Logan, me deixe trabalhar.” Fecho os olhos irritada
“Rebecca...”
“Por favor!”
“Tudo bem. Quem sou eu para te atrapalhar no meio do expediente.” Ele diz virando as costas e saindo da sala. Mesmo tendo parecido que ele foi derrotado, sua expressão mostrava persistência.
Vou em direção a minha mesa e sento na cadeira de couro preta. Respiro fundo apoiando meus cotovelos no vidro, enquanto jogo minha cabeça nas mãos. A abordagem dele é tão estúpida, mas ao mesmo tempo tão tentadora. Por que? Logan Hilbert. Seu nome combina perfeitamente com ele. É algo que te encanta no primeiro olhar, mas te assusta no segundo, e no terceiro te surpreende.
Uma revolta invade o meu corpo. Será que estou certa de ter negado? Claro que sim, ele tem que aprender que não é sempre que as pessoas vão estar aos seus pés. Sinto que isso não vai acabar tão cedo, algo me espera. Mas, rá! Já sei o que está acontecendo! Hormônios! Minha menstruação começa na próxima semana. Logan, que nada... São apenas os hormônios. Enfim, hora de trabalhar Rebecca.
•••
Giro a chave e abro devagar a porta de casa. Estou exausta, com um pouco de dor de cabeça, preciso tomar um Advil. Jogo minha bolsa no chão e apoio na parede tirando meus saltos. Me viro e tranco a porta, que pela minha má sorte, faz um barulho alto ao fechar.
“Rebecca Leaman Waldorf!” ouço a voz de Andrea gritar do corredor. Me viro e vejo-a pisando forte no chão, está irritada. Ah merda! O que eu fiz?
Ela para na minha frente me encarando. Sem reação, me abaixo pegando os saltos e a bolsa e vou em direção ao meu quarto. Ela não questiona e me deixa ir, mas me segue.
“Você está se envolvendo com Logan Hilbert?”
“Quê?” que pergunta é essa? E como ela sabe que eu o conheço? Será que tiraram uma foto nossa sábado a noite enquanto ele me ajudava com Andrea? Possível, afinal ela não estava hoje na minha sala para ter alguma opinião.
“Por que não me contou?” ela pergunta irritada.
“Como assim te contar? Como eu vou te contar uma coisa que não existe?”
Entro no meu quarto enquanto tiro meus brincos e os guardo em meu porta joias.
“Não foi o que Henry me falou.” Ela diz dando de ombros enquanto cruza os braços.
Filho da mãe! O que ele pensa? Acha que eu estou dando em cima do Logan? Nunca. Tudo bem, tem algo nele que me chama a atenção, mas assim mesmo eu não demonstro nada. Ou demonstro?
“Henry é um perturbado mal amado.” Digo ríspida soltando meu cabelo.
“Eu escutei isso!” ouço a voz dele do lado de fora do quarto. Andrea ri baixinho.
“Mas então, desde quando vocês se conhecem?” ela pergunta.
Se eu responder ela vai ficar mais brava ainda. “Você está me escondendo ele desde sábado?” simulo a pergunta que Andrea provavelmente faria. Sim! Eu estou! Rá! O fato deu conhecer ele é irrelevante, não me acrescenta em nada. Algo no meu peito nega isso. Ah não ansiedade!
“Desde...”
“Não me enrola!”
“Não é importante.”
“Claro que é!”
“Claro que não!” grito brava. Coloco as mãos na testa e me olho no espelho. Estou com o olhar tão cansado. Respiro fundo. Por mais que eu não queira contar, eu devo. É injusto com ela. “Desde sábado no Zax.”
Ela arregala os olhos processando a informação.
“Mas sábado eu estava lá e... Ah claro, eu estava desmaiada.” Sua expressão se normaliza.
“Quase em coma eu diria.” Respondo tirando meu vestido.
Andrea me dá um sorriso triste enquanto senta na minha cama.
“E como exatamente vocês se começaram a falar?”
“Ele me ajudou quando você caiu.”
“E depois?”
“Depois eu encontrei com ele na Armani, e sai correndo.” Digo baixinho enquanto sento de perna de índio na minha poltrona ao lado na cama. Começo a alisar uma mexa de meu cabelo.
“Saiu correndo? Como assim Rebecca? Ele é Logan Hilbert! Não se desperdiça um homem desses!” diz desesperada.
“Eu nem conheço o cara direito.”
“Mas e daí?” ela suspira “Henry me disse que você ficou envergonhada perto dele.” Não respondo, apenas abaixo a cabeça confirmando e percebendo o quanto estou incomodada. Depois de um tempo ela continua. “O que ele te disse?”
“Ele perguntou se eu estou dormindo com alguém.”
“Ele disse o quê?” Andrea está incrédula. Seus grandes olhos castanhos estão brilhando, e um sorriso torna a aparecer. Ela levanta e se abaixa na minha frente olhando nos meus olhos.
“Pois é.” Passo a mão pelo meu cabelo jogando os fios para trás. “Minha reação também foi essa. Eu realmente não sei se essa conversa realmente existiu, ou foi pura alucinação.”
“E agora Rebecca?”
“E agora o que?” pergunto apoiando o cotovelo no encosto da poltrona.
“Vai deixar esta passar? Qualquer uma na sua situação já teria se entregado.”
“Eu não sei.” Balanço a cabeça negativamente olhando para frente. “Eu já disse que não conheço direito ele. Você sabe que eu não sou de qualquer um.”
“É sim! Já ficou com vários caras.”
“Mas não me entreguei totalmente.”
“Rebecca para e me escuta! Você acha que como ele e os outros te trataram como uma qualquer, este também vai?”
Andrea me fez enxergar agora. É esse o problema, rejeição.
“Sim.”
“Olha, ele realmente deve ter gostado de você. Não no sentido de gostar, mas deve sim. O que foi aquela história de ter nos ajudado na boate? Você realmente acredita que ele faz isso com todos os clientes? E o fato de que ele cedeu a parte da manhã dele, onde ele poderia estar trabalhando, para te mostrar a sua sala?”
“Educação.”
“Não! Sedução! Ele poderia ter chamado um táxi, mas não, ele nos deu o seu carro. Há milhares de funcionários na empresa mas ele quis te levar pessoalmente.”
“Pare com isso.”
“Ele é bonito, rico, e quer te lavar para a cama dele! Onde você vê problema nisso?”
Encaro Andrea brava. Olho bem em seus olhos.
“Eu não quero ter um relacionamento com ninguém no meu trabalho. Não quero mais fofocas com o meu nome. Quero ser bem vista profissionalmente.”
“Dá para fazer os dois Rebecca. Ele já foi direto ao assunto dizendo o que realmente quer. Não há erro, e ele não quer te iludir também. Eu sei que você pode encarar isso. Vocês são adultos e jovens. E olha, ele só tem vinte e oito. Imagina a disposição...”
“Imagina nada! Ele é muito grosseiro e nem um pouco sutil. Eu fiquei triste com o jeito que ele falou comigo.”
“Tem razão. Estou subestimando você. Não vai entrar em uma cilada dessas. Depois de tudo o que passou, deve ter uma noção.”
“Não que eu queira namorar ou algo sério.”
“Você está certa. Faça o cara morrer por você.”
“Duvido que ele já tenha quase morrido por alguém.”
“Mas por você ele vai.”
Adoro conversar com Andrea, não apenas pelo fato dela ser minha melhor amiga, mas também por que ela me mostra visões diferentes das coisas. As torna um pouco cômicas. Sempre diz, pelas entrelinhas, que sou uma mulher forte. Ela já me conhecia na época em que tudo aquilo aconteceu.
“Já acabou o papo de mulher?” pergunta Henry. Ele está parado ou batente da porta olhando para nós.
Eu e Andrea rimos baixinho e levantamos. Ela sai pela porta passando pelo meu irmão, que analisa seu corpo de baixo para cima. Wow! Arqueio minhas sobrancelhas quando seu olhar volta para mim.
“Que foi?” ele pergunta se fazendo de inocente.
“Nada não.”
“Fica quieta Rebecca! E vê se coloca uma roupa decente.”
Me lembro de que estou apenas de sutiã e calcinha.
“Não se preocupe, me corpo não vai te assombrar mais.” Digo indo até ele e fechando a porta do meu quarto.
•••
O resto da noite foi ótimo. Mesmo com sono nós três assistimos televisão até tarde, largados nos sofás da sala. Eu e Andrea rimos nos lembrando de tudo o que aconteceu na faculdade, as festas, os dormitórios, os professores. Henry também nos contou coisas muito estranhas que aconteceram na sua época, e outras que aconteceram na Califórnia. Combinamos que precisamos ir juntos para Las Vegas qualquer dia desses, provavelmente agora em Julho.
Henry me diz que falou com nossa mãe, e que ela quer falar comigo. Tinha esquecido completamente de ligar para ela desde que cheguei em Nova York. Ela deve estar brava. Decido que vou ligar amanhã, e vou dormir. Já se passaram da meia noite, mesmo sabendo que para a minha mãe ainda são nove horas, por conta do fuso-horário de São Francisco.
Todos já foram paras seus quartos. Encolho-me na minha cama de ferro branco trabalhado, e me enrolo na colcha. Fecho os olhos e adormeço.
•••
Minha terça-feira começou muito bem. Pelas fontes das mulheres fofoqueiras do corredor, Logan está fora da cidade por dois dias. Comemoro internamente. Isso significa paz e mais tempo para pensar sobre o que ele falou. Ficar perto dele é uma enorme distração.
Hoje fui apresentada a minha assistente, Emily. Ela é muito inteligente, e pelo pouco que percebi engraçada também. Desde que cheguei ela está me ajudando nas planilhas dos investimentos da Flórida, o que me faz perceber que fiz a faculdade errada. Obrigada pai, por te me obrigado a estudar durante meia década algo que não vou usar. Penso em pesquisar o curso de economia em Yale, mas desisto. Melhor focar no trabalho com a experiência que tenho.
Decido antes do horário do almoço ligar para minha mãe, já que Henry avia me avisado, e também por que estou me sentindo uma péssima filha. Ela demora muito para atender, o que me dá vontade de desligar. Mas no último minuto ela atende.
“Donna Leaman” sua voz é séria e profissional.
“Oi mãe!”
“Rebecca! Por que não me ligou?” Ai! Ela está mais brava do que eu imaginava.
“Desculpa, é que eu e Andrea...”
“Não coloque Andrea na história, ela não tem culpa de você não ter ligado!” ela grita. Afasto o telefone do meu ouvido, a fim de que eu não fique surda.
“Eu não tive tempo. Estava arrumando as coisas do apartamento por aqui.”
Um silencio se estende do outro lado da linha.
“Alô?” digo pensando que Donna desligou.
“Henry me falou que seu pai expulsou vocês dois, indiretamente de seu apartamento.”
“Pois é.”
“Tem ideia do motivo?” Ah merda! Por que você está perguntando isso mãe? Você sabe o motivo, só não quer aceitar, e eu não quero te magoar.
Respondo fingindo que não sei de nada, o que tecnicamente não seu mesmo, mas eu e Henry temos nossas... Suspeitas?
“Não sei não, mãe.”
“Por que isto é um absurdo. Eu deixo vocês irem morar em Nova York, e ele joga os dois na rua?”
“Mãe, não foi bem assim. E nós somos adultos já! Você não manda mais no lugar onde a gente mora, e temos total capacidade de nos virarmos sozinhos.”
“Isso é muito ofensivo. Quanta falta de consideração da sua parte em relação a mim.”
Donna como sempre fica ofendidíssima com todas as verdades que eu digo a ela, por isso Henry é o filho preferido.
“Ok mãe... Enfim, você está bem?” mudar de assunto para evitar discussões via celular é a melhor política.
“Estou bem querida. E você?” sua voz diminui a tensão.
“Vou indo.”
“Conheceu alguém por aí?” ela vai logo ao ponto, me incomodando um pouco. O fato de que talvez alguma foto minha e de Logan tenha caído na internet, me assombra mais uma vez. Mas não vi ninguém comentando, o que me faz ficar mais calma.
“Claro que não. Quando eu conhecer, você vai ser a primeira a saber.” Minto.
Conversamos mais um pouco sobre coisas banais, e desligamos.
Na hora do almoço Henry vem a minha sala. Ele traz consigo dois lanches do Subway. Ele se senta na minha frente à mesa, e ali comemos e conversamos durante uma hora. Falamos sobre um evento que ocorre todo ano em Santa Mônica, onde todos os grandes empresários e investidores estão presentes. Tudo acontece de frente para a praia de Santa Mônica em uma mansão. Sim, isso parece mais uma festa. E é mesmo, só que com investimentos, e reuniões. Seria o paraíso dos negócios. Pessoas vestidas despojadamente bebendo uns drinques, enquanto trabalham. E é lógico que este ano eu e Henry não estaríamos de fora disso tudo. Ocorre em Julho, dia seis e sete. Os convites serão enviados ainda esta semana o que nos alegra, e nos faz imaginar quem será convidado. Será que o moreno de olhos azuis está na lista?
Fale com o autor