Nosso Tempo
2 Presente
Notas iniciais
Apresso meus passos o máximo que consigo, e mesmo que meus pulmões implorem por ar e descanso, eu não paro. Por ter ido dormir tarde na noite anterior, acabei acordando vinte minutos atrasada, sem contar com o tempo que tive de esperar pelo ônibus. Segundo meu celular, que sempre estava com a hora exata, eu tinha mais três minutos para chegar a minha sala e conseguir fazer a prova sem qualquer tipo de problemas, incluindo escapar de ter de ouvir as reclamações do professor.
Estou virando o prédio da ‘odonto quando sinto meu pé se enroscar em algo e meu corpo ir com tudo para o chão de pedras. Escuto um ofego de surpresa, mas não sou capaz de levantar o rosto dos meus braços tamanha vergonha, então apenas permaneço ali, estirada, imóvel e com uma vontade maluca de chorar a cada fisgada de dor nos meus joelhos e mãos.
Eu estava sem tempo, e agora estou sem dignidade.
— Deuses, acho que matei alguém! — Escuto uma voz rouca e baixa falar perto de mim. Não era preciso muito para reconhecê-la, entretanto, visto que eu a escutei em parte dos meus anos de colegial. — Ei, ei.
As mãos dele me balançam, tentando arrancar alguma reação minha, e ele a tem quando me viro para ele, com os meus olhos brilhantes pelas lágrimas que eu tento evitar. O reconhecimento fica explicito em seu rosto, assim como, provavelmente, está no meu.
Solto um gemido de dor ao sentir mais uma pontada de ardência no meu joelho e resolvo que está na hora de eu levantar. Ficar estirada no chão como uma morta não faria minha vergonha passar. As mãos dele novamente estão em mim quando ele me ajuda a sentar e não consigo não pensar que essa é a primeira vez que nos dirigimos um ao outro ou que nos tocamos mesmo que tenhamos compartilhado momentos antes.
— Obrigada — agradeço pela ajuda, e o vejo negar com a cabeça; as bochechas estão avermelhadas.
— Você tropeçou por causa da minha mochila que estava atirada no chão — aponta para a mochila preta que, agora, tinha uma das alças arrebentadas. — O mínimo que eu deveria fazer é te ajudar.
Assinto, ainda olhando para ele, quando um alerta soa alto na minha cabeça. Sem a menor delicadeza comigo mesma, levanto-me em um pulo e sinto as dores da queda. Sem sequer pensar em outra coisa, recupero minha própria bolsa do chão e recomeço a correr em direção ao meu prédio, sem olhar para trás.
Eu gastei meus três minutos restantes estirada no chão da faculdade. Que maravilha!
**
Annabeth está ao meu lado, lançando-me um olhar de reprovação enquanto a enfermeira da faculdade faz um curativo no meu joelho, que teve o pior e maior machucado da queda. Resmungo um palavrão quando sinto a ardência do antisséptico e ganho outro olhar de reprovação.
— Se a senhorita não tivesse madrugado lendo aquelas coisas indecentes, nada disso teria acontecido. E com “nada disso”, me refiro àquela coisinha chamada carma.
Reviro os olhos com o tom de sermão maternal que Annabeth adquiriu. Como é minha amiga desde que comecei a faculdade, há um ano, ela conhece muito bem minhas loucuras de madrugar em dias de semana para ler fanfics e assistir séries ao invés de dormir ou estudar. O que ela desaprovava, e muito! Annie é assim: racional, na linha e muito preocupada com tudo, então não preciso dizer que ela quase surtou quando me viu entrar na sala toda ralada, suja e manca.
Se eu não tivesse afirmado mais de trinta vezes que estava bem, ela não teria descansado e me deixado fazer a prova em paz, já que o professor se solidarizou com meu estado. Entretanto, eu mal havia entregado a prova quando Annabeth me puxou, sem chances de escapatória, para a enfermaria.
— Pronto! — A enfermeira sorri para mim e se levanta. Faço o mesmo que ela e firmo meus pés no chão, fazendo uma careta pelo incômodo que o curativo causava ao caminhar. Minha amiga, ao notar minha cara de desgosto, puxa-me dali, levando-nos até a frente do prédio, onde a turma normalmente se reunia após as provas. Minhas mãos coçam para arrancar o curativo, mas o olhar que Annie me lança é o suficiente para eu não pensar nisso duas vezes.
Suspiro ao ver Annabeth se entreter com o assunto sobre as questões da prova. Sento-me ao seu lado e pego o meu celular da bolsa, decidida a passar da fase em que eu fiquei estagnada em candy crush – ninguém mais joga esse jogo, mas não consigo largar velhos hábitos tão fácil.
Fico concentrada no jogo até alguém puxar o celular da minha mão. Olho irritada para a pessoa que o tirou de mim, porém a irritação dá espaço para a vergonha. Luke Castellan está relativamente próximo de mim e eu sinto como se eu fosse explodir de nervosismo.
Nós temos o mesmo circulo de amizades e, ainda assim, nunca consegui iniciar uma conversa decente com ele. O cara é bonito de verdade, aquele tipo de beleza que intimida, porque ele não é apenas um rosto bonito. Luke é, praticamente, um pacote do amor completo. Ele sabe conversar, é inteligente, defende causas sociais, é vegetariano, esbanja carisma e é bom nos esportes. Fica difícil não ter uma quedinha por ele ou se sentir intimidada com todas essas qualidades.
Annabeth sempre brinca comigo, dizendo que eu gosto dele e que deveria agir, porque ela tem certeza que ele tem interesse em mim. Eu discordo, no entanto. Não sobre o fato dele se interessar por mim, já que isso não é algo impossível; e sim sobre eu gostar dele. Luke poder ser maravilhoso, e eu posso me sentir irremediavelmente atraída por ele, mas não posso concordar que eu goste dele, porque gostar é algo forte e eu nem o conheço direito, apesar da nossa ‘proximidade social’.
— O que aconteceu com você mais cedo, Thalia? Parecia que tinha saído de um episódio de The Walking Dead — brincou. Segurei a vontade de torcer o nariz pela menção do seriado e ri junto dele.
— Eu tropecei em uma mochila.
Luke segura com cuidado uma das minhas mãos e passa seus dedos longos por cima dos machucados, em um carinho sutil.
— Toma cuidado. É perigoso se machucar assim.
Ele sorri para mim, devolve o meu celular e acena, indo embora. Não preciso me olhar em um espelho para saber que meu rosto está vermelho.
— “Toma cuidado. É perigoso se machucar assim.” — Annabeth imita uma voz grossa e começa a rir da minha cara. Reviro os olhos e dou um soco fraco em seu ombro, coisa que só a faz rir mais. — Ele tá tããããão na sua!
— Argh! Cala a boca, Annabeth Chase!
Agarro minha bolsa e saio marchando dali, soltando resmungos como uma senhora de idade e pouco me importando com o curativo no meu joelho, que me impede de caminhar direito. Ah, deuses. Eu realmente pareço uma velha. Como faço para recuperar a minha dignidade perdida no inicio do dia?
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