Nosso pequeno universo.

1 Capítulo Único: Nosso Filhote


Notas iniciais
Oi, gente! Mais uma história... sim! 😂 Essa é mais leve. Eu não tenho escrito muito nesses últimos dias porque, para quem não sabe, fui mãe recentemente e agora tenho outras prioridades e uma rotina um pouquinho diferente. Minhas outras histórias continuam paradas, mas eu não consegui deixar essa ideia quietinha e acabei escrevendo. A história se passa em um universo ABO( Omegaverse ) Não quero que ninguém interprete isso de uma forma que não seja a intenção da história. A ideia foi usar o universo para colocar o Shun em algumas situações relacionadas à maternidade, principalmente à amamentação, que tem sido um grande desafio para mim nesses últimos tempos. Acabei me arriscando a escrever tudo em primeira pessoa pelo ponto de vista do Shun, justamente porque achei que seria a melhor maneira de transmitir um pouco dessas experiências e sentimentos. Eu gostei muito do resultado e espero que vocês também gostem dessa pequena história, feita no meio da correria, das olheiras e das mamadas. 😂 Boa leitura! ❤️

Papais de primeira viagem!

​Era estranho… extremamente estranho olhar para aquele ser pequeno e pensar que ele tinha saído de dentro de mim. Que tinha sido fabricado célula por célula por mim e pelo Hyoga.

O rostinho redondo, os cabelos esverdeados, os pequenos olhos azuis que pareciam duas bolinhas de gude. O nariz pontudo e avermelhado na ponta, que eu sabia ter sido herdado do pai siberiano. As bochechas coradas, a testa que se franzia levemente a cada respiração e a perturbação do sono do meu filhote.

Naquela noite… ele estava em meus braços, enquanto meus pés se deslocavam de um lado para o outro, balançando-o suavemente pelo quarto infantil, iluminado apenas por uma luz azulada e fraca.

Eu estava cansado… meus olhos estavam quase cerrados de sono. Eu parecia um zumbi, com tantas olheiras, e meu cabelo não estava muito diferente do Chewbacca.

Mas meu pequeno precisava mamar, e eu precisava alimentá-lo. As mãozinhas dele estavam grudadas na gola da minha camisa, já abaixada, enquanto ele fazia pequenos sons de sucção.

A pegada machucava. Eu sentia meus mamilos doerem a cada mamada. Além de estarem sensíveis e rachados. Um esforço que eu fazia para evitar a fórmula.

Porque eu era, naquele momento, a principal fonte de alimento do meu filhote. Sabia que o leite materno fornecia os nutrientes de que ele precisava nos primeiros meses de vida e, apesar de todo o desconforto, eu queria continuar enquanto pudesse.

Não era porque eu achava a fórmula ruim. Muito menos porque acreditava que um ômega que precisasse recorrer a ela estivesse fazendo alguma coisa errada. Cada família encontrava seu próprio jeito de alimentar um bebê, e eu sabia que, quando fosse necessário, a fórmula também seria uma opção perfeitamente válida.

Mas, para mim, havia alguma coisa naquele momento que ia além da alimentação.

O calor do corpinho dele contra o meu, as mãozinhas agarradas à minha camisa, o jeito como ele se acalmava quando eu o segurava… aquele contato pele a pele criava uma proximidade que eu ainda estava aprendendo a entender.

Era um vínculo afetivo entre pai e filho, que parecia se fortalecer a cada carinho que eu fazia naqueles cabelinhos macios. De vez em quando, ele erguia os olhos para mim, dividido entre o alimento e o meu rosto, e eu acabava sorrindo.

Eu achava tudo aquilo meio fascinante. Ainda era estranho pensar que meu próprio corpo era capaz de produzir alimento para outro ser vivo. Que, dentro de mim, existia tudo o que era necessário para manter aquele pequeno ser crescendo.

Talvez fosse uma das coisas mais estranhas da paternidade/maternidade: olhar para o próprio filho e perceber que, de alguma maneira, seu corpo também tinha aprendido a cuidar dele.

— Prontinho... A água já tá no esquema. — o outro papai apareceu na porta, com a voz tão baixa que parecia que estava discursando para formigas.

Assim como eu, Hyoga estava cansado, mas os olhos azuis, que antes eram frios, agora estavam quentes, calorosos e cheios de amor quando encontraram os olhinhos do nosso filho. O bebê até se esqueceu do Tetê para encarar o pai parado na porta do quarto.

— Você checou bem a temperatura? — perguntei, guardando o peito dentro da blusa; o bebê quis tomar posse de novo e choramingou, mas a voz do papai russo lhe acalmou;

— Sim. O termômetro da Shopee é uma porcaria. Usei a velha tecnologia russa. Medi a temperatura com a ponta do meu dedo para ver se estava quentinha.

Eu sorri, lembrando que ele mesmo havia estourado o limite do cartão de crédito comprando um monte de coisa sem necessidade no aplicativo laranja, influenciado por aqueles vídeos do TikTok de pais salvadores da pátria que prometiam milagres, mas que na hora H o bebê nem usava.

— Você sabe o que sua vó iria dizer, né? — comentei, lembrando de como a velha sempre balançava a cabeça quando via o caminhão de entregas parar na porta, decretando que aquilo era coisa de pai Nutella.

— Que somos pais Nutella e que devemos seguir as formas convencionais?

— Exatamente.

Hyoga deu um suspiro leve, entrando no quarto com passos cuidadosos para não fazer o menor barulho no assoalho. Ele estendeu a mão para roçar de leve a bochecha gordinha do bebê.

— Deixa a vó falar... — Hyoga murmurou, abrindo um sorriso bobo. — Se o TikTok dizia que esse balanço automático com som de ondas do mar ia salvar nossas madrugadas, a culpa não é minha se o herdeiro prefere o som da sua voz.

— Pelo menos o balanço serviu pra você jogar suas meias limpas em cima — provoquei, rindo baixinho.

— Eu estava precisando mesmo de um porta meias. — Hyoga sorriu também, beijando meus lábios. Ele colocou o braço nas minhas costas, e juntos fomos para o banheiro.

Ele tinha acabado de preparar um banho quentinho na banheira para o nosso pequeno, com um pouco de chá de camomila para deixá-lo relaxado.

A avó de Hyoga dizia que aquilo não fazia efeito nenhum. Mas eu sabia que os especialistas recomendavam um ambiente morno e relaxante, que era tiro e queda para ajudar o pequeno a capotar de vez depois da mamada.

Hyoga logo tentou pegar o bebê dos meus braços, mas ele sentindo a mudança de colo, resmungou manhoso e enterrou ainda mais o rostinho contra a minha blusa, recusando-se a largar.

— Pelo jeito, ele acha seu colo mais confortável. — o Siberiano fingiu uma falsa ofensa paternal.

— Ou ele só está sentindo o cheiro do leite. — brinquei, acariciando os cabelinhos dele.

Depois cheirei sua cabecinha e beijei-a com carinho, e comecei a soltar os dedinhos dele da minha roupa para entregá-lo. Meu marido o recebeu como se estivesse recebendo uma cartela de ovos. Uma mão apoiou as costas, enquanto a outra ficou atrás do pescoço, mantendo a cabecinha bem firme para que não tombasse para trás.

— Isso, rapaz. Vem pro papai. — ele ninou o bebê devagar, aproximando-o do próprio corpo.

Hyoga o envolveu cuidadosamente em uma toalha, mantendo o corpinho aquecido enquanto se preparava para colocá-lo na água. Recém-nascidos perdem calor com facilidade, então todo cuidado parecia pouco, principalmente naquela hora da madrugada.

Bastou o pezinho do pequeno encostar na borda da água morna para ele soltar um muxoxo, torcendo o narizinho.

— Mal entrou na banheira e já tá reclamando... — comentou quando o bebê soltou um barulhinho infantil.

— Ele é igual ao pai. Não gosta de tomar banho. — falei sorrindo, enquanto me aproximava do suporte da banheira para dar apoio.

Hyoga colocou primeiro os pezinhos do bebê dentro da água, que estava na temperatura ideal, e esperou alguns segundos, de olho em cada reação do pequeno.

— Hei. Para minha defesa, a água da Sibéria é muito gelada...

— Nós não estamos na Sibéria, né? — brinquei.

Hyoga me lançou um olhar de canto, com um sorriso de lado.

— Ainda bem. Se ele tivesse nascido lá, provavelmente já teria pedido um casaco.

Balancei a cabeça, sorrindo diante da mania dele de trazer o frio siberiano para qualquer assunto da casa.

Com uma das mãos, Hyoga sustentava o corpinho do bebê, mantendo-o seguro, enquanto a outra molhava devagar os bracinhos, a barriguinha e as perninhas, dando tempo para que ele se acostumasse com a água.

Era engraçado pensar que, depois que se tornou pai, aquele alfa frio e egocêntrico tinha se transformado em outra pessoa. Ou, quem sabe, apenas descoberto que existia alguém capaz de fazer o coração dele funcionar de um jeito que eu nunca tinha visto antes.

Para alguém que dizia não se importar com quase nada, Hyoga agora acordava durante a noite com qualquer movimento vindo do berço.

Às vezes, eu abria os olhos no escuro e encontrava meu marido inclinado sobre o pequeno, conferindo de perto se ele estava respirando.

Na primeira vez, levei um susto enorme. ​Na segunda, achei engraçado. ​Depois de um tempo, simplesmente me acostumei com a cena.

Hyoga também tinha desenvolvido uma implicância particular com qualquer coisa que pudesse ficar dentro do berço. Retirava um bichinho de pelúcia daqui, uma almofadinha dali, uma mantinha que alguém havia colocado por cima do bebê...

No fim das contas, o berço ficava praticamente vazio: colchão firme, lençol bem preso e o nosso filho.

​Ele dizia que era excesso de zelo. ​Eu dizia que era paranoia de pai de primeira viagem.

Mas, quando a gente se tornava pai, parecia que qualquer pequeno detalhe podia se transformar em motivo para preocupação. E Hyoga, sem sombra de dúvida, tinha descoberto esse superpoder antes de mim.

— Precisa de ajuda?

Fiquei observando-o enquanto ele dava banho no bebê. Hyoga despejou um pingo de shampoo infantil na palma da mão e espalhou suavemente pelos poucos fios que formavam os cabelos do nosso filho, fazendo uma espuminha branca e leve, enquanto tomava cuidado para não deixar escorrer nos olhos ou chegar perto demais da moleira.

— Não precisa. Você já está exausto — ele respondeu, lançando-me um olhar rápido de canto.

Eu ri fraco, porque ele tinha toda a razão. Eu estava com tantas olheiras que parecia um panda, e já havia bocejado tantas vezes naquela madrugada que comecei a desconfiar que minha mandíbula tinha decidido travar aberta para sempre.

— Tá bom. — eu disse, enquanto Hyoga enxaguava a cabeça do nosso filho, retirando todo o shampoo. Depois, aproveitou a água com sabão para lavar o restante do corpinho, passando os dedos pelo tronco, pelos bracinhos e pelas dobrinhas escondidas do pescoço.

​Até que o bebê deu um espirro pequenininho e engraçado bem quando Hyoga tentou limpar seu nariz.

​— Saúde, meu amor! — murmurei com um sorriso.

O pequeno mal terminou o espirro e, logo em seguida, soltou um pum audível que ecoou pelo banheiro.

​Olhei para Hyoga. Hyoga olhou para mim. E nós dois desabamos a rir, segurando o fôlego para não acordar o resto da casa.

— Alarme falso. — ele anunciou, erguendo o bebê um pouquinho. — Se fosse um cocô-bomba, pelo menos teria sido direto na banheira e a gente só descartava a água.

— Hyoga!

— O quê? Ele já está na água mesmo, não seria nada difícil de limpar — defendeu-se ele.

— Eu não sei por que eu te amo...

— Ah, tem certeza de que você não sabe? — provocou ele, arqueando uma sobrancelha.

Eu senti minhas bochechas esquentarem de leve e corei, murmurando uma resposta baixinho antes de me inclinar para dar um beijo rápido em sua bochecha. Olhei de relance para o nosso filho, que parecia completamente alheio à nossa discussão conjugal e boiava tranquilo na água morna.

— Vou lá preparar a roupinha dele... — eu disse e Hyoga avisou que logo tiraria nosso pequeno marinheiro da banheira.

Então me afastei até o trocador, preparando a fralda limpa, a roupinha e uma toalha seca para quando ele saísse do banho.

Hyoga terminou de enxaguá-lo e, quando tentou tirá-lo da água, descobriu que o filhote tinha opiniões próprias sobre o assunto.

O pequeno começou a bater os pezinhos dentro da banheira, mexendo as pernas para todos os lados, igual um peixinho.

— Não sabia que ele era um Cavaleiro de Peixes.

— Ele é de Leão. — corrigi, cruzando os braços da mesinha do trocador e olhando para o nosso pequeno nadador. — Talvez seja por isso. Leão não gosta de receber ordens.

— Pelo jeito, ele ainda tem que aprender quem é o macho alfa desta casa. — Hyoga fez uma pose severa, mas o brilho que ele lançava para o bebê desmentia toda a sua pose de durão.

— Bom... Com certeza não é você — o aticei.

Hyoga fingiu um choque dramático, arregalando os olhos azuis antes de abaixar o tom para um sussurro conspiratório:

— Ei, fala baixo! Ninguém no Santuário pode saber que é você quem realmente manda em mim...

— Ah, amor, pode ficar tranquilo... Todo mundo lá já sabe. E, pelo jeito, agora até o bebê também já descobriu.

Hyoga revirou os olhos com um falso ar de derrota.

— Ótimo. Só o que me faltava: mais um para fazer panelinha e discutir comigo.

Abri um sorriso carinhoso, abraçando-o.

— Pelo menos ele ainda não sabe falar.

— Pois é... ainda — Hyoga murmurou, olhando para o nosso filhote com um misto de orgulho e terror.

Depois ele sorriu e o pegou no colo, segurando o corpinho molhado. Antes de colocá-lo sobre o trocador, enxugou delicadamente cada pedacinho do corpo, principalmente as dobrinhas, enquanto ele remexia as pernas para todos os lados.

— Ele parece uma estrela-do-mar.

​— Uma estrela-do-mar? — indaguei, arqueando uma sobrancelha.

​— Olha para isso. — Hyoga apontou para as perninhas e os bracinhos abertos e espalhados pelo trocador. — Só falta tentar grudar no azulejo.

​— Se ele grudasse no azulejo, pelo menos seria mais fácil de gerenciar. Assim eu conseguiria fazer alguma coisa produtiva durante o dia..— falei aquilo rindo, mas não era exatamente uma mentira.

Nos últimos quinze dias, nosso filho tinha desenvolvido uma preferência bastante clara: meu colo.

O berço podia estar confortável, a temperatura podia estar agradável e o quarto podia estar silencioso. Não importava. Bastava colocá-lo lá dentro para que, alguns minutos depois, começasse a reclamar.

Aquilo acabava dificultando um pouco as tarefas de casa.

Eu tinha até providenciado um suporte canguru para poder mantê-lo comigo enquanto fazia alguma coisa.

​Mas eu simplesmente amava sentir o corpinho dele colado ao meu, o calorzinho atravessando o tecido e a respiração tranquila contra meu peito. Às vezes, eu tinha a impressão de que nossos corações batiam quase no mesmo ritmo. Ele também parecia gostar. Ficava mais calmo sentindo meu cheiro, ouvindo minha voz e, provavelmente, sabendo que sua fonte de alimentação estava bem ali, a poucos centímetros dele

​E eu me pegava adorando cada segundo daquela dependência.

​Tanto é que, em várias ocasiões, eu simplesmente sabotava a mim mesmo e desistia de qualquer obrigação. O bebê pegava no sono e eu deveria aproveitar para lavar a louça acumulada, organizar a bagunça ou adiantar a lavagem de roupas...

​Mas eu acabava optando por deitar junto. Hyoga já havia chegado do trabalho em algumas tardes e encontrado nós dois apagados no sofá, completamente rendidos pelo cansaço.

​Ele sempre abria um sorriso terno ao nos flagrar daquele jeito. Talvez por achar a cena aconchegante, com o marido ômega e o filhote dormindo de "conchinha".

​Ou talvez porque, apesar de qualquer resquício daquela cultura antiga que tentava ditar o que pertencia a quem, nunca tinha funcionado assim entre nós.

​Aquela era a nossa casa. O bebê era nosso. Logo, as responsabilidades também eram divididas

Hyoga lavava a louça sem reclamar, pilotava o fogão, cuidava da casa e assumia o pequeno sempre que necessário. Eu fazia exatamente o mesmo dentro do meu limite de energia. Não existia manual arcaico determinando o que cabia a um ômega ou a um alfa. Havia apenas a lista interminável de tarefas da madrugada e do dia, e nós dois remando juntos no mesmo barco para dar conta de tudo.

Enquanto meus pensamentos vagavam por ali, Hyoga começou a passar uma fina camada de pomada no bebê para evitar assaduras.

Nosso pequeno, obviamente, não pretendia colaborar.

Começou a se remexer, chutando as perninhas com uma força impressionante para alguém que tinha pouco dias de vida.

— Quinze dias e já chuta melhor que o Neymar. — Hyoga comentou, sustentando as perninhas, para não levar um chute certeiro no queixo.

— Está treinando para a próxima Copa — brinquei, ajeitando a fralda limpa por perto.

— Ao menos vai ter alguém nessa casa com talento para alguma coisa...

— Ei! — protestei, dando um tapinha de leve com a fralda no ombro dele.

​— Eu tô falando de mim, não de você... Você tem muitos talentos, amor — ele corrigiu rápido.

— E quais deles seriam? — eu ri, cruzando os braços com falsa desconfiança.

Hyoga apontou com o queixo para o bebê, que nos encarava com os olhos bem abertos.

— Olha só a preciosidade que você fez...

​— Que nós fizemos — reforcei, sorrindo. — Afinal, eu não sou nenhuma ameba para ter feito uma reprodução assexuada sozinho, né?

— Mas tem certeza de que foi com a minha ajuda? Olha bem para essa criatura... Para mim, ele é teimoso, dramático e... — Hyoga parou no meio da frase porque o bebê, sentindo que a atenção havia se desviado dele, esticou a perna deu um chute certeiro na mão do pai alfa, exigindo os holofotes de volta. — Ou seja, puxou todinho o pai ômega.

— Justo. Ele puxou a excelência em termos de gênio forte... e toda a modéstia de berço — retruquei, revirando os olhos.

Hyoga riu gostoso. Aproximei-me mais para ajudá-lo com a fralda. Ele levantou o bebê cuidadosamente enquanto eu puxava as fitas adesivas e prendia a fralda no lugar.

— Prontinho — olhei para o pequeno embrulhinho limpinho. — Agora vem a parte mais difícil.

Hyoga suspirou, concordando.

— Exato. Precisamos vestir esse herdeiro — ele resmungou, pegando o body de algodão e abrindo os braços da roupinha. — Vamos logo, rapaz. Nada de fazer greve e querer ficar fantasiado de Tarzan pela casa, hein? O papai não tem paciência para criar menino selvagem na base da tanga de folha de bananeira.

Colocar uma roupa limpa naquele bebê parecia exigir mais habilidade do que qualquer batalha que Hyoga já tivesse enfrentado. Nosso filho se remexia para todos os lados, esticando as pernas, dobrando os braços e girando o corpo sempre que tentávamos encaixar alguma parte da roupa.

Parecia acreditar que estava participando de um campeonato de judô. Hyoga segurou a blusinha e tentou passar a gola pela cabeça dele.

— Como pode? Uma criatura que não pesa nem quatro quilos ter força suficiente para peitar o Cavaleiro de Cisne?

— Você se esqueceu de que ele também tem o sangue e os genes de Andrômeda? — lembrei, dando-lhe uma leve cotovelada de brincadeira na costela.

Hyoga parou e me olhou.

— Tá explicado. — murmurou, antes de voltar a tentar cumprir a missão mais difícil de todas: manter nosso bebê agasalhado.

​Após algumas tentativas frustradas de encaixe, finalmente conseguimos passar a cabeça pela gola apertada.

— Isso, rapaz. Colabora com o papai! — Hyoga comemorou, erguendo os braços como se o Brasil acabasse de ganhar o hexa na Copa do Mundo.

— Não comemora antes da hora. Faltam os bracinhos.

Hyoga tentou pescar um dos bracinhos para guiar pela manga, mas o pequeno decidiu recolher o membro imediatamente, fazendo birra.

— Se você não colaborar, vou chamar o mestre Camus para te dar uma palavrinha... — ameaçou, arqueando a sobrancelha.

— Hyoga! — o repreendi.

​— O quê? — ele me olhou, quase não conseguindo conter o riso travesso.

— Não assusta o menino. — eu brinquei, balançando a cabeça ao lembrar das histórias exageradas que Hyoga gostava de contar sobre o mestre, tratando Camus quase como o bicho-papão da família.

— Camus é mesmo assustador... Principalmente depois daquele dia em que a gente se recusou terminantemente a dar o nome dele ao bebê.

​— Nós não íamos colocar o nome dele de jeito nenhum — ri, lembrando da cena.

Hyoga sorriu de lado, concordando com um aceno divertido.

​— Nem se ele descesse correndo as doze casas do Santuário montado em cima de um unicórnio brilhante.

— Para de ser besta... — murmurei. — Termina logo de vestir a armadura do nosso pequeno cavaleiro.

Que, na verdade, era um body com estampa de gatinho que parecia apertado demais até para um filhote de cachorro.

Hyoga continuou a vestir nosso filho, finalmente conseguindo encaixar os dois bracinhos nas mangas.

— Pronto. Missão cumprida — ele respirou fundo, olhando para o bebê com um orgulho bobo estampado no rosto. — Sabe... Eu mal vejo a hora de ele crescer um pouco para começar a contar nossas histórias de guerra.

Hyoga começou a abotoar os minúsculos botões da blusinha, cada um parecendo um pequeno grão de arroz.

— Nem pense nisso. — fiz bico, cruzando os braços.

— Qual é, Shun? Imagina a cena: eu contando para ele que enfrentei o general marina de Kraken nos confins dos mares do norte... — ele sorriu de canto, lançando-me um olhar apaixonado.

— E depois contando a melhor parte: que o mesmo general quase arrancou seu olho fora antes de vocês resolverem sentar e virar melhores amigos? — ajudei a puxar a barra da blusa para ajeitar no corpinho.

​— Exatamente. Histórias de superação familiar — Hyoga brincou, aproveitando a brecha para tentar roubar um beijo rápido de mim, já que eu estava praticamente colado ao seu ombro para dar suporte na tarefa.

Eu acabei cedendo e retribuí o beijo com carinho, ao mesmo tempo que nosso pequeno herdeiro nos encarava, absorvendo, estupefato, aquela demonstração de afeto dos pais.

Definitivamente, nosso filhote ainda tinha muito o que descobrir sobre os cavaleiros malucos que havia escolhido para chamar de pais.

Depois de abotoar a parte de baixo do body, levar vários chutes estratégicos e ainda receber o apelido carinhoso de "pequeno pônei", o bebê finalmente estava agasalhado, cheiroso e pronto para tentar dormir mais um pouco.

Mas, antes, precisava daquela mamada. O estômago dele podia ser do tamanho de uma azeitona, mas a fome tinha a potência de um leão faminto.

Sentei-me na poltrona de amamentação, e Hyoga cuidadosamente o colocou em meus braços. Puxei a blusa para que ele pudesse se alimentar.

Hyoga permaneceu agachado ali perto, com um sorriso bobo e apaixonado desenhado no rosto enquanto observava a cena. Nosso filho. Nossa criação.

​Uma vida inteira que nós dois havíamos construído e colocado no mundo.

Quando Hyoga tentou se inclinar para dar um beijinho na testa dele, o pequeno imediatamente soltou um resmungo contrariado e apertou os olhinhos, como se tivesse entendido que o loiro estava planejando roubar seu Tetê.

Hyoga ergueu uma sobrancelha, surpreso.

— Olha só o temperamento... O garoto já está defendendo o território com unhas e dentes igualzinho a um alfa territorialista.

— Você esperava o quê? Ele é seu filho — retruquei.

— Sendo assim... estamos completamente perdidos.

Hyoga riu baixinho, inclinando-se para encostar a testa na minha, e ficamos ali por alguns instantes, dividindo o mesmo espaço e observando o pequeno guloso mamar.

​Ele sugava com tanta intensidade e pressa que, em determinado momento, o leite acabou escapando pelo cantinho da boca.

— Caramba... Eu juro que nunca vi ninguém conseguir se afogar de tanto tetê.

Assim que ele terminou de mamar, Hyoga pegou o bebê, acomodando o corpinho pesado de sono contra o seu peito. Com um paninho limpo, limpou a boquinha dele e começou a dar leves batidinhas ritmadas em suas costas, aguardando o afamado arroto.

O filhote demorou um pouco, fazendo suspense. Até que... Burp.

— Muito elegante. — Hyoga ironizou.

— Ele é um recém-nascido, Hyoga. Dá um desconto.

— Eu sei. Só estou impressionado com a potência.

O bebê, entretanto, parecia não estar nem aí para a nossa conversa. Depois do arroto, seus olhinhos começaram a pesar. Nem foi preciso Hyoga cantar Galinha Pintadinha ou tentar ressuscitar o Alecrim Dourado.

Nosso pequeno simplesmente apagou, com a cabecinha pesada apoiada confortavelmente contra o ombro do pai alfa, sonhando com os anjos — ou com o próximo tetê.

​Hyoga sorriu, andando devagar até o berço. Colocou-o para dormir e esperou alguns segundos, certificando-se de que ele estava confortável antes de se afastar.

​Naquele momento, percebi que Hyoga tinha deixado de ser apenas um Cavaleiro.

​Ele ainda não tinha perdido o hábito de manter a guarda alta, mas agora havia algo muito maior para proteger.

​Ele já não lutava apenas por Atena. Lutava por nós. Pelo pequeno ser dormindo diante dele. Pela nossa casa.

​Pelo nosso pequeno universo, construído aos poucos, entre noites maldormidas, fraldas, mamadas, risadas e um amor que parecia ocupar cada canto daquela casa.

​— Boa noite, pequeno. — sussurrou. — Sonha com os cisnes.

​Hyoga voltou até mim e segurou minhas mãos, ajudando-me a levantar da poltrona.

​Meu corpo inteiro parecia pedir cama. ​Fomos abraçados até a cama e nos deitamos lado a lado, bem perto do berço acoplado.

​Eu sabia que aquela noite teria poucas horas de sono.

​Talvez poucos minutos de descanso de verdade.

​Qualquer tosse, choro, gemido ou movimento vindo do berço seria suficiente para fazer nossos corpos despertarem antes mesmo que nossos cérebros conseguissem entender o motivo.

​Nossos músculos continuariam tensos de cansaço. Nossos olhos certamente arderiam pela manhã. O café esfriaria outra vez na xícara esquecida na pia.

​É bem capaz que eu passasse o dia inteiro tentando terminar uma única tarefa e me esquecesse dela no meio do caminho.

​E, ainda assim...

​Quando senti o braço de Hyoga envolver minha cintura e ouvi sua respiração ficando mais tranquila ao meu lado, olhei uma última vez para o pequeno vulto dormindo no berço.

​Não era fácil. Nem sempre era bonito.

​Às vezes doía, cansava e fazia a gente se perguntar como conseguiria chegar ao fim do dia.

​Mas aquele pequeno caos tinha sido feito por nós.

​E, enquanto eu fechava os olhos, com Hyoga ao meu lado e nosso filho dormindo a poucos centímetros de nós, pensei que talvez fosse justamente isso que tornasse tudo tão valioso.

​Não era uma vida perfeita. ​Era a nossa vida. E eu não trocaria por nenhuma outra.

Fim.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!