Nosso Nome Na Lista.

8 Capítulo 8 - Eu não tô bêbada!


Notas iniciais
Oláa! Desculpem a minha demora para postar, mas é difícil e demorado escrever um capítulo de festa. Muitos acontecimentos, muitas pessoas, e o fim ficou corrido porque eu ultrapassei a minha cota de mais ou menos duas mil palavras por capítulo (esse capítulo poderia ser divido em dois!!). Bem, eu passei a madrugada escrevendo esse capítulo, então... comentem, por favor. Agradeço aos reviews de: > Senhorita Foxface! > Laladhu!! > The Strange Girl!! > Leth!! > Lady! MUITO OBRIGADA! VOCÊS, QUE COMENTAM, FAZEM ESSA HISTÓRIA!! ^ ^ Bisou

Capítulo Oito – Eu não tô bêbada!

.

.

.

Eu queria abrir um buraco no chão e me esconder.

Quentin não precisava ter visto aquele meu lado tão grosseiro. Ou melhor, ele não merecia assistir aquela “ceninha” minha. Afinal, minha mãe não lhe dissera muita coisa ofensiva (eu espero) e talvez até lhe passasse despercebido os ataques dela para cima de mim, todavia, só o fato de vê-la sozinha, conversando com ele, era preocupante.

Assim como havia sido quando eu comecei a namorar Duncan.

Estremeci de raiva e arrepio, antes de balançar a cabeça e tentar apagar os últimos minutos.

Mas Quentin não me deixou apagar, pois, soltando um assovio alto, ele disse:

– Você e sua mãe realmente não se entendem, hein?

– Não é fácil entendê-la – eu respondi cruzando os braços, seguindo-o até o seu carro parado na garagem da família. – Além disso, por experiência própria, se eu te deixasse lá por mais alguns minutos, ela iria te comer vivo.

Quentin riu abrindo a porta do carona para mim.

– Letty, todo mundo quer me comer vivo.

Eu revirei os olhos com diversão, a ponto de vislumbrar uma piscadela que ele lançou, e entrei no seu carro. Não entendo muito de marcas e modelos, mas de algum modo aquele carro combinava com ele. Será que era por isso que os homens se apegavam tanto a carros? Será que o carro dele teria nome de mulher como o de Duncan?

– Pensando em quê? – ele perguntou depois de fazer uma manobra, para quebrar o silêncio.

– Seu carro. Carros. Duncan – eu respondi.

– Sério, garota, que você está pensando em outro cara, me tendo aqui ao seu lado? – ele perguntou fazendo uma falsa cena de ciúmes. – E ainda no ex-namorado. Você vacilou.

Eu dei uma risada que pareceu mais um pigarro.

– Na verdade, eu estava me perguntando se, como Duncan, você teria dado um nome de mulher para o seu carro – eu respondi calmamente. – E também porque homens gostam tanto de pôr nomes de mulher no carro.

– Bem, há muita semelhança entre uma mulher e um carro, sabe? Ambos têm belos assentos e custa um dinheirão para manter – Quentin respondeu.

Eu olhei para ele, me perguntando onde estava a graça da piada.

– Ah, qual é?! Você nunca assistiu “My Wife and Kids”? — ele perguntou ultrajado.

– Já. Mas foi mais engraçado quando Michael Kyle fez essa piada – eu respondi.

– Christine. É o nome do carro – Quentin respondeu enquanto bufava.

– Por quê?

– Porque é o nome da minha mãe e o carro é dela – ele explicou, mostrando um meio sorriso. – Eu não tenho um carro, então eu divido o meu com a minha mãe. Como ela mal saí de casa é fácil tê-lo a minha disposição. E o seu carro? Tem nome?

Eu dei de ombros. Que vergonha de admitir que meu carro não tivesse um nome legal como “Christine” ou, no caso de Duncan, “Louise”. Na verdade, meu carro não tinha um nome decente, ele tinha um apelido carinhoso de “beija-flor”.

– Não vai me responder? – ele perguntou divertido. – Ah, vamos lá. Eu respondo as suas perguntas... Isso não é justo.

Eu soltei um suspiro cansado.

– Meu carro não tem nome. Só um apelido – eu respondi hesitante. – Eu o chamo de Beija-Flor... Porque ele é pequeninho, azul e muito rápido.

Quentin ficou em silêncio, até que um sorriso brincalhão surgiu em seus lábios.

– Que fofo...

– Não enche! – retruquei.

Ele parou o carro na frente da casa de Olivia e buzinou.

– O quê? Não vai descer e cumprimentar a família dela? – perguntei debochada.

– Esse é um tratamento especial e para poucas – ele respondeu dando uma piscadela.

Contra a minha vontade, eu corei. Para não deixar isso tão aparente, olhei pela janela e esperei Olivia aparecer. O que poderia demorar, porque de todas nós, ela era a garota mais vaidosa do grupo. Capaz de trocar de roupa cinco vezes antes de enfim decidir alguma coisa.

– Você não acostuma ouvir música, não? – eu perguntei, incomodada com o silêncio. Acho que ele poderia até ouvir meus pensamentos.

Estiquei o braço para abrir o porta-luvas (onde mais alguém guarda CDs em um carro?), mas Quentin esticou o seu braço antes que eu abrisse o compartimento e segurou o meu antebraço. Não com força ou para machucar, mas só para me assustar mesmo.

– Não mexe aí, por favor – ele pediu, seus músculos estavam rígidos.

– Por quê? – perguntei.

– Sério. Não mexa – ele insistiu.

Olhei para a sua mão no meu braço, analisei o seu jeito sério (acho que era a primeira vez que eu assistia isso) e sem conseguir conter eu comecei a rir. O Quentin engraçado e divertido era alguém incrível, mas o Quentin sério... Faria Olivia dizer: “nhumy”.

Eu ergui as mãos em sinal de rendição. Percebendo que ele não soltou meu antebraço.

– Se você continuar assim, vou acreditar que escondeu um corpo aí – brinquei.

Ele relaxou, então, antes de me lançar um meio sorriso e dar de ombros misteriosamente. Ele se aproximou de mim e murmurou como se quisesse me dizer algo assustador:

– Quem sabe? Talvez eu seja um psicopata, sabe? Muitos psicopatas são conhecidos por serem carismáticos e simpáticos.

Lembrei-me vagamente da primeira vez, no início daquela semana, que eu vi Quentin. Pensei em como os seus olhos claros e penetrantes, contendo um brilho estranho, seriam capazes de me manipular se misturados com uma voz baixa e suave. Eu sentia isso agora. Uma leve influência sobre mim. O jeito com que ele me olhava, ou a maneira com que ele sussurrou que poderia ser um psicopata...

Quase me fez acreditar que ele poderia ser um mesmo.

E o pior foi que eu não consegui responder nada a altura. A minha voz havia sumido da minha garganta de uma maneira que eu descreveria como sendo “humilhante”. De um jeito que nunca havia acontecido com Duncan. E ali estava ele. Bonito, sedutor e assustadoramente perto. Estaria dando em cima de mim? Estaria flertando comigo? Por quê?

E a única coisa que me libertou de seu feitiço foi o som da porta traseira se abrindo.

Quase dei um pulo de susto na minha cadeira.

Ser trazida à realidade de supetão deveria ser arriscado.

– Ei, você demorou, diaba! – reclamei, reencontrando a voz.

– Letty, você tem ideia de o quanto é difícil encontrar uma roupa perfeita para uma festa?! Ninguém consegue se arrumar em meia hora... – ela reclamou. – Olá Quentin.

Ele assentiu com a cabeça, com frieza, dando partida no carro. Havia um beiço teimoso em seus lábios, e um olhar que me fez encolher como se tivesse culpa de alguma coisa. E me fez lembrar de nossa conversa no corredor, quando Olivia e Paloma nos interromperam num momento “interessante”. Um momento que eu poderia jurar que ele estava flertando comigo...

Como naquele exato momento.

Mordi o lábio inferior, na tentativa de conter um sorriso. Oh, não! Quentin estava realmente dando em cima de mim? Por quê? Não era como se eu fosse muito melhor do que Olivia, com seus cabelos cor de mel, olhos cristalinos e sorriso encantador; ou melhor do que Yvonne.

– Bem, eu me arrumei em menos de meia hora... E minha única dificuldade foi escolher o sapato – eu respondi à ela. – Algo que não fosse desconfortável e feio.

– Ah, mas isso é porque você, de algum modo, sempre tem os melhores sapatos!

– Você também tem bons sapatos! E só têm roupas de marcas!

– E mesmo assim eu nunca tenho nada para vestir – ela reclamou dramaticamente.

– Errado. Você tem tanto para vestir, que acaba pensando que nunca tem nada – eu ri.

– Caramba. Houve um desequilíbrio perigoso na taxa de testosterona desse carro. Não quero nem imaginar como será quando Paloma entrar aqui – Quentin reclamou.

– Quando Paloma entrar aqui, o seu carro irá se converter num conversível rosa da Barbie e a descarga dele começará a soltar glitter pela estrada! – eu brinquei.

Ele olhou para mim com uma sobrancelha arqueada. Por um momento eu quis muito saber o que ele havia pensado naquele momento, mas não tive coragem de perguntar na frente de Olivia. Não que ela não devesse ouvir nossas conversas estranhas para as outras pessoas, mas, por algum motivo, eu achava desconfortável conversar com ela como eu conversava com Quentin.

Por isso deixei-a tagarelar sobre a sua mais nova aquisição: um belo esmalte Chanel que parecia preto, mas tinha um belo reflexo metálico em azul. Sinceramente, eu nunca havia visto nada parecido ou uma cor tão bonita. Quentin passou o caminho todo até a casa de Paloma afirmando que aquilo era preto e acabou-se. Bem daltônico ele era.

– Gente! Eu emprestei aquela minha bata rendada, meio transparente, azul para alguma de vocês?! Eu não a encontrei em lugar nenhum! – Paloma reclamou quando entrou no carro.

Quentin olhou para a rua escura à sua frente, reflexivamente, e acho que ele pensou em se suicidar naquele momento. E a vontade de dizer: “foi você quem nos convidou” foi tão grande que só perdeu para a risada que eu deixei escapar.

– Você não tem irmãs, não? – eu perguntei dando de ombros.

Ele negou com a cabeça.

– Tenho quatro irmãos mais velhos. Graças a Deus terminou por aí – ele respondeu dando partida no carro.

Por algum motivo, aquela nova informação deixaram Paloma e Olivia afoitas.

– Ai meu Deus! Você tem irmãos?! Quantos anos eles tem?! Onde estudam?! Você vai fazer o favor de nos apresentar à eles, não vai?! – Olivia perguntava agitada.

Quentin olhou para ela pelo retrovisor, parecendo divertido.

– Sim. Eles têm vinte e um, vinte e três e vinte e cinco. Eles já estão na universidade. Quem sabe um dia, quando eles resolverem se lembrar de que tem família e voltarem para casa? – ele respondeu com sarcasmo.

– Ah, que fofo. Você é o caçula! – provoquei.

Ele me deu uma olhadela, muito sensual, pelo canto do olho, mas não disse nada. Dirigindo-se à Paloma e Olivia, com ares de diversão, ele perguntou:

– Por que esse interesse todo para cima da minha família, hein?

Olivia lançou um olhar que parecia dizer por si só: “cara, você não se olha no espelho não?” ou algo do gênero: “não tem uma fila de garotas querendo ficar com você?”. Mas Paloma foi mais rápida e mudou de assunto antes que a mais instintiva de nós todos acabasse falando o que devia, e o que não devia.

– Falando em irmãos... Então deve ter sido Laura, quem roubou a minha blusa! – ela concluiu. – Eu não tenho prova, mas irmãos sempre aprontam!

Quentin concordou com a cabeça, tal como Olivia. Eu não esbocei nada. Ser filha única era um saco às vezes, mesmo que eu tivesse Ellen agora... Ela nunca havia aprontado nada comigo. Ellen era mais minha amiga do que minha irmã, pode-se dizer assim.

Quando chegamos à festa, uma onda de apreensão me invadiu.

A casa em si era bonita e não tinha decoração alguma. Era uma casa que lembrava remotamente à algo colonial e ao mesmo tempo contemporâneo, de janelas e portas grandes e largas (algumas dando até mesmo para o jardim onde pessoas conversavam e bebiam). A música estava tão alta que eu sentia meu peito vibrar. Tudo era muito reconfortante naquele lugar...

Mesmo assim... Algo me inquietava.

Não era como se eu nunca houvesse ido à uma festa antes (por favor, né? Tenho dezoito anos!), todavia, fazia tempo que eu não ia à uma festa oferecida por uma “pessoa quente”. Os convites haviam cessado há alguns meses, desde que eu terminei com Duncan, mas nem quando eu o namorava eu fazia questão de ir a esses eventos.

Fui somente umas duas vezes, e cansei. Festas não combinavam comigo.

Música alta só nos meus fones de ouvido, não gosto de beber (por que tudo fica com um gosto tão ruim quando misturam com álcool?) e não gostava de dançar na frente de outras pessoas, pois sempre ficava nervosa e com mania de “todo-mundo-tá-me-olhando-e-rindo”.

– O que foi? – Quentin perguntou.

– Festas não são para mim – eu respondi, com o cenho franzido.

– Ah, qual é Letty – Olivia disse dando um tapinha no meu ombro. – Você não está pensando em fugir, está?

Olhei para ela com deboche.

– Você não me conhece não, Olivia? E eu sou do tipo que foge no meio do caminho? – perguntei. – Claro que eu não vou fugir... Por mais que... Seja desconfortável.

– É assim que se fala! – ela exclamou saindo do carro, e puxando Paloma pela mão.

– Qualquer coisa, lembre-se de tentar se misturar! Sempre dá certo! – Paloma avisou, deixando-se ser arrastada para fora do carro.

Eu resmunguei a mim mesma. Sinceramente, “tentar me misturar” nem sempre dava certo para mim, porque digamos que “fingir” não é muito o meu lance. Mas de todo modo, lancei um olhar cansado para Quentin e saímos do carro. Era uma festa. As pessoas se divertiam em festas. Eu podia muito bem me divertir naquele lugar... Só tinha que encontrar as pessoas certas.

– Se isso servir de consolo, você pode grudar em mim a festa toda – Quentin murmurou ao meu lado, com um sorriso radiante e simpático brilhando em seus lábios bem desenhados. – Na verdade, eu adoraria que você fizesse isso.

O sorriso que eu dei perdia para o dele, mas gostei da sensação reconfortante que tive.

– Obrigada pelo convite, mas estou com as minhas amigas aqui... Então você pode sair por aí sem se preocupar com a obrigação de me fazer sentir bem-vinda – eu respondi com provocação.

– Talvez eu tenha um motivo mais egoísta para querer você grudada em mim durante essa festa – ele respondeu. – Talvez seja para eu me sentir mais bem-vindo.

Eu ri comigo mesma. Quentin precisando se sentir mais bem-vindo? Ele ao menos foi convidado, diretamente, pelo dono da festa! Mas não comentei nada com medo de ser indelicada com os sentimentos do pobre Quentin. Vai que, por debaixo daquela imagem de “garoto perfeito”, tivesse um homem muito sensível e inseguro.

Hm, só que não... Difícil acreditar.

Não quando, nem bem pisando na casa do tal de Gilbert, ele foi abordado por alguns “colegas” e “amigos” de maneira bem efusiva; de maneira que Olivia, Paloma e eu quase sumimos ali.

– Quentin, legal você vir cara! – o garoto da aula de biologia o cumprimentou. – E você realmente trouxe suas amigas...

Seu tom de voz deixava bem claro que isso o surpreendera de verdade, mas não me senti ofendida, só um pouco incomodada. Não me senti ofendida, porque o olhar dele sobre mim não era como os de algumas outras pessoas.

– Você é a... Brucena, não é? – ele perguntou hesitantemente. – Ouvi dizer que você quebrou o nariz de Amber Harrison e por isso ela teve que sair do colégio... Mas você é diferente do que eu esperava.

Eu revirei os olhos e dei de ombros.

– Bem... Confesso que eu não sou do tipo que deixa uma pessoa ir me xingando na boa – eu disse simplesmente. – Prazer em te conhecer.

“É, prazer conhecê-lo Sr. Gilbert Alguma-Coisa” pensei mentalmente.

– Festa maneira! – Olivia exclamou muito estridente ao meu lado. – Sua casa é demais!

– Valeu, ele respondeu – fitando-a não mais que três segundos, para então olhar para Paloma e cumprimentá-la educadamente. – Aí, Quentin, vem cá comigo. Quero te apresentar umas pessoas da equipe de atletismo.

– Mas eu-...

– Fiquem à vontade meninas! – Gilbert o interrompeu, puxando-o para outro lugar.

Quentin olhou sobre o ombro para mim, e dei de ombros como resposta. Ele era “quente”, tinha que passar por coisas daqueles tipos. Digo, ser arrastado pelas pessoas e apresentado como “amigo delas” como se fosse uma espécie de troféu. Não que fosse difícil conseguir a simpatia de Quentin, mas a simpatia da maioria das pessoas da lista, sem dúvida, era.

Por algum motivo, elas se tornavam mais esnobes quando apareciam na lista.

Parece o lance de ser “famoso” no “The Sims 3: Vida Noturna”. Quando o Sim não é famoso, você pode cumprimentar na boa e puxar conversa sobre vários assuntos. Mas quando ele é... Você tem que falar do seu dinheiro, do seu trabalho, das suas habilidades para ver se ele se impressiona e te aceita como sendo “famoso” também.

E isso, de algum modo, te faz tão famoso quanto ele.

– Pessoas “Quentes” – brinquei dando de ombros, com um revirar de olhos bem dramático.

Paloma e Olivia riram, mas minha risada não se juntou às delas.

Só não fiquei enciumada porque, primeiro, eu não tinha motivos para isso (que ideia minha!), segundo, porque nem metade daquelas pessoas realmente se importava com ele.

Nem metade daquelas pessoas ficaria ao lado dele se, de um dia para o outro, ele aparecesse na lista dos odiados. Experiência própria falando. Um dia, eu já estive naquele lugar. Claro que, Duncan estivera comigo, todavia, eu sabia como era aquilo.

– Bem, vamos primeiro encontrar bebidas! – Olivia pediu. – Não consigo me divertir sóbria numa festa... E Paloma fica bem melhor depois que toma umas e outras.

Eu ri com elas, passando meu braço no ombro das garotas e começando uma expedição na enorme casa do Sr. Gilbert Alguma-Coisa. Não foi difícil encontrar as bebidas. Estavam numa mesa de mármore no fim da sala de estar, onde pessoas dançavam muito juntas, ou se pegavam nos sofás (ou até mesmo nos cantos)...

Foi difícil, e constrangedor, chegar até lá.

Ah, as festas. Sinceramente, eu não me surpreenderia se já houvesse alguns casais se agarrando em alguns dos quartos do anfitrião (e isso acontece com mais frequência do que quando Riot perde a sua bolinha favorita).

Olivia serviu um copo de vodca com gosto de pêssego para ela, Paloma e, oh, para mim!

– Eu não bebo – recusei pondo o copo sobe a mesa.

– Deveria começar a beber – ela disse o pegando e empurrando contra mim. – Ah, bora, Letty! É uma festa e esse é só um copo. Não é como se você fosse sair por aí agindo feito uma louca...

Eu olhei para elas com um suspiro cansado, e peguei o copo.

Realmente, era só um copo... Que mal poderia haver?

Dei um gole e, argh, aquela bebida era ardida e amarga. Nem mesmo o leve sabor de pêssego disfarçava aquela coisa ruim. Senti até ânsia de vômito.

– Deus, isso é horrível! Como as pessoas bebem isso? – critiquei colocando o copo de volta na mesa, só para Olivia pegá-lo de novo e empurrar para mim.

– Espera o gelo derreter, filha. Você vai ver que melhora – Paloma explicou dando tapinhas no meu ombro. – Agora vamos dar uma volta. Fazer uma social, porque o seu cara tá ocupado.

– Quentin não é o “meu cara” – corrigi. – E nós não conhecemos ninguém daqui.

– Bem. Para a sua sorte, uma mentira proferida mil vezes não vira uma verdade – Olivia disse. – E, agora, preste atenção. Vamos te ensinar como se misturar em eventos assim.

Olivia passou um braço pelo meu braço direito e Paloma fez o mesmo com o esquerdo, para poder sair me arrastando pela festa e ir cumprimentando as poucas pessoas que elas já haviam ouvido falar. Pessoas que, pelo menos uma vez, apareceram na lista.

– Hey, Barnaby, como vai o time de basquete?! Encestando muito?

– Hey, Debbie, animando muito com a torcida?

– Edgar, você não estava com a Suzannah?

A cada cumprimento, eu tinha que reprimir a vontade de revirar os olhos. Não. Eu não conseguiria agir daquele modo. Na minha futura carreira, espero não ter que interagir daquele modo com as pessoas. Esse tipo de vida não era comigo...

Hora ou outra, eu dava uns goles na minha bebida para ver se o gosto realmente melhorava. Não, não melhorou nada, mas o gosto amargo estava mais ameno e mais suportável, por isso, bebia de tempos em tempos sem reclamar. Até eu chegar no fim do copo e sentir que tudo girou por um momento. Foi uma sensação maluca. Como antes de desmaiar por pressão baixa (e isso já acontecera muito comigo), mas não me senti fraca nem transpirei.

Eu estava bem. Na verdade, eu queria dançar.

– Vamos dançar, garotas? – eu perguntei.

Elas olharam para mim, surpresas.

– Letty... Você odeia dançar na frente das pessoas! – Paloma comentou.

Eu olhei para ela com desdém. Ela acha que eu não sabia do que eu gostava ou odiava? Ela acha que eu não me conhecia, não?

– Eu acho que eu sei do que eu gosto ou não, Paloma – eu respondi, rindo dela. – E eu adoooro essa música. Então, vamos lá, vamos? Vamos?

As duas trocaram olhares entre si, mas não me responderam.

Bufei e me afastei delas, andando até a pista de dança e ziguezagueando entre corpos que ondulavam, se balançavam e pulavam. Mentalmente eu ri. Corpos que se ondulavam, engraçado. Encontrei Ellen dançando com umas amigas e, sendo ela minha meia-irmã um ano mais nova, pareceu-me uma boa ideia lhe pedir companhia.

– Posso dançar com você, Ellen? – pedi aparecendo ao meu lado.

Ela me olhou surpresa.

– Hm... Claro! Mas... Letty, você não gosta de dançar...

Eu bufei. Até ela!

– Alooo, eu sei do que eu gosto ou não! Mas eu adoro essa música, e quero dançá-la!

– Letty, você bebeu? – ela perguntou.

– Bebi. Mas foi só um copo e eu tô bem! – respondi.

– O quê você bebeu? – ela inquiriu cruzando os braços.

Eu revirei os olhos. Sério, se eu quisesse responder a esse tipo de pergunta, acho que eu mesma deveria ter ligado para a minha mãe e... Oh, espere. Minha mãe não dava a mínima para mim. Eu poderia me morrer que ela sequer choraria no meu enterro para não borrar a maquiagem.

Não querendo perder a festa, resolvi dar as costas à Ellen me juntei a um grupo em que eu não conhecia ninguém – talvez só alguns de rosto -, ah, mas eles foram bem mais simpáticos do que Ellen ou as minhas amigas.

Quando eu dei por mim, eles já eram praticamente os meus amigos!

Um cara me ofereceu uma bebida e eu lhe dei um sorriso agradecido e lascivo. Ele era bonitinho, não bonito tipo “Quentin” – o garoto que eu nem tenho chances -, mas bonitinho tipo aceitável. Cabelos loiros e curtos que formavam um topete razoável, olhos azuis claros, o rosto estava meio vermelho, mas acho que era por conta da bebida.

E a única coisa que me impediu de ir em frente com ele... Foi a aparição da última palhaçada da noite: Yvonne e Duncan. Ela me puxou pelo ombro, quase derrubando a bebida.

– Hey! – eu briguei irritada.

– O que você está fazendo aqui? – ela me perguntou.

Eu dei de ombros, com um sorriso provocante.

– Há pouco tempo eu estava dançando... Agora tô falando uma palhaça. Oh, olá Duncan. Nossa... Vocês dois vieram juntos? Que bom para vocês hein?

– Você tá sendo sarcástica? – Duncan perguntou erguendo uma sobrancelha. – Isso aí é alcool?

– Sim. Isso é álcool – eu respondi revirando os olhos. Então levei a mão ao peito. – Não, eu não estou sendo sarcástica. É sério! Se vocês voltarem, talvez a inconformada da Yvonne largue do meu pé e me deixe em paz. Torço por vocês! Uhul! Team Yvocan!

– Letty! – alguém me chamou. Olhei ao redor, e de repente vi Quentin vindo até mim seguido por Paloma e Olivia. – Ei, Letty. Que lance é esse de que um parasita alienígena possuiu o seu corpo e não quer sair?

Olhei para ele confusa. Mas o quê...

Então eu comecei a rir. Ai que ridículo! Um parasita alienígena?! Mas de onde esse diabo tirou essa ideia? Que ridículo! Depois eu é que estou estranha...

– Ai, Quentin... Você me mata assim! Sério! – eu disse respirando fundo. – Ai, ai... Eu tô bem. Muito bem, na verdade. Olha, parece que o Duncan veio com a Yvie para a festa! Não é legal?! Quem sabe, se ela desviar a atenção para outro lugar, ela pare de agir feito uma vaca ciumenta para cima de mim?

O garoto sexy e moreno olhou para mim com receio e depois para Paloma e Olivia. Essas deram de ombros. Opa, eu estava perdendo alguma coisa? Desde quando eles evoluíram para aquele tipo de “linguagem não verbal” entre eles.

– Er... Letty, vamos tomar um pouco de ar, vamos? – ele me chamou, segurando o meu braço. Não com força para me machucar, mas com força o suficiente para não me deixa ir fácil.

Um arrepio agradável percorreu a minha pele, espalhando um calor pelo meu corpo. Não demonstrei qualquer resistência quando ele me levou para o quintal da casa. Era um quintal bonito, cheio de arbustos floridos, uma churrasqueira e, uhm, piscina! Se eu não tivesse vergonha de mim mesma com biquíni, até que eu curtiria.

Ele me sentou numa cadeira dobrável, perto da piscina, e me analisou com o olhar.

– Hm... Não me olha assim que eu me apaixono, bem – pedi com uma piscadela.

Olivia e Paloma, que o seguiram, riram de mim. Claro que riram. Quem não se apaixonaria com aquele olhar, hein?

– O que você bebeu? – ele perguntou.

– Sei lá... Vodca de pêssego?

Quanto você bebeu?

Eu revirei os olhos.

– Um copo... Não! Um e meio... Yvonne derrubou o resto.

Ele se sentou na cadeira ao lado da minha, mas de frente para mim, e esfregou os olhos.

– Quem fica bêbada com um copo e meio de Vodca? – ele perguntou divertido para Paloma e Olivia.

Bêbada?

– Eu não tô bêbada! – exclamei irritada, levantando-me. – Eu só... Estou, sei lá, animada! Como quando eu como chocolate... Uh! Tá tocando Titanium! Essa é a minha música! Quero dançar! E, olha, não tem quase ninguém aqui, que excitante!

Quentin olhou para Paloma e Olivia com diversão.

– Vamos pegar um pouco de água para ela – Paloma disse. – Você pode ficar de olho?

Ele assentiu com a cabeça e elas entraram de novo na casa.

– Bora dançar Quentin? Bora? Bora? Bora? – pedi pulando de excitação.

– Não. Você vai ficar parada aí e sentada. Diga-me, o que você jantou?

Eu bufei. Não quero falar de comida! Eu queria dançar, merda! Dançar, com ele.

– Se você não dançar comigo... Eu danço sozinha – disse, feito uma criança mimada. Então comecei a cantar e a dançar feito o espírito livre que eu era: — “I’m bulletproof, nothing to lose. Fire away. Fire away... Ricochet, you take your aim. Fire away. Fire away…”.

Me virei para sair daquele lugar desagradável entre as duas cadeiras, quando senti suas mãos em mim. Na minha cintura, nos meus braços... Dançando comigo. Cantando comigo… Quentin parecia estar em todos os lugares. E seus risos constrangidos quase se sobrepunham á música abafada.

“You shoot me down, but I won’t fall. I am titanium. You shoot me down, but I won’t fall. I am titanium” – ele cantou comigo, me rodopiando.

Tudo estava muito lindo, muito perfeito… E só não foi melhor porque, justo naquele momento, eu perdi o equilíbrio e caí na piscina cheia d’água.

Notas finais
Ah, Quentin... Que adorável você é *--*