Nosso Nome Na Lista.
17 Capítulo 17 - Ponto Estável.
Notas iniciais
Capítulo 17 – Ponto Estável.
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Talvez haja algum outro motivo para Helena ter me dado o endereço da casa de Josh.
Talvez eu houvesse errado o endereço que Helena me deu... Mas depois de uma rápida checada, descubro que não estou errada. Talvez Helena estivesse na festa? O que era um absurdo, pois ela não era muito querida quando se mudou de colégio, na verdade, ela havia aparecido na lista dos odiados. Sendo assim, o que eu estava fazendo aqui, e pior ainda, o que ela estava fazendo ali?
Sou obrigada a estacionar um quarteirão à frente da casa, porque a rua estava tomada por carros estacionados, e decido o que fazer. Dou uma rápida analisada em mim mesma e percebo que com minha regata azul marinho e meus shorts “hot pants” branco, não estou arrumada para entrar naquela festa e ir chamá-la.
Desligo o meu carro e pego o meu celular.
“Estou aqui fora. Um quarteirão antes da casa” envio-lhe.
Passam-se alguns segundos, e depois alguns minutos... E ela não responde. O que era quase um milagre. Helena nunca demorou tanto para responder a um SMS. Eu diria que ela nasceu com o celular colado na mão... Meu coração se aperta em preocupação e desconforto... Será que eu só estava chateando-a sem motivo? Quer dizer, sem motivo para ela, porque para mim certamente era um motivo forte.
Juro que se eu tivesse um cartão de crédito só para mim, um ao qual Walter não tivesse que pagar ou acesso ao que eu fazia e quando eu fazia, me hospedaria sem problemas num hotel. A ideia de usar minhas economias (adquiridas depois de uns verões trabalhando) estava começando a me soar convidativa quando, de repente, a porta do carona se abre – livrando-me dos pensamentos tristes – e alguém entra todo afobado.
– Olá para você!
– Quentin?! – quase grito, surpresa. – O que você está fazendo aqui?! Achei que não vinha!
Não sei porque, mas estou me sentindo um pouco traída.
Sinceramente, hoje não é o dia para as pessoas ficarem mentindo para mim...
– O que você está fazendo aqui? – ele desconversa, cruzando os braços.
Ergo uma sobrancelha, passando que não gosto de sua brincadeirinha de perguntar o que eu perguntei primeiro, mas não tenho problemas em responder, mesmo que de má vontade:
– Estou esperando uma amiga... Vou dormir na casa dela e ela me mandou vir buscá-la. Agora, o que você está fazendo aqui? Disse que “não tinha motivo para vir”.
Quentin engole em seco, fazendo seu pomo-de-adão subir e descer, mas se esforça para parecer relaxado. Nem se dando conta que seus ombros estão duros como pedra. É impressão minha, ou sua hesitação é de quem inventa uma história?
– Digamos que estou metendo o nariz onde não sou chamado por um tempinho – ele responde enfim, dando um sorriso amarelo que não deixa de ser bonito. É um sorriso travesso que me faz perceber que ele tem covinhas. Dá um ar mais infantil para sua aparência sedutora.
Todavia o seu sorriso morre e o carro fica mergulhado em silêncio.
– O que aconteceu? – ele pergunta, parecendo preocupado.
– Nada – respondo sem me importar no quanto sua resposta anterior é insatisfatória e incompleta comparando com a minha. – Por quê?
– Você está com os olhos vermelhos e inchados – ele responde, dando de ombros. – Estava chorando? Ou fumando maconha?
Eu reviro os olhos e lhe dou um soco no ombro com incredulidade.
– Tenho cara de quem fuma maconha?! – brigo.
– Você tem cara de quem só faz coisa errada – ele responde.
Sei que ele está brincando, pelo modo como ele ri. Ele ri como um amigo que tira graça com outro amigo e, por um momento, meus problemas com minha mãe parecem não existir, pois eu rio também. Não é uma risada como a sua, gostosa e sem medida, mas é uma risada que não dói.
– Não. Sério. O que aconteceu? – ele quer saber, voltando seu tronco para o banco onde estou sentada. – Ninguém chora por nada. Principalmente você.
Dou um sorriso incrédulo e desvio o olhar de seus olhos intensos. Aqueles olhos cuja cor parece perdida entre o azul e o verde. Uma cor que eu desconheço, que eu sei que ele somente é claro, mas que é muito bonita por isso mesmo. Por ser indecifrável.
– Como assim “principalmente eu”? – pergunto.
Não estou olhando para ele, mas sei que ele se aproxima um pouco mais.
– Você não é o tipo de garota que chora por qualquer coisa – ele responde. – Coisas como... sei lá. Falta de roupa para ir à uma festa, término com o namorado... Você parece ser o tipo que leva um baque, mas segue em frente. Apesar de eu achar que você tem um calcanhar de Aquiles...
Não consigo evitar e olho para ele.
– Sua mãe – ele continuou, analisando meu rosto. – Ela é o seu ponto fraco.
Franzo o cenho para ele.
– Como você sabe? – pergunto irritada.
Não sei por que, mas Quentin saber dessas coisas (em duas semanas) faz parecer que eu não sou boa o bastante para fingir indiferença no que diz respeito à minha mãe.
– Você ficou muito nervosa quando estava no mesmo cômodo que ela... Eu já te vi nervosa, mas aquele nível foi extremo – ele explica, ajeitando-se no banco. Afastando-se de mim.
Ele estica suas pernas longas por sobre o painel de Beija-Flor e parece bem à vontade lá dentro. Não sei se eu me sinto bem ou mau por ele estar se permitindo aquele conforto, no meu carro, enquanto eu espero uma senhorita muito atrasada. Mas de repente eu me dou contar que, talvez, aparentar conforto seja um sinal que Quentin está nervoso com algo.
E esta me parece uma boa hora para mudar o foco da conversa.
– Você está nervoso com algo... Com o quê?
Ele olha para mim com as sobrancelhas escuras erguidas em surpresa. Sorrio para mim mesma por um instante. Assim como ele me surpreendia sabendo tanto de mim, eu o havia surpreendido dessa vez, e a sensação era muito boa.
– Pareço nervoso? – ele pergunta, dando um sorriso debochado.
– Parece estar tentando não parecer nervoso – eu respondi rindo.
Quentin olha para o ambiente fora do retrovisor e sorri.
– Sua amiga vai demorar... Tá a fim de esticar as pernas? – ele sugere, abrindo a porta do carro e saindo.
– Como você sabe-...
Ele não responde e nem escuta, pois já fechou a porta e está me esperando na calçada. Solto um suspiro frustrado e saio do carro também, apesar de hesitante e constrangida por estar usando um short muito curto. Bem, ir à uma festa ou me esbarrar com algum garoto (Quentin principalmente) não estavam nos meus planos.
– Como você sabe que ela vai demorar? – questiono, dando a volta no carro.
Quentin abre a boca para responder, mas em algum momento – quando ele me olha de corpo inteiro – ele perde a fala. Quase sorrio, sem graça, ao perceber que são as minhas pernas. Ah, ótimo. Se Yvonne pode competir com seus peitos eu posso competir com as minhas pernas. Maravilha! Estalo meus dedos em frentes aos seus olhos, e ele fica vermelho.
Provavelmente está se perguntando se eu havia reparado o seu olhar.
– O que foi?! – ele quase grita.
– Você disse que minha amiga ia demorar... Como você sabe? – eu questiono, cruzando os braços. – Além disso, é muita coincidência você ter aparecido quando eu a estava esperando...
O moreno engole em seco novamente, e o movimento de seu pomo-de-adão meio que me hipnotiza. Quase sinto vontade de mordiscá-lo, mas me contenho maravilhosamente. Diferente de Quentin, cujos olhos vez ou outra vagavam de volta para minhas pernas expostas.
– A vida é cheia de coincidências – ele diz, fazendo ar de mistério. — Bora dar uma volta?
– Quentin... – eu o chamo. — Estou sentindo que você está me enrolando.
Ele solta um suspiro e põe as mãos dentro da calça de lavagem ácida, a mesma lavagem dos meus shorts (o que acho engraçado), e que combina com a camiseta vermelha. Quentin não está olhando para mim quando fala, ele está fitando suas botas à Rock N’ Roll.
– O.K., você me pegou... Tudo isso não é coincidência – ele responde, fazendo um gesto amplo com suas mãos. – Você estar aqui agora é a única coincidência.
Cruzei os braços.
– Estou ouvindo – digo.
– Não está não – ele nega, tentando descruzar os meus braços. – Esse gesto significa: “pode falar, estou ouvindo com os ouvidos, mas minha mente já fez seu julgamento”.
Ergo uma sobrancelha e descruzo os braços.
– Melhor? – zombo.
– Melhor – ele responde, dando um sorriso.
– O.K. Fala logo! – mando.
Não consigo deixar os braços quietos ao lado do corpo e coloco as mãos na cintura.
– Você está parecendo a minha mãe agora...
– Pare de me enrolar e confesse! O que você está aprontando?! – pergunto sem paciência.
Quentin suspira e se senta na beirada da janela de uma loja ao lado do meu carro. Sigo-o e me sento lá também, ao seu lado. Nossos ombros quase se encostavam, e isso era desconcertante. Tento esperar com paciência, mas paciência não é o meu forte. Principalmente depois de tudo o que aconteceu hoje... Balanço a cabeça tentando não me lembrar. Senão, tenho certeza que vou voltar a chorar e não quero isso. Não na frente de Quentin.
– Então... Helena e eu somos amigos também... – ele começa com cautela.
– Como vocês se conheceram? – questiono.
– Bem... Fazemos teatro juntos – ele respondeu com um sorriso amarelo. – E ela também era minha vizinha até se emancipar dos pais e ir morar sozinha num apartamento ao lado do Teatro Municipal... Sabe, por eles não aceitarem o fato de que ela é lésbica e tudo o mais...
Afirmo com a cabeça, sabendo dessa história. Foi a primeira que ela me contou enquanto estávamos internadas no hospital. Eu havia puxado assunto porque nunca via seus pais aparecerem por lá, com exceção de uma mulher adorável que ia vê-la com muita frequência. Pensei até que fosse a mãe de Helena, mas era sua tia.
– Enfim... Lembra-se que eu disse que havia ido para o seu colégio para procurar uma garota? – ele pergunta retoricamente. Enrijeci e afirmei com a cabeça, sentindo desgosto. Ah, se lembrava... – Eu estava procurando a garota que foi responsável por meter Helena naquele hospital.
Olhei para ele, confusa.
– Você me disse que estava procurando uma “princesa”! – acusei.
– Uma garota mimada, ligada nas aparências, cretina e insensível... Oh, sim, sem dúvida eu estava procurando uma princesa. Uma princesa mimada e egoísta – ele responde muito irritado. Ele tem que fechar os olhos e respirar fundo para ficar calmo. – Não sei se Helena te contou o que a sua ex fez para ela ter ficado tão mal...
– Eu não quis perguntar – respondo abaixando o olhar. – Como ela parecia muito mal mesmo, não queria que ela tivesse uma recaída se seu tocasse no assunto...
Quentin suspira e sorri para mim. Ele passa a mão nos meus cabelos novamente. Dessa vez, não os bagunça, só desliza por toda a extensão deles como se analisasse a maciez de uma seda. Tenho que conter a vontade de fechar os olhos e ronronar feito um gatinho. Não sei ronronar, mas me imagino fazendo isso.
E ele caindo na gargalhada logo em seguida.
– Bem, resumindo a ópera: essa garota e Helena tiveram momentos bem intensos e Helena deixou bem claro que não queria continuar a fingir que eram duas estranhas que nem se falavam pelos corredores. A garota ficou com medo porque ela queria aparecer naquela maldita lista e sabia que se assumisse o relacionamento das duas, acabaria perdendo sua chance... – Quentin pausou para bufar de raiva. – Acabou que ela fingiu que ambas não se conheciam, humilhou Helena para seu grupinho de amigos e nunca mais falou com ela.
Meu queixo caiu.
Eu não sou lésbica (graças a Quentin, tenho quase certeza disso agora), mas imaginei como seria se isso fosse comigo. E seu eu tivesse um relacionamento secreto com Duncan (ou Quentin *cof cof) e dormisse com ele, sob a promessa de não namorar mais em segredo, ele concordasse e no dia seguinte, me humilhasse e fingisse que eu nem existia? Eu ficaria destruída... E puta. Muito puta.
– Ela deixou Helena sem explicação – Quentin finaliza. – E agora estão se resolvendo.
Olho para Quentin, confusa.
– Então a cretina que magoou Helena está na festa?! – grito, pulando da beirada da janela.
Quentin agarra o meu braço, como se estivesse com medo que eu perdesse a cabeça e fizesse besteira. Como invadir a festa e dar um soco na cara da garota que arrasou com Helena. Acho que ele é capaz de ler mentes...
– Está... Mas, se controle, Letty. Elas já estão se entendendo – ele diz, puxando-me para me sentar ao seu lado novamente. – Vou dar quinze minutos para elas conversarem e depois, eu vou deixá-las sair do armário...
Olho para ele impaciente e confusa.
– Você vai deixá-las se revelarem para todo mundo na festa?
Ele me olha de volta, parecendo não entender. Até que, enfim, compreende e ri.
– Ah! Não, não esse tipo de “sair do armário”. É que eu literalmente as tranquei no armário para conversarem – ele explica, mostrando-me uma chave dourada. Deu aquele sorriso travesso novamente. – Sabe, as duas não quiseram cooperar então...
Ele termina com um dar de ombros e eu rio.
– Você é absurdo! – digo.
Quentin sorri.
– Eu diria que sou determinado – ele responde dando uma piscadela. – Pelo menos... Para algumas coisas. Os problemas dos outros, principalmente.
– Quanto tempo já se passou desde que você as prendeu? – pergunto.
– Sei lá. Cinco ou dez minutos... – ele responde. – Mas não precisamos ter pressa. Gostei de ter conseguido escapar da festa e ter te encontrado aqui. É como conseguir respirar fundo.
Eu sei que é estúpido, mas fico vermelha.
– Como você me encontrou aqui? – pergunto.
Quentin mete a mão no bolso e puxa um smartphone preto com a capa cor-de-rosa.
– Roubei o celular de Helena – ele diz olhando para o céu. – Foi por um bom motivo. Que Deus não me castigue...
Eu ri.
– Não sei quanto a Deus, mas sei que Helena vai relutar. Ela é esquentada – eu o lembro.
Pela careta que ele faz, parece que ele já levou um soco de Helena. Ficamos uns momentos em silêncio, observando serenamente o movimento na rua, porque o assunto de Helena só poderá ser resolvido com o tempo. Parece que já se passou uma eternidade quando Quentin volta a falar.
– Está melhor? – é o que ele pergunta.
Ergo o olhar para ele e percebo que ele está preocupado.
Eu concordo com a cabeça e sorrio.
– Estou. Obrigada – respondo, voltando a olhar para a rua. – Quando eu saí de casa, parecia que eu estava sem chão, literalmente. Não sei nem como eu consegui dirigir.
Quentin sorri suavemente.
– E agora você está... ?
– Tudo ainda parece estar rodando... Mas acho que achei um ponto estável para me concentrar – respondo, sorrindo sem precisar forçar. – É isso o que o meu “calcanhar de Aquiles” faz, afinal... Machuca mais que os outros.
Eu abaixo o olhar e sinto vontade de dar um soco naquele garoto ao meu lado. Por culpa dele eu estava com vontade de chorar novamente. Mordo o lábio novamente, deixo meus cabelos criarem um muro entre nós dois e cobrirem meu rosto do seu ângulo, pois não quero que ele veja as lágrimas que começam a se acumular nos meus olhos novamente.
Todavia, sinto sua mão pegar na minha.
Não é um gesto brusco ou desesperado em cessar as lágrimas, como quando Duncan agarrava os meus ombros e dizia que tudo ia ficar bem. Quentin segurou de vagar e foi apertando aos poucos, como se quisesse me passar alguma coisa através do muro que eu criei entre nós dois. Talvez achando que não fosse o bastante, ele me puxa para um abraço.
Encosto minha cabeça no seu ombro, me permito chorar um pouco e, antes que eu me dê conta do que estou fazendo, acabo contando sobre o meu pai. Não penso se Quentin vai entender como eu me senti, ainda mais porque ele não se dá bem com pai dele, mas não penso em muita coisa enquanto eu falo. Só que aquela parecia uma bomba grande demais para eu segurar sozinha.
– Qual o problema dela comigo?! Por que ela me odeia tanto?! O que diabos eu fiz para aquela mulher?! – eu estou gritando, sem entender bem porque se ele está ali, tão perto de mim, com os braços me apertando com força. – Por que ela não pode ser como qualquer outra mãe e... Dizer que me ama? Eu... Não sou digna do amor dela ou o quê?
Quentin está com o cenho franzido, como se estivesse tomado uma decisão difícil. Não gosta de me ver chorando ou surtando em seus braços, e imagino que ele deva estar pensando no que dizer para fazer com que eu me sinta melhor.
– Sua mãe deve ser incapaz de amar — ele diz, encostando seu queixo no topo da minha cabeça. – Só pode ser isso... Afinal, você é tão fácil de amar, Letty.
Ergo o olhar para ele, com o cenho franzido.
Quentin se afasta para que eu veja o seu sorriso e, depois de colocar as mãos ao redor do meu rosto, ele esfrega minhas lágrimas com seus dedões. Fecho os olhos quando ele passa seus dedos por sobre os meus cílios... E quando eu volto a abri-los, dou-me conta do quão perto ele está. Do como sua respiração bate em meu rosto e rouba o meu próprio ar.
Ele está invadindo o meu espaço e, pela primeira vez, eu não me sinto apavorada por isso.
Nem mesmo quando ele se inclina vagarosamente, como se não quisesse me assustar, e encosta os seus lábios nos meus. Eu não estou apavorada. Sinto-me, na verdade, aliviada. Como se eu já esperasse por isso há um bom tempo.
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