Nosso Nome Na Lista.
69 Capítulo 69 – Duas partes de uma peça
Notas iniciais
Capítulo 69 – Duas partes de uma peça
Eu passei a observar mais a minha mãe.
Desde que li sobre “mães narcisistas” e discuti o livro com a Dra. Wanda, eu fiquei um pouco preocupada. Porque se minha mãe é narcisista isso significa que ela não me ama, certo? Que ela nunca me amou. Porque narcisistas não conseguem amar ninguém, nem criar laços afetivos com ninguém, porque eles estão ocupados demais tentando se amar ou parecer superiores a todo mundo. Pelo menos, foi o que eu supus, o que fez com que Wanda franzisse o cenho e desse de ombros, dizendo que é difícil dizer com clareza o que uma pessoa narcisista sente.
— É possível que uma “mãe narcisista” peça desculpas não porque realmente se sinta arrependida, mas por medo? Por simular e para não ficar sozinha? – Eu perguntei.
Porque eu me lembrava nitidamente de quando ela me falou que estava com câncer, e do como me pediu desculpas e disse que havia sido uma mãe horrível... E eu me perguntei se tudo aquilo era uma manipulação. Algo para comover a mim e ao meu pai por medo de ficar sozinha ou apenas porque achava que devíamos algo a ela.
Dra. Wanda deu de ombros e disse:
— A maior característica do narcisista é ele manipular as pessoas, tanto quanto não admitem que estão errados. Então, se ela seria capaz de pedir desculpas para manipular? É possível.
Eu apertei meus lábios, tentando não sentir a decepção.
Em uma situação normal, ela não havia me pedido desculpas. Então talvez eu já devesse parar de esperar isso dela, o que, pelo incrível que pareça, foi uma sensação mais reconfortante do que eu imaginava.
É como se o tempo todo eu houvesse colocado expectativas em como minha mãe devia ser, e isso me decepcionasse sempre. A decepção com ela parecia parte da minha vida e uma das minhas maiores frustrações. Quando eu não esperava mais nada dela (e muito menos um pedido de desculpas ou um reconhecimento de erro) a sensação era como um dar de ombros e responder “tudo bem, eu não esperava nada mesmo”.
— Você acha... que sessões no psicólogo ou algo assim... a ajudariam? – Eu perguntei à ela. Porque é impossível acreditar que alguém seja assim para sempre. – Porque parece algo muito triste. Até para uma mulher como ela.
— Por que parece algo muito triste? — Ela me pergunta.
Eu dei de ombros.
— Parece triste você não conseguir criar relacionamentos saudáveis com ninguém — eu comentei. — É como se... você vivesse dentro de uma bolha e não deixasse... ninguém entrar por achar que ninguém merece. Eu acho triste... porque eu já criei essa bolha para mim.
Um lugar solitário. Onde você não deixa ninguém entrar.
Porque você acha que ninguém merece a sua companhia. Seja porque você acha que é melhor que todo mundo; seja porque você acha que é menor e mais insignificante que todos eles.
Wanda me observa por um longo tempo e então anota algo no caderno. Não sei o que ela anota, mas eu daria qualquer coisa para saber.
— Eu tenho certeza que um psicólogo ajudaria — ela responde, com sinceridade, com o olhar curioso em cima de mim. — Você poderia conversar com ela sobre isso... pedir para ela procurar ajuda.
Eu pensei nisso, mas não consigo imaginar nenhum cenário possível em que minha mãe ouviria alguma recomendação minha. E isso é um pouco desesperador.
No fim de semana em que fui sair com meus amigos, passei no seu quarto e a encontrei bebendo uma taça de vinho e ouvindo música alta. Edith Piaf. Muito dramática, como sempre. A própria imagem de um pássaro preso numa gaiola... imaginária.
— A senhora quer alguma coisa? Eu vou dar uma saída.
Ela me olha de cima a baixo com desgosto, como se eu houvesse acabado completamente com o seu momento íntimo.
— Não – ela respondeu com indiferença, fitando seu reflexo no espelho.
Sem comentar que eu havia passado dias evitando-a e nem falando com ela. Talvez ela achasse normal no nosso relacionamento esse tipo de coisas, ou talvez ela simplesmente não se importasse mesmo.
— Eu acho que você não deveria estar bebendo com o seu tratamento e tal... – eu comentei, franzindo o cenho.
Ela deu uma risada sarcástica e disse:
— É só uma taça de vinho, Bruce. Eu já estou morrendo, que mal há?
Por algum motivo, suas palavras me assustam um pouco. Eu estou acostumada com minha mãe sendo dramática. Com tudo sendo o fim do mundo para ela, mas eu também já havia tentado abrir seus olhos e não havia dado muito certo. Eu respirei fundo.
— A senhora já tentou procurar um psicólogo? – Eu pergunto. – Quer dizer... olha, às vezes é muito bom ter alguém especializado te ouvindo e te apontando caminhos.
Ela deu uma risada sarcástica.
— Isso é jogar dinheiro no lixo, Bruce – ela diz. – Já te disse que essas coisas não resolvem nada. Se você ver um pote de merda e te fazerem acreditar que é arte, não vai deixar de ser um pote de merda, entendeu?
Eu olhei para ela sem saber exatamente qual era o ponto que ela queria chegar, mas tenho quase certeza que ela está querendo fazer uma analogia ao "merde d'artiste". E a que ponto nós estávamos comentando sobre “potes de merda”. Ela suspirou com impaciência e então explicou:
— Se minha vida está desse jeito. Não é porque uma estranha me diz que a vida é maravilhosa que ela vai mudar a merda que ela é.
— Você tem uma ideia muito equivocada do que um psicólogo é – eu digo. – Você deveria tentar um... sem terapia familiar, sem eu ou papai. Apenas você e o profissional da saúde mental.
Não porque eu achasse que a psicologia familiar não houvesse ajudado (mas não ajudou muito) mas porque eu acredito muito na capacidade dissimulativa da minha mãe na frente de estranhos. Principalmente no modo como ela pegava uma situação horrível e fazia parecer aceitável.
Ela olha para mim com o que parece ser raiva.
— Você está me chamando de maluca?! – Ela pergunta.
— Não... estou achando que você tem muita coisa para lidar e que ter alguém disposto para escutar, pode ajudar. E muito – eu corrigi, era o que todo mundo no hospital me disse quando eu relutei e ajudou.
Só que minha mãe obviamente não era eu.
— Me deixa em paz, Bruce – Ela reclama, fechando os olhos como se eu lhe desse dor de cabeça. Como se eu fosse um estorvo – Vai arrumar o que fazer ao invés de tentar me empurrar coisas. O que você quer afinal?
O modo como ela me dispensa quase se assemelha a uma facada no peito.
— Te ajudar... – eu murmurei. – Nos ajudar.
Ela hesita por um momento até que rir novamente.
— Você só vai me ajudar se pegar uma arma e atirar na minha cabeça – ela respondeu, fazendo, por algum motivo um arrepio percorrer a minha espinha. Então ela descobre os olhos e me fita: — Olha para você.... Você não consegue nem ajudar a si mesma e acha que pode ajudar a alguém?
Por mais que eu diga a mim mesma para não deixar as palavras dela me machucarem, confesso que eu fico um pouco assustada. Hoje o humor da minha mãe está visivelmente pior do que o comum. E isso a tornava quase insuportável.
— Talvez você devesse tentar sair um pouco – eu mudei de assunto. – Ficar trancada em casa e hospitais não deve ser muito saudável.
Ela deu uma risada sarcástica.
— Sair com quem? – Ela perguntou. Então me menosprezou: – Com você?
Respirei fundo e continuei:
— Não te vejo nem sair do quarto. Cadê aquelas suas amigas estranhas que viviam em casa? Que falavam o tempo todo de joias e ilhas gregas?
Ela afastou o olhar e deu outra risada amarga.
— Você acha mesmo que eu as deixaria me verem definhando e ficando decrépita? Por favor, Brucena. Diferente de você, eu tenho uma imagem a zelar e bom senso o suficiente para não sair de casa do jeito que estou – ela respondeu.
Me pergunto se ela está dizendo que eu sou tão feia que nem deveria sair de casa. Essa é a gota d'água. Sinto uma raiva subir pelo meu corpo, e aperto o maxilar com força para não soltar um palavrão. Ao invés, apenas dou de ombros e digo “que seja” antes de ir embora, enfim. Cansada de tanta humilhação. Diferente das outras vezes, ela não grita para que eu não demore. Não que eu planejasse ficar fora por muito tempo, já que Martha estava de folga e eu sabia que tinha que voltar logo.
Quando me encontro com Quentin no local de encontro, ele me recebe me carregando no colo e me girando, antes de me colocar no chão e me beijar. Eu poderia estranhar todo esse bom-humor, mas a verdade é que às vezes ele tinha esses impulsos fofos e vergonhosos e eu os adorava.
— Então, cadê os outros? – Eu pergunto, olhando ao redor.
— Parece que estão atrasados – ele diz com desapontamento. – Parece que só nós dois nos importamos com horários aqui. Que tipo de amigos temos?
— Exatamente! – Eu concordo, acabando por rir.
Ele segura a minha mão na sua e sugere que devíamos ir entrando e pegando uma mesa para caberem seis pessoas. E isso parece uma boa ideia porque a lanchonete é concorrida, então iria lotar até mais tarde. Nós pegamos uma mesa de canto e conseguimos juntar com mais uma mesa para caber todo mundo.
Quentin se sentou na cabeceira e eu me sentei ao seu lado.
— Ei, você acha que pode passar em casa depois daqui? – Ele me pergunta.
Eu penso nisso.
— Hum.... Talvez – eu concordei, tentando não parecer muito pervertida com o meu sorriso, mas é difícil não ser quando se está com Quentin Gostoso McCullogh. – Para quê?
Ele sorriu safado de volta.
— Gostaria que fosse para o que você está pensando – ele responde.
— Como você sabe o que estou pensando? – Provoquei.
— Porque eu provavelmente pensei a mesma coisa – ele diz, inclinando-se para beijar o meu pescoço, fazendo-me arrepiar.
Eu o empurro, por mais que não queira, porque estamos em um local público e Quentin consegue me fazer perder a cabeça com muita facilidade com seus olhos sensuais e beijos no pescoço. Graças a deus Luc e Ellen aparecem e então ele passa a se comportar como um garoto descente. Logo depois, chegam Olivia e Paloma e então estamos completos e podemos pedir as batatas que meu namorado estava desejando.
— Como está sua mãe, Letty? – Ellen pergunta educadamente, mas um pouco receosa, como se não soubesse bem se devesse perguntar.
Paloma e Olivia olham com curiosidade, porque elas provavelmente também querem saber sobre. Já que era raro eu tocar no assunto. Ou melhor, eu não gostava de tocar no assunto, mas tento parecer calma quando digo:
— Dramática como sempre. Quando saí de casa ela estava ouvindo Edith Piaf e bebendo vinho, trancada no quarto.
Ellen franziu o cenho.
— Quem está no tratamento pode beber vinho? – Perguntou confusa.
— Não – eu respondi com um suspiro irritado porque eu mesma havia pensado isso. – Mas quando reclamei ela me deu um chega-para-lá então apenas deixei. Você sabe como ela e como fica quando recebe ordens.
— Sua mãe parecia triste aquele dia – Quentin comentou.
— É só drama, como sempre – eu insisti, abaixando o olhar. Tentando não me lembrar do como me senti magoada com o jeito dela. – Antes de eu sair de casa, sugeri que ela fosse a um psicólogo. Eu disse que só queria ajudar e ela falou que se eu quisesse ajudar era para pegar uma arma e atirar na cabeça dela.
Quentin pareceu estupefato, como se não acreditasse, assim como todo mundo e até mesmo Luc. A verdade é que da raiva. Da raiva e é cansativo você tentar tratar alguém bem e cuidar daquela pessoa e então... ela simplesmente ser uma vagabunda com você por raiva das coisas não serem como ela quer. Da vida não ser como ela queria.
— Sua mãe é uma vadia – Olivia soltou.
Levando um chute de Paloma por debaixo da mesa.
— Ah, qual é. Todo mundo pensa isso – ela diz, encolhendo-se.
— Mas eu sinto um pouco de pena, sabe? – Eu respondi com um suspiro pesado. – Alguém como ela... deve ser muito infeliz e insegura vendo as coisas como ela vê. Sempre que eu penso nisso, acho que ela é um poço de insatisfação até com a própria vida.
— Meu deus, Letty, parece que você transcendeu! – Ellen apontou, rindo.
— Quê? – Perguntei sem entender.
— Sabe quando alguém fica tipo “ah, OK, fulana age como uma piranha comigo, mas eu não me importo, na verdade eu sinto pena porque a vida dela deve ser uma bosta”? Você se colocar numa posição de superioridade à sua mãe é meio que uma evolução porque você geralmente sempre se culpava ou se achava inferior – ela explicou.
— Você acha que pensar isso de alguém te coloca numa posição superior? – Quentin perguntou com interesse à minha ex-irmã-adotiva.
— De certa forma – ela respondeu. – É como se você tivesse dizendo “olha essa pessoa, não tem a vida tão boa como a minha, devo sentir pena dela”. Eu acho que o sentimento de pena, em si, gera uma relação de superioridade.
Quentin parece interessado e faz uma expressão pensativa.
— Acho que viemos parar na rodinha dos intelectuais – Paloma brinca.
— Com Ellen toda conversa acaba ficando estranha – Luc avisou às duas.
Ela grita que não é verdade e o empurra, fazendo com que um sorriso apareça no canto de seus lábios.
— Sei como é. Com Quentin também – eu respondi.
— Com Quentin já estamos acostumadas com a estranheza dele – Olivia diz.
— Eu não sou estranho! – Ele rebate, jogando uma batata nela.
— É sim – eu respondo. – Um desses estranhos normais.
Ele olha para mim como se não acreditasse.
— Citando Janis Joplin e “Cartas de Amor aos Mortos”? – Ele pergunta parecendo surpreso e lisonjeado. – Você está tentando me impressionar, Srta. Letterman?
Eu apenas dei de ombros, arqueando uma sobrancelha.
— Vocês já pararam para pensar que estamos como se fosse um encontro triplo de casais?! – Ellen perguntou com animação. – Isso é tão engraçado...
Olivia e Paloma trocam olhares e sorriem uma para a outra.
— É né? – Eu comentei olhando para nós. – Muito estranho..., mas eu gosto.
De fato, eu gostava. Eu acho que nunca estive tão em paz e relaxada em toda a minha vida. Eu estava com meus amigos, sem precisar me preocupar com a minha mãe maluca ou uma Lista idiota. E quando penso que, quando o ano começou, eu não achei que fosse ter tantos amigos como agora, eu quase acho engraçado. Quer dizer, costumávamos ser apenas eu, Olivia e Paloma. Agora tínhamos Ellen e Luc, e eu só consigo pensar que foi a única coisa boa que minha mãe me deu mesmo sem querer.
Depois de lancharmos, nós apenas andamos por aí enquanto conversamos sobre besteiras aleatórias até que nos cansamos e começa a ficar tarde e frio.
— Acho melhor eu ir para casa – eu aviso Quentin. – Confesso que estou meio preocupada em deixar minha mãe tanto tempo sozinha.
— Eu te levo. Estou de carro – ele avisa, passando o braço em volta do meu pescoço.
Eu agradeço e então seguimos para o seu carro. Em passos lentos, como se não quiséssemos que aquilo acabasse tão cedo. Bem, não precisava acabar, eu pensei meio envergonhada. Quer dizer, minha mãe mal saía do quarto e Martha só voltava na segunda-feira. Ninguém precisaria saber que ele esteve em casa...
Ai, eu sou uma garota terrível.
O que esse garoto faz comigo?! Estou pensando realmente em convidá-lo para passar a noite na minha casa?! Eu perdi completamente o senso, foi?!
“Você já passou a noite na casa dele, que diferença faz? ” Uma voz safada diz nos confins de minha mente surtada e tarada. Realmente, que diferença fazia? Não sei... só não parecia certo..., mas desde quando eu faço coisas certas?
— Letty, está tudo bem? – Quentin pergunta de repente.
Eu dou um pulo de sobressalto.
— Tá! Tá tudo bem sim! – Eu respondo energeticamente, assustada.
Quer dizer, na verdade, eu estava pensando em safadezas, então não estava.
— Você estava me olhando daquele jeito – Ele diz com um meio sorriso provocante.
— Daquele jeito? – Eu pergunto sem saber.
Nunca o ouvi dizer que eu tinha aquele jeito de olhar.
Ele se aproxima de mim, tão perto que consigo sentir sua respiração no meu pescoço de uma maneira bem hesitante e o como ela oscila quando ele sussurra:
— Quando você está perto de gozar, você dá aquele olhar. E ele é incrível.
Sinto meu rosto ficar vermelho e um arrepio imediatamente percorrer o meu corpo. Às vezes eu me pergunto como Quentin conseguia despertar reações em mim tão simples. Talvez eu fosse mais uma desses adolescentes cheios de hormônios e vontade de transar, ou talvez Quentin simplesmente sabia ser muito provocante. E as duas coisas juntas pareciam ser muito perigosas.
— Você é... perigoso – eu murmurei, sem fôlego.
Ele encosta sua testa na minha e mostra aquele sorriso irresistível e sexy que me faz perder a cabeça e o beijar no meio da calçada. Ele me beija intensamente de volta, puxando-me pela cintura contra o seu corpo. A sensação de se estar nos braços dele é incrível e protetora. Quente e aconchegante. Como quando você entra em casa depois de um longo tempo fora em um dia frio e cansativo.
— Vamos. Se não, não vou conseguir te soltar – ele pede, de repente, me soltando, mas segurando a minha mão com toda a força que demonstrava que ele não queria me deixar ir.
— Talvez... você... pudesse ficar um tempo... lá em casa? – Eu sugeri, sentindo meu rosto ficar vermelho. – Assim, podíamos jogar conversa fora... assistir um filme...
“Nos beijar, transar, sei lá” ficou implícito, eu espero, porque ele sorriu e disse:
— Seria maravilhoso.
Seu tom inocente e animado me deixou em dúvida se ele realmente entendeu o convite, mas não era como se eu não gostasse de ficar sentada no mesmo ambiente apenas falando sobre o tempo. Eu sentia que podia fazer qualquer coisa na presença dele, que mesmo assim seria algo incrível. Porque ele era uma dessas pessoas incríveis.
Quer dizer, durante o caminho até a minha casa, eu estou sentada no banco do carona, ele está dirigindo, e está tocando um dessas músicas pop irritantes na rádio e mesmo assim, eu não consigo tirar o sorriso do rosto e parar de olhar para ele. E mesmo assim eu não percebo que chegamos ao meu prédio até que ele estaciona o carro e me encara com diversão.
— O que você está olhando? – Ele pergunta.
— O cara mais bonito da face da Terra – eu respondi.
— Ah, ora, obrigado. Ele parece feliz para você? – Quentin perguntou.
Franzi o cenho.
— Parece, por quê?
— Porque o cara mais bonito da face da Terra namora a garota mais bonita da face da Terra. E isso deixa ele muito feliz – ele respondeu, inclinando-se e me dando um beijo.
Naquele espaço de segundos, sinto meu corpo estremecer e se derreter, até que ele se afasta e sai do carro, o que pode ter sido uma realidade muito dura para a qual se voltar se ele não houvesse dado a volta no carro e aberto a porta para mim.
— Que cavalheiro – eu brinquei.
Ele faz uma reverência e pega a minha mão como um Lorde que acompanha uma dama à um baile. É engraçado porque na verdade só vamos para o elevador, e é mais engraçado ainda quando todo seu cavalheirismo se esvai no instante em que me viro para pegar a chave de casa na bolsa e abrir a porta. É quando sinto seu corpo muito perto do meu e seus lábios no meu pescoço, de uma maneira que me deixa meio nervosa.
Ele percebe isso porque pergunta divertido:
— Vamos ver se você consegue abrir a porta de casa com as mãos tremendo?
Não consigo responder algo a altura, porque suas mãos passam pela minha cintura e vão direto para os meus seios, apertando-os por sobre a blusa de uma maneira que me faz quase soltar um gemido no meio do corredor. Quase me fazendo esquecer que estávamos em um corredor e que eu devia abrir a porta do meu apartamento.
— Você é um puto, Quentin. De verdade – eu resmunguei, fazendo-o rir.
Aquele momento é o que eu preciso para abrir a porta de casa e empurrá-lo para dentro. Sinceramente, foi muita inocência minha acreditar que ele não havia entendido o convite. Era claro que ele havia. Muito bem por sinal.
Assim que fecho a porta ele me puxa pela mão para um beijo indecente. Lambendo os meus lábios, e então encostando sua língua na minha, espalhando um calor excitante por todo o meu corpo. Deixo-o tirar o meu casaco enquanto tento tirar o dele, e então sinto seus braços me envolverem e me puxarem contra o seu corpo perfeito. Esculpido por alguma entidade superior completamente injusta.
Solto um gemido baixo, apalpando seu abdômen absurdamente sexy sobre a camiseta. Desejando muito que ele estivesse sem ela. É assustador esse tipo de desejo. Algo como: “meu deus, Letty, você se tornou uma tarada” e “bem, é bom, porque eu não posso querer o que é bom? ”. Solto uma risada, quando sinto as mãos dele me apertando por sob a camiseta, e então me afasto.
Ele me olha como se estivesse a um passo de reclamar, mas eu apenas sorrio e o puxo pela camiseta para o meu quarto.
Não era grande coisa. Mal estava mobiliado porque nos últimos meses eu andei pulando de lugar para lugar, então, eu não me sentia segura o suficiente para desfazer as malas ainda. Mas tinha uma cama.
E parece que não precisamos de mais nada quando eu o empurro para lá e ele me puxa junto, encaixando-me no seu colo. É uma posição muito excitante, me sentar com as pernas encaixadas nos seus quadris, sentindo sua ereção contra o algodão da minha calcinha e desejando muito poder senti-lo inteiro. A espera parecia muito incômoda. Como se eu estivesse lendo meu livro preferido e quisesse pular para a melhor parte.
Mas Quentin não tem essa pressa como eu, ele degusta meu pescoço. Ele beija, mordisca, lambe... respira sobre a pele molhada, fazendo-me estremecer de prazer. Enquanto suas mãos percorrem meu corpo como se quisessem memorizar cada parte dele. Cada curva, cada pedaço... tudo o que tivesse pelo caminho.
— Letty – ele suspirou perto do meu ouvido, com desespero. – Letty...
Quando ele suspira meu nome, parece que algo dentro de mim se contorce de prazer. Se derrete e se transforma em outra coisa completamente diferente nos seus braços, de novo e de novo. Ele tira minhas roupas com um puxão desesperado, enquanto eu tiro as dele. Até que enfim estamos nus, um em cima do outro.
Em um golpe rápido, ele me joga na cama e fica por cima de mim. É tão repentino que eu solto uma risada, que é interrompida por um gemido quando sinto seus lábios nos meus seios. Mordiscando-os, e sugando meu mamilo para dentro da sua boca. A sensação é boa. Quente e úmida, suja, mas sensual enquanto ele olha para mim com aqueles olhos sexys e claros.
Eu estico a mão e pego o seu membro ereto e pulsante que roça meu estômago. Quando o acaricio, ele solta um gemido de agrado e olha para mim com desejo. Muito desejo. E é como eu sei que ele quer parar de jogos tanto quanto eu.
— Quentin – eu murmuro, sem fôlego. Meu coração batia tão acelerado no meu peito, que eu sentia como se houvesse corrido uma maratona. – Eu não consigo esperar. Eu não quero esperar mais...
Ele concorda com a cabeça e se estica para pegar uma camisinha e enfim atender ao meu pedido. Enfim, entrando em mim e aliviando, um pouco, a necessidade de tê-lo. Solto um gemido tão alto que ele tapa a minha boca com um misto de receio e diversão.
— Você quer acordar a sua mãe? – Ele pergunta.
— Parece que você está com mais medo do que eu – provoco, mexendo os quadris contra os dele para provocar ainda mais.
Ele morde o lábio inferior como se não quisesse soltar um gemido e isso é incrivelmente sexy. O modo como ele me olha, como se gostasse demais da provocação, também é incrivelmente sensual. Então ele solta o que parece ser o seu “rosnado baixo” e entra mais fundo em mim. De uma só vez. Fazendo todo meu corpo se arrepiar e eu sentir todas as células do meu corpo regozijarem de prazer.
Não gemo alto porque ele cobre minha boca com a sua, num beijo sensual e selvagem que parece seguir o ritmo com que seu corpo se mexe sobre o meu. É uma experiência incrível. Como se fôssemos duas partes de uma única peça, encaixando-se perfeitamente. Como se eu fizesse parte dele e ele fizesse parte de mim. E a cada estocada... cada investida contra mim, era capaz de me aproximar do céu.
Enquanto estremeço em seus braços e gozo, por um minuto me esqueço de onde estou e de quem eu sou. Por um minuto, sinto que apenas faço parte dele, e seguro o seu corpo contra mim com mais força. Porque ele é a minha ligação com a realidade. Sinto cada parte de seu corpo com minhas mãos: os ombros largos, as omoplatas que se movem com o esforço de seus braços que lhe apoiam, a linha da sua espinha... escorrego minha mão para sentir seu abdômen incrível.
Queria me lembrar disso para sempre.
Tanto desse sentimento, quanto dele.
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