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33 Capítulo 33 - Péssimos Namorados?
Notas iniciais
Capítulo 33 – Péssimos namorados?
– Você tem uma língua maldita, McCullogh. Sabia disso? – perguntei à Quentin no dia seguinte, me jogando nas costas dele.
Eu pretendia soltá-lo logo depois, pois demonstrações públicas e muito duradouras de afeto me deixavam constrangida. Mas Quentin passou as mãos por trás dos meus joelhos e me manteve agarrada às suas costas. Dei graças a Deus por ter chegado um pouco mais cedo do “horário de pique” do estacionamento. Poucas pessoas estavam ali.
– Dá para ser menos vaga? O que você quer passar ao dizer que eu tenho uma língua maldita? – ele perguntou deliciosamente malicioso.
Eu revirei os olhos. Como ele poderia pegar uma frase tão inocente e destorcê-la para ela ficar tão maliciosa? Dei uma cotovelada no músculo entre o seu ombro e o pescoço. Ele quase me soltou, mas manteve suas mãos firmes em minhas pernas.
– Bem, ontem você me perguntou sobre o meu pai... Ai eu chego em casa e... Adivinha quem estava na sala de estar? – perguntei retoricamente.
Quentin me soltou de vez e se virou para mim.
– Sério? – ele perguntou surpreso.
– Sério – respondi cruzando os braços.
Ele sorriu, feliz com a notícia, fazendo-me sorrir também. Tudo ainda parecia um sonho. Algo do tipo: “aconteceu mesmo”? E parecia tão distante que estava com medo que não passasse de uma ilusão. Como quando Quentin me beijou, ou como quando ele disse que eu era “sexy” naquela festa em que eu fiquei bêbada.
Quentin pegou minhas mãos, descruzando meus braços, e me deu um beijo.
– Fico feliz por vocês – ele sussurrou com os lábios juntos aos meus.
Eu somente aceno com a cabeça e volto a beijá-lo.
– Sabe, acho que isso pede uma comemoração – ele sugeriu, quando eu o soltei. – Tá a fim de sair para uma festa esse sábado?
Olhei para ele, um pouco hesitante.
– Por favor, diga-me que não é a festa daquele tal de Josh – eu pedi.
Quentin riu diante dessa ideia.
– Você acha que eu te convidaria para a festa do Josh depois de tudo o que ele falou para você e que você falou para ele? – Quentin perguntou, divertido. – Seria interessante, mas não. É mais uma reunião na casa da Ginie com o pessoal do teatro. Helena pediu para que eu te levasse... E não vejo porque não.
Olhei para Quentin, hesitante. Helena obviamente havia pedido para que ele me chamasse, porque sabia que eu ficaria chateada se soubesse que Quentin havia ido numa reunião na casa daquela senhorita que tem uma queda pelo meu namorado. Claro que talvez eu não ficasse tão chateada porque ele não iria para lá sozinho.
Mas agora que ele falou de Helena, resolvi fazer uma pergunta que já queria fazer a um tempo... Então, ignorei o convite e perguntei logo de uma vez. Antes que perdesse a coragem e acabasse deixando para lá.
– Quentin... Uma vez Helena disse que você não gostou de eu ir dormir na casa dela... Porque você achava que ela poderia dar em cima de mim... É verdade?
Esse foi um daqueles raros momentos em que Quentin ficou vermelho. E ficou muito fofo daquele jeito. Perguntei-me como alguém podia ser fofo num momento, e totalmente sensual em outro.
– Hum... Talvez – ele respondeu, envergonhado. Ele soltou um suspiro e se encostou no carro da mãe dele. Puxando-me pela cintura, ele me manteve perto de si. Eu era capaz de sentir o calor que emanava do seu corpo como se fosse o meu próprio. – Letty, você é muito linda... Você é maravilhosa! Helena gosta de garotas e está solteira... Fiquei com ciúmes, caramba.
Eu sorri. Quentin com ciúmes? Ele nunca demonstrara isso com ninguém, além de Duncan. Bem, não é como se todo o garoto com quem eu falo desse em cima de mim, como era o caso de Quentin com as garotas... Ele me dava mais dor de cabeça, do que o oposto. Se bem que... Eu também não demonstrei nenhuma crise de ciúmes que não fosse com Yvonne, que andava estranhamente quieta.
– Sou maravilhosa é? – perguntei, divertida, aninhando-me nos seus braços. – Você fica muito lindo quando mente... E por que você não falou nada para mim? Sobre sua preocupação a respeito de Helena.
Quentin segurou o meu rosto em suas mãos e me fez encará-lo.
– Primeiro: não foi mentira. Você é maravilhosa. Nunca mais vou te chamar para casa de novo, porque não gostei de como meus irmãos ficaram perto de você. Sério. Segundo... Eu não sou o tipo de namorado babaca que vai te proibir de dormir na casa de uma amiga só porque ela é lésbica – ele respondeu.
Eu abaixei o olhar para a clavícula dele, pouco à mostra pela gola da blusa... E percebi uma coisa estranha à mostra. Parecia um daqueles panos analgésicos que colocam para dores musculares.
– Você se machucou? – perguntei espalmando minha mão em cima, sem encostar com força para não doer.
– Hum, sim... – ele respondeu, com a voz grave. – Foi no ensaio ontem, mas já está melhor... Nem está doendo tanto.
Ergui o olhar para ele e dei um sorriso.
– Você falou de mim ontem... Que eu não ligava para os meus problemas, mas agora que paro para pensar... Você também não divide muita coisa comigo, não é? – comentei, encostando a cabeça no ombro dele.
Quentin limpou a garganta.
– Talvez seja porque eu não tenha muitos problemas – ele respondeu, acariciando minhas costas. – Meus problemas se resumem aos seus...
– Ou você talvez seja como eu e simplesmente goste de sofrer em silêncio – eu brinquei, fitando-o mais uma vez.
Às vezes, acho que poderia observar o rosto de Quentin o dia inteiro.
É tão cheio de ângulos, e curvas, que gostaria de pedir para ver um esboço de seu rosto feito por um artista. Deveria ser a coisa mais linda do mundo. Não sei porque, mas tenho um interesse incomum por imagens com linhas de construção (tipo, os esboços de Da Vinci). E o rosto de Quentin esboçado num papel, deveria ser maravilhoso.
“Talvez não só o rosto” eu cogitei, sentindo seus músculos rígidos naquele abraço. Tive vontade de passar minha mão por seu peito até o abdômen. Não me lembro de já ter tido a cara-de-pau de fazer isso quando namorava Duncan, mas lembro de que a curiosidade de sentir com o tato um abdômen dividido sempre esteve presente.
– O que foi? – ele perguntou, percebendo que eu o encarava demais.
Eu quase corei. Eu estava pensando em coisas indecentes. Vergonhosamente indecentes. Tenho certeza que minha alma seria banida para o inferno durante todo o sempre só porque eu seria um perigo para as purezas das outras pessoas.
– Estou admirando sua beleza. Não posso? – eu debochei.
– Pode. Aproveite que você pode – ele disse brincando, e ergueu o rosto. – Veja deste ângulo. Dá para ver direitinho meu maxilar. É meu melhor ângulo.
Eu ri. Não disse no que eu estava pensando (que todos os ângulos eram o “melhor ângulo” de Quentin), mas realmente, quando vejo seu maxilar... Só penso em percorrer minha língua por ele. Nunca achei que fosse sentir essas coisas de livros eróticos, mas é real. Mas, como sou menos ousada, tudo o que eu faço, é dar um beijo abaixo de sua orelha. Onde seu maxilar faz uma curva tentadora.
Quando me afastei, Quentin estava me olhando como se eu fosse louca.
Mas como se tivesse gostado.
– O quê? – eu perguntei, lutando contra o sangue no meu rosto.
– Nada... – ele respondeu, apesar de haver um sorriso brincando em seus lábios. E uma covinha me provocando no canto deles. – Tudo bem com você hoje? Tomou alguma coisa? Algum antidepressivo que está te deixando alegre? Ou quem sabe comeu alguma coisa afrodisíaca no café-da-manhã porque você está me olhando como se quisesse me devorar... E eu estou meio que curtindo.
“E o que falta para você curtir por inteiro?” eu quis perguntar, mas faltou coragem. Logo, bufei irritada e lhe empurrei. Mais por constrangimento do que por raiva.
– Eu estou feliz, caramba! Para de me zoar! – eu briguei, tentando me afastar, mas ele me segurou e me puxou para si de novo. – A culpa não é minha também se você é uma tentação! Você deveria andar de burca por aí, Quentin. Para o bem de todas as mulheres da cidade e para o meu próprio.
Ele deu um sorriso sacana.
– Isso, nós temos de concordar, mas seria um crime. Esconder a minha beleza desse jeito – ele brincou, imitando um tom narcisista, abraçando-me de costas para ele. – Mas tudo bem. Você pode me olhar assim. E eu fico feliz por você estar feliz.
Eu sorri e me virei de frente. Segurando seu rosto entre minhas mãos eu disse:
– Parece que está tudo, enfim, dando certo. Mamãe, meu pai, você... Eu sei que ainda tem Ellen, mas também sei que ela vai ficar bem... Eu nunca me senti tão leve e despreocupada, em toda a minha vida.
Quentin sorriu e beijou minha testa. Quando ele se afastou, eu o beijei nos lábios. Gostaria de dizer que, se ele não estivesse ao meu lado quando eu estava muito mal, era provável que eu não suportasse tudo tão bem. Mas não sei como expressar isso tão eloquentemente, sem que pareça tão estúpido quanto ficou na minha cabeça. Então eu só o beijo, intensamente. Saboreando o gosto de menta da pasta de dente, sentindo o leve cheiro de cigarro em sua roupa, e seu perfume masculino sedutor.
Quando nos separei, para respirar, Quentin beijou o canto da minha boca. Depois minha mandíbula, e depois o meu pescoço. O último ocasionou um arrepio por todo meu corpo, que me fez cerrar os punhos em seu cabelo.
– Esse povo que fica se agarrando no estacionamento, precisa de um banho de água fria, não acha Paloma? – Olivia me provocou, aparecendo com Paloma ao meu lado.
– Acho que ninguém é obrigado a assistir esse espetáculo – ela concordou.
Quentin tirou seus lábios da minha pele, o que causou um estremecimento de raiva. Ele tinha lábios perfeitos para beijar onde quiser... E repito: onde quiser.
– Olá, garotas – ele disse educadamente, continuando com os braços ao redor da minha cintura. – Estávamos comemorando uma boa notícia.
– Que boa notícia? – as duas perguntaram, olhando para mim.
Olhei para elas, e depois para Quentin. Qual era a boa notícia mesmo?
– Hum... Não consigo me lembrar mais – eu brinquei, dando um beliscão na barriga de Quentin. – Alguém me fez esquecer.
Quentin me lançou um sorriso maldoso. Antes de Olivia me puxar para longe dos braços do meu namorado e passar seu braço pelos meus ombros.
– Então fique longe dele. Não queremos que você acabe com Alzhaimer – ela brincou, recebendo uma cotovelada de mim. – Ouch. Mas, sejamos sérios, vocês quase nunca se desgrudam...
Quentin me puxou de volta para ele, e de repente eu soube como a corda de “cabo de guerra” se sentia, quase senti pena dela. Ele passou os braços ao redor da minha cintura e apoiou o queixo no topo da minha cabeça.
– Assim é que é bom... Já que passamos a tarde inteira sem nos vermos – ele lamentou, fazendo uma expressão sofrida.
– Como é péssimo namorar um homem ocupado – zombei.
Olivia trocou olhares com Paloma.
– O.K... – Paloma disse. – Mas vocês fazem coisas de casais, né?
Olhei para elas, confusa.
– Claro que sim... Fomos ao cinema... Uma vez – eu respondi, ficando triste ao perceber que fora só “uma vez”.
– E vamos numa festa esse fim de semana, né? – Quentin me perguntou.
– Claro – eu respondi.
Ambas não pareceram muito satisfeitas, mas também não insistiram. Quentin percebeu também, pois seus braços pareceram se afrouxar em volta de mim. Perguntei-me se ele também estava se sentindo como o pior namorado do mundo, pois eu sei que eu estava me sentindo assim.
Depois que elas disseram que iam para a aula na frente, nos deixando sozinhos com o enorme problema que elas trouxeram, ficamos em silêncio. Um silêncio estranho.
– Você acha que devemos passar mais tempo juntos? – eu perguntei.
– Você quer passar mais tempo junto comigo? – ele reformulou a pergunta.
Eu dei de ombros. Confesso que com Quentin, qualquer momento “bom” se tornava maravilhoso... Mas eu não ia bancar a namorada grudenta.
– Eu não sou o tipo de namorada babaca que vai exigir ficar grudada em você o dia todo só porque é carente e insegura – eu respondi, tentando imitá-lo.
Quentin sorriu e beijou minha testa de novo.
– Vamos marcar de fazer mais coisas como casal – ele prometeu.
Eu dei de ombros.
Eu é que não ia dizer que era indiferente quando eu adorava estar perto dele.
...
E foi justamente para eu não precisar abrir mão do meu escasso tempo com Quentin que eu sempre marcava de sair com o meu pai no horário em que meu namorado estava no teatro, ensaiando sua peça. Ou seja, depois das aulas, mais ou menos. Não que fizéssemos muitas coisas juntos geralmente, íamos à uma cafeteria e conversávamos.
E eu sempre tinha medo.
Medo que do nada ele se levantasse e fosse embora. Era um medo ridículo, eu sabia, mais ridículo do que o de acabarmos ficando sem assunto e apenas nos encarando como dois estranhos que sabem muito da vida um do outro. De algum modo, eu sempre queria me socar quando eu o sentia... Esses medos.
Eu sabia que ele havia se casado novamente. Óbvio, um homem tão charmoso quanto o meu pai não ficaria solteiro por dez anos, tenho certeza. A mulher, Grettel (que nome original para uma alemã) e sua filha, enteada do meu pai, Hazel. Tinha quase a minha idade, só era alguns anos mais velha.
– Vocês se dariam muito bem – ele comentara, pensativamente.
– Bem, você sabe o que dizem de meias-irmãs e madrastas... – eu comentei, na defensiva. – Se não sabe, lembre-se da pobre Cinderela.
Ele rira.
– Veja só, eu não as conheço... E duvido que elas me curtam depois que eu te afastei delas por algumas semanas. Como elas agiram quando você disse, de repente, que viajaria para a América? – perguntei, nervosa. Tudo o que eu menos queria era que mais pessoas não gostassem de mim sem motivo.
Micha não ficou nervoso, ele deu um sorriso divertido.
– Elas não fizeram nada. Só foram me deixar no aeroporto – ele respondeu. Cruzando os braços sobre a mesa pequena e redonda da cafeteira, quase batendo no seu copo de café preto e puro. – Elas são boas garotas... Sabem que eu não faço “loucuras” por nada...
Eu sorri, rezando para que fosse verdade. De pessoas falsas que agiam de uma maneira na frente de uma pessoa, e depois me odiava pelas costas dela, eu já estava cheia. Muito cheia.
– E seu padrasto... E a filha dele? Eles parecem gostar de você – ele comentou ocasionalmente, bebericando de seu café fedorento.
Eu não tive que forçar um sorriso enquanto brincava com minha água.
– Os Freeday são bacanas. Ellen é muito boa. É quase uma irmãzinha para mim... Ela me ajudou muito... Já Walter... Bem, ele pelo menos não finge que eu não existe, como faziam os outros padrasto que eu tive... Ele parece se importar, ao menos um pouco, comigo – eu respondi, dando de ombros.
Ele sorriu, parecendo um pouco menos culpado. Nunca imaginei que eu fosse me sentir tão aliviada ao perceber aquela pontinha de alívio. Perguntei-me durante quanto tempo ele achava que eu poderia estar no meio de pessoas que não gostassem de mim. Durante quanto tempo ele se preocupara em eu não estar feliz.
– Você... foi feliz? – ele perguntou, bem baixinho, como se nem quisesse que a pergunta saísse ou que eu a ouvisse.
Pensei bem antes de responder. Pensei no tempo que passei com a minha mãe e seus ex-maridos que me tratavam como se eu não existisse. Pensei naqueles longos anos em que fiquei de lado por ter perdido a merda de um concurso de beleza... Lembrei-me até da solidão que vivi durante um bom tempo e de quando eu pensava que as pessoas não gostavam de mim porque eu era gorda e feia... E de até onde eu fui para que elas gostassem mais de mim...
Até eu recentemente me dar conta que não precisava delas. Da aprovação delas. Então, eu poderia ter respondido a verdade: “não, eu não fui feliz”. Mas engoli a resposta. Essa não era a única verdade.
– Estou sendo – respondi, com sinceridade.
Fazendo-o dar um sorriso aliviado.
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