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35 Capítulo 35 – Eu estou bêbada.
Notas iniciais
Capítulo 35 – Eu estou bêbada.
Eu saí do jogo depois da terceira dose – lá para a oitava partida, mais ou menos — daquela coisa e fiquei surpresa com o como, ao me levantar da cadeira, eu estava tonta. Completamente tonta. Não consegui ir muito além da bancada onde estavam as bebidas. Encostei-me por lá e fiquei observando os outros jogarem.
Quentin não estava mentindo quando disse que era azarado. Nessas oito partidas, ele havia bebido sete doses, praticamente, uma em cada rodada e duas na sua própria jogada. Sinceramente, eu fiquei besta quando o vi perder mais uma vez.
– Lembre-me de te manter longe dos cassinos quando fugirmos para nos casar em Las Vegas – eu provoquei, rindo dele.
Quentin se virou para mim e deu um sorriso maldoso.
– Se você prometer me manter bem ocupado depois do casamento, não vou ter nem porque sair do quarto – ele respondeu, dando uma piscadela para mim.
Mordi o lábio inferior, tentando conter o sorriso e o pensamento de nós dois num quarto (fazendo muito mais do que um trabalho de biologia), enquanto todos os outros bêbados riam. Exceto Ginie. Ginie pareceu acreditar na brincadeira.
– Sério? Vocês estão planejando se casar em Vegas? – ela perguntou.
Para alguém que havia bebido três doses também daquela coisa gosmenta e alcoólica, ela parecia muito bem. Estava até se preocupando com o nosso futuro também.
– É. Sabe, é porque eu estou grávida – brinquei, tentando falar com seriedade.
Helena, que bebia sua dose após perder, quase a cuspiu toda.
– Como é que é?! – a ouvi dizer, engasgada.
– Vai ter que beber outra! – foi a preocupação dos três bêbados que estavam pior.
– Vocês não têm que se casar para ter um bebê – Ginie avisou, como se nós dois não soubéssemos disso. – Além do mais, vocês são muito jovens e-...
– Ginie, ela está só brincando – Quentin disse, divertido, jogando o dado na sua vez. E perdendo. – Ela não está grávida e não vamos fugir para nos casarmos em Las Vegas.
Não sei o que me irritou mais: Quentin ter me desmentido (porque ele teria de explicar para ela que não íamos nos casar?! Ele queria dar a entender o quê? Que ela ainda tinha chances para ficar com ele?!) ou o suspiro aliviado que Ginie soltou. O suspiro de Helena não me irritou tanto quanto o dela. Seja lá o que for, fiquei irritada.
– Você ficou bem aliviada depois disso, não é? – zombei, esperando ter dito baixo, só para mim mesma, mas pelo modo com que todo mundo olhou, percebi que não.
Senti meu rosto começar a ficar vermelho. Merda.
De repente, eu não estava nem aí se estava tonta ou não, desencostei-me do balcão verde horroroso da cozinha e caminhei para a sala. Querendo fugir daquele momento constrangedor. O que eu senti era coisa de outro mundo. Nem quando bebi aquele copo de vodca eu havia visto as paredes se mexendo ou sentia que estava andando em nuvens como agora.
Agora eu estava oficialmente bêbada.
Na sala tinha algumas pessoas que eu não conhecia, mas que eu me lembrava de ter visto no almoço da companhia de teatro. Lembro-me que alguns eram bailarinos e coro de fundo, mas não me lembro do nome deles. Nem sei se fomos apresentados, mas me joguei numa poltrona vazia, de frente para um casal que se amassava (festa sem putaria não é festa) e fiquei fitando o teto, reflexiva.
Por que eu havia dito aquilo mesmo?
– Letty.
Não sei quando nem como, mas Quentin estava abaixado ao lado da minha poltrona. Mas continuei fitando o teto, tentando controlar novamente aquela ardência nos olhos. Eu odiava aquela ardência. Eu odiava chorar logo depois dela.
– Você tem ciúmes da Ginie? – ele perguntou, com seriedade.
Eu olhei para ele. Com raiva.
Se eu estivesse sóbria, eu teria dito “Claro que não”. Bem, eu não estava.
– Óbvio! – respondi. – Na verdade, eu tenho raiva do como ela, num dia pode ser a melhor pessoa do mundo, e no outro pode se tornar uma rival mais nojenta que Yvonne Tybolt... Eu estou bem aqui do seu lado, sabe? E desde que chegamos ela... Urgh. Fica botando os olhos em você! E lançando indiretas que eu estou impedindo-a de tentar alguma coisa... Argh! Ela é uma nojenta.
Eu cruzei os braços, irritada. Para a minha surpresa (e para a fúria da minha raiva, pois isso me irritou ainda mais) Quentin estava prendendo um sorriso que, tenho certeza, se tornaria uma risada se fosse livre. “Calma, ele também está bêbado. Talvez até mais do que você” lembro a mim mesma, soltando um suspiro.
– Quando você disse que éramos namorados, Yvonne ao menos nos deixou em paz – eu concluí, resmungando.
Ele me puxou da poltrona e se sentou no meu lugar para me acomodar no seu colo logo em seguida. Eu não sei por que ele fez isso se havia outros lugares livres.
– Você sabe o quanto eu gosto de você, não sabe? – ele perguntou no meu ouvido. Seu hálito foi como uma carícia quente e macia no meu pescoço.
Quase me senti estremecer no seu colo. Talvez fosse por isso.
– Sei... – respondi, completamente derretida. – Quer dizer... Sei, mas não entendo.
Quentin se afastou para me fitar no rosto. Felizmente, meu olhar estava baixo, brincando com a barra do meu vestido super curto. Ele seria incapaz de ver algo nos meus olhos por mais que quisesse.
– Quer dizer... Olha para ela. Ela tem esses cabelos loiros pálidos, e esse corpo de bailarina torneado... E o rosto de uma corça assustada que é fofo, quando não é cômico – eu disse séria, mas Quentin riu. – Eu tenho o quê? Nada. Às vezes, quando eu estava com Duncan, eu pensava no que diabos ele havia visto em mim. Se nem meu pai hesitou em ir embora, se nem minha mãe gosta de mim... Quem mais iria gostar?
Merda. Uma lágrima derramou. Limpando-a, prometi a mim mesma que suas amigas não viriam com ela. Não hoje e, de preferência, nunca.
– Eu gosto – Quentin disse, com sua mão na minha coxa a apertando suavemente. – E tenho certeza de que Helena, Olivia e Paloma gostam também... E seu pai voltou... Sua mãe não conta porque ela é só: “superficial, vazia, materialista e uma cretina pirada”.
Eu sorri como uma garotinha emocionada (ah, não me julguem! Eu sou uma garota!) e dei um beijo no seu rosto. Justo no momento em que esse virou e me beijou nos lábios.
– Só para constar, eu sou quem mais gosta de você. Só não mais do que o seu pai. Ele veio da Alemanha. Sabe onde isso fica?! – ele comentou, dando-me outro beijo logo depois. – Pronta para voltar ao jogo?
– Você quer mesmo continuar bebendo? – perguntei. – Eu não vou mais beber, mas poso observar você ir ficando cada vez mais porre... Você ainda não parece estar ruim o suficiente para se tornar engraçado.
Quentin deu um sorriso malicioso.
– Só lembrando que você vai cuidar de mim – ele respondeu, levantando-se e me puxando do seu colo. – Promessa é promessa.
Eu revirei os olhos e voltamos para a cozinha, apoiando-me em Quentin porque, de algum modo, ele parecia mais sóbrio do que eu mesma, mesmo tendo bebido mais da metade que eu já ingeri na minha vida.
Quando voltamos, observei Ginie agressivamente. Bem, se ela ia bancar a vadia para cima de mim. Eu também podia fazer isso. A começar sentando-me grudada em Quentin na mesa onde as pessoas jogavam o jogo do dado. Geralmente, eu tentava não ser grudenta, mas ela teria de entender o recado.
– Tudo bem? – Helena perguntou para nós, divertida. Então provocou o meu namorado: – Tudo bem com a patroa, Quentin?
Ele riu.
– Tá sim – ele respondeu. – Eu só preciso comprar um espelho pra minha namorada.
Olhei para ele sem entender direito o que ele quis dizer com isso. Não falamos sobre espelhos. Falamos sobre ele me trocar pela loira falsa à nossa frente. Mas eu não disse nada. Só dei um sorriso maldoso e respondi:
– Por enquanto ele ainda está inteiro. De qualquer forma, ele não é a pessoa que eu quero esquartejar.
Minha amiga gargalhou, animada pela bebida, mas eu olhei para Ginie. Queria que meus olhos dissessem claramente que ela era a pessoa que eu queria esquartejar por querer dar em cima do meu namorado.
Quentin era meu, afinal.
...
Não sei como chegamos à casa de Quentin sem causar um acidente, porque estávamos muito bêbados. Ele, obviamente, mais do que eu. Por isso eu dirigi seu carro. Eu na verdade, já nem estava mais me sentindo alcoolizada. Quando eu parei de beber, fiquei só no refrigerante, então isso deve ter anulado o efeito do álcool. O que era bom porque quem arrastou Quentin silenciosamente escada a cima fui eu também.
É. Quando se precisava, nenhum irmão gostosão fortão aparecia.
Quentin se jogou na cama, quase me levando junto.
– Você vai ficar bem? – perguntei baixinho.
Ele me fitou com aqueles olhos claros e sexys.
– Você pretende ir embora? – perguntou com a voz rouca e cansada.
Agora sim ele estava bêbado. Suas palavras estavam bem arrastadas.
– Eu não deveria ir? – perguntei divertida.
– Não, – ele respondeu, segurando o meu braço e me puxando para a sua cama. – Você deveria ficar aqui e cuidar de mim amanhã. O dia seguinte é sempre pior.
Não sei se ele percebeu que me puxou para que eu ficasse mais perto possível dele, e que isso implicava em ficar debruçada sobre o seu corpo apoiada em meus braços. Também não sei se ele tinha ideia que ficar assim me deixava muito tonta ou que vê-lo embaixo de mim me dava vontade de me jogar em cima dele e fazer coisas que eu não deveria. Quase me fazendo sentir um daqueles estupradores que embebedam a moça para abusar do corpo dela.
De qualquer forma, se ele tivesse percebido isso, Quentin era perverso.
E, de algum jeito, eu sei que ele me queria na sua cama... De outro modo. De um modo mais indecente do que na ultima vez em que estive ali.
Sentei-me ao lado de seu corpo jogado e respirei fundo.
– Tudo bem? – ele perguntou, sentando-se e se encostando à cabeceira da cama.
Confirmei com a cabeça, aproximando-me dele.
– Só fiquei tonta – confessei.
Ele acariciou o meu rosto. Seus movimentos eram letárgicos, como se seus músculos estivessem pesados ou simplesmente não estivessem respondendo à ele. Em outras palavras. Eram suaves e, de algum modo, carinhosos.
– Deita comigo – ele pediu.
Ele me puxou pelo braço, mas não foi para a cama; foi para os seus lábios.
Não sei porque, mas eu hesitei Por algum motivo, estar ali, no quarto dele (na cama dele) às quatro da madrugada, com nós dois bêbados, me deixava nervosa.
Mas eu o beijei, e aproveitei seu gosto de “xarope alcoólico” sem pensar no que estava fazendo. Os lábios dele estavam mais lentos, mais suaves, como se aproveitassem e desfrutassem do beijo. Também estavam secos, então, eu os lambi e enfiei minha língua na sua boca. Um arrepio prazeroso percorreu minha espinha, terminando na mão dele que estava em minha nuca, quando sua língua se encontrou com a minha.
Seu outro braço envolveu minhas costas e me puxou ainda mais para ele quando nossos lábios se afastam num breve instante para recuperar fôlego. Sua boca escorregou pelo canto de minha, depois pelo queixo, e pelo pescoço. O último, deixou-me mole e arrepiada.
– Quentin... – murmurei, ou suspirei, ou gemi... Não vi muita diferença.
– Hum? – ele perguntou.
– Tudo bem eu estar querendo te estuprar agora, né?
Quentin afastou seus lábios de mim e gargalhou. Eu tive que tapar a boca dele para não acordar ninguém. Tenho certeza que todo mundo estaria dormindo. Mesmo assim, ele se contorcia de tanto rir embaixo de mim. Provavelmente, era a bebida. Só podia ser.
Quando ele se controlou, seus olhos estavam me seduzindo.
– Acho que sim – ele respondeu enfim. – Eu já quis te “estuprar” também.
Pisquei para ele, atônita.
– Se bem que... “Estuprar” não é bem a palavra – ele explicou. – Quando duas pessoas querem, não pode ser considerado um estupro. E, em minha opinião, tudo fica mais divertido quando as duas partes querem...
Sua mão na minha nuca desceu pelas minhas costas, fazendo-me estremecer sob o seu toque. Oh, sim, Quentin era diabólico... Percebi que ele era maligno quando, ao subi-la de novo, ele estava levantando meu vestido também.
Recuei imediatamente. Levantando-me até da cama.
– Quentin! – briguei, chateada.
Ele olhou para mim como se não entendesse.
– É melhor eu ir – eu disse. – Não consigo ficar assim com você.
– Assim como? – ele perguntou, levantando-se da cama também e andando até mim. – Você não consegue dormir comigo?
Eu corei. Merda. Nunca mais vou deixá-lo beber.
– Na verdade, acho que eu não consigo dormir com garoto nenhum – eu respondi. – Quentin... Você se lembra que eu sou virgem, certo?
Ele se aproximou mais de mim.
– Acredite, eu me lembro disso toda hora – ele confirmou, prendendo-me com seus olhos sombrios e sexys. – Não tenho como não me lembrar se toda hora eu quero pular em cima de você e te devorar inteira.
Suas palavras me fazem arrepiar e corar, mas ao mesmo tempo, me deixam impressionada. Nunca pensei que Quentin falaria algo assim, mas seu tom era sincero. Era o tom de que não importava se ele estava bêbado ou sóbrio, era o que ele pensava.
Ele me puxou pela cintura contra o seu corpo e me beijou.
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