Nosso primeiro natal
1 Parte 01 de 02
Notas iniciais
Não foi betada, perdoem os erros.
Boa leitura!
E aquele seria o primeiro natal que Hiro e Arima passariam juntos depois de dividirem o mesmo apartamento. O casal mantinha um relacionamento há três anos, e os termos eram ótimos, a química combinava muito bem, algo que ia além do equilíbrio entre Alpha e Omega. Fato que não podia se afirmar das coisas entre Arima e os avós maternos, que cuidavam dele desde que os pais do rapaz faleceram. A tensão era um crescente tão grande, que parecia uma panela de pressão prestes a explodir.
A mudança ocorreu em abril. O rapaz pegou suas poucas coisas e partiu para o apartamento de Hiro, sem grandes despedidas ou dramas. Não levaria saudades e não as deixaria igualmente. Para os avós, foi como se amarras invisíveis se partissem, libertando-os da tristeza de saber que a única filha se casara com um estrangeiro e gerara um mestiço.
Liberdade similar ao que Arima sentiu, já não mais sendo tratado como um peso imposto pela vida.
O casal ainda se adaptava às mudanças na rotina, indo bem ao incorporar os hábitos um do outro, assim como criavam novos pequenos rituais inerentes a casais que começam a caminhar juntos.
Com a chegada de dezembro, planejaram fazer compras de natal! O dia escolhido foi uma sexta-feira, na primeira semana do mês. O clima caia a graus congelantes obrigando todos a se protegerem sob camadas de lã. Ainda não nevava, embora a previsão prometesse uma bela chuva de flocos brancos para breve.
Hiro saiu da faculdade onde dava aulas e passou em casa para pegar o namorado. Arima já esperava na frente do velho prédio, mais empolgado com a noite do que gostaria de transparecer. O Omega vestia um casaco de lã vermelha e calças pretas, as mãos iam quentinhas por luvas pretas, assim como os cabelos castanhos se protegiam sob um gorro com um pompom na ponta; cabelos eram rebeldes demais para ficarem comportados debaixo do gorro. Apoiava-se em uma bengala discreta, herança do acidente de carro que matou seus pais e o deixou entre a vida e a morte por alguns dias. Omegas não se recuperavam tão bem e perfeitamente como Alphas. O rapaz levaria aquela sequela pelo resto de seus dias.
— Boa noite! — Hiro cumprimentou assim que o namorado entrou no carro. Sorriu ao ver a ponta avermelhada do nariz. Arima tinha pouca resistência ao frio — Como vai, Rudolph?!
— Rudolph?
— A rena do nariz vermelho!
Arima girou os olhos ao ouvir a piada sem graça e reclinou-se para deixar um beijo rápido nos lábios do Alpha (muito melhor do que se irritar), então travou o cinto de segurança e eles partiram.
— Para o shopping?
— Pode ser — Arima concordou. Ele gostava demais de passear dentre as lojas — Como foi o seu dia?
— O de sempre. As férias de inverno estão chegando e os alunos ficam desesperados para fechar a média do semestre. É uma choradeira que não tem fim... “arredonda a minha nota, professor? Eu tirei quatro e meio! Joga pra sete, por favor!!”
Arima riu do drama.
— Alpha carrasco! O que custa arredondar de quatro e meio para sete? — provocou um pouco. Ele ouvia cada história das peripécias dos alunos! E eram similares ao que testemunhava entre os colegas do próprio curso.
— E o seu dia, como foi? — Hiro devolveu a provocação — Implorou muitos pontos para o professor?
Arima parou de sorrir. Ele estava mesmo com algumas dificuldades em matérias importantes naquele último ano de faculdade. Escolheu Psicologia, um curso mais exigente a cada semestre. Na segunda metade precisou começar com os estágios e se complicou ainda mais.
— Não implorei, vou carregar uma “DP”. To sentindo.
— Podia ser pior: carregar duas “DPs”!
— Ótimo incentivo, Alpha.
O outro homem não respondeu, estavam chegando ao shopping. Tiveram dificuldade para encontrar uma vaga livre, apesar de serem apenas oito horas da noite. O estacionamento estava lotado!
— Estranho — Hiro resmungou — É começo de mês, geralmente o povo deixa tudo pra última hora...
— Será que está tendo algum evento?
— Ou serão os meus fãs?
Arima ficou incrédulo:
— Fãs?
— É... do livro que eu vou lançar!
— Aff, não sei porque ainda te levo a sério, Hiro — a resposta veio enquanto tirava as luvas e as guardava no porta-luvas, sabia que o shopping tinha aquecimento.
— Porque você me ama — o Alpha desligou o motor — E é meu maior fã!
O pobre Omega sentiu o rosto esquentar pela primeira parte, mas o sentimento encabulado sumiu com o complemento da frase.
Por fim desceram do carro. Arima esperou o companheiro dar a volta e vir segurar sua mão para que seguissem juntos rumo ao elevador que dava acesso ao piso superior. Eram um casal de contraste; Hiro, vestindo uma jaqueta que revelava a gola alta da blusa de lã e a calça social, tinha um metro e noventa de altura, e constituição firme, ainda que não fosse musculoso. Os cabelos negros penteados para trás iam bem assentados como sempre, combinando com os olhos de mesmo tom. Enquanto Arima, em seus trajes mais informais, por pouco alcançava-lhe o ombro, dono de olhos castanhos marcantes e cabelos rebeldes que escapavam de sob o gorro. Seguiram em passos lentos, com Arima claudicando de leve apoiado na bengala.
Um casal de contrastes, perfeito em suas diferenças.
*****
O interior do shopping estava lotado. E os dois descobriram o motivo logo no primeiro piso, na loja de departamentos que planejavam visitar: uma promoção de queima de estoque. A procura era tão grande que havia clientes do lado de fora, lutando para tentar entrar.
— Aquilo parece um inferno! — Hiro sussurrou.
— Parece mesmo! — Arima sequer pensou em contradizer — Quer olhar em outro lugar?
Hiro fez um som engraçado com a garganta, desdenhando da proposta.
— Você acha que eu sou o tipo de Alpha que foge de um desafio?! Se engana, meu caro namorado.
Arima ficou em dúvida se ria da resposta ou se girava os olhos demonstrando o enfado causado pela bravata. No fim preferiu entrar no espirito da brincadeira:
— Okay, grande Alpha. Entre lá e salve nosso natal — deixou bem claro que não tinha intenção nenhuma de fazer o mesmo, era desconfortável mover-se com a bengala em lugares tão cheios — E tenta voltar inteiro, okay?
Hiro riu, respirou fundo, ajeitou as roupas, mudou a carteira do bolso da calça para o bolso interno da jaqueta. Então segurou no rosto de Arima com as duas mãos e olhou fundo nos olhos dele:
— Vou para a batalha, Arima. Não importa o que aconteça, saiba que eu vos amo — e reclinou-se para beijar o Omega nos lábios, antes de se afastar com um trejeito exagerado e dramático, indo juntar-se aos fregueses que lutavam para entrar.
Com o rosto em brasas, Arima assistiu o companheiro vencer a resistência e costurar entre as pessoas, destacando-se pela estatura elevada até desaparecer no interior da loja.
— Alpha... Alpha... — queria dizer “Alpha bobo”, mas acabou não conseguindo.
Chegou mais perto de uma das vitrines de loja, preparando-se para esperar o retorno de Hiro, que aconteceu menos de três minutos depois, para a surpresa de Arima. O outro veio com as roupas bagunçadas e o cabelo um tanto despenteado. Despenteado!!
— Ah, tá pior do que o inferno lá dentro — foi dizendo enquanto ajeitava a jaqueta e tentava voltar os fios negros ao lugar — Vi que a fila do caixa está dando voltas. É espera de mais de uma hora só pra pagar, se conseguir pegar alguma coisa. Preferi voltar vivo para você.
— Obrigado pela consideração! Vamos ver outra loja?
— Tem uma no segundo andar, os preços dela são bons também — Hiro foi dizendo enquanto segurava na mão de Arima. Sempre tomava o cuidado de fazer isso pelo lado que não precisava se apoiar na bengala.
Seguiram sem pressa para o elevador e logo tiveram acesso ao piso superior. As portas se abriram para o que parecia outro shopping! Bem mais vazio e calmo, com poucas pessoas andando pelo corredor e admirando as vitrines.
A loja de departamentos ali não estava em promoção, logo não atraiu multidões de clientes ávidos. Com calma o casal escolheu um pinheiro artificial, algumas bolinhas (essas causaram polêmica. Hiro queria tudo muito colorido, Arima queria apenas brancas e vermelhas. Hiro venceu em uma disputa de Jan Ken Po), luzinhas coloridas e neve artificial. Tudo ia para a cestinha que Hiro carregava, depois de compararem se era o produto mais barato. As finanças estavam apertadas, ao menos até Arima terminar o curso e conseguir um emprego teriam que conter gastos dispendiosos. A renda que vinha da pequena herança cobria as mensalidades, mas uma faculdade não exige apenas isso de investimento.
— O que acha dessa estrela guia que... — Hiro ficou eufórico ao encontrar uma estrela que piscava em várias cores e cantava musiquinhas de natal! Foi perguntando para Arima, mas notou que ele não estava por perto — Namorado?
Antes que compreendesse o que aconteceu, uma vendedora aproximou-se sorrindo com solicitude exagerada.
— Posso ajudá-lo, senhor? — era uma Beta de sorriso amplo e contagiante, disposta a agradar. Passou um pouquinho do limite ao reclinar-se na direção de Hiro, tentando evidenciar o decote generoso que em nada combinava com clima de dezembro, ainda que o prédio oferecesse aquecimento — O lema da nossa loja é “tudo para agradar ao cliente” — e sorriu ainda mais.
— Eu — Hiro ia responder quando sentiu a punhalada certeira nas costas...
Notas finais
Pobre Hiro, levou uma facada nas costas uashaushauh ♥
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