Nosso Nome Na Lista.
40 Capítulo 40 - Não é Simples.
Notas iniciais
Capítulo 40 – Não é simples.
Quentin tinha razão: ninguém riu de mim... Na verdade, no começo ninguém estava prestando a mínima atenção para nós (exceto as garotas que babavam no meu namorado). É... Pela primeira vez na vida, eu senti pena dos professores que lidam com isso todos os dias. Observando para todos aqueles jovens teclando no celular e fofocando via bilhetinhos ou sussurrando uns com os outros, eu me senti invisível.
Mas Olivia e Paloma prestaram atenção, e não conseguiram esconder a surpresa quando viram o tema do nosso seminário. Eu não fiquei ofendida com a reação de ambas, afinal, eu não gostava de falar (nem de pensar) sobre o que havia acontecido comigo no início daquele semestre, nem mesmo com elas.
O professor, sentado numa cadeira vazia no fundo da sala, pareceu curioso.
Fiquei nervosa, mas respirei fundo para me acalmar.
– O primeiro passo para se resolver um problema é admitir que ele existe – eu disse, olhando para minhas duas amigas. — Então... Caso vocês não saibam, eu tive anorexia.
E foi quando todo mundo parou de fazer o que estavam fazendo para olhar para mim. Pela primeira vez na vida dele, acho que Quentin ficou invisível, encostado no quadro negro atrás de mim.
– Para começar, vamos deixar claro uma coisa: bulimia e anorexia não são as mesmas coisas. Bulimia geralmente vem depois de a compulsão alimentar. Você come tanto que fica culpada e sente necessidade de se livrar de tudo o que comeu... E anorexia é quando você come pouco, ou quase nada – eu disse. — Mas, de qualquer modo, poucas pessoas veem a ambos como realmente são: doenças.
“Para as pessoas, é simples você comer, ficar sem forçar o vômito ou parar de comer tudo o que vê pela frente... Mas a verdade, é que não é. E, se você disser isso para essas pessoas com transtornos alimentares... É a mesma coisa que dizer para um doente ficar curado sozinho de uma hora para a outra.”
Olhei para Paloma e Olivia. Seus olhares encontraram os meus e pude ver algo ali que me fez dar um sorriso triste. Quantas vezes, em semestres passados, havíamos brigado porque elas me achavam cabeça-dura? Quantas vezes elas me pediam para eu parar com isso porque eu estava destruindo a mim mesma? E o pior, é que por mais que eu entendesse o que elas diziam... Eu simplesmente não conseguia parar.
– Estudos apontam que o que causa bulimia e anorexia é a baixa autoestima – eu continuei, desviando o olhar delas. – E quando digo isso, não pensem só nas revistas com modelos magrelas e “perfeitas”. É muito fácil culpar a mídia, não é? Mas, eu gostaria que vocês pensassem em quantas garotas, ou até mesmo garotos, vocês já chamaram de gordos, feios, nojentos... Ou já ofenderam sem sequer terem os conhecido direito.
A sala estava em silêncio. Num silêncio que me parece muito tenso e pesado. E isso me deixou nervosa. Sei que estava sendo muito sombria, mas não consigo parar de pensar no que, quando eu era menor, eu ouvia minha mãe falando de mim... E, às vezes, não só ela. Sinceramente, quando eu tinha treze-catorze anos, cansei de ouvir as pessoas falando dos meus seios grandes quando a maioria não tinha...
Os comentários não eram muito honrosos.
– Vocês podem não saber... Mas essas pessoas provavelmente ficaram magoadas com os xingamentos ou as brincadeiras. E, se para as pessoas que zoam das aparências das outras, elas não passaram de “brincadeiras”... Posso garantir que o alvo delas não pensou assim. – Olhei para Quentin e ele passou para o próximo slide.
– Um grupo de pesquisadores pediu a um grupo de pessoas, que estas alterassem suas próprias imagens em um computador, de forma a ter duas imagens: a que ele pensa que tem e a que gostaria de ter... No estudo, os anoréxicos e bulímicos sempre se achavam mais godos do que a imagem real mostrava serem, enquanto os “normais” se achavam mais magros do que eram de fato.
“A interpretação da realidade é totalmente influenciada pelos pensamentos negativos... E de onde vêm esses pensamentos negativos? Do nada? A pessoa é assim porque quer? – Perguntei retoricamente. — É claro que não. Muita gente é marcada de uma forma muito intensa na infância... Todas as zombarias das quais foi vitima, a falta de apoio da família, a falta de proteção que tanto precisou e nunca teve... Tudo isso a fez acreditar que não merece muita coisa. Cresce um sentimento de insegurança tão forte que acaba desabando em completa rejeição pelo próprio corpo ou por ela mesma”.
Olhei para Quentin mudar de slide e ele o fez, mas me observando como se quisesse dizer alguma coisa. Alguma coisa que não entendi bem o que era, mas podia imaginar. Forcei um sorriso antes que ele tomasse a frente e começasse a falar sobre os sintomas e sobre o tratamento.
...
Quando ele me acompanhou até o meu armário, não disse nada. Parecia reflexivo, mas quando o encarei para lhe confrontar, ele me olhou e sorriu. Dando-me um beijo logo em seguida que me fez esquecer o que eu ia perguntar.
– Eu te acho a pessoa mais linda desse mundo, sabia disso? – ele perguntou, com a testa junto à minha.
– Quentin... Você está me assustando – brinquei, tentando me afastar para pegar o meu material de estudo e colocar na mochila.
Ele sorri, encostado na porta aberta do meu armário.
– Sério. Acho que foi amor à primeira vista.
Fechei a porta do meu armário e o fitei com cautela. Não, seus olhos não eram de um maluco e seu sorriso parecia normal e radiante como sempre...
– Tá, você está psicótico agora – eu brinquei, colocando a mochila nas costas.
– Você não acredita em amor à primeira vista, Srta. Letterman? – ele perguntou desafiadoramente, cruzando os braços malhados.
Eu sorri, entrando na brincadeira.
– Eu acredito em “tesão à primeira vista” Sr. McCullogh – retruquei.
Quentin deu um sorriso malicioso que quase me tirou o ar.
– Então você teve “tesão à primeira vista” por mim?
Eu dei um sorriso mais que óbvio.
– Por você? Claro... Já não disse que sou louca por seu abdômen não-tão-sarado? Se na primeira semana em que eu te vi, você tivesse me chamado para a cama, eu só perguntaria: quando e onde – eu respondi.
Infelizmente, era verdade a parte do “onde e quando”. Mas acho que estava tudo bem se Quentin tivesse acesso a esse tipo de pensamento constrangedor que tive quando ele ainda era novato no St. Justine, ainda mais quando ele achava que eu estava só brincando de provocar.
– Me explique – ele pediu, passando os braços pela minha cintura e me puxando um pouco para ele. – Como assim “não-tão-sarado”?
Eu dei de ombros. Quase ficando corada.
– Ah, você sabe... Ele dá pro gasto. É gostoso o suficiente, mas...
– Só acho que você não sentiu meu abdômen o suficiente para fazer um julgamento justo da minha forma física – ele me interrompeu. – Bora lá pro seu carro tirar a prova.
Eu gargalhei. Depois desse convite, não tinha mais como continuar brincando com ele. Aproximei-me de seu corpo perfeito e me aninhei nele, antes de lhe dar um beijo nos lábios tão bem desenhados que só uma artista exímia como a mãe Christina poderia ter produzido aquela obra de artes...
Eca! Acabei de pensar numa cantada de pedreiro. A que nível de pieguice eu cheguei, hein? E acabei rindo ainda mais do que nem era tão engraçado.
– O que foi? – Quentin perguntou, quando interrompi o beijo para rir.
– Nada. Pensei merda – respondi, dando de ombros.
O moreno ergueu uma sobrancelha para mim.
– Conte-me. Desde a arquibancada, estou pensando em como seus pensamentos parecem interessantes para serem mantidos aí dentro – ele respondeu. – Acho que é por isso que você os solta sem perceber de vez em quando.
Eu concordo com a cabeça... De fato, faz sentido. Então abri a boca para soltar a pior cantada da minha vida, quando Olivia e Paloma apareceram no meu armário e a garota de cabelos castanhos claros se atirou em cima de mim, fazendo meu namorado me soltar contra as nossas vontades.
– Não acredito que você fez isso! – Olivia exclamou em um tom tão agudo que quase me ensurdeceu, enquanto me abraçava tão apertado quanto uma cobra querendo quebrar os meus ossos para depois comer minha carcaça.
Paloma sabia que esses lances mais “grudentos e emotivos” eram com Olivia, então apenas sorriu para mim, parecendo orgulhosa do que eu fiz. Que bom que alguém estava, porque eu não estava me sentindo muito feliz... Na verdade, eu estava me sentindo estranha e vulnerável. Apesar de Quentin dizer que estava orgulhoso também.
– Você nunca contou nada disso... Nem para nós – Olivia continua choramingando.
– Eu sei. Eu sei – eu disse, tentando me desvencilhar de seu abraço forte. – Na verdade, se dependesse de mim, eu nem falaria sobre isso... Mas a ideia foi de Quentin e é difícil dizer não para ele...
Meu namorado deu um sorriso convencido. Ficava tão bem nele... Como tudo.
– É claro que foi ideia minha. Tenho boas ideias – ele respondeu, num falso tom petulante e depois torceu o nariz para a garota que estava grudada em mim. – Dá para soltar a minha namorada, ou está difícil, beija-moças?
Olivia olhou para ele, e fez careta antes de me soltar.
– Se você não tivesse um rosto lindo, eu juro que te batia – Olivia retrucou.
– Se essa fosse uma ameaça de Letty, eu até teria medo – ele perguntou, ainda provocando-a, mas pegando a minha mão e beijando a costa dela. – Esse punho é pequeno, mas é pesado.
Fingi que ia dar um soco na cara dele, mas ele segurou-o com mais força, rindo.
– Letterman.
Yvonnie, que há séculos havia parecido me deixar em paz, apareceu do nada naquela estranha roda de amigos no meu armário. Sinceramente, daqui a pouco um garçom apareceria por aqui circulando com bebidas. Isso já estava se tornando uma festa.
Bem, as últimas notícias que eu tivera dela, de Yvonne, eram as que ela estava transando com um único garoto do clube de futebol americano: Duncan. Sinceramente, eu desejava felicidades para ambos... Afinal, assim ela deixaria de ficar dando em cima de Quentin para me encher o saco.
Mesmo assim, fiquei irritada com o olhar que ela lançou para Quentin, antes de olhar para mim e dar um... Sorriso?
– Ouvi comentários sobre a sua apresentação de Biologia. Você foi incrível. E corajosa... Isso você sempre foi... Mas, você surpreendeu todo mundo...
Eu pisquei. Sem entender. Sério mesmo que Yvonnie Taybolt, meu Lex Luthor da vida, estava me encorajando pelo que eu fiz? Mais que isso... Estava me admirando? A única prova de que eu não estava delirando e imaginando aquilo, eram as expressões chocadas de Olivia e Paloma.
– Obrigada – eu respondi, desconcertada.
Que estranho. Yvie me elogiando...
O que se seguiu àquilo foi um momento constrangedor em que Yvonne queria dizer alguma coisa a mais... mas não sabia se deveria dizer ou não. Ela olhou para Quentin de novo e suspirou, voltando a olhar para mim.
– Eu só queria te dizer... Que outro dia eu estava conversando com o seu namorado e ele me contou... Que você não gostou de mim no início porque você achou que eu estava zoando do seu casaco no oitavo ano – ela comentou divertida, dando um sorriso de canto e cruzando os braços. Quis matar Quentin. Isso era algo pessoal para ele sair espalhando por aí! – Só queria dizer... Que eu não estava zoando. Eu gosto do Tim Burtton e Nightmare Before Christmas é o meu filme preferido, depois de Frankieweenie.
Eu fiquei pasma.
Yvonne Taybolt, a garota mais nojenta e irritante que eu já conheci na minha vida... Tem bom gostos para filmes... E para diretores. E ela não implicou comigo naquele dia, ela estava falando sério quando elogiou o meu casaco. Mas o porquê ela estava me falando aquilo agora, eu não fazia ideia. Não é como se eu estivesse morrendo de vontade de pular nos braços dela e virar sua Best Friend Forever. E nem ela esperava isso.
– Só para deixar claro, não espero que isso mude alguma coisa – ela disse. Nossa, meus pensamentos estão tão estampados assim na minha cara? – Só estou dizendo isso... Porque você falou sobre zoação e tal no seu trabalho... Eu só quis deixar claro.
Confirmei com a cabeça e dei um sorriso. Sem forçar.
– Obrigada. Sério.
– E... Desculpa... Por ter sido tão insensível com o seu problema no início do semestre... Quando você voltou da internação... Quentin me fez ver... Que eu fui uma idiota. Brincando com os seus problemas assim – ela pediu, deixando, pela primeira vez na vida, parecendo insegura.
Eu olhei para o meu namorado. Perguntando-me desde quando ele tivera conversas tão profundas com Yvonne Taybolt quando ele vivia grudado em mim no colégio. De toda forma, eu não ima brigar com ele na frente dela e dar esse gostinho à garota... Mesmo que os boatos dissessem que ela estava com Duncan.
– Tudo bem... Eu te desculpo – respondi. – Mas isso não muda nada. Você ainda é o meu Lex Luthor.
Um sorriso provocativo surgiu nos lábios dela.
– Sua nerd – resmungou, dando as costas e se afastando desfilando.
Olivia, Paloma e eu a assistimos se afastar com o seu rebolado estranho, e depois nos olhamos. Como se quiséssemos entender o que diabos acabara de acontecer ali nos últimos cinco minutos. Yvonne realmente pedira desculpas pelas brincadeiras maldosas? Se esclarecera e ainda elogiara a minha coragem?
– O que será que ela pretende com isso? – soltei, estupefata.
Quentin segurou minha mão e sorriu.
– Sei lá... Talvez só queira se fazer entender – ele respondeu, dando de ombros.
Olhei para Quentin pelo canto do olho, mas não respondi nada. Cruzei os braços, soltando minha mão da sua, e o analisei com o olhar. Ele ficou tenso.
– Desde quando você virou BFF daquela lá? Quando foi que vocês tiveram tempo para ficar falando da minha vida? – Inquiri, chateada.
Ao meu lado, Olivia e Paloma imitaram minha expressão. Querendo saber também.
– Nós somos amigos no facebook – ele respondeu rapidamente. – E também temos pelo menos umas duas aulas juntos... Conversamos de vez em quando...
Olho para as minhas amigas, querendo saber o que elas acham da desculpa dele. Elas demonstram com o olhar que não confiam muito na justificativa, mas o que eu posso fazer? A menos que o tranque numa redoma de vidro ou amarre uma coleira no pescoço dele, Quentin tem a vida dele e pode ser amigo de quem quiser...
Só é difícil calar a voz enciumada que diz: “menos Yvonne Tybolt!”.
E a outra que diz que ela era muito melhor que eu... E se ela só houvesse pedido desculpas para agradá-lo? Por que ele estava ali ouvindo e vendo tudo? Meu estômago se revira e uma nova voz aparece. Essa, diz que aquela aproximação era perigosa para meu relacionamento com Quentin.
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