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47 Capítulo 47 – Quentin P.O.V.
Notas iniciais
Capítulo 47 – Quentin P.O.V.
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– Eu fico tão feliz que minha filha esteja com você.
Com dificuldade, eu desviei o olhar de Letty – que se afastava com a minha mãe e meu irmão mulherengo (o que me deixou inquieto) – para a mãe dela. Ambas não tinham muito em comum. Talvez um traço do queixo ali, um pouco do nariz aqui... Era mais fácil encontrar a semelhança de Letty em seu pai. No cumprimento da testa, no tom dos cabelos e dos olhos e até mesmo no temperamento.
Talvez, por minha namorada falar da mãe como se ela fosse um monstro de sete cabeças, eu esteja sempre esperando o pior dela também. Por isso, não teve como não me surpreender pelo tom emocionado da sua frase. Como se ela estivesse aliviada.
– Não. Eu é que estou feliz por estar com ela – respondi sorrindo.
Não sei porque, mas o pai de Letty pareceu ficar chateado com a minha resposta. Algo me disse que ele não foi com a minha cara... Mas vou acreditar que essa “inimizade” tem mais a ver com eu ser o namorado da filha dele do que um problema comigo como pessoa. Modéstia parte, eu sou uma boa pessoa. Talvez só sensível demais.
– Aí, Q! +8 de Charming! – Joseph debochou, fazendo-me me sentir um idiota.
Helena e Charles, dois dos cinco desocupados que vivem para me atormentar, se mataram de rir daquela piada nerd que nem devem ter entendido. Eu corei, me sentindo ainda mais patético enquanto o resto dos meus irmãos fazia: “Own” para me constranger.
Bando de filhos da put-... Ops. Bando de filhos da minha mãe.
(Exceto Helena. Ela é filha da puta mesmo).
Mas como eu poderia dizer outra coisa se era verdade?
Vai parecer clichê, mas desde o momento em que Letty apareceu na minha vida foi tipo: “Uau. Uma garota assim existia? Onde ela estivera esse tempo todo que eu nunca a havia encontrado?”. Tudo bem que, como toda pessoa que eu conheço, ela tinha sua “bagagem”. Sinceramente, se ela não tivesse, eu estranharia. Ninguém é tão feliz quanto parece. E acho que gosto disso. Gosto de como a Letty não se obriga a fingir sentir o que não sente. Tenho admirado isso desde a primeira vez em que nos falamos.
– Mas, Sra. Freeday, pensei que você preferisse que Quentin ficasse com Ellen... Parecia que, para você, a filha do Walter era mais importante que a sua própria – Helena comentou, aproximando-se da mãe de Letty.
Olhei para ela, alertando-a. Letty a mataria se a visse fazendo aquilo. Fico surpreso por não tê-la matado depois de Helena ter lhe beijado daquele jeito... Eu teria apoiado se Letty ao menos houvesse dado um soco para Helena acabar com esse fogo. Eu mesmo não dei porque não bato em mulheres. Não sou o meu pai.
– Acho que ficaria feliz se Quentin ficasse com qualquer uma de minhas filhas – ela respondeu, num tom frio e austero. – Ele parece ser um bom garoto.
Helena abriu a boca para dizer mais alguma coisa, todavia, Annelise caminhou até mim e se sentou no meu colo. Fiquei surpreso com o como as coisas mudam quando uma criança entra na parada. Minha (ex)amiga filha da puta fechou a boca no mesmo instante.
– Vocês estão brigando? – Anne perguntou, observando a todo mundo.
– Claro que não, Ann. Estamos apenas conversando – Roland respondeu.
– Óbvio – Eu concordei. – Estamos conversando como se estivéssemos, sei lá, no século XIX e eu fui eleito um bom partido pela Sra. Freeday. Toca aqui.
Victoria sorriu com a brincadeira, já Micha... Sinceramente, eu não sei como agradar esse cara. Será que eu se eu falar sobre Hittler ele ao menos me dirigirá a palavra? Tudo o que ele faz, são caretas de desgosto. Quando Letty me falou dele, parecia uma pessoa maravilhosa. Ele agora parecia um alemão que chupou limão. Até rimou de tão verdade que é.
Annelise riu e bateu a mão na minha.
– Eu não entendi nada – ela confessou para o pai depois.
Joseph suspirou e disse para mim:
– Esse é o fardo de sermos inteligentes, Q.
– Ela é só uma criança. Não pode ser burra – Helena disse tirando a garota do meu colo e aninhando-a no seu. – Anne não é burra, certo? Anne, que cor é o céu?
– Azul – minha sobrinha respondeu.
Minha ex-amiga lésbica que quer roubar minha namorada fez uma festinha deixando claro que minha sobrinha não era burra. Eu revirei os olhos. Juro que quando ela beijou a Letty daquele jeito não sei o que eu senti. Só sei que não foi nada bonito. Se eu fosse alguém como o meu pai, eu teria dado uns bons socos naquela garota.
Ainda não conseguia esquecer o que ela fez.
Não importa o que Gilliam diga a defesa de sua “amiga”. Eu não consigo perdoar tão fácil quanto ele. Era óbvio que ele não sabia como era a sensação de ser traído por sua amiga de infância. Era óbvio porque Gilliam não tem uma única garota que ele goste de verdade, para saber qual é a sensação de ver sua melhor amiga roubando um beijo dela. No dia em que ele se apaixonar, talvez ele possa dizer alguma coisa.
E ainda veio com aquele papo de: “Você tem uma namorada de mente aberta e uma amiga lésbica, aproveita!”. Dava para ele ser mais nojento? Até parece que eu, que ainda nem dormi com a Letty, vou empurrá-la para um ménage.
– Então... Como você conheceu a Letty, Q? – Charles perguntou de repente, digitando algo no celular. – Acho que nenhum de nós conhece a história.
Victoria e Micha me olharam como se estivessem me avaliando e isso me deixou desconfortável. Roland e Joseph se inclinaram um pouco mais para perto e me senti um pouco pior. Muito obrigado, irmãos.
– Bem... Vamos ao mesmo colégio, sabem... Temos aula de Literatura Estrangeira juntos... E eu estava lendo “Romeu e Julieta” quando Letty fez o favor de me dizer que eles morriam no fim. – eu respondi, não conseguindo evitar o riso ao me lembrar. Então mudei de assunto, virando-me para os pais de Letty: – E como vocês se conheceram?
Helena, Anne, Roland, Charles e Joseph olharam para o casal também.
Victoria se remexeu, incomodada.
– Bem... Conhecemo-nos na escola – ela respondeu desconfortável. Olhando de relance para o ex-marido. – Eu era a garota mais bonita do colégio e Micha era...
– Eu era o mais bonito, o mais simpático, o mais rico... Eu era o bom partido daquela época – ele respondeu, em um tom divertido. – Ela ficou louquinha por mim.
– Espere um instante – Victoria disse, erguendo um dedo para ele. – Você era louquinho por mim... Afinal, por que outro motivo você me convidaria para o baile de formatura quando disse para todo mundo que não participaria daquela “cafonice”?
– Bem... Todo mundo sabia que, desde aquela época, você adorava se exibir. Se eu não te chamasse para o baile de formatura, eu ia parar no hospital com um salto agulha enfiado na garganta – ele respondeu.
Ela fez uma expressão insatisfeita.
– Bem, mas nós nos conhecemos do jeito mais tradicional possível – Victoria disse, inclinando-se para nós, lembrando-se da pergunta. – Esbarrei-me nele, joguei meus livros para o alto e disse: “ah, desculpe”.
– Foi tão falso que eu me matei de rir...
– E quando se abaixou para me ajudar, eu já havia recolhido tudo...
Helena olhou para mim e, contra a minha vontade, olhei para ela.
Sinceramente, nós dois achamos aquilo estranho. Não a história de amor deles (por algum motivo, fazer as coisas de maneiras teatrais me lembrou do que Brucena falava sobre a mãe), mas o modo com que contaram. Eles ficaram muito felizes ao se lembrar daquela época. Muito mesmo.
– Isso é mais clichê que protagonista de RPG lutando com espada – Joseph comentou, fazendo-me concordar com a cabeça.
– Ainda anda falando de maneira esquisita, Joseph?
Congelei ao ouvir aquela voz.
Virei-me devagar, a ponto de ver meu pai parado bem atrás de mim. Como se soubesse que se eu o visse se aproximando, eu teria muito bem ido até ele e o mandado ir embora. Mas eu não o vi e, agora, ele estava ali. De pé atrás de mim e pegando Anne do colo de Helena, que parecia tão feliz quanto eu e Joseph.
– Ah, você ainda está aqui... – Charles comentou parecendo casual.
– O quê você está fazendo aqui? – eu perguntei, por entre dentes.
O clima estranho que eu estava tendo por Helena recentemente só não era pior do que eu estava sentido pelo meu pai. Eram muitos anos de raiva para suportá-lo. Por mais que Anne parecesse feliz por tê-lo ali, abraçando-o pelo pescoço, se eu fosse o pai dela, eu a privaria daquele relacionamento. Ele era uma má influência.
– Eu disse para a sua mãe que ficaria para o aniversário da Anne – ele respondeu, provocando-me com o olhar.
Abri a boca para responder que não precisava ter se incomodado, já que ele não dava a mínima para as mulheres da família, quando minha mãe, Letty e Gilliam voltaram.
– Oh, Arnold... Você veio! – mamãe disse, parecendo desconfortável e olhando para mim como se pedisse desculpas.
Ótimo. Então ela sabia.
Ela mentiu para mim quando disse que ele já tinha voltado para a Escócia.
Olhei para Joseph e Helena, agradecido por saber que ela não havia mentido só para mim. Os dois não estavam nada feliz em tê-lo ali.
Digamos que Arnold era o tipo de cara que conseguia dividir a família em dois grupos: os que não tinham nada contra ele e os que não o suportavam. Joseph e eu, obviamente, não o suportávamos – sempre fomos os mais “diferentes” dos irmãos, o garoto sensível e o nerd. Helena entrou nesse grupo depois de perceber, por experiência própria, o quão filho da puta ele era.
Lembrar-me que ela estivera lá (na noite em que eu o peguei traindo minha mãe) para me separar dele quando lhe enchi de socos, meio que fez com que eu me sentisse um pouco melhor... Só para me sentir ainda mais decepcionado com ela.
Por que tinha que ser tão impulsiva?!
Soltei um suspiro, cerrando os lábios e olhando para o céu. Tentando me controlar e me livrar do mal estar que só estar na presença daquele homem me causava. Se eu pudesse evitar encontrá-lo nessa vida, pode acreditar que eu faria.
– Eu disse que ia ficar até o aniversário da minha neta – ele respondeu.
“Mas que atencioso” eu pensei com sarcasmo.
Letty parecia um pouco nervosa também com a presença dele. Seus olhos azuis escuros, sobre mim, pareciam mais intensos que o comum. Aparentemente, ela não sabia como agir na frente do meu pai e acho que nem sabia se devia se apresentar para ele.
– Ah, sim. Eu lembro – mamãe concordou. – Mas...
– Essa garota é uma das suas, Gilliam? – meu pai a interrompeu, olhando minha namorada de cima a baixo. Quase como se a medisse.
Dizer que Letty ficou incomodada com o comentário, seria pouco. Ela olhou para Gilliam com uma expressão um tanto enojada e pude ler em seus lábios “uma das?”. Quase que eu ri quando ele deu de ombros e um meio sorriso em resposta. Ela revirou os olhos, andou até mim e deixou a cesta que carregava sobre a toalha.
– Essa garota – ela disse, apontando para si própria. Óbvio que ela ficou incomodada com esse tratamento. – Está aqui e seria do Quentin, na verdade... Se estivéssemos em eras passadas, onde as mulheres pertenciam aos homens... – Então ela deu um sorriso falso e disse, contida: — Mas é um prazer conhecê-lo, Sr. McCullogh. A propósito, aqueles são os meus pais: Victoria e Micha.
Ele olhou para os meus “sogros” parecendo um pouco incomodado.
– Mas o que é isso? Um casamento? – Arnold debochou.
– Pensei que fosse um aniversário – Micha respondeu, dando um sorriso de quem não achou nada engraçado e estendendo a mão para o meu pai. – É um prazer conhecê-lo, senhor.
Meu pai a apertou por educação, olhou para a mãe de Letty como se fosse pouca coisa (obviamente, porque ele só gostava de garotas mais novas) e disse:
– Estou realmente muito surpreso em saber que Quentin tem uma namorada... Sabe como é. Sempre achei que ele tinha gostos estranhos.
Cerrei o punho e me obriguei a respirar fundo. Letty se sentou do meu lado e segurou o meu punho em suas mãos. Olhei para ela confuso, e ela apenas deu de ombros. Como se dissesse: “É, eu sei como é ter um pai que é um saco”. Sinceramente, até me senti um pouco melhor. Só um pouco.
– Como assim? – Anne perguntou, confusa, no colo dele.
– Tipo, tem gente que gosta de carne, outros gostam de frutas...
– Anne, vem cá com o papai, vem? – Roland interviu, pegando a garota no colo e olhando para o nosso pai de maneira estupefata. – Bora ver os passarinhos?
– Eu já vi os passarinhos! – minha sobrinha disse cruzando os braços. – Eu quero o meu bolo!
Letty deu um sorriso tenso.
– Boa ideia! Vamos cantar parabéns! – minha mãe sugeriu. Indo até Gilliam e colocando uma vela no bolo que ele segurava. – Dá para alguém pegar a câmera, por favor? Vamos bater algumas fotos!
Se eu pudesse, teria evitado ter fotos com um sorriso falso perto do meu pai. Mas eu sabia que mamãe não queria que eu surtasse e eu, certamente, não ia surtar na frente da família da Letty – que obviamente não gostaram do meu pai. Mas eu jamais ia perdoar aquele homem por tudo o que ele já fez e disse para mim e para a minha mãe... Na verdade, era até irônico que eu o suportasse por causa dela.
Já dei muitas preocupações à Christine para entristecê-la ainda mais.
O que eu não entendia era o como ela conseguia conviver com ele... Tudo bem que ele gostava muito de Gilliam, Charles e Roland – afinal, sempre gostaram de coisas de “homens” como mulheres e esportes. Mas ele bem que poderia visitá-los em suas universidades e deixar o resto da família, que não quer vê-lo nem pintado de ouro, em paz certo? Errado. Meu pai achava que tinha a obrigação de perturbar todo mundo.
Foi quase um alívio quando Annelise caiu num sono profundo no início da tarde. Tivemos, assim, a desculpa perfeita para acabar com toda aquela cena ridícula. Acredito que Joseph e Helena ficaram tão aliviados quanto eu.
– Eu sinto muito pelo meu pai desagradável – eu pedi à Letty e aos pais dela, acompanhando-os até o ponto de táxi. – Ele sempre foi assim. Sempre.
Micha continuou com sua cara de poucos amigos para mim. Pelo menos eu havia conquistado a simpatia da inimiga da minha namorada. Pareço ter um talento para isso. Começando com Yvonne... Que, se Letty desse uma chance, entenderia que é um ser tão inofensivo quanto qualquer outro. Ela só dá em cima de mim na frente de Letty para irritá-la, afinal, namorara Duncan. O cara que Yvonne realmente gosta.
– Sua mãe me falou que ele viria... Lá no carro – ela confessou.
Soltei um suspiro, irritado.
Bem que minha mãe poderia ter me contado...
– Mas ela também disse que você ia surtar depois que visse seu pai, e eu disse que você ia se comportar... Eu acho que ganhei – ela completou sorrindo, passando os braços pelo meu. – Sei que você não é uma pessoa esquentada.
Um sorriso sarcástico apareceu no meu rosto contra a minha vontade. Ah, se ela soubesse do meu passado de ir à festas para pessoas de maiores, beber até cair e arrumar confusão só para provar para meu pai que eu era tão homem quanto meus irmãos... Veria que eu já fui uma pessoa muito mais que esquentada. Quando lhe observei para responder alguma coisa, fiquei sem palavras.
Perguntei-me se ela sabia o quanto ficava bonita quando sorria daquele jeito, inclinando a cabeça, ou se tinha ideia do quanto era bonita de verdade. De que caras como Duncan jamais ficariam com ela só para “experimentar uma coisa nova”, mas porque ela era verdadeiramente atraente. Sei que não. Sei que ela tem uma ideia totalmente deformada de si mesmo na cabeça, mas juro que vou fazê-la se enxergar como é de verdade: a garota mais bonita que eu já vi na minha vida.
Inclinei-me e a beijei de leve nos lábios.
Não consegui ficar só nesse beijo. Nunca dá. Com Letty há qualquer coisa na maciez dos seus lábios, no seu hálito, no seu cheiro... Não sei, que mexe comigo. Que a torna tão familiar que sinto como se ela sempre houvesse sido minha namorada. E isso porque eu nem acredito em almas gêmeas.
Quando nos afastamos, Letty estava muito corada e percebi que foi porque seus pais havia, simplesmente, parado no meio do caminho e estavam encarando a gente. Sério. Eu devia ter mais controle sobre mim mesmo...
E os pais dela deviam aprender a serem mais discretos.
Soltei-a, constrangido.
– Quais são as suas intensões com a minha filha? – Micha soltou a pergunta como se estivesse com ela presa na garganta desde o momento que me viu.
– Hein?
– Casamento? Enrolação? Só diversão? Transa e cai fora? – ele soltou de uma só vez, muito desconfiado.
Tudo bem. Eu fiquei muito vermelho.
– Micha... – Victoria o chamou, agarrando o seu braço. – Você está constrangendo o garoto... Por favor. Está constrangendo a Letty também.
Olhei para a minha namorada ao meu lado. Sinceramente, eu li no rosto dela sua vontade de cair morta no chão naquele momento. Apesar da insistência de Victoria, para que ele deixasse para lá, ele fincou no chão e ficou me encarando.
– Minhas intensões com a Letty são as melhores possíveis – eu disse a frase mais clichê de toda a minha vida, mas que era verdade. – Saiba que eu tenho um enorme respeito pela sua filha e que eu gosto demais dela.
Ele continuou me encarando.
– Pai... – Letty pediu, muito corada e muito sem graça. — Hum... Talvez, vocês possam ir à frente.. Quero conversar umas coisas com Quentin, pode ser?
A expressão de Micha se azedou ainda mais.
– Aonde vocês vão? O que você quer falar com ele que não pode ser dito na nossa frente? – ele disparou muito enciumado.
Gente. O pai da Letty era um lobo em pele de cordeiro.
– Micha... Por favor! São namorados. Podem ficar um tempo à sós... – Victoria intercedeu novamente.
– Você sabe o que os jovens fazem quando ficam “um tempo à sós”, Victoria?
– Mas ainda é de tarde...
– E você acha que os jovens não transam de tarde?! – ele retrucou.
Eu olhei para a Letty, apavorado, e ela olhou para mim como se também não acreditasse naquilo. Ai estava uma faceta do pai que ela não conhecia: ele era um daqueles pais que não gostavam nenhum pouco dos namorados das filhas. Que Deus me ajude com esse homem.
Victoria, então, deu-lhe uma cotovelada nada sutil nas costelas e nos disse:
– Claro que podem ir. Mas, Letty, não chegue muito tarde. Vamos jantar juntos. E não marque nada para amanhã. Vamos sair só nós três.
Letty fez uma expressão que eu não saberia muito explicar como era. Era algo entre o choque e a incredulidade. Mas ela não disse nada, apenas assentiu com a cabeça. Sinceramente, eu acho que ela ficou sem palavras. Algo me dizia que agir daquele jeito não era do feitio de sua mãe.
– Tá. O.K... Obrigada? – ela respondeu, ainda muito chocada.
Victoria deu um sorriso que pareceu desajeitado em seu rosto e nos despedimos. Micha ainda relutou – por algum motivo, a ideia da filha estar namorando, o incomodava -, mas saiu arrastado pela ex-mulher. Disse que era para a Letty chegar até às sete ao hotel ou ele ia caçá-la por toda a cidade.
– Tá. Isso foi estranho – ela disse, voltando-se para mim.
– Os ciúmes do seu pai ou a interseção sua mãe? – eu perguntei, arqueando uma sobrancelha.
– As duas coisas – ela confessou reflexivamente. – Tipo... Minha mãe não é do tipo “legal” e muito menos que tenta meter moral em mim... Ela é mais do tipo... Que me põe para baixo. Desde ontem ela está estranha... E papai está estranho desde que eu disse que tinha um namorado... Tá todo: “Você sabe o que dizem dos escoceses?”.
– Que eles bebem muito uísque? – eu perguntei dando de ombros.
Ela sorriu e eu segurei as suas mãos.
– Sabe, dizem que quando uma pessoa começa a agir estranho... É porque ela vai morrer.
Letty fez uma careta.
– Credo, Quentin! – brigou, dando-me um soco no meu ombro. – Minha mãe? Morrer? Você nunca ouviu dizer que vaso ruim não quebra?!
Eu sorri e pensei o quanto estávamos ferrados.
Eu com o meu pai e ela com a mãe dela.
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