Nosso Nome Na Lista.
12 Capítulo 12 - Depois das Aulas.
Notas iniciais
Capítulo 12 – Depois das Aulas.
.
“Essa. Vida. Não. É. Para. Mim”.
Enquanto Olivia e Paloma riam feito umas malucas por algo que no fim nem teve graça (Afinal, qual era a graça de saber que alguém de Jersey Shore foi preso por espancar um cara que chamou as garotas de putas numa festa?), mais eu percebia (ou melhor, entendia) o porque Quentin, do outro lado da mesa, parecia estar totalmente indiferente e alheio àquela baboseira.
Foi inevitável não desviar o olhar de Gabriel (o garoto loiro de rosto angelical) para Quentin e não desejar que eu estivesse sentada mais perto dele para falarmos de coisas realmente interessantes. Como “Divergente”, “Jogos Vorazes” e esses livros maravilhosos. Ele escolheu aquele instante para me olhar também. Acabei fraquejando e voltando a encarar Gabriel.
Ainda estava constrangida pelo meu repentino ataque possessivo para cima de Quentin.
Pareço uma Harpia da série: “Senhores do Submundo”¹ só com a diferença de não conseguir arrancar a traqueia de um homem com os dentes, não ser sexy e nem me vestir como puta, e nem ter uma libido que parece nunca se esgotar. Mas o lance da possessividade, ainda estava lá. Fazendo-me querer gritar cada vez que Yvonne se debruçava na mesa para perguntar alguma coisa ridícula à Quentin.
Argh, que vontade de realmente poder arrancar sua traqueia com os dentes!
– Então, Brucena...
– Letty – eu corrigi o loiro instantaneamente, atraindo quase todos os olhares da mesa (inclusive Quentin e Yvonne). Merda. – Eu... Odeio que me chamem pelo nome. Prefiro Letty.
Ele assentiu, concordando com a cabeça, assim como os outros. Urgh, vou vomitar. Sério.
– Bem, como e por que você quebrou o nariz de Amber Harrison no semestre passado? – ele perguntou, debruçando-se sobre o punho cerrado, numa pose de interesse.
Oh, sim, a vez em que alguns amigos me deram as costas porque eu era uma “odiada” a partir daquele momento. Acho que, só quem permaneceu ao meu lado, foram Olivia e Paloma. Ao invés de manterem distância, com medo do que as pessoas diriam, elas diziam com satisfação: “Ela mereceu”.
Fitei meu copo de pudim e deixei um sorriso de canto se esgueirar pelo canto da minha boca. Foi um sorriso involuntário, mas sincero.
– Porque ela estava testando até onde ia a minha paciência – eu disse. – Quem é que suporta ser provocado e fingir que está tudo bem? Meu sangue fervia demais para suportar mais uma maluca pelo Duncan.
Gabriel riu, assim como todo mundo... Será que eu havia ativado meu tom sarcástico e nem percebera? Eu havia falado sério, porra! A garota era tão maluca pelo jogador de futebol que quase ela se equiparava com Yvonne. Tanto... Que eu acredito que as duas haviam criado um time anti-Letty para me torrar a paciência!
Todo mundo olhou para o capitão do time de futebol, na ponta da mesa. Perto de Quentin e Yvonne. Ela deveria estar se alternando suas “atenções” entre um e outro. Uma perfeita prostituta. “Alpinista social” era ela mesma.
– O que posso dizer? Sou irresistível – ele brincou mais um pouco.
Fiquei pasma. Duncan não era de se achar demais. Duncan jamais diria: “sou irresistível”.
Bufei, sentindo o meu estômago queimar. Acontecia em raros momentos de ansiedade ou raiva. A médica disse que era também por eu comer pouco. Respirei fundo, tentando me acalmar, e espetei a salada para drenar um pouco da minha frustração. Olhei para Quentin, sentindo seu olhar quase ardente sobre a minha pele.
Um sorriso trágico e, ao mesmo tempo, cômico estava em seus lábios beijáveis.
...
– Ele está totalmente, na sua, Letty! – Olivia disse, empolgada, enquanto guardava seu material em seu armário laranja. Eu realmente odeio a cor dessa escola.
Dei um pulo, sobressaltada. Quem? Quentin? Será que, enquanto caminhávamos pelos corredores, eu havia deixado soltar alguma palavra sobre o garoto? Oh, merda, elas iam me encher o saco agora. Tá bom, Letty, sorria e se faça de sonsa!
– Quem? – perguntei, fingindo estar com a cabeça nas nuvens.
– Gabriel, é claro – Paloma respondeu, revirando os olhos.
Ah, não era Quentin. OK.
– Eu nunca tinha reparado nele antes, acho que porque ele é bem comum... Mas ele pareceu encantado por você... Quer dizer, ele praticamente só sorria para você... E depois de ver vocês dois juntos... Acho que combinam – ela encerrou, dando um sorriso de pura empolgação e fechando a porta do armário.
Forcei-me a dar um sorriso rápido.
Não. Ele não gostava de mim. Ele gostava da “Letty animada, quase-bêbada, da festa” ou ele gostava da “Letty da lista”. Pelo menos, ele nunca havia dirigido uma palavra para a “Letty que bateu em Amber Harrison e foi parar na lista dos odiados” ou para a “Letty bulimica que novamente foi parar na lista dos odiados”.
– O que foi, Letty? – Paloma perguntou. – Você parece preocupada o dia todo...
Eu respirei fundo e meneei com a cabeça.
– Não é nada – neguei, tentando soar cansada. – Tenho que ir falar com a psicóloga, então... Vejo vocês amanhã, tá?
Elas trocaram um olhar de preocupação, mas não disseram mais nada. As duas sabiam que, mesmo se perguntassem, eu não iria lhes dizer. Por isso, elas concordaram com a cabeça e se despediram, Às vezes olhando para mim. Enfim, era bom ficar sozinha.
Segui para a parte onde a pedagoga, Rebecca, ficava. Meu coração quase parou ao ver Quentin debruçado sobre o balcão da secretária, mas não comentei nada. Cara... Eu nunca havia reparado o como ele parecia ter uma bunda bonita. Mas que bizarro, isso! Um cara com bunda, que coisa rara... Geralmente, homens não têm glúteos desenvolvidos, não é?
Quentin devia ser um bom corredor...²
Balancei a cabeça. Tentando me livrar de pensamentos impróprios.
“Respira! Respira! Aja normalmente! Normalmente!” mandei a mim mesma.
– Ainda com documentações pendentes? – questionei, tentando soar despreocupada.
Ele se virou para mim e deu um sorriso de canto.
– Não. Estou numa pequena investigação particular – ele respondeu. – E você?
Oh, merda. Ele havia perguntado por hábito, mas eu tinha uma resposta constrangedora, não é? Falar que eu tinha um encontro semanal com a pedagoga era o mesmo que admitir que eu estava maluca... Ele ia me achar uma maluca, se já não soubesse disso.
Pensei em algo para dizer, mas Sophie, a secretária disse:
– Ah, Brucena. Rebecca está te esperando na sala dela.
Fiquei vermelha de vergonha. Pronto, agora não dava para mentir.
– Vim ver a pedagoga – respondi, sentindo-me derrotada.
O meio sorriso de Quentin se alargou quase num sorriso completo.
– E por que esse tom de vergonha? Não há nada de errado em procurar alguém para conversar sobre os problemas cotidianos – ele comentou, virando-se para mim.
– Se tem quando não é você quem procura. Minha médica meio que impôs para mim... – eu respondi com um suspiro. — Ela disse que não adiantava nada cuidar da minha saúde se eu não cuidasse da minha mente primeiro.
Oh, merda. Acabei de admitir que sou meio louca...
– Sua médica tem razão... Mas você se incomoda com muito pouco – ele soltou, dando um ponto final com nossa conversa. Então ele se virou para Sophie: – E aí? Vai poder me ajudar ou não, docinho?
A mulher olhou para ele com ares de cansaço. Era óbvio que a beleza de Quentin não deslumbrava aquela pobre mulher de vinte e sete anos como deslumbrava as garotinhas que eram dez anos mais novas. De algum modo, ver alguém resistindo ao charme de Quentin fez um bem danado para o meu ego. Nunca pensei que isso fosse possível com ele.
– Não. Lamento, mas não há como. Não tem como eu te deixar ter acesso às avaliações feitas ou nada assim, Quentin. Desculpe – ela disse, mas não parecia sentir. Parecia querer expulsá-lo da sala a pontapés.
– O que você quer com as avaliações, Quentin? – perguntei.
– Investigação pessoal – ele voltou a dizer, puxando um grosso e grande livro de cima do balcão da secretária. Um anuário do ano passado. – Quero saber a quem pertence essa caligrafia.
Peguei o livro da mão dele e observei a primeira folha. Ainda não era onde começava as fotos, era somente uma folha azul celeste vazia, onde se via escrito com caneta prateada e brilhante: “Meu amor, minha vida, beijos: O. P.”.
– De quem é esse anuário? – perguntei, chocada.
– Você conhece o dono da letra? – Quentin perguntou.
Assenti com a cabeça.
– Claro que sim. É de Olivia. O.P.: Olivia Philips... Só que eu não sabia que algum dia ela teve um namorado ou algo do tipo. Estranho. Esse é o tipo de coisa que ela me contaria e-...
Quentin arrancou o livro das minhas mãos, pela segunda vez na vida, eu vi sua expressão fechada, e ela me deu medo. Ele estava muito sério... Volto a repetir, era muito sexy, mas ao mesmo tempo, assustadora quando você comparava com as brincadeiras e os sorrisos gentis de Quentin McCullogh. Ele parecia até outra pessoa assim.
– Obrigado – balbuciou, marchando para fora da sala. Ele se conteve somente para perguntar: — Olivia ainda está na escola?
Dei de ombros.
– Acabei de me despedir dela e de Paloma. Se você correr, talvez as encontre no estacionamento – respondi.
Ele assentiu com a cabeça e saiu da sala. Olhei rapidamente para Sophie, perguntando o por que ele havia ficado tão chateado assim. Ela não me respondeu. Somente deu de ombros e agradeceu por ter se livrado do garoto que havia passado semanas lhe enchendo o saco.
O que diabos foi aquilo, afinal?
Para começar, de onde Quentin tirou aquele anuário do ano passado? Ele só entrou esse ano... E mesmo assim, porque lhe interessaria tanto descobrir o autor daquela dedicatória? Segundo, desde quando Olivia assinaria: “Meu amor, minha vida” no livro de alguém?! Eu saberia se ela gostasse ou namorasse alguém! Ela me contaria, não é?!
– Brucena... Rebecca ainda está te esperando! – Sophie me lembrou, dando uma cutucada na minha cintura, fazendo-me saltar.
Ela riu do meu sobressalto, mas eu lhe lancei uma cara feia e fui para a sala da pedagoga.
– Letty, achei que você já nem vinha mais – ela me cumprimentou, com um sorriso divertido.
Oh, a intimidade era uma droga, não era? Não, quando você podia pedir para a mulher te chamar de “Letty” ao invés de Brucena. Dei um sorriso sem graça, não deixando de perceber o quanto Rebecca combinava com sua sala. As paredes eram beges, bem apagadas, o chão era de madeira amarela, e os móveis eram de uma monocromia nauseante, em que mudavam somente os tons de amarelo.
Não que Rebecca fosse nauseante, mas a mulher era tão apagada e sem graça quanto a sua sala. Ainda assim, ela era uma mulher muito legal e simpática.
– Tive um dia agitado, então... Senta aí que eu vou gastar bem meus cinquenta minutos de desabafos – eu disse, sentando-me confortavelmente na poltrona em frente à sua mesa.
Ela deu um sorriso. Eu a divertia. Percebi isso na última sessão e parte de mim gostava de diverti-la. Adicionar um pouco de humor ao que acontecia comigo parecia tornar tudo mais leve. Tanto quanto comentar sobre isso com alguém. E sabe qual era o lado bom de desabafar com um psicólogo? Resposta: Você sabia que eles não iam revelar seus segredos.
Ela sentou-se em sua cadeira de rodinhas e que girava e me olhou pacientemente.
– Bem... Vamos começar sobre o meu fim de semana... – eu comecei.
...
Quando cheguei a casa, encontrei Ellen descendo as escadas com a coleira de Riot e o cachorro pulando ao redor de si.
– Vai levar Riot para passear de novo? – perguntei curiosa.
Caramba, duas vezes na mesma semana? O que será que estava acontecendo com Ellen?
– Sim... – a loira respondeu, abaixando-se para colocar a coleira nele. – Afinal, você ainda está gripada e ele é o meu cachorro... Não é?
Minha gripe não estava tão ruim assim. Só era ficar espirrando às vezes, nariz escorrendo hora ou outra e um bolo desagradável na garganta. Não cheguei ao ponto de ficar imóvel na cama ou com os olhos inchados e lacrimejantes. Sou saudável como um cavalo. Todavia, nem questionei.
– Hm... Tá – eu disse. – Então... Vou para o meu quarto.
Ellen deu um aceno com a cabeça e passou por mim em direção à porta. Seus passos foram tão rápidos e largos que geraram um vento perto de mim. Era estranho ver Ellen com o humor tão sombrio e raivoso. Ela parecia estar desesperada para sair de casa... O que não podia ser bom sinal.
– Onde está a sua irmã? – mamãe perguntou.
Olhei para ela, que estava parada no último degrau da escada, segurando dois cabides cujas roupas estavam cobertas dentro de um saco plástico preto.
– Ela acabou de ir levar Riot para passear – respondi dando de ombros.
Minha mãe pareceu indignada.
– Por que você a deixou sair assim?! Não sabe o tanto que temos que arrumar em somente dois meses?! – ela brigou comigo.
– Mãe... Eu acabei de chegar! – eu reclamei. – Boa tarde para você também! E o que diabos vai ter daqui a dois meses que impossibilite Ellen de levar o seu cachorro para passear?!
Se antes minha mãe havia ficado indignada... Agora ela havia ficado furiosa. Sério. Seu rosto bronzeado até se tornou um pouco vermelho e eu jurei que ela fosse explodir bem a minha frente. Apesar de a visão me parecer meio trágica... Por algum motivo, não me vejo chorando no enterro dela.
– O concurso de Miss Primavera De Hallway! – ela exclamou exasperada. – Vai ser em abril e sua irmã precisa estar mais preparada possível!
De repente, tudo pareceu se encaixar.
Ellen devia só estar querendo um tempo para si mesma depois de toda pressão que minha mãe deveria estar exercendo sobre ela. Não era a primeira vez que ela fazia isso (em todos os outros concursos dos quais ela participava, sempre tinha uma semana em que ela fazia a mesma coisa). Sinceramente, senti pena dela.
– Ei, dona Victoria, abaixe sua bola – eu mandei, jogando minha mochila na cadeira encostada ao lado da porta. – Ellen é uma garota bonita e inteligente. Ela não precisa se preparar para uma droga de concurso. Pressioná-la desse jeito só vai deixá-la nervosa.
Minha mãe cruzou os braços e me olhou com desdém. Oh, merda... Lá vinha.
– Ah, claro... Por que você sabe tudo sobre concursos de beleza, não é Bruce? – Ela riu amargamente antes de dar as costas e voltar a subir as escadas.
Ah, tá... Como se ela não houvesse acabado de enfiar uma estaca no meu coração e na minha autoestima. Ah, que vontade de fazer o mesmo nela... Só não faço porque vampiras morrem com isso e ainda não estou pronta para me tornar a assassina da minha mãe.
Fale com o autor