Nosso Xote
1 me convidou para dançar um xote
junho de 2014
Quando, um mês atrás, Alice Ferreira, uma de suas melhores amigas, convidou ela e os amigos para uma viagem para o Brasil, Lily Evans sabia que seriam os melhores dias de sua vida. Iriam ficar na casa que Alice morou até os quinze anos, antes de ir para Hogsmeade fazer intercâmbio (onde conheceu Lily), que fica em Salvador, na Bahia. Conhecida também como o lugar mais bonito do mundo, ou pelo menos era o que Lice falava. Empolgados pela ideia de conhecer o lugar que foi cenário das milhares de histórias que ela contava, Lily, Frank Longbottom e Dorcas Meadowes, melhores amigos de infância de Evans, aceitaram a proposta da amiga brasileira.
E agora estavam ali, no último dia da viagem.
O relógio marca oito horas e trinta e três minutos. Lily, jogada na cama, observava os amigos discutirem. Alice, como a brasileira mais animada que Evans já conheceu, insiste que eles tinham que aproveitar a última noite no Brasil, já Dorcas, como a mãezona do grupo que ela era, se opôs a ideia e queria que eles fossem descansar para acordar no horário certo e não correr o risco de perder o voo (que seria às dez horas da manhã do dia seguinte). Frank apoia Alice, por quem tem uma quedinha (ou melhor, um abismo), concordando que eles deveriam curtir os últimos momentos da viagem. Lily era a única que não deu opinião, estando calada até o momento.
— Lily. — Alice chamou. — O que você acha?
Soltou um gemido de frustração, sabendo que, qualquer que fosse sua resposta, seria um caos e alguém iria encher o saco. Sabia que Dorcas tinha sua parcela de razão e que eles realmente deveriam focar em chegar no horário, mas, por outro lado, era a última noite deles em Salvador e tinham ido pra curtir.
— Eu acho que a gente deveria curtir o último dia. — Disse de uma vez, recebendo gritinhos de empolgação como resposta da parte de Alice e Frank e uma careta emburrada de Dorcas, que se jogou na cama. — Por favor, Doe, sabe lá quando a gente vai ter outra oportunidade. A gente tem dezoito anos, não é como se fossemos idosas cansadas. E a Lice tá falando desse lugar há dias e a gente não conseguiu ir. Você realmente prefere ouvir ela reclamar o resto da vida porque não nos levou lá?
— Tudo bem, a gente vai. — Meadowes cedeu, sabendo que perderia a discussão. — Mas, sem beber demais ou ir embora muito tarde. A gente não pode perder o voo.
Alice se jogou em cima da amiga, dando beijinhos nas bochechas dela. Lily e Frank se entreolharam antes de se jogarem em cima das outras duas, num abraço grupal desajeitado.
— Sai, sai. — Alice os afastou. — Quero todos prontos em uma hora.
Uma hora e meia depois, eles estavam na frente de um lugar chamado Três Vassouras, ficava perto da praia e do que Alice chamou de Farol da Barra. No caminho até ali, ela explicou que iriam pra uma Casa de Forró, tipo uma balada que toca forró, geralmente com artistas locais.
Assim que entraram foram recebidos por um ritmo animado e contagiante. O lugar era bem iluminado, tinha mesinhas espalhadas pelo canto e o meio era livre, onde vários casais dançavam, tinha também um palco pequeno no canto oposto a porta de entrada. Nele três meninos cantavam e tocavam instrumentos que ela nunca tinha visto. O do canto esquerdo tinha cabelos compridos e a pele levemente bronzeada, Lily conseguiu reparar que ele tinha várias tatuagens embaixo da blusa xadrez e parecia ter um estilo mais despojado, a camisa aberta até o meio da barriga e a calça preta rasgada nos joelhos. O da direita era mais arrumadinho, os botões quase todos fechados e a calça não tinha um rasgo sequer, cabelos curtos e castanhos. O do meio, o que mais chamou atenção de Lily, parecia quase como o meio termo entre os outros dois, pele negra, a camisa xadrez vermelha aberta só nos primeiros três botões, calça jeans clara, os cabelos cacheados grandes (mas não compridos como o do primeiro), e de óculos. Mas, o que mais chamou atenção dela foi o sorriso dele ao cantar, parecia apaixonado por aquilo.
— Uau, eles são muito bons! — Alice exclamou.
— O que eles estão tocando? — Frank perguntou.
— Cabelos compridos toca zabumba, do meio toca triângulo e canta e o outro tá tocando sanfona. Eles são um trio de forró, é bem comum aqui no Nordeste. — Explicou, guiando-os até uma das mesas. — Agora vocês vão experimentar a melhor bebida do mundo, que a dona Rosmerta, dona desse lugar, inventou. Cerveja amanteigada é a melhor coisa que existe!
Do outro lado do local, em cima do palco, James Potter fazia uma das coisas que mais ama no mundo, cantar e tocar com seus melhores amigos. Ele, Sirius Black e Remus Lupin eram amigos de infância, se conheceram quando Sirius se mudou de Londres para Salvador, numa casa ao lado da de Remus e James, e eles ensinaram o britânico a jogar futebol do jeitinho brasileiro. Dez anos depois, eles estavam ali, a amizade mais forte que nunca.
Terminou os últimos versos de Eu só quero um xodó, música de Dominguinhos e que deixava bem claro o estado de James ultimamente. Era uma pessoa que gostava de ter alguém, de dar e receber carinho, era daquele tipo que sempre estava namorando e de ficar de chamego com alguém. Sirius dizia que ele era carente demais e por isso sofria nos relacionamentos. Estava pronto para começar a música seguinte do repertório que eles mostraram (Xote das Meninas, também de Dominguinhos), quando avistou a mulher mais bonita que ele já viu em seus dezoito anos de vida.
Era alta, tinha o rosto delicado e os cabelos ruivos era o que mais chamava atenção. Parecia animada, se balançando no ritmo da música, mesmo que estivesse sentada, estava rodeada dos amigos e gargalhava de algo que a amiga falou. Infelizmente, de longe, ele não conseguiu reparar em mais detalhes. James fez um sinal para os amigos se aproximarem dele.
— Quero trocar a próxima música.
— Por que, James? Qual a dificuldade em seguir o repertório? — Remus questionou.
— Porque eu vi a mulher mais linda do mundo e quero chamar a atenção dela.
— Tinha que ter mulher envolvida. — Sirius riu. — Fala logo qual a música.
— Colo de Menina, Falamansa.
— James. — Remus chamou, colocando a mão no ombro do amigo. — Você é muito emocionado.
Ignorando a ofensa de Lupin, James voltou para perto do microfone. Remus começou a puxar a melodia na sanfona e Sirius começou a acompanhar.
— Boa noite, forrozeiros! — Cumprimentou alegre. — Essa próxima música é pra todos os apaixonados do Três Vassouras. Que olharam para aquela pessoa, a mais linda que já viu na vida, e tudo que quer é conquistar o coração dela e dançar um xote agarradinho.
A lua quando brilha, falo de amor
No gingado desse xote sinto o teu calor
A noite acordado sonho com você iê iê iê
O som ligado e fico perturbado
Sem ter o que fazer
E tento sair dessa rotina
Não quero não, colo de mamãe
Só quero colo de menina
E pouco a pouco conquistar o teu coração
Começou a cantar, procurando a ruiva com os olhos. Potter se balançava no ritmo da música, enquanto rezava para que ela percebesse que era dedicado a ela. Conforme a melodia foi se animando, James percebeu que ela dançava mais feliz. O sorriso perfeito foi aparecendo em seu rosto, o deixando bobo só de olhar.
Os olhos dela encontraram os seus e James exibiu o maior sorriso que conseguia, ousou até piscar pra ela. Tinha certeza que ela corou. Mas, sua atenção foi tirada de James e ela foi dançar (errado, diga-se de passagem) com o moreno alto que estava no grupo de amigos. Não é possível que Potter seria tão azarado e ela tinha namorado.
Num outro dia a gente se vê
Vou pro um lugar que lembre do sertão
E canto um xote pra te convencer
Vou te ensinar como viver é bom
E amar até, amar até
Até quando Deus quiser
E amar até, amar até
Até quando Deus quiser
Felizmente, a mulher loira atrapalhou eles dois, claramente dizendo que eles estavam dançando errado e puxou o homem para dançar com ela. Pelo jeito que ele agia perto da loira, era óbvio que estava apaixonado, logo a ruiva estava sozinha. James não pode se impedir de ficar feliz, já tinha planejado ir até ela assim que o show deles acabasse, dali meia hora.
Tinha os olhos da ruiva em si de novo e cantou dando maior ênfase, querendo deixar claro que queria ela. Queria ir até lá, ensiná-la a dançar forró, ficar abraçadinho, cantar um xote pra se declarar, ser emocionado como seus amigos diziam que ele era.
Passou os próximos trinta minutos ansioso para o show terminar e poder ir falar com a mulher. Deus, como ele queria descobrir seu nome. Depois de agradecer, desceu do palco com os meninos e foram guardar os instrumentos, deixando que outro trio assumisse.
— Eu achei que o James não podia superar mais o nível de emocionado, mas parece que eu tava errado. — Remus disse.
— Você não me ofende com isso, Moony. — Rebateu. — Vou encontrar a mulher da minha vida, com licença.
— Oxente, James, pelo amor de Deus. Não vai assustar a mulher com seu surto. — Sirius alertou.
— É desse jeito que você confia no meu potencial romântico, Pads? — Se fingiu de ofendido.
— Sim. — Respondeu sem nem pensar duas vezes. — Se a gente ver uma ruiva fugindo, a gente já sabe que o James fez merda, Remus.
— Não vou nem ficar surpreso.
— Vocês são fodas, viu? Sei nem como ainda tenho amizade.
— Vai queixar a nega logo, James. — Black o empurrou pra fora da salinha. — Larga de drama.
Ignorando os amigos enchendo seu saco, Potter saiu pra missão de encontrar a ruiva. Rodou por todos os lados a procura dos cabelos de fogo e não a encontrou onde ela estava antes, perto de uma mesa na esquerda. Por um instante passou pela sua cabeça que ela tinha ido embora e que James nunca a veria novamente. Mas, felizmente, a avistou no centro do lugar, dançando com a outra amiga.
Tomado por uma coragem que não sabia de onde vinha, James se aproximou das duas e tocou o ombro da ruiva, chamando sua atenção. Quando ela virou, Potter não estava preparado para tamanha beleza. O rosto era cheio de sardas, deixando-a adorável, os lábios cobertos por um batom vermelho eram atraentes e os olhos eram os mais verdes que ele já viu na vida.
— Com licença, meninas, boa noite.
— Oi, você é o cantor né? — Foi a amiga da ruiva, uma mulher negra muito bonita, quem perguntou.
— Sim, sou James Potter.
— Eu sou a Dorcas e a minha amiga é a Lily. — Ela tinha um sotaque forte e com certeza não era brasileira. — Nós somos inglesas.
— Olá, James. — Lily cumprimentou. — Você canta muito bem.
— Obrigado. — Sorriu. — Você aceitaria dançar comigo?
A expressão dela mudou de calma para surpresa e a amiga deu um gritinho, falando, em inglês, pra Lily aceitar o pedido. Evans assentiu, aceitando a mão que James estendeu para ela. Dorcas sai rápido dali, dizendo que precisava falar com uma tal de Alice, que ele supôs que fosse a outra amiga, a loira.
— Não sou a melhor dançarina, ok? — Ela avisou.
— Será um prazer te ensinar, ruiva.
Passou o braço pela cintura dela, abraçando-a e guiando uma das mãos dela para seu ombro. Com a outra mão segurou a dela que estava livre. Começou pelo básico, dois para lá e dois para cá, não demorou muito para que ela aprendesse. Se manteve nos passos básicos, fazendo ela girar em alguns momentos. Ficaram a primeira música apenas ensinando ela a dançar, sem realmente conversarem sobre si.
Moreno me convidou para dançar um xote
Beijou o meu cabelo
Cheirou meu cangote
Fez meu corpo inteiro se arrepiar
Fiquei sem jeito
E ele me acolheu junto ao peito
E foi nos braços deste moreno
Lily não podia negar que ficou surpresa quando o cantor bonito a chamou pra dançar. Tinha trocado alguns olhares com ele enquanto ele cantava, mas não achou que ele iria realmente falar com ela. Na verdade, cogitou que tinha sido coisa de sua cabeça e que ele nem tinha olhado pra ela. Mas, agora estavam ali, ele ensinando-a a dançar forró, falando com um sotaque gostoso de ouvir.
Eles dançavam mais juntos agora, o braço dele em sua cintura os deixando ainda mais próximos. Lily com a cabeça apoiada no peito dele e ele encostado no ombro dela, a respiração batendo em seu pescoço deixando-a arrepiada.
— Você é de Londres? — James perguntou em seu ouvido.
— Não, sou de Hogsmeade, é perto de Londres. Primeira vez visitando o Brasil— Respondeu. — E você é daqui? Seu nome não parece brasileiro.
— Nasci aqui, mas meu pai é inglês, minha mãe que é brasileira. Meu nome é James em homenagem ao avô do meu pai. — Explicou. — Seu português é muito bom pra uma primeira vez aqui.
— Minha amiga, Alice, é brasileira e foi fazer intercâmbio na minha escola, Hogwarts, quando a gente tinha quinze anos. Eu quis aprender pra ela ter alguém pra conversar em português e ela me ensinou.
— Uma boa amiga.
— Eu tento. — Sorriu. — Aqueles cantando com você são seus amigos?
— Sim. — Respondeu depois de fazê-la girar e abraçá-la de novo. — O de cabelo comprido é o Sirius Black, ele é inglês também, mas veio morar aqui com oito anos. E o outro é o Remus Lupin, baiano de nascença. Eles são meus melhores amigos de infância.
— E vocês montaram esse trio juntos?
— Sim, mas é mais por diversão do que trabalho. — A girou de novo. — Começamos há uns dois anos, quando o Remus decidiu aprender a tocar sanfona, aí eu e Sirius embarcamos na ideia. Éramos quatro, mas não deu certo. Nos chamamos de Os Marotos, um apelido que deram pra gente na escola porque fazíamos muitas pegadinhas. — Olhavam um nos olhos do outro, dançando no ritmo. — E você tá aqui há quanto tempo?
— Desde o início do mês. A viagem foi meio que uma comemoração de formatura, além de conhecer o país da Lice. — Ergueu o rosto pra olhar James melhor, já que é um pouco mais baixa que ele. — Aqui é lindo, tem sorte de morar nesse lugar.
— Eu sei. — Sorriu. — Não trocaria a Bahia por nenhum lugar no mundo.
Que eu forroziei
Até o dia clarear
Iô iô iô iô iô
Me encantei por seu olhar
Moreno chega mais pra cá
Meu dengo vem me chamegar
Iô iô iô iô iô
Seu jeito de balancear o corpo inteiro
Faz meu coração bater ligeiro
Assim eu vou me apaixonar
Continuaram dançando por um tempo, conversando sobre seus interesses e vidas. James sorria, ouvindo-a tagarelar sobre os vários anos que estudou em Hogwarts, uma escola que era num castelo, e sobre seus amigos de lá. Ela fica ainda mais bonita quando estava empolgada.
Levou a mão livre até o rosto dela, afastando os fios ruivos e deixou a mão tocando em sua nuca, brincando com o cabelo dali. Olhou nos olhos verdes, procurando por alguma resistência ou desconforto. Como ela não parecia contra o movimento, aproximou seu rosto do dela, deixando que seus narizes tocassem.
— Posso? — Perguntou olhando para os lábios dela.
Ela não respondeu, levou a mão livre até os cabelos dele e o puxou, colando seus lábios. O beijo começou calmo e suave, apenas um toque. James tocou a língua no lábio inferior dela, que o deixou aprofundar o beijo. Potter a puxou pela cintura, colando ainda mais seus corpos, e Lily respondeu o contato passando as unhas na nuca dele.
Se afastaram quando James percebeu a presença de Dorcas ao lado deles.
— Eu não queria atrapalhar, mas a gente decidiu ir na praia com aqueles dois. — Meadowes explicou, apontando para Sirius e Remus. — Vocês vão?
Potter olhou para Lily, perguntando silenciosamente se ela queria ir ou preferia ficar. A ruiva ponderou por alguns segundos, na dúvida se queria ficar ali e dançar mais um pouco ou se iria pra praia ficar com seus amigos (e com James também, é claro).
— Por mim, podemos ir também. — Respondeu dando de ombros.
— Então vamos pra praia.
Seguiram Dorcas até os amigos. Depois de apresentar os que ainda não se conheciam e comprar algumas garrafas de álcool, sairam do Três Vassouras em direção a praia. Lily se surpreendeu quando James a puxou para perto, abraçando-a de lado e eles continuaram a andar assim.
Passaram pelo farol que continha uma boa quantidade de pessoas e seguiram até a praia, que estava mais vazia. Sentaram na areia na parte mais distante das pessoas. Ventava, deixando o clima um pouco mais frio, Evans agradeceu que Potter ainda a abraçava.
— Então, Lily Evans, quais as suas intenções com o meu melhor amigo? — Sirius perguntou, ficando sério.
— Ah, eu… Hmn… As melhores? — Disse, de repente ficando nervosa.
— Sirius Black, para de fazer isso com ela. — Remus brigou, dando um tapa no outro. — Lily, não dê ouvidos a esse idiota.
— Agora você me chama de idiota, né? Mas, mais cedo, tava me chamando de… — Black disse se aproximando de Lupin.
— Cala a boca, Sirius. Ninguém quer detalhes da sua putaria com o Remus. — James brigou.
— Eles namoram? — Lily perguntou a James, em um tom de voz baixo para que só ele ouvisse.
— Ainda não. Ficam nessas de fingir que não gostam um do outro, mas tão sempre ficando. — Explicou.
— Ficando?
— É, se beijando. Agindo como namorados, mas sem namorar.
James jogou a jaqueta jeans, que pegou quando saíram do Três Vassouras, na areia e puxou Lily pra deitar com ele. Esticou o braço pra que ela apoiasse a cabeça, aproveitando pra ficar brincando com seu cabelo. Trocaram mais alguns beijos, com o som de fundo dos amigos gargalhando de piadas idiotas.
— Você disse que vocês eram quatro, mas que não deu certo. O que houve? — Perguntou, fazendo círculos com o dedo indicador no peito dele coberto pela camisa xadrez. — Se for muito pessoal, não precisa responder.
— Não, tudo bem. — Respirou fundo, se ajeitando pra conseguir olhar pra ela melhor. — Éramos nós três e Peter Pettigrew, um americano que veio pra cá com treze anos. Logo viramos amigos porque gostávamos das mesmas coisas. Dois anos atrás começamos a banda e estava dando tudo certo, até que Remus e Sirius começaram esse lance deles. Pettigrew demorou de perceber, mas quando percebeu não gostou.
— Ah não, não acredito.
— Pois é. — Respirou fundo, irritado. — Quando reparou no que tava acontecendo, começou a se afastar dos dois, não ficava sozinho com eles. Mas, teve um dia que ele chegou no lugar que a gente ensaiava, a garagem da minha casa, e encontrou Remus e Sirius se beijando. Falou um monte de merda para os dois. Quando eu entrei na garagem, ele tava xingando os dois, o Remus estava em choque e o Sirius pronto pra meter o murro na cara dele.
— O que você fez?
— Agarrei Pettigrew pela camisa e arranquei ele de lá na força. Ele tentou me bater do lado de fora, acertei um soco nele. Quando ele tava indo embora, Sirius surgiu e deu mais alguns socos, que ele revidou. — Se esforçou para controlar a irritação. — Queria dizer que eu fiz a coisa certa e impedi o Sirius, mas deixei que ele batesse um pouco.
— Eu faria o mesmo, James. — Passou o braço pela cintura dele, chegando mais perto para abraçá-lo. — Ele mereceu por ser um babaca homofóbico.
James a abraçou de volta, agradecendo silenciosamente pelo apoio. Ficaram assim por mais um tempo, conversando em sussurros temas mais leves e divertidos, compartilhando as histórias de infância. De tudo que imaginou que aconteceria nessa viagem, encontrar alguém como James foi a última coisa que passou por sua cabeça.
— A gente devia entrar no mar. — Uma Alice quase bêbada gritou.
— Por favor, Frank, controle sua amada. — Dorcas pediu.
— Eu acho uma boa ideia. — Sirius, tão alcoolizado quanto a loira, gritou.
— Péssima ideia. — Remus discordou.
— Ah vamos, por favor. — Alice pediu, fazendo manha. — E aí, Jily? O que acham?
— Ji- o que? — Lily perguntou.
— J-I-L-Y. — Falou soletrando. — James mais Lily igual a Jily. Você já foi mais inteligente, Evans.
Alice voltou a implorar para que entrassem na água, Sirius e Frank apoiando essa maluquice, enquanto Remus e Dorcas explicavam porque era uma péssima ideia. James e Lily trocaram um olhar antes de levantar rápido, tirarem as roupas, ficando apenas com as roupas íntimas, e correrem pra imensidão que era o mar.
— Vocês são idiotas? — Remus gritou.
Acabou que, cinco minutos depois, todos largaram as roupas numa pilha na areia e correram para dentro da água gelada. Passaram um bom tempo ali, jogando água um no outro, pulando e furando ondas, rindo quando um deles tomava um caldo (o que aconteceu inúmeras vezes). Depois sofreram na areia até conseguirem estar secos o suficiente para se vestirem sem encharcar as roupas.
O sol já surgiu no horizonte quando eles saíram da areia e foram em direção à rua, rezando para que encontrassem algum táxi. Quando estavam sentados no meio fio, esperando alguma bênção divina cair do céu e o táxi aparecer, Dorcas anunciou que o relógio marcava quinze para cinco da manhã e que eles teriam apenas umas duas horas pra dormir antes que tivessem que acordar pra ir pro aeroporto.
— Vocês vão embora hoje? — James perguntou, de repente alarmado.
— Sim, nosso voo é dez horas. — Explicou com a voz triste.
— Que droga, achei que a gente ia conseguir se ver mais algumas vezes.
— Queria que a gente pudesse, mas não tenho como ficar mais aqui. — Encostou a cabeça no braço dele. — Teria sido incrível te conhecer mais cedo, James. E que a gente tivesse tido mais oportunidades de ficar juntos.
— Seria perfeito, Lily. — Encostou a cabeça na dela.
Um farol de carro quase os cegou, mas eles conseguiram ver que era um táxi. Os marotos decidiram deixar que os amigos internacionais fossem naquele táxi, já que eles tinham horário. Levantaram do meio fio e começaram as despedidas, Lily abraçou Remus e Sirius primeiro, enquanto James dava tchau a Alice, Frank e Dorcas. Pararam um de frente pro outro, se olhando e sorrindo, pensando em como viveram bons momentos naquela noite. James puxou a ruiva para um beijo caloroso e apaixonado.
— Que a gente se encontre de novo, James.
— Até a próxima, Lily.
Ela entrou no carro e Potter o observou se afastar até que sumisse de suas vistas. Abraçado a Remus e Sirius, eles se viraram e seguiram caminho para casa.
junho de 2019
Preciso desse seu amor
Ai, amor mais como preciso
Não posso mais viver
Sem os teus beijos, seu sorriso
Lily entrou sozinha no Três Vassouras. Seu coração disparava de ansiedade e suas mãos suavam. O lugar era quase o mesmo de cinco anos atrás, quando esteve ali pela primeira vez. As mesmas mesas, o mesmo espaço no centro para dançar, o mesmo palco. E o mais importante, a mesma pessoa em cima do palco. Óbvio que ele estava diferente, Lily conseguia notar mesmo naquela distância. O cabelo maior, a expressão mais madura, mas com o mesmo sorriso alegre por estar se divertindo fazendo o que gosta.
James sentiu o coração perder uma batida quando avistou a mulher mais bonita que já viu em seus vinte e três anos de vida passa pelas portas de entrada. O cabelo ruivo mais comprido do que da primeira vez que se viram, o sorriso e olhar caloroso direcionado a ele que correspondeu com a mesma intensidade.
Assim que terminou a música que estava cantando, James largou o triângulo e com um olhar avisou os meninos o que estava acontecendo.
— O cantor aqui vai ter que sair por alguns minutos, talvez vários, porque eu preciso ir atrás do meu xodó, da mulher mais bonita que esse mundo já viu. — James disse no microfone, recebendo gritos de apoio e comemoração dos forrozeiros que estavam ali. — Vocês me entendem, né? Não posso deixar ela escapar de novo.
Desceu correndo do palco e foi em direção a mulher ruiva que ria dele. Ficaram parados alguns instantes, apenas se olhando e confirmando que realmente estavam cara a cara. Sorrindo, Lily se jogou nos braços dele que a segurou de maneira firme, mantendo-a perto de si. Não levou mais que dez segundos para que seus lábios estivessem colados num beijo cheio de saudades e paixão.
— Olá, James Potter.
— É bom te ver de novo, Lily Evans. — Respondeu. — E eu falo sério quando digo que não vou te deixar ir de novo.
— Ótimo, porque eu não pretendo ir a lugar nenhum sem você.
Se beijaram de novo, dando início ao resto de suas vidas.
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