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37 Capítulo 37 – A Calorosa Cozinha.


Notas iniciais
Olá para vocês... Olha eu pontual aqui ;) Curtam o capítulo novo!! Agradeço aos reviews de: > Sheila Rayane > Elidabfr > Patriciamelo > Elizabeth > Lanny Puckett > allinegmar > Laladhu > Beatriz > V Maria > Ester > Delicate > Born to Die > Ella... MUITOS DONUTS! > Matry-chan! > Nay Castellan > Miss Herondale > Bia Rodrigues > Lizz > Liz Mar > brandi > Cleozinha > Lizzie > LuuhRocha > Lulu Silva BISOU

Capítulo 37 – A Calorosa Cozinha.

A cozinha dos McCullogh era um lugar incrivelmente acolhedor e inofensivo, com um conjunto adorável de facas expostas num ímã ao lado da pia, o que me fazia imaginar aquela mulher agarrando uma faca e me matando com ela. Bem que eu deveria ter desconfiado que Christine parecia boazinha demais. O lado bom era que havia um balcão que separava o lado da cozinha do lado da sala de jantar, onde eu me sentei.

Daria tempo para eu fugir se acontecesse qualquer coisa.

Mas tudo o que aconteceu foi ela se virar para mim, do outro lado do balcão e perguntar casualmente enquanto servia suco de laranja:

– Você está dormindo com o meu filho?

Se eu estivesse bebendo aquele suco, eu o teria cuspido.

– Hein? Não! – respondi, envergonhada.

Ela não pareceu acreditar. Deus, será que ela havia ouvido os gemidos?! Não sei qual era o quarto dela... Poderia ser do lado ou da frente... Eu não sabia sequer se havíamos gemido muito alto...

– Hum... talvez – eu respondi, constrangida. – Ontem nós não dormimos... Sério.

E de fato, não havíamos transado de verdade, né?

Christine soltou um suspiro.

– Escute... Só me diga: você toma pílulas? Você sabe que ficar dependendo só da camisinha também não é garantido, porque ela pode rasgar e se for mal colocada... – Ela soltou outro suspiro. – Não quero acabar com mais um neto nas minhas pernas, está bem?

Eu corei até as raízes do cabelo. Eu era virgem! Nunca precisei me preocupar com essas coisas! Pílulas? Camisinha? A mãe do meu namorado de pouco tempo falando isso para mim?! Queria que o chão se abrisse ali e me sugasse de vez. Eu queria desaparecer.

– Está bem – respondo passivamente, deitando a cabeça na mesa de jantar. – Entendi. Mas juro que não estou dormindo com Quentin...

– Ainda – ela acrescentou, colocando um copo de suco na minha frente. – Como você gosta dos seus ovos?

Ergui o olhar para ela, pasma. Cogitando, pela primeira vez, o quanto aquela personalidade me lembrou ao Quentin. Falar de algo constrangedor como se não fosse nada e depois mudar de assunto para algo que não tem nada a ver... Acredito que ele já usara essa estratégia comigo.

– Hum... Mexidos? – Minha resposta soou como uma pergunta.

Ela sorriu e voltou para o outro lado do balcão.

– Então... O que os seus pais acham de você não dormir em casa? – ela perguntou de costas para mim. Não vendo o quanto eu corei. – Não que eu me importe muito, me importo mais quando meus filhos trazem as garotas com nenhum responsável em casa, mas odeio quando algum pai desesperado aparece à porta procurando pela filha. É desagradável para todos.

Perguntei-me se isso já teria acontecido com Quentin. Mas, com ceticismo, disse a mim mesma que ele não era o único filho dela. Provavelmente com Gilliam. E depois... Que tipo de pessoa pensava assim? Ela não se sentia desconfortável em saber que seus filhos estavam transando com alguma garota no andar de cima? Que estranho.

– Não é como se a minha mãe ligasse muito... E meu pai não mora comigo – eu respondi, desconfortável. – Atualmente, ele está num hotel.

Ela se virou e me olhou sobre o ombro, curiosa.

– Por quê? – perguntou.

– Bem... Ele mora na Alemanha, mas voltou por questões familiares – eu respondi, tentando parecer mais calma. – É meio complicado.

Ela soltou um suspiro e sorriu gentilmente.

– Tudo é complicado quando tem pessoas envolvidas – ela confessou.

Confirmei com a cabeça. Pensando no quão fácil devia ser para os animais em suas famílias... Depois de certo tempo, eles nem pensavam nelas, suponho. E duvido que eles mintam para os filhotes sobre o pai...

– Olha o Quentin – ela comentou, com um suspiro. – Ele nunca me disse o que houve, mas até agora não se entende com o pai... Outro dia mesmo eles estavam se atracando na minha sala de estar.

Ergui o olhar, surpresa, para a mulher.

Obviamente, senti-me um pouco traída. “Outro dia eles estavam se atracando na sala de estar”? E Quentin sequer me disse nada? Tudo bem que ele não tinha essa obrigação... mas seria bom depois da conversa que tivemos ontem e há alguns dias que ele comentasse algo do tipo: “meu pai é tão filho da puta que brigamos essa semana”.

Mas ele não comentou nem quando perguntei.

Todavia, tentei ser positiva. Aparentemente, Quentin não contara nem para a mãe que vira o pai a traindo, já que ela não sabia o porquê ele não se entende com o pai... Então, sem saber o que dizer, eu dei um gole no suco de laranja, mas mal senti seu gosto. Só senti o alívio que ele me deu quando desceu doce e fresco pela garganta.

– Quentin não me contou que brigou com o pai dele... – Eu comentei para não deixar o silêncio pairar desconfortável entre nós duas. Para que ela não percebesse o meu aborrecimento. – Mas ele me falou ontem que os dois nunca se deram muito bem...

Christine assentiu com a cabeça, colocando os ovos num prato e esperando a torrada ficar pronta. Ela soltou um suspiro.

– Eu não vi o que aconteceu. Quando cheguei a casa os dois já estavam trocando socos... Meu ex-marido é muito engenhoso, e meio que me culpava por Quentin se interessar tanto por artes, que ele dizia ser coisa de garota... Coloquei Quentin no clube de teatro porque achei que o ajudaria com a timidez... Mas toda vez que eles se encontram, eles brigam – ela comentou cansada, parecendo estar falando com alguém da família além da estranha nova namorada do filho.

Lembrei-me vagamente que Quentin dissera isso ontem. Que o pai não gostava dele fazer teatro... Mas não me contou sobre a briga e muito menos sobre porque ele começou a fazer teatro, não que eu tivesse ao menos perguntado. Mas eu ainda estava magoada... Apesar de algum modo, era muito feitio de Quentin não compartilhar as coisas que o afligiam.

Acho que eu só soube de um dos problemas dele, quando ele me contou sobre o pai... E depois de muito insistir, ele contou sobre Brian.

– Gosto que ele se interesse por artes – eu disse, sem pensar. – Torna ele diferente.

Christine me olhou sobre o ombro, intrigada.

– Diferente? – perguntou.

Eu corei. Espero que ela não ache que estou dizendo que o filho dela é maluco...

Apesar de ele ser.

– É... Tipo, quando o cara é bonito... Geralmente ele não gosta de ler, não se interessa em nada além e academia e jogos de futebol e essas coisas que obviamente não me interessam – eu comentei, pensando mais em Duncan e no como era difícil me comunicar com ele. Ele era tão... primitivo. – Mas é fácil conversar com Quentin. Sempre temos o que conversar... Porque ele parece saber de tudo um pouco.

Mordi o lábio inferior reprimindo um sorriso e levei alguns segundos para me lembrar de que eu estava falando com a mãe dele e não com minhas amigas. E pensando nelas, isso explicava o porque Paloma achara que nosso relacionamento não se desenvolveria de uma maneira “amorosa”. Bem, um casal que converse o tempo todo sobre livros e essas coisas não é bem um casal. Está mais para amigos.

Cristine me trouxe de volta para essa realidade quando colocou um prato com ovos mexidos, torradas e bacon sobre a mesa. Seu gesto fora muito abrupto e por um instante achei que ela estava com raiva de mim, apesar de eu não ter feito nada ofensivo. Mas ao contrário. Ao olhar em seus olhos, percebi que ela estava feliz.

– Gostei de você – ela admitiu, sorrindo. – Não vou deixá-lo te perder.

Corei ainda mais. Lembro-me que alguns minutos atrás eu achara que acabaria morta naquela cozinha. Lembro-me que à princípio, eu achara que a mãe de Quentin não gostara de mim... Mas aparentemente, ela gostara bem mais do que eu imaginei.

Eu abaixei o olhar, meio constrangida, e brinquei com a comida.

– Você trabalha com o quê? – eu perguntei querendo mudar de assunto. – A senhora é uma artista? Cogitei que fosse por causa do quarto de Quentin e tudo o mais...

Levei uma garfada à minha boca e quase lacrimei. Estava quente e divino.

– Sou – ela respondeu, ainda sorrindo. – Na verdade, sou arquiteta, mas gosto muito mais de pintar... Perdi interesse pela arquitetura desde que inventaram essas histórias de Autocad e programas para projetar casa e quartos... A profissão perdeu a emoção! – Ela lamentou. — Você gostou mesmo do quarto do Quentin? Levei três dias para completar... Mas ele gostava tanto daquela foto quando era menino...

– Eu adorei – confessei. – É... Como um conto-de-fadas.

Uma coisa que eu aprendi naquele café-da-manhã com Christine era que a mulher poderia falar durante horas, sem se cansar, e tudo o que você tinha que fazer era confirmar ou negar com monossílabos. Quando acabei o prato, ela o levou para a pia sem que eu tivesse a chance de me levantar da cadeira.

– Como está a ressaca? Posso lhe servir mais alguma coisa se você quiser – ela sugeriu por detrás do balcão americano.

– Obrigada, mas acho que o suco já foi bom o bastante – eu disse, constrangida. De fato, era verdade, a secura da minha boca melhorara e o enjoo não passava de um eco distante no esôfago. – Acho melhor eu ir, na verdade... Obrigada por tudo.

Ela sorriu, pondo a louça para secar.

– Sem problemas, a propósito-...

– Vó!

Olhei para a porta, onde uma vozinha baixa e fina a chamara de repente. Lá estava uma criança. Ou melhor, um bebê, pois não deveria ter mais que dois anos. E era muito fofa. Eu nunca havia reparado como crianças são fofas até ter visto aquela garotinha de cabelos castanhos claros, olhos azuis e de bochechas grandes e rosadas.

Atrás dela, Quentin apareceu... Com a aparência de quem foi atropelado por um trator. E eu digo isso como eufemismo. Seus olhos estavam tão fechados que ele parecia Clint Eastwood (só que mais jovem, mais alternativo e mais gostoso), o cabelo estava bagunçado e ele parecia estar morrendo de sono, de cansaço e de tudo o que era ruim.

– Annelise está com fome – ele disse, com as palavras arrastadas como se doesse pronunciá-las. – E eu estou oficialmente morto.

– Annelise! O que eu falei de acordar o seu tio? – Christine brigou com a menina, mas pelo sorriso que ela segurava, percebia-se que não era sério.

Quentin, entretanto, se encolheu.

– Precisa gritar, mãe? – ele perguntou desconfortável.

– Não. Mas quem mandou beber? – ela retrucou.

Meu namorado revirou os olhos e enfim me notou ali. Sentada numa das cadeiras da mesa de jantar para oito pessoas. Ele mostrou o sorriso mais doloroso que já vi alguém fazer, mas mesmo assim, era bonito. Até mesmo de ressaca, ele ficava bonito. Maldito. Duvido que mesmo estando “curada” eu estivesse a sua altura.

– Pensei que você tivesse ido embora – ele comentou, parecendo feliz.

– Eu tentei – confessei, forçando um sorriso –, mas sua mãe me pegou no meio do caminho e me ofereceu café-da-manhã de graça... Ela é bem persuasiva.

Concordando com a cabeça (obviamente ele sabia do que eu estava falando), ele cambaleou até a cadeira ao meu lado e se sentou, Annelise (a garotinha) caminhou até Christine e pediu colo à mulher enquanto me olhava com curiosidade. Provavelmente se perguntando quem era a garota estranha que invadira sua casa.

– Você é uma péssima enfermeira... Não me lembrou de tirar as lentes antes de dormir – Quentin comentou, batendo seu joelho nos meus.

Dei um sorriso sarcástico.

– Desculpe, eu não uso óculos. Não sabia dessa frescura – eu respondi. – Além do mais, alguém me manteve ocupada demais para pensar nisso ontem... E só para constar, você está com uma aparência horrível.

Quentin deitou sua cabeça sobre a mesa e fechou os olhos.

– Que bom que você não gosta de mim pela minha aparência – ele retrucou.

– Que bom que você tem muito mais que a aparência – eu respondi, bagunçando seus cabelos escuros, embaralhados, mas sedosos.

Naquele momento, se Quentin fosse um gatinho, ele teria ronronado.

– Eu estava justamente dizendo isso à sua mãe... – Comentei com maldade.

Quentin abriu os olhos, assustado, mas não disse nada, voltando a fechá-los pouco tempo depois como se a claridade lhe doesse.

– Letty, essa é a minha neta. Annelise – Christine disse, apresentando-me à garota curiosa. – Ela é filha de Roland, mas aparentemente tem uma paixonite pelo Quentin.

A garota ficou vermelha e levantou o indicador em frente à boca.

– Segredo, vó! – ela lembrou, irritada.

– Eu duvido que ele tenha escutado – a mãe dele disse, apontando para a sua carcaça abandonada sobre a mesa com minha mão em sua cabeça. – Ele parece ter desmaiado...

Soltei um suspiro. De fato, ele havia dormido, percebo chateada, ao mesmo tempo aliviada. Havia perguntas que eu gostaria de fazer, mas ambos não estávamos com humor para brigas. Ele estava de ressaca para eu perguntar sobre o pai dele, e eu estava preocupada que alguém notasse o meu sumiço lá de casa, ou que meu pai fosse me procurar e não me encontrasse, apesar de eu ter certeza que meu celular não tocara.

– Acho melhor eu ir – eu disse, levantando-me da cadeira.

– Ah, sim... Vou pedir para Roland te dar uma carona – ela sugeriu, colocando a menina sobre um balcão e seguindo para o hall, atrás do filho mais velho.

Soltei um suspiro e olho para Annelise, me fitando de cima do balcão. Ela dá uns risinhos infantis que meio que me irritam (ela parece estar tramando alguma coisa, apesar de ter apenas uns dois anos, três no máximo). Crianças me deixam nervosa. Sempre parecem esperar que você faça alguma coisa.

Acaricio os cabelos de Quentin e dou um beijo no rosto dele. Caramba, acho que eu poderia estuprá-lo e ele nem se daria conta... Talvez só quando acordasse.

– Vamos, vou te dar carona – Roland aparece de repente na cozinha, com um sorriso largo no rosto, atrás de Christine. – Anne, lembre-se de torturá-lo muito por mim.

A garotinha fez um sinal positivo com o polegar para o pai.

– Você ainda vai me pagar – sussurrei para o resto do meu namorado, afastando-me logo depois.

Eu não esqueci que ele havia mentido para mim.

Notas finais
PREVIEW: " Pareceu discar durante uma eternidade até ele atender. - Ei, Letty, o quê-... - QUE HISTÓRIA É ESSA DE TERAPIA FAMILIAR, MICHA?! – eu gritei, percebendo só então que era isso o que eu queria fazer desde que minha mãe disse aquilo: gritar."