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68 Capítulo 68 – Minha mãe é narcisista.
Notas iniciais
Capítulo 68 – Minha mãe é narcisista.
Wanda Reynolds, a psicóloga, é uma mulher muito calma e de olhos atentos. Como é minha primeira consulta com ela, acho que devo começar a contar história de como tudo começou: da frustração que minha mãe sempre jogou em mim, por eu nunca atender às expectativas dela e de como pareceu mil vezes pior depois que meu pai foi embora e eu fiquei com ela.
Eu conto um pouco desconfiada, ainda mais porque seu olhar é intimidante, mas ela começa a fazer perguntas como se estivesse muito interessada no que eu tenho a dizer, e isso me empolga um pouco. Sabe aquela imagem chata que temos de que só nós falamos numa terapia? Pois é, não era bem isso o que eu sentia quando falava com Wanda, ainda mais porque ela respondia contando algo engraçado e instigante ao mesmo tempo.
— Por que você acha que sua mãe faz isso com você? – Ela pergunta, em algum momento, com o rosto apoiado sobre o punho.
Dou um suspiro de pura derrota com um dar de ombros.
— Eu já perdi noites pensando sobre isso – eu confessei, apoiando-me em meus cotovelos. – E quanto mais eu pensava..., mas eu sentia que, sei lá, ela talvez... tivesse medo de envelhecer, ou medo do que eu representava, ou... talvez ela tivesse feito planos para ela, sabe? E que alguém como eu não estava neles...
Seu olhar parece levemente pesado por um momento.
— Você se sente culpada? – Ela pergunta.
Eu franzi o cenho.
— Pelo quê?
— Por não atender às expectativas dela – ela responde.
Eu provavelmente diria “não” sem nem pensar duas vezes se alguém como qualquer um dos meus amigos houvessem dito aquilo. Quer dizer, não era minha culpa que sua vida não fosse do jeito que ela queria ou que eu não fosse do jeito que ela queria, certo? Mesmo assim, eu sei a verdade. Por que eu tentei fingir, por muitas vezes, não me sentir culpada por ser a decepção que ela tanto me acusava de ser.
— Talvez – eu confesso, envergonhada. – Ela sempre me culpou por ser infeliz. Mas ao mesmo tempo... eu sei que eu não tenho obrigação de ser quem ela esperava que eu fosse... só é difícil me convencer disso... Ainda mais porque ela não perde a chance de deixar isso bem claro.
Ela apertou os lábios e ficou em silêncio.
Não sei se ela esperava que eu acrescentasse mais alguma coisa, ou se ela estava apenas pensando. Como se estivesse analisando tudo de uma forma que eu não analisei, o que seria impossível. Eu já tentei entender, de todas as maneiras e ângulos possíveis.
— Você já ouviu falar do conceito de “mães narcisistas”, Letty? — Ela pergunta de repente.
Eu arqueei uma sobrancelha.
— Hum... não – eu confessei.
Ela mexe na tela do seu tablet sobre a mesa e diz:
— É um conceito novo, baseado em umas pesquisas novas... vou ler alguns tópicos e você diz se isso lhe parece familiar – Eu concordo com a cabeça. – “A mãe narcisista é abusiva: A filha de mãe narcisista por ser naturalmente dependente da aprovação e do amor da mãe representa a vítima ideal para servir aos interesses narcisistas, indiscriminadamente. A mãe narcisista manipula a filha por meio do amor incondicional desta e a adestra a acreditar em sua suposta inferioridade, assim como na suposta responsabilidade vitalícia pelo seu bem-estar, seja emocional, psicológico ou financeiro, independente da maneira como é tratada”.
Ela me olha por sobre os óculos, mas eu não tenho coragem de dizer nada, porque a minha boca está seca. Eu estou encarando-a totalmente tomada pelo choque. “Responsabilidade vitalícia pelo seu bem-estar” ecoa na minha cabeça. Como eu não disse nada, ela continuou:
— “Não tem empatia: narcisistas são incapazes de se identificarem com o sofrimento alheio de forma genuína e consistente com as necessidades dos outros. Como são egoístas e egocêntricos(as), recusam-se a reconhecer quando alguém precisa de ajuda ou apoio emocional. A mãe narcisista constantemente subestima e conscientemente ignora a dor de sua filha, enquanto insiste que esta se dedique incondicionalmente a atender suas próprias carências”.
A sensação era de que Wanda conhecia a minha mãe sem nunca tê-la visto. Por algum motivo, lágrimas se acumularam nos meus olhos, porque eu só consigo lembrar dos momentos em que minha mãe desmereceu todos os meus sofrimentos: da minha anorexia, da minha bulimia, até mesmo de quando eu comecei a ir ao psicólogo. Do como ela dizia que eu estava sendo dramática, exagerando e “tentando chamar atenção”.
— Ela sempre achou idiotice eu ir à psicólogos — eu soltei, abaixando o olhar. — Ela achava que eu estava tentando chamar atenção e...
Soltei um suspiro, sem conseguir continuar.
— Há vários outros tópicos listando o que pode ser chamado de “sintomas” – Wanda continua com um suspiro pesado, fazendo um gesto amplo. – “É dona da verdade, tem problemas de identidade, possui uma autoestima frágil, distanciamento emocional, é perfeccionista, vive de aparências, provocas discussões e brigas, não admite responsabilidade, não admite culpabilidade, não pede desculpas, não cumpre com o que promete...”
Pareciam peças, peças se encaixando no lugar.
Placas tectônicas se encontrando... e causando um terremoto no meu peito.
— O transtorno de personalidade narcisista, Letty, pode parecer apenas uma característica de alguém... mas tem uma coisa que eu costumo dizer — ela disse, esfregando os olhos. — Quando qualquer coisa começa a trazer problemas a você e para as pessoas ao seu redor... começa a se tornar um problema, é quando você precisa procurar ajuda.
Eu franzi o cenho, olhando nos seus olhos.
— Você está dizendo que minha mãe precisa de um psicólogo? — Eu perguntei a ela, sem acreditar.
— Bem, está me parecendo bem claro que precisa — ela respondeu, com um meio sorriso divertido. — Não eu, obviamente. Isso seria antiético. Vocês já tentaram fazer terapia juntas?
Dei de ombros.
— Já... terapia familiar — respondi de má vontade.
— E não deu certo — ela observou.
— Não... eu achei que havia dado — eu confessei. — Mas depois que meu pai voltou para a Alemanha, voltamos à programação normal da mãe manipuladora e narcisista...
— Interessante-... — Foi tudo o que Wanda conseguiu dizer, antes de precisar olhar no seu tablet e soltar um suspiro pesado.
Nosso tempo tinha acabado.
— V- você pode me passar... esse artigo? – Eu pedi.
Ela dá um sorriso e diz:
— Vou te passar o livro. Podemos falar sobre ele na próxima seção.
— Não entendo... – eu disse. – Eu é que estou sendo analisada... porque temos que falar do desequilíbrio da minha mãe?
Ela me mostra um sorriso de quem achou essa uma colocação interessante.
— Às vezes, para se curar um problema, você precisa entender de onde ele vem – ela responde, antes de se levantar da sua cadeira e pegar um livro na sua prateleira. – Dê uma lida. E conversaremos sobre isso semana que vem... e não se preocupe, vamos trabalhar os seus problemas nas próximas sessões.
Eu concordei com a cabeça, pegando o livro das suas mãos.
...
Quentin pediu para que eu o encontrasse no teatro depois da sessão, já que ficava para o mesmo lado. Eu vou caminhando, porque sinto que tenho muito o que pensar. Algo tipo: “não é irônico que nós precisemos ir ao psicólogo por conta de pessoas que deveriam ter ido ao psiquiatra?!” De um jeito meio sarcástico só de imaginar que minha mãe poderia ser uma “mãe narcisista”.
“’Poderia’ não. Ela é. E você sabe disso” respondi a mim mesma.
Talvez fosse verdade. E talvez eu soubesse o tempo todo.
Quer dizer, mas até então, você nunca imagina o narcisismo sendo algo horrível. Você pensa em alguém que talvez passe muito tempo se olhando no espelho, se arrumando e todas essas coisas. Você nunca imagina que tem um nível tão extremo que chega a ser “abusivo”. De modo que a pessoa pareça viver em outro mundo.
Pensar nisso... me faz sentir um pouco mal pela minha mãe.
Uma espécie de pena por ela ver as coisas de uma maneira tão distorcida.
Quando chego ao teatro, as pessoas se lembram vagamente de mim então ninguém me impede de entrar e até me cumprimentam de maneira amigável. Uma das integrantes da peça de Quentin me avisa que eles já estão ensaiando no palco (e não na enorme sala de ensaio) e me guia até lá. É um teatro enorme, onde, da última fileira, as pessoas no palco alto parecem pequenas.
Como não quero atrapalhar, sento-me em um canto discreto, no meio dos assentos vazios e tento caçar Quentin pelo olhar no palco, o que não é difícil porque estão apenas ele, Nathalie e Mia sobre o tablado do palco, brincando com o que parece ser um... crânio?
Bem, não lembro de ter lido alguma parte que envolvessem esqueletos no Drácula de Bram Stocker, mas não parece impossível. Eu passo um tempo observando-o arremessar a cabeça à Nathalie e ela devolvendo a ele e por algum motivo acho isso engraçado. Talvez porque parecesse absurdo. De onde estou não ouço bem o que eles estão falando, mas é até bom porque então eu abaixo o olhar para dar uma lida no livro que a psicóloga me emprestou enquanto Quentin ensaia com seus colegas.
Infelizmente, não é uma leitura tão agradável porque parece que alguém dissecou a minha mãe e fez um livro sobre ela. E mais do que isso: sobre a importância de EMANCIPAÇÃO dos filhos de uma mãe narcisista, porque ela é tão tóxica para uma criança que o melhor jeito era mantê-la longe dela. Louco, não é?
Não mais do que ler que minha mãe praticava bullying comigo.
Minha própria mãe. Veja bem:
“O bullying – ou a intimidação por parte de agressão verbal ou física – é uma das táticas de abuso narcisista mais eficientes. A mãe narcisista vive fazendo comentários desagradáveis disfarçados de conselhos de mãe dedicada para envergonhar e humilhar a filha. Por se ressentir de sua jovialidade e liberdade, ou de tudo aquilo que lhe concede vantagem ou favorecimento em face dela, reage de maneira amarga e vingativa quando se sente ameaçada. Mesmo sem razão aparente para agir de forma melindrada e rancorosa, provoca brigas, dando ferroadas gratuitas para acabar com o bom humor e a joie de vivre de quem inveja.”
Ou seja: minha mãe me inveja e provavelmente me odeia.
E então, para ser a cereja do bolo, eu leio a melhor descrição dela que eu já vi:
“A mãe narcisista usa de comentários indiretos maliciosos, como a ironia e o sarcasmo, para destilar seu veneno. Seu discurso é repleto de significados duplos intencionados a desmoralizar e desarmar a filha ao mesmo tempo. É uma de suas ferramentas de abuso psicológico mais eficientes, pois mascara suas verdadeiras motivações malignas com sofisticação.”
Quanto mais eu leio, porém, mais eu entendo o porquê a Dra. Wanda pediu para que eu o lesse. Quer dizer, eu sou alguém habituada com leitura, e quando leio a discrição do que seria uma “mãe narcisista” eu acho que sinto pena. Não apenas “pena” pelo que as filhas ou filhos deles passam..., mas porque uma pessoa dessas só pode ter graves problemas a respeito de sua própria autoestima e de relacionamento com outras pessoas.
Por exemplo, no livro diz que é muito comum que “mães narcisistas” tenham doenças como depressão (porque elas nunca são felizes de verdade) e que tenham vários “relacionamentos disfuncionais”, ou seja, que nunca dão certo porque é muito difícil para uma pessoa narcisista se importar ou criar laços com qualquer pessoa que não seja ela mesma.
E quando eu penso em alguém assim... só consigo sentir pena.
Estou tão entretida nessa leitura, que não vejo Helena se aproximando até que ela dá um tapa no meu livro e ele quase caí no chão, fazendo-a rir.
— Ei, como você tá? – Ela pergunta divertida. – Curtindo o show ou a leitura?
Eu olhei para o palco, onde Quentin ainda repassava falas com seus companheiros.
— Bem, eu acho que Quentin podia ficar uma hora e meia parado no meio do palco sem fazer absolutamente nada, e ainda seria capaz de “curtir o show” – Eu respondi, fazendo-a sorrir. – Como você está?
— Bem – ela respondeu, hesitante. – Quentin estava contando que vocês pegaram as garotas da lista... e que era a vizinha dele e Josh os que estavam mexendo com você.
— Ora, vocês voltaram a se falar? – Perguntei com sarcasmo.
Ela deu de ombros.
— Você sabe como ele é. Não pode ficar longe de mim por muito tempo – Helena respondeu com um dar de ombros presunçoso. – É assim que as coisas são entre nós.
Eu sinceramente fico aliviada, porque o clima fica muito tenso quando Quentin está brigado com Helena. E eu sabia o quão mal ela havia ficado com o gelo que ele lhe deu e o ressentimento que ele sentia, mas não era como se ela também houvesse feito algo fácil de se perdoar. Quer dizer, você não pode beijar a namorada de alguém na frente dele e depois apenas dizer “ah, me desculpe”.
— Sinceramente, eu não fiquei muito impressionada por Josh ter algo a ver com isso – ela comentou de repente, tirando-me dos meus pensamentos. – Quer dizer, ele foi quem espalhou para todo mundo que eu era uma “lésbica nojenta”, então...
Ela deu de ombros, como quem não faz questão de falar mais do assunto.
— Ele deve ter algum problema com lésbicas porque não possível... – eu bufei.
— É. Ele tem um problema, sim. Se chama homofobia – ela diz com sarcasmo. – E não é só ele que tem esse problema, se você quer saber.
Aperto os lábios, porque tenho quase certeza que ela está falando da sua família (e do modo como ela reagiu quando soube). Gente, que situação complicada essa de lidar com família, não é? Nem sempre o que nossos pais acham que é certo para você, significa que é certo para você.
— Você acha que os perdoaria? – Eu perguntei a ela.
Helena olhou para mim com uma sobrancelha arqueada.
— Seus pais – eu expliquei. – Você acha que se eles pedissem desculpas... você os perdoaria?
Ela pareceu pensar nisso.
— Não sei... talvez – ela confessou. – São anos de mágoa... não se curam com um “me perdoa, pisei na bola”... talvez se perdoe apenas com o tempo.
— E se eles não pedissem desculpas, mas estivessem dependentes de você de alguma forma? – Eu pergunto. – Você esqueceria tudo o que eles fizeram para você e os perdoaria mesmo assim?
Helena estreitou os olhos para mim, com curiosidade.
— Essa é uma pergunta muito específica... – ela comentou, como se quisesse entender o que estava acontecendo comigo. – Provavelmente, se esse seu caso hipotético acontecesse, eu tentaria ver se eles estão bem. Se me tratassem mal de novo... apenas iria embora. Porque de nada adianta você tentar ajudar quem não quer ser ajudado por você.
Eu penso nisso por um instante. Então lhe conto:
— Minha mãe está doente... muito doente... e eu só ouço meu pai me dizendo que eu tenho que perdoá-la, que eu tenho que ficar do lado dela... que eu tenho que ser uma boa filha... porque eu sou “tudo o que ela tem” – eu comentei. – Isso me irrita. É como colocar pesos nas minhas costas.
Helena bufou.
— Bobagem – ela diz. – Só você pode dizer o tamanho da sua dor e a maneira como vai curá-la. Ninguém além de você pode dizer quando está pronta para perdoar.
O que ela diz faz sentido.
Tanto sentido que eu solto um suspiro de alivio.
Ela se vira e então sorri para Quentin e dá um aceno para que ele nos veja do lugar distante em que estamos. Seu ensaio acabou e o sorriso que ele me dá quando me vê parece ser capaz de iluminar o mundo. O meu mundo.
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