Nosso Querido
10 Sexto-Sua voz é tão doce
Notas iniciais
O barulho estridente do despertador foi a primeira coisa que ouvi. O relógio marcava 7horas e 30minutos, a exata hora que eu deveria acordar para começar o longo dia. O café da manhã seria às 8:30 em ponto. As entrevistas começariam exatamente duas horas depois. E, mesmo com todas as convidadas, eu teria que comparecer a escola à tarde, o que eu considerava completamente desnecessário.
Contra minha vontade, levantei da cama quente e macia. O vento fraco de primavera batia em meus braços descobertos, me provocando arrepios. Mesmo com o tapete em baixo de meus pés, eu ainda sentia o frio. Não sabia se as tremedeiras de meu corpo eram por causa do frio ou do nervosismo.
As criadas logo chegaram e me cercaram como sempre faziam. Elas gritavam ordens umas para as outras, pedindo para uma pegar minha camisa, outra minha calça. Como se eu precisasse de ajuda para me vestir.
–Alteza,hoje você vestirá uma camisa azul clara combinada com uma calça marrom escura.-anunciou uma delas, se não me engano Ophelia, que há pouco havia chegado no palácio.-Está bom para o senhor?
–Vocês têm um ótimo gosto, obrigado. -tentei sorrir para ela, mas acredito que ela não tenha visto, já que uma criada penteava meus cabelos.
Com a agilidade de sempre, as criadas demoraram apenas poucos minutos para me arrumarem. Meu cabelo estava perfeitamente alinhado, assim como minha camisa, passada várias vezes, e minha calça.
Havia chegado a hora. O relógio de pulso de uma das mulheres presentes em meu quarto apitou. Automaticamente, elas se retiraram do quarto, e a jovem Ophelia ajeitou pela última vez a minha gravata. Eu deveria descer.
Por sorte, ou pela vontade de meu pai, os quartos das Selecionadas eram do outro lado do palácio, evitando assim nosso encontro entre as escadarias. E os sons dos sapatos eram abafados pelas paredes, felizmente.
Chegando à sala de refeições, me deparo com todas elas me encarando. Todas. Algumas continham uma expressão sonhadora no rosto, outras pareciam muito animadas. As reações delas não me surpreenderam muito, já que eu era o candidato a futuro marido delas, mas ser encarado por todas era intimidante.
–Bom dia, senhoritas.- eu disse, andando até a mesa delas.- Espero que tenham tido uma boa noite.
Todas murmuraram um agradecimento educado. Uma,porém, quis ser diferente, levantando-se e fazendo uma exagerada referência diante a mim.
–Obrigada, alteza, fico feliz por estar aqui.-disse ela, me olhando com seus grandes olhos castanhos, quase negros.- Me chamo Isabelle, mas pode me chamar de Belle.
Ela deu uma piscadela, o que provavelmente fez alguém de minha família encara-la com desprezo, Maren eu suponho, pois logo depois a bela moça corou. Em seguida, como se quisesse deixar a pobre moça mais constrangida, Irina aproximou-se. Que maneira ótima de começar o dia...
–Senhorita Raladi, pode se sentar, por favor?- perguntou ela, seu tom era muito autoritário e me fez lembrar das várias horas de etiqueta que tivera com ela.-Você terá o seu momento de conversar com o príncipe depois do café da manhã.
Mais corada ainda, Isabelle sentou-se. Seu vestido azul-escuro movimentava-se no ritmo de sua respiração acelerada. Eu percebi o olhar das outras selecionadas sobre ela e confesso que senti pena. A menina só queria ser simpática.
Decidi, então, fazer uma coisa estúpida. Fui até o local da mesa onde a menina estava sentada e, me inclinando até aproximar minha boca de seu ouvido sussurrei.
–Foi um prazer lhe conhecer, só tome cuidado com suas instrutoras.
Ela abriu um sorriso discreto, que provavelmente nenhuma selecionada notou. Após esse feito, eu apenas virei às costas, ainda sentindo os olhares invejosos das garotas, principalmente de Antonella, eu notara.
Indo até a mesa de minha família, eu percebi que até eles me encaravam. E com razão,já que eu não poderia falar com as Selecionadas em público antes das entrevistas. Por sorte eles não sabiam da minha pequena prosa com Antonella.
O resto da refeição ocorreu bem. Nada de anormal aconteceu; as criadas iam e vinha com comida, trazendo frutas, queijos, tortas e tudo mais; minha família comia tranquilamente, com Anna tagarelando como sempre. Porém eu não estava normal. Eram minhas pretendentes ali na minha frente. Era com elas que eu deveria falar, logo depois do desjejum.
Eu estava nervoso mais uma vez.
Acabando de comer, eu fui direto para o salão de visitas, onde seriam as entrevistas. Logo elas chegariam. Eu deveria me acalmar. Não podia deixar que estas meninas me levassem à loucura em apenas um dia de estadia.
Aos poucos as meninas chegam, em silêncio.Todas estão vestidas com elegância, mas com vestidos diurnos, não como os do dia anterior, que eram longos e muito mais pomposos. Eu,nervoso, com minha lista na mão, as observo, esperando para chamar a primeira delas.
–Senhorita Arianne Morgerstern.-Chamo, tentando não gaguejar .
Uma menina magra e pálida se levantou, claramente também aflita. Seus cabelos ondulados caiam como uma cachoeira sobre seus ombros e seus olhos azuis, ao me encararem, pareciam diamantes.
–Prazer em conhecê-la ,senhorita Arianne.
Com discrição,ela fez uma reverência e se senta. Achei estranho ela não ter falado nada,já que todas pareciam ansiosas para falar comigo. Ficamos em um silêncio um tanto constrangedor por alguns instantes.
–Pode falar, senhorita Arianne, não precisa ter vergonha.-disse, tomando coragem.
Ela me encarou mais uma vez com seus lindos olhos claros. Eles me traziam uma certa calma, como se todo o estresse da Seleção evaporasse. Eles não eram determinados como os de Antonella, porém eram tão especiais quanto.
–Posso te pedir uma coisa? – Disse ela, tímida, e eu me impressionei com sua voz suave e melodiosa.
–Claro.-afirmei,simpático, tentando passar confiança à ela.
–Me chame apenas de Arianne, quando quiser falar a sós comigo. Toda essa formalidade... É demais para mim.
–Ficaria honrado, Arianne.Um pedido simples como esse não tem como ser negado.
Ela corou,transformando sua pele extremamente branca em um tom de rosa. Assim eu pude perceber as pequenas sardas no nariz e nas maças do rosto, que tornavam a menina mais delicada ainda.
–Obrigada. -Ela colocou os cabelos atrás da orelha, graciosamente, como se os cabelos fossem joias.
–Então me conte alguma coisa sobre você, Arianne.
–Sou irmã mais nova de quatro irmãos. O que é engraçado, pois você é irmão mais velho de quatro irmãos, mas isso não é importante.-ela falava rápido, por conta de seu nervosismo, porém nada escondia o timbre doce de sua voz.- Meu irmão mais velho já é casado e tem um filho de um ano.Eu o adoro, meu irmão até me pede para cuidar dele às vezes.
–Interessante. Vejo que gosta de crianças.
–Adoro. Adoro sua alegria e como são inocentes.
–Quando minha irmã nasceu também fiquei maravilhado, achava-a tão fofa, queria aperta-la o tempo todo.- falei, lembrando-me do bebê loirinho e gordinho que era a minha irmã mais nova.
– A princesa Anna é realmente muito fofa, mesmo já sendo quase uma adolescente.
–Mas ela sempre terá alma de criança. Vai ver quando a conhecer mais.
–Imagino...
Ela olhou para suas mãos,pousadas sobre a mesa.Peguei uma delas.
–Não precisa ficar tímida, Arianne. Pode acreditar, também estou tímido com todas essas meninas barulhentas aqui.
Ela deu uma risada discreta, sem levantar os olhos.Beijei sua mão, impressionado por ter coragem para fazer isso, e faço sinal para que ela se levante.
–Foi muito bom te conhecer, Arianne.
–Igualmente, Alteza.
Ela faz uma referência e abana, timidamente. Rio do do gesto. Por alguns segundos fico comparando a pequena e delicada Arianne com a decidida Antonella, mas não havia maneiras de comparar as duas, pois eram muito diferentes.
–Senhorita Felicia Lindberg – chamei,um tempo depois, olhando na lista.
Uma menina de cabelos castanhos claros e bastante alta se levantou e foi em direção a mim, na pequena mesa. Ela fez uma breve reverência.
–Príncipe Sean, é um prazer conhecê-lo. — Disse ela sorrindo e o brilho de seus dentes quase me cegou. – Já deve saber, mas me chamo Felicia.
–Muito prazer, senhorita Felicia.O que está achando da vida no palácio?- decidi que seria direto, já que não queria que o silêncio constrangedor se instalasse novamente.
–É tudo muito belo aqui! Os lustres são lindos, aposto que tem muita história por trás deles.
–Devem ter.Nunca tive o privilegio de saber muita coisa sobre este palácio.
–Que pena...
–Então,senhorita Felicia,me conte um pouco sobre você.
–Tenho um irmão chamado Hugo que se casará com Sophie, sua noiva, em breve. Adoro ler e acho que é só.Ah, eu quero ser uma educadora igual ao meu pai, mas de crianças.
–Muito interessante. É um prazer em ter você na Seleção.Espero que nós possamos nos conhecer melhor com o tempo, mas agora tenho muitas meninas para conversar.
–Entendo.- Diz ela fazendo uma reverência e estendendo a mão para eu aperta-la.-Foi um prazer te conhecer, ou melhor, falar com você.
Damos um aperto de mão e ela volta ao seu lugar. A conversa fora tão curta, e eu me arrependi por não conversar mais com Felicia, que parecia muito divertida, porém todas deveriam ser entrevistadas em apenas algumas horas e isso não seria possível se conversássemos muito.
–Senhorita Isabelle Raladi -chamei, depois de várias conversas não muito boas, inclusive a de Antonella, que teve uma entrevista desconfortável, provavelmente consequência de nossa conversa do dia anterior.
A menina que cometeu um pequeno deslize no café da manhã logo apareceu em minha frente. Ela era deslumbrante, mesmo com seu corpo seco. Ela andava com uma elegância, que, até o momento, eu não vira em nenhuma outra.
–Olá, Alteza, me chamo Isabelle, mas creio que lembre-se de mim.- ela sorriu, sentando- se na cadeira à minha frente.-Fiquei completamente constrangida.
–Só não faça isso novamente, e tudo estará bem.-disse, tentando não parecer arrogante.-Irina pode ser um tanto desagradável.
–É, eu já percebi.- ela deu uma risada bastante sonora e gostosa, mas logo se censurou.- Desculpe, Alteza, é um pouco difícil ser formal.
–Tudo bem, querida, você está só comigo aqui.-sorri.-Só cuide com as tutoras e o resto da realeza.
–Com certeza tomarei.- ela se inclinou para frente.-E com o resto das Selecionadas, que parecem bem julgadoras.
–São mesmo? Todas elas? –sussurro de volta.
Ela sorriu e assim seus olhos e bochechas se contraírem , enrugando toda aquela área. O seu sorriso era bastante fofo, quando era verdadeiro, pensei. Queria que ela sorrisse sempre assim.
–Algumas não.-ela apoiou o rosto em uma das mãos.-Conheceu Arianne e Marie? Elas parecem bastante verdadeiras, apesar de tímidas.
–Sim, conheci. Você é a última, na verdade- sorri, me divertindo com a conversa com fofocas.
–Que honra.-ela passa a mão nos cabelos dramaticamente.
–Mas temos um problema, nosso tempo já acabou!
–Mas já?-ela suspira, se levantando.-Nossa conversa foi breve, mas adorei. Obrigada, Alteza.
–Eu que agradeço.-sorri, vendo ela se distanciar aos poucos, se juntando às outras meninas.
Soltei um suspiro aliviado. Mais um desafio havia sido cumprido.
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