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22 Capítulo 22 - O Teatro.
Notas iniciais
Capítulo 22 – O Teatro.
Não me lembro com o que eu sonhei quando eu acordo, mas acordo com os olhos molhados e um pouco inchados. Acho que tive um pesadelo tão ruim que nem sou capaz de me lembrar dele quando consciente. Esfrego os olhos úmidos e olho ao redor, confusa. Aquele não era o meu quarto. Onde estavam as minhas paredes amarelas pálidas, o armário bem marrom e a cama de armação toda rabiscada com letras de músicas?
Aquele quarto era mais espaçoso que o meu, possuía uma cama de casal de armação branca e de ferro, coberta com um cobertor lilás, paredes pêssego e eu estava dormindo num colchão de cama de solteiro. Sinceramente, passo alguns minutos perdidas.
Então me lembro do meu “pesadelo”: do meu pai, da minha mãe, da minha “fuga” de casa... Mas também me lembro das coisas boas e, inesperadamente, elas anestesiaram a dor que já começava a se espalhar para todo o meu corpo. Dando-me forças para me espreguiçar e me levantar do colchão fino. Por um instante, eu me esqueço que estou enrolada num lençol, então eu tropeço e caio de cara no chão.
Dessa vez, não encontro forças para me levantar. Só solto um gemido.
– Ei, tudo bem?!
Ergo o olhar, um pouco contrariada, e encontro uma mulher de cabelos loiros quase platinados, ondulados e com um brilho digno de comercial, olhos castanhos e corpo de dar inveja. Ela parecia ter quase a minha idade ou ser um pouco mais velha. Seus lábios eram largos, o nariz de ponte reta e fina era pequeno e os olhos eram bem grandes e castanhos. Algo nela me lembrava uma corsa. Talvez sua postura e os olhos grandes e que pareciam assustados.
– É claro que ela está bem, Ginie – responde Helena, aparecendo atrás da mulher. – Não vê que ela tem dois air bags enormes para aliviar a queda?
Helena ri de seus comentários, mas eu a fito com ódio. Bem discreta, hein?
– Bom dia... – eu digo, sem forças para discutir.
– Bom dia, flor do dia! – Helena me cumprimenta alegre demais. – Como foi a sua noite?
Eu me obrigo a me levantar do chão e a me sentar no colchão.
– Não sei... Acho que capotei – eu respondo incerta.
– É, você capotou mesmo – Helena diz rindo e percebo que ela está se referindo a minha queda. A loira ri também, mas eu não. – Já está quase na hora do almoço! Mas acho que comer alguma coisa vai te fazer bem... Eu estava fazendo uma sala de frutas, quer um pouco? Você pode tomar banho enquanto nós a terminamos...
Como é de costume, Helena já faz planos enquanto não me deixa falar.
Não tenho outra escolha que não assentir com a cabeça e concordar em ir tomar banho e vestir uma “roupa descente” enquanto ela e a garota estranha terminam de cozinhar besteiras açucaradas, doces e calóricas. Bem do estilo de Helena, eu acho.
Eu tomo um banho rápido, usando seus produtos talvez só para provocá-la um pouco, e visto uma regata completamente rendada escrita “Vivre la Vie” em preto com uma saia de material sintético que imita couro e um par de All Stars. Em geral, eu não gosto dessa marca, mas eu tinha que admitir que eles fossem muitos confortáveis... Até que você tivesse que andar num piso molhado.
Pego o meu celular antes de sair do quarto e percebo que Ellen me ligou.
Oh, droga. Eu não falei nada para Ellen e isso me faz sentir culpada. Talvez ela fique magoada por eu ter ido embora do nada da sua casa e isso me fez ficar com peso na consciência. Ela é como se fosse uma amiga mesmo, às vezes, até mesmo é uma irmã.
Eu resolvo ligar para ela rapidinho e ela atende com a voz sonolenta.
– Alô.
– Hum... Oi, Ellen – eu digo, um pouco sem graça.
– Letty? Aonde diabos você se meteu?! Walter tentou te ligar e disse que você não atendeu... Sua mãe estava uma fera! E tem um cara aqui que não para de ligar e... Caramba, o que aconteceu?! – ela perguntou, de repente parecendo bem desperta.
Eu engulo em seco.
– “Um cara que não para de ligar”? – eu pergunto, quase sem voz.
– Hum... É... Quando sua mãe falou com ele... Só tenho a dizer que quase a vi o estrangulando pelo telefone e vice-versa... Eles brigaram muito feio e acho que a ouvi gritar algo sobre... Hum... “Ele ser um alemão cretino e nazista”.
Faço uma cara de deboche.
– Uh, temam, aquela mulher sabe palavras difíceis! – eu zombo revirando os olhos.
Ellen ri do outro lado.
– É, eu também estranhei... Mas onde você está?!
Eu solto um suspiro e me sento na beira da cama de Helena.
– É... Meio que uma longa história... Eu dormi na casa de uma amiga e como você pode ver, eu estou viva! – eu digo. – E tudo o que ela quer para me devolver inteira é meio milhão de dólares.
Ellen ri sem humor.
– Ah-há, engraçadinha – ela debocha.
– Bem... Pode dizer para o seu pai ficar tranquilo. Volto para casa em dentro de... Dois ou três dias... Eu espero – respondo. – Pelo menos eu só trouxe roupa para ficar por esse tempo...
Ellen solta um suspiro cansado.
– O.K. Eu aviso para ele – ela concorda. – Ele ficou bem preocupado com o seu sumiço, sabia? Não só ele, mas eu também...
Novamente, a culpa pesa em meus ombros.
– Eu sei... Desculpem-me – eu peço e solto um suspiro. – Vocês são boas pessoas, Freedays.
Ellen sorri do outro lado e, sem saber como me despedir, desligo o telefone.
É triste dizer isso, mas Ellen e seu pai são pessoas boas demais. Do tipo de pessoas que você se surpreende que sejam ricas, porque as pessoas costumam fazer gente assim de idiota. Walter, mesmo já tendo uma filha, foi gentil o suficiente para me tratar de forma igual (não como se eu não existisse, como os outros namorados da minha mãe); enquanto Ellen... Ellen é Ellen.
Levanto-me da cama e saio do quarto de Helena.
Quando eu chego à cozinha, acho que estou com cara de enterro porque as duas loiras erguem suas sobrancelhas para mim, apesar de não comentarem nada, e me passam uma tigela com várias frutas coloridas cortadas e enfeitadas quase que artesanalmente com creme de leite.
Eu me sento à mesa perto delas e como enquanto as observo enrolarem a tigela maior que continha a salada de frutas em papel filme.
– Vocês estão embalando para viagem? – eu pergunto curiosa.
Helena me olha e dá um sorriso.
– É para quebrar o gelo com o pessoal do teatro. Vamos começar os ensaios hoje e resolvemos almoçar todo mundo junto – explicou Helena. – Apesar de alguns de nós já se conhecerem de aulas ou de até mesmo de peças passadas...
– Legal – eu digo.
– É legal, sim! – a outra loira disse, animada. – Você não quer almoçar com a gente? Quer dizer, sei que você não é da peça, mas já que é amiga da Helena...
– É, Letty! Participe também! – Helena pediu, animada. – Obviamente você sabe quem vai estar lá, não é?
Eu fico vermelha de repente e a outra loira encara tudo com curiosidade, mas ela não pergunta. Sabe que mal nos conhecemos para ficar de intimidade.
– Bem... Nós já temos um encontro hoje, então... – eu começo.
– Você vai e ponto! – Helena me interrompe decidida.
Fito-a irritada, mas ela só dá um sorriso largo e duro. Ela já decidiu por mim e eu me pergunto por que ela sequer deu ao trabalho de perguntar. A outra loira só ri da decisão de Helena como se já estivesse um pouco acostumada com isso e dá de ombros para mim. Como se ela dissesse: “É. Não tem escolha”.
– Eu vou tomar banho e me arrumar – Helena avisa para nós duas. – Estou toda suada...
Nós concordamos com a cabeça e um silêncio constrangedor paira sobre eu e a estranha.
– Então... Acho que ainda não sei sobre o que é a peça de vocês... – eu tento puxar assunto, observando a loira terminar de enrolar a salada de frutas.
Ela sorri para mim.
– É uma releitura de Drácula. Eu gostei do roteiro... Têm personagens bem originais, as músicas são legais e ainda tem muito talento misturado – ela comenta divertida. – Esse espetáculo vai ser bem grande... Eu vou fazer a Mina e Helena vai fazer a Lucy. Eu achei que esse é o papel perfeito para ela.
Eu concordo com a cabeça, rindo.
– À frente de seu século, desinibida e festeira... Sim, eu acho que é ela – eu brinco.
Ela ri comigo e Helena grita do quarto:
– Eu estou ouvindo essas putarias ai!
Nós duas olhamos para a porta e rimos mais baixinho.
– Eu não sei como você se chama... – eu digo constrangida.
– É Ginie – ela se apresenta, estendendo a mão.
– Eu me chamo Letty – respondo apertando sua mão.
– Que fofo! – ela exclama sorrindo.
– Na verdade, não. Letty é apelido. Meu nome é Brucena – eu confesso.
Ginie faz uma careta e um sorriso solidário.
– Prazer te conhecer, Letty – ela diz, frisando o apelido. – Ginie é apelido também. Meu nome de verdade é Guinevere... Então, eu te entendo.
– O seu ao menos é um nome legal – eu digo. – É a mulher do rei Arthur...
– Minha mãe é professora de história... Com uma especialização em era medieval – Ginie explicou. – Ela sabe que eles podem nem ter existido, mas ela adora as histórias da távola redonda.
Ginie me lança um sorriso divertido e eu sorrio porque ela sorri e parece maldade não tentar ser simpática. Helena volta quando eu e a loira estamos completamente sem assunto, vestindo uma camisa curta e calça jeans skinny branca com snickers azuis. Seu corpo de modelo me deixa constrangida e complexada.
– Vamos crianças... Que bom que não se mataram – a garota de cabelos loiro morango disse, pegando a salada de frutas e indo até a porta.
– Ela não é você despertar esses instintos assassinos – brinco, pegando um casaco escuro.
Helena ri, como se soubesse de algo que eu não sei, e Ginie abre a porta para a sua colega de teatro e eu a fecho.
Descer as escadas é mais fácil do que subir e isso é um alívio, ao mesmo tempo em que é uma dor só de pensar que eu terei de subi-las mais tarde sozinha. Isso me fez pensar que eu vou precisar de ouro lugar para ficar antes que eu acabe morrendo por fazer tantos exercícios.
Helena e Ginie estão conversando sobre as pessoas com quem contracenam e os outros personagens. Eu não me meto na conversa por achar que vou ser muito intrometida, todavia, sempre que eu ouvia o nome de Quentin meu rosto corava. Meu coração perdia uma batida.
E Helena percebeu, mas não comentou nada.
– Acho que Quentin deveria ser o Drácula – Ginie dizia pensativa – Ele é bom em encenar um cara mau... Por mais bonzinho que ele seja.
Eu coro novamente, lembrando-me de Quentin “Badboy” de noite passada (o cara que me empurrou contra a parede do corredor do apartamento de Helena). Um arrepio percorre a minha espinha e fica difícil decidir se gosto do bonzinho ou do malvado que quis meu corpo como “pagamento”.
– Mas Quentin ainda é um vampiro... E eu acho que o personagem dele será mais marcante que o próprio Drácula, com todo respeito – Helena diz.
Ginie pondera com a cabeça e saímos para a rua. O sol está ameno e há um vento frio irritante que me faz questionar se Helena sente frio ou a pele dela é blindada contra as imprevisões do clima. Como as duas deram uma pausa na conversa, eu perguntei:
– Qual é o personagem de Quentin, afinal?
Ginie me olhou surpresa e Helena sorriu com malícia. Engoli em seco.
– Ele é o Sorci. Sabe quem é?
– É o primeiro cara que vai para a Transilvânia para cuidar da compra de Carfax Abbey. No livro, ele aparece no sanatório e come insetos – eu respondo, então faço uma careta. – Urgh, me diga que Quentin não vai precisar comer gafanhotos, aranhas e esses bichos, né?
Helena dá uma gargalhada enquanto Ginie me olha surpresa.
– Seria engraçado – Helena diz entre risadas. – Mas não. Na nossa peça, Sorci é só um vampiro que mora com Drácula e fala por ele. Ele representa a alma do Drácula...
– Você parece uma expert no assunto – Ginie comenta com curiosidade.
– Eu li o livro... Assisti ao filme com Gary Oldman... E ao filme “Drácula, Morto, mas feliz” – respondo dando um sorriso amarelo.
– Bem, você vai gostar do nosso Sorci. Ele foi bem disputado entre os atores – Helena diz.
O assunto se encerra e Helena e Ginie voltam a falar sobre aquelas coisas que me fazem sentir perdida. À nossa frente, a construção de estilo neoclássica do Teatro Municipal chama completamente a minha atenção. Ele fica quase de frente para a praça onde eu costumava passear com Riot e sua construção branca vermelha rouba toda a atenção e o transforma em referência para qualquer grupo turístico que passe pela nossa cidade.
Ele é de roubar o fôlego, mesmo assim, foram poucas as vezes em que eu já assisti a alguma peça de teatro ou espetáculo por lá.
Para a minha decepção, nós não entramos no teatro em si, mas numa construção que fica no mesmo terreno, passando pelo prédio neoclássico. É uma construção mais nova onde fica a escola de teatro que Quentin e Helena frequentam, eu acho. Trata-se de um prédio retangular, de janelas amplas, e porta de vidro larga e espaçosa.
– Vocês ensaiam no lugar onde vocês tem aula? – pergunto curiosa, nem percebendo que interrompi a conversa das duas.
– Sim – Helena responde, enquanto Ginie abria a porta de vidro para mim e para a sua colega. – Mas as salas para ensaio ficam num lugar diferente das salas para as aulas...
Logo na frente, é uma sala que parece uma recepção. Um garoto da mesma idade ou mais velho que eu está sentado atrás de um balcão parecendo muito entediado e jogando um jogo no PSP. Ele ergue o olhar para as duas garotas que lhe acenam e sorriem; ele responde com um aceno de cabeça e me olha com curiosidade.
– Olha, Letty. Aqui é onde você se matricula para as aulas. É a secretaria – Ginie explica. – Aquele é o filho da secretária, Jeffrey Walters.
– Pensei que o ensaio de vocês duas já tivesse acabado – ele comenta olhando para GInie e para Helena. Depois ele olha para mim com curiosidade. – Quem é a sua amiga?
Ele dá um sorriso que eu fico constrangida em retribuir. Ele está me encarando tanto que acho que deve ter algo de estranho em meu rosto ou o meu rosto deve ser estranho. Seu sorriso parece bem debochado, não é?
– Essa é a Letty. Ela veio conhecer o lugar – Ginie responde, puxando-me para que ficasse entre ela e Helena. – Nosso ensaio já acabou, mas voltamos para almoçarmos com aqueles que ainda estão ensaiando... Então, com licença...
Helena quase sai correndo da recepção enquanto Ginie sai me empurrando por um corredor que fica ao lado da mesa onde o garoto estava. Depois de passarem por uma catraca – a qual eu tive que pular por ser uma “intrusa” e eu não gostei disso -, Helena deu um suspiro aliviada.
– Boa saída, Ginie – a loira disse para a outra.
– Ele estava a encarando demais – ela responde dando de ombros.
– Eu já estava me perguntando se havia algo de errado no meu rosto – comento passando a mão só para ter certeza que não estava com nenhuma espinha ou algo nojento e anormal.
Helena e Ginie olharam para mim com incredulidade.
– Não há nada de errado com o seu rosto. Esse é o problema... – Ginie disse. – Jeffrey já deu em cima de toda garota bonita que passa por aqui.
– Ele é um cafajeste – Helena avisa. – Fique longe dele.
Há tanta raiva em seu tom de voz, e parece estar se lembrando de algo no passado, que ela acaba se esbarrando em alguém que está acompanhado de mais três pessoas. Pela primeira vez, a vejo ficar sem graça e corar. Isso é um feito extremamente raro e épico.
– Desculpe, Diretor Hayes – minha amiga pede.
– Sem problemas, Helena. Até que enfim vocês chegaram com a sobremesa! – o homem exclama olhando para a tigela de salada de frutas de Helena e Ginie. – Tem gente lá dentro que já estava impaciente...
Sem cerimônias, o homem de cabelos loiros e olhos castanhos abre uma pequena abertura no papel filme e pega um pedaço de morango, comendo-o com gosto. Estou me perguntando quem é ele para que Helena não aja como de habitual quando ele me olha... E parece chocado.
– Quem é você? – ele pergunta quase sem voz.
– Er... Eu sou...
Eu me encontro atrapalhada. Não sei se ele está chocado porque não faço parte da peça e estou ali de penetra, todavia, pelo modo com que ele me olha de cima a baixo e me rodeia como um animal vendo um objeto curioso... Acho que é por outro motivo. Não gosto disso. Sinto-me exposta e desconfortável.
– Eu me chamo Letty e...
– Você está na peça, Letty? – ele pergunta, parecendo menos chocado, parado ao lado de Helena e roubando mais um pedaço de morango.
– Não, mas...
– Foi o que eu pensei... Se estivesse, duvido que eu te daria outro papel que não o de Minna! Você é exatamente como eu queria que ela fosse! – o homem exclama maravilhado. – Diga-me, você dança?
Ginie se engasga ao meu lado e eu me sinto mal por ela.
O papel de Minna era dela, não era?
– Não, eu não danço... Mais – respondi constrangida.
– Então o que você-...
– Diretor – Ginie o interrompe, sua voz parece surpresa e mascara uma onda de chateação que eu sinto me dando um soco no estômago. – Letty não faz nada, nem estuda aqui... Ela só veio porque está morando com Helena.
Pela primeira vez, escuto uma provocação na voz de Ginie.
– Ah... Entendo... – ele diz, parecendo decepcionado. – Que pena, você realmente daria uma ótima Minna... Enfim... Levem para dentro antes que eu acabe com os morangos dessa salada de frutas, por favor.
Ele ri com gosto e sai caminhando com os seus amigos que não falaram nada durante toda minha conversa com ele. Isso foi assustador. Ginie me lança um olhar raivoso (ou magoado) e me empurra para que possa entrar numa sala de portas amplas e abertas. Olho para Helena sem entender o que passou.
– Essa é a Ginie... É um amor de pessoa até que se sinta ameaçada – Helena suspira.
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