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70 Capítulo 70 – Último Desejo
Notas iniciais
Capítulo 70 – Último Desejo
Quentin fica a madrugada toda no meu quarto, o que é estranho.
Parece que não temos outro lugar para ir e nem obrigações. Ele fica deitado comigo na minha cama, falando as besteiras de sempre, até quando está bem perto de amanhecer e ele se lembra que tem uma família e uma mãe que provavelmente vai reclamar pela falta de aviso ou mensagem de que ele iria dormir fora. Às vezes eu me choco com a liberdade dele.
Sempre acho que as pessoas estão prestando atenção no que eu faço. Não apenas isso, sempre acho que elas sabem e que me julgam. Por isso eu admiro o modo como Quentin apenas faz as coisas e depois arca com as consequências como se dissesse: “tudo bem, fiz isso mas valeu a pena. Não me arrependo”.
— Seria muito estranho se eu passasse para falar com a sua mãe, não é? – Ele me provoca, enquanto se veste para ir embora.
— Incrivelmente estranho – eu respondi.
— Mas sabe, eu tenho quase certeza que sua mãe está nem aí se você dorme comigo ou não... quer dizer, ela já foi jovem, não é? – Ele pergunta, levantando-se para vestir a camiseta.
— Nem todo mundo é como a sua mãe, Quentin – eu o lembrei, recebendo um sorriso sarcástico em troca. – Espera!
Ele olha para mim com o que parece ser surpresa e receio, enquanto segura sua camiseta em suas mãos. Engatinho até a beira da cama, perto dele e digo:
— Vou sentir saudades. Até a próxima vez.
Abraço a sua cintura e dou um beijo no abdômen bonito dele. Pego Quentin tão de surpresa que sinto-o contrair o diafragma de susto e então ele dá uma risada, antes de se lembrar que não devia fazer barulho e tentar cobrir a boca.
— Você é maluca – ele diz.
Mas eu pude ver que seu rosto ficou tão vermelho quanto a sua camiseta, antes de vesti-la. Ele me olha tentando parecer sério, mas não consegue. Dá para ver no canto de seus lábios bem desenhados e cheios, e ao redor dos seus olhos, o quão feliz ele está. E ver Quentin feliz é capaz de deixar qualquer pessoa feliz, porque o sorriso dele parece ser capaz de iluminar o mundo.
— Ah, não acredito que eu amo essa maluca – ele suspira, coçando a nuca.
Eu apenas dei de ombros, como se não houvesse nada a se fazer.
Então ele se inclina sobre a cama e me dá um beijo que parece ser de despedida. É longo e esfomeado. Como se ele já sofresse por antecipação pelos momentos que ficaríamos sem nos ver. E mesmo quando se afasta, ele sorri e acaricia o meu rosto. Me sinto um pouco idiota. Como se estivesse sob o encanto dele, mas isso não é algo assustador. Ele poderia me mandar lamber terra por ele e eu provavelmente faria isso.
— O que é aquilo? – Ele pergunta, apontando para a parede atrás de mim.
Eu olhei por sobre o ombro. Era a moldura do espelho que quebrei de raiva. Minha mãe disse que era para eu guardar para me lembrar que eu havia sido estúpida, mas a verdade é que eu guardava porque tinha um apego emocional. Eu pretendia procurar alguém que concertasse espelhos ou que apenas pudesse dar um bom uso à moldura que havia sido escolhida pelo meu pai e era de bom gosto.
— Era uma vez uma Letty frustrada que atirou uma escova de cabelos no espelho do quarto – eu contei. – Pensei em encontrar alguém que aproveitasse a moldura porque é uma antiguidade. Está vendo as imagens talhadas? Estilo Art Nouveau autêntico.
Quentin sorriu para mim.
— “Art Nouveau autêntico”— Ele me provoca. – E eu que sou o estranho.
Eu dei de ombros.
— Acho que minha mãe pode fazer isso – ele diz. – Ou conhece alguém que faça. Ela é arquiteta, então conhece vários designers e marceneiros.
— Ah, isso seria incrível! – Eu digo, agarrando-o em um abraço. – Fala com ela por mim?
— Falo... se você me soltar. Porque se continuarmos assim não vou ir embora tão cedo.
É aí mesmo que eu não o solto.
Porque eu não quero que ele vá embora tão cedo.
Mas ele acaba tendo que ir e eu peço que ele leve a moldura junto, porque se a mãe dele souber de alguém, ela manda ajeitar de uma vez. Eu estou tão feliz pelas últimas horas que acho que nada vai estragar meu humor e eu não consigo dormir direito. Quando o sol aparece, me levanto da minha cama e vou tomar um banho rápido.
Parece que o cheiro de Quentin está impregnado em mim, assim como sinto que meu corpo ainda está aquecido com o calor dele. Não é uma sensação ruim.
É reconfortante. É como não estar sozinha nunca.
Eu reluto em tomar um banho, mas quando tomo eu demoro um pouco mais. Tenho certeza que não sou a única pessoa que fica refletindo sobre a vida no banheiro, mas debaixo da ducha, enquanto massageio meus cabelos, eu não posso deixar de estranhar o quão feliz eu me sinto com Quentin. É assustador e ao mesmo tempo maravilhoso. Como se andar por uma caverna escura e descobri que lá no fundo há um tesouro escondido.
É assustador depender tanto emocionalmente de alguém, mas ao mesmo tempo, é maravilhoso quando essa pessoa consegue lidar com a sua dependência emocional dela. Ou pelo menos, é isso o que parece. Há uma voz na minha cabeça que diz: “você não devia depender das pessoas” e eu sei que ela tem razão, mas de alguma forma, parece extintivo. Como um instinto primitivo que me faz procurar felicidade nos outros.
De qualquer forma, fazia um tempo que eu não me sinta tão feliz e tranquila.
Há uma semana atrás eu estava bem longe disso.
Visto uma roupa quente para ficar em casa e vou para a cozinha. Pego o café-da-manhã balanceado que Martha deixou separado para mamãe e dou uma esquentada no fogão. Eu acho que são por volta das dez horas quando levo a comida para ela, mas então vejo o horário no relógio e vejo que não são nem oito da manhã. Ela provavelmente estava dormindo, mas sinto que a negligenciei depois de tempo que passei com Quentin.
Abro lentamente a porta do seu quarto e espio para dentro.
Ele continuava escuro e abafado. Completamente desagradável, mas me surpreendo ao não encontrar sua silhueta deitada na cama ou sentada à penteadeira. Abro mais a porta e entro, procurando-a na poltrona que ficava no outro extremo do quarto e então dou uma olhada no grande closet. Por algum motivo, meu peito se aperta e me pergunto se ela ouviu o meu conselho e foi dar uma volta.
Apesar de não gostar da ideia de ela ter ido sozinha... e tão cedo.
Coloco o prato sobre o criado mudo e dou uma olhada no enorme closet. Sinto que vou ser atacada por montanhas de roupas assim que o abro, porque ele está completamente bagunçado. Revirado como se ela houvesse procurado alguma roupa, então provavelmente ela havia ido dar uma volta.
A única coisa que não está bagunçada é um vestido luxuoso, branco, pendurado em um espaço separado como um troféu. Como se ela estivesse planejando ir à um lugar caro e chique que ela costumava frequentar. A ideia de ela querer sair me anima um pouco porque isso significa que estou certa. Ela não está tão mal assim, apenas fazendo drama, e isso faz com que eu solte um suspiro de alívio.
Então meu olhar foi para a porta do banheiro.
Estava entreaberto e um facho de luz passava pela porta. Soltei um resmungo, era tão natural da minha mãe não se preocupar como meio ambiente (ou com o preço da conta de luz!) que chegava a me irritar. Abri a porta para apagar a luz e então o cheiro forte me atingiu de uma única vez, nauseante, sufocante.
Um cheiro férrico. Podre. Como se houvesse alguma coisa...
... morta.
Minha mão congela sobre o interruptor.
Meu olhar desce para a pia, onde vejo marcas de sangue e uma garrafa de vinho manchada com o mesmo líquido vermelho e gosmento. Percebo que há um rastro. Um rastro que eu sigo com o olhar. Ele segue, como um caminho vermelho, manchando o ladrilho branco do banheiro, até a grande banheira de hidromassagem ao lado da pia.
De onde eu vi as pernas da minha mãe, deitada.
Algo cresce dentro de mim.
Começa com uma bola na minha garganta. Crescendo e crescendo até que se torna sufocante. Como uma sensação de desespero e medo.
“Não. Não. Não. Não” repito inúmeras vezes na minha mente, soltando a porta de uma vez e indo até a banheira para ver se ela está bem. Porque ela tinha que estar bem. Ela tinha que estar. Minha mãe sempre está bem. Ela sempre está...
Escorrego na marca de sangue e caio, apoiada na borda da banheira. Onde minha mãe está deitada, com as mãos jogadas ao redor do corpo. Eu não acredito no que meus olhos veem. Não acredito na imagem dela jogada naquele lugar, com a roupa elegante completamente coberta por sangue. Coberta por esse cheiro nauseante de ferro e...
— Mãe?! – Eu grito. Isso não pode ser real. – MÃE?!
Por algum motivo estranho, eu quero que ela abra os olhos e diga que é brincadeira. Eu consigo imaginá-la perfeitamente dizendo que sou uma estúpida por acreditar que ela faria algo assim, e ainda mais imbecil por chamá-la de mãe porque ela me odeia..., mas quanto mais eu espero que ela responda, que ela reaja, mais eu me sinto como se estivesse em queda livre... e o chão demora a me atingir e quebrar os meus ossos.
Não sei quando começo a chorar.
— MÃE! – Eu chamo mais uma vez, agarrando seus braços e sacudindo-a.
Ela deve estar dormindo. Deve ter desmaiado...
Mas ela está fria... morta.
Seus braços escorregam das minhas mãos sujas de sangue. Seu sangue. Eu observo apavorada, ao mesmo tempo em que a palavra “morta” ecoa na minha mente várias vezes. Tantas vezes que é nauseante. Me sinto flutuando no espaço, completamente perdida, com a palavra rodeando minha cabeça. Tudo isso. Não pode ser real. Não pode ser verdade.
Eu recuo e ouço o barulho de algo sendo esmagado.
Um papel. Onde estava escrito:
Este é o meu último desejo e a ninguém cabe o direito de me negá-lo.
À todos os que me amam, tanto àqueles que me odeiam, quero que vocês se lembrem de mim como eu sou e como serei para sempre.
Não consigo acreditar no que eu li.
Eu fico tão chocada que eu releio e leio mais vezes, procurando por mais respostas, por mais explicações..., mas parece que é só aquilo. E eu não consigo aceitar. Não sei o que acontece comigo, mas primeiro eu sinto um calor subindo por meu corpo. Uma tensão nos meus músculos, uma dor no meu peito... e então sinto uma explosão.
Eu sinto raiva.
— Ei... O que você acha que está fazendo?! – Eu digo, tomada por uma fúria que não sei de onde vem. – Você acha... que pode fazer isso comigo?! Você não pode... – Sou interrompida por um soluço e eu chorar me faz sentir tão patética que fico ainda mais irritada: — VOCÊ NÃO PODE ACABAR COMIGO E ACHAR... QUE PODE IR... EMBORA ASSIM... QUANDO VOCÊ QUER... COMO VOCÊ... quer...
Ela não responde.
Sinto como se o último muro de negação se partisse... e então sou tomada por um choro violento. É um choro de raiva, de indignação, incredulidade... de várias coisas, menos de tristeza... porque eu só consigo pensar que ela está rindo de mim. Como sempre. Ela está rindo por último, está fazendo da minha vida o seu jogo sádico de diversão e abuso.
Minhas pernas fraquejam e eu caio de joelhos no chão.
Mas não havia mais chão sob mim.
Alguém chamou a polícia.
Alguém me tirou do banheiro e minha mãe foi levada ao IML.
Junto com o seu bilhete ridículo.
No início, quando me encontram ali, eu não conseguia parar de chorar, e então eles decidiram me deixar de lado e começam a procurar por alguma coisa, mas não sei pelo quê já que parece bem óbvio o que aconteceu. Eles deixam uma policial comigo contra a vontade dela. Eu acho que foi machismo, já que eles disseram: “Você é mulher e ela é uma garota histérica. Tente arrancar alguma coisa dela”.
O lado bom é que a mulher é gentil, mesmo não querendo lidar comigo.
É graças a ela que consigo me acalmar, porque ela se abaixa ao meu lado e tenta me ajudar a limpar a marca de sangue nas minhas mãos com guardanapos. Sua gentileza me dá vontade de querer chorar ainda mais. Porque é como um lembrete de que tudo o que estava acontecendo era real.
— Essa mulher era sua mãe? – Ela pergunta com delicadeza.
A frase no passado é como uma faca no meu peito. Impedindo-me de respirar.
Eu concordo com a cabeça, sem saber se eu conseguiria responder alguma coisa.
— Há alguém para quem possamos ligar? – Ela pergunta.
— Meu pai está na Alemanha – eu digo a ela, com um dar de ombros patético.
— Certo – ela diz pacientemente. – Me passe o número dele.
Eu não sou boa com números, então lhe passo o meu celular. Nesse gesto, percebo o quanto minhas mãos estão trêmulas. É tão visível que me sinto envergonhada, mas a mulher finge que não percebe e anota o número.
— Há alguém para quem possamos ligar aqui? – Ela pergunta.
E aí estava a pergunta. Eu penso nisso por um milésimo de segundo. Não sei se ela está querendo saber se há alguém que possa ficar responsável por mim aqui... só consigo pensar no meu pai, na Alemanha... e Quentin. E de repente, volto a me sentir muito sozinha. Sem ninguém a quem recorrer em um momento como esse...
— Meu namorado, Quentin – eu respondo. – Eu não tenho mais ninguém...
Eu começo a chorar de novo porque eu sei a quão patética eu soei quando disse a verdade. Ela faz um carinho no meu ombro, como se tivesse pena, e diz que vai entrar em contatos com eles imediatamente, mas que eu não podia ficar ali sozinha... porque você aparentemente não pode deixar uma garota menor de idade sozinha numa casa onde a mãe dela acabou de se matar.
Então eu vou parar na sala de espera da delegacia.
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