Nosso Nome Na Lista.
32 32 - Papai Está de Volta.
Notas iniciais
Ele havia voltado.
Não era uma ilusão ou um sonho. Ele estava ali: oferecendo-me um copo de água-com-açúcar e pedindo para eu respirar de vagar. Mesmo com essas recomendações, eu ainda sentia como se fosse vomitar a qualquer minuto, quase como se eu houvesse comido uma bola de golfe e ela ficara presa na garganta.
É difícil dizer se ele havia mudado muito, ou não. Minhas lembranças de dez anos atrás obviamente apresentavam falhas, mas vê-lo novamente era como relembrar daqueles tempos. Relembrar da textura macia dos seus cabelos loiros, do brilho de seus olhos azuis escuros e da profundidade de suas marcas de expressão.
– Eu já estou bem – eu disse, um pouco incomodada por toda aquela atenção com o meu desmaio. – Tô melhor... Só... Fiquei surpresa.
Micha coloca o copo que me obrigou a tomar na mesa de centro – ele havia me levado para o sofá durante minha pequena crise –, e se virou para mim. Seus olhos me analisam rapidamente de uma maneira que me deixa constrangida.
– Você ainda parece um pouco pálida – ele reclamou preocupado. E pede para Tara como se ela trabalhasse para ele: — Você pode trazer uns biscoitos, por favor?
Ela afirma com a cabeça e deixa a sala de estar, passando pela minha mãe. Victoria pela primeira vez parece uma daquelas vilãs da Disney que estão remoendo seu plano que não deu certo no canto da sala. Pela primeira vez, eu nem me incomodo com isso.
A sala ficou mergulhada em silêncio por uns bons minutos... Até meu pai se virar para mim e encontrar coragem para dizer:
– Você tem um jeito engraçado de demonstrar surpresa.
Foi uma piada e ele esperou que eu risse.
E foi o que eu fiz. Eu não caí na gargalhada, nem dei uma risadinha para não perder a amizade, mas eu sorri e me joguei em cima dele com um abraço logo em seguida. Meu coração martelava no peito, agitado, ansioso, sedento... Totalmente fora de controle, como fica quando Quentin se aproxima de mais ou me agarra do seu jeito de repente.
Seu cheiro familiar, nostálgico como um déjà vu, me invadiu e me acalmou.
Aos poucos, meu coração também vai se acalmando.
– Senti saudades – murmurei para ele, para que só ele ouvisse.
Ele me abraça de volta, meio sem graça, mas firme e seguro.
– Eu também senti – ele respondeu também, só para mim.
Quando nos afastamos, eu limpei os olhos marejados para não chorar de fato. Não havia nada que eu odiasse mais do que lágrimas escorrendo pelo meu rosto, deixando tudo salgado e grudento. Mas, mal limpei meu rosto, ele o pega entre suas mãos e o analisou como se procurasse alguma coisa.
Fico apreensiva com o que é.
– Você cresceu – ele disse, reflexivamente. Um sorriso divertido e saudoso aparece em seu rosto. — Vou precisar de uma foto mais recente para o meu escritório.
Eu dei um sorriso sem graça e Tara voltou para a sala com os biscoitos. A moça parecia confusa, mas um pouco feliz, tal como Julie, parada do lado de fora da porta. Ela colocou os biscoitos sobre a mesa de centro e saiu.
– Então... O que aconteceu de verdade? – Micha perguntou um pouco hesitante, mas um pouco ansioso. – Depois que eu tive que viajar e sua mãe disse que você estava com ódio de mim porque me culpava por arruinar o casamento?
Olhei de relance para a minha mãe, ela me fitava de volta com os olhos vazios. Como se soubesse que eu não iria mentir para ele e nem havia porque mentir. E foi quando ela virou-se de costas para nós e foi embora. Deixando-nos sozinhos.
Não esperava isso dela.
– Eu nunca te culpei pelo fim do casamento – eu confessei, voltando o olhar para ele. – Quer dizer, talvez eu tenha culpado depois que me senti descartada... Afinal, você foi embora. Foi embora para a Alemanha e me deixou aqui. Prometeu que ligaria, que escreveria, que se comunicaria comigo... Mas nunca recebi uma ligação, ou um postal.
– Mas eu-...
– Eu sei – eu o interrompi. – Eu descobri as cartas, os postais... Mamãe havia escondido tudo numa caixa no quarto dela... As empregadas sabiam de tudo também. Só que nunca me contaram porque tinham medo dela e ela até mesmo encobriu tudo com mentiras. Sei lá do que ela é capaz.
Ele franziu o cenho e fitou os biscoitos sobre a mesa. Ele me ofereceu um, que eu peguei por educação e pegou um para si mesmo. Mas, na primeira mordida, ele fez uma careta e devolveu.
– Essa merda não tem açúcar? – perguntou indignado.
Eu ri.
– Açúcar engorda, então... – Eu terminei com um dar de ombros.
Meu pai me olhou como se isso fosse loucura.
– É por isso que você está tão magra? – ele perguntou chateado. Magra? Quase ri na cara dele, mas não o fiz. Gostaria de responder que sim, mas justamente pela resposta ser oposta, eu não disse nada. Ele segurou a minha mão. – Vou conversar sério com a sua mãe. Sobre tudo isso: as mentiras e todo o resto... Ela tem sorte por eu não meter um processo nela.
Ele parecia muito chateado, mas, mais que isso, ele parecia estar querendo se desculpar. Por ter se omitido, por ter sumido, por ter me deixado sozinha... por não ter lutado. E eu meio que entendo a culpa que ele poderia estar sentindo.
Eu soltei um suspiro.
– Não entendo porque ela fez isso tudo – eu lhe confessei. – Quer dizer, ela me disse tanto que sou gorda e feia e... Uma decepção. Mesmo assim, porque ela insistiu em me manter por perto? Por que ela não me deixou ir morar com você ou... sei lá, me mandou para um internato?
Micha me olhou como se não acreditasse.
– Feia? Gorda? Uma decepção? – ele repetiu incrédulo. – Você não é nada disso! E, acredite Letty, eu nunca teria te deixado se dependesse de mim... Mas sua mãe queria ficar com você e, não sei se você sabe, mas a justiça sempre dá preferência para que os filhos fiquem com as mães... Além do mais, como ela queria tanto ficar com você, achei que ela te trataria muito bem... Achei também que vocês se entenderiam melhor porque as duas eram mulheres. Nunca imaginei que ela te maltrataria...
Ele parecia tão convencido daquilo, e também tão culpado... Seu tom estava cheio de um tom que parecia dizer: “eu deveria ter percebido que não seria assim” que senti uma vontade enorme de dizer que a culpa não era dele.
– Desde que você ligou, venho pensando se ela não insistiu tanto para ficar com a sua guarda simplesmente para me punir – ele confessou pensativo. – Não sei se você se lembra, mas você e eu éramos muito unidos...
– Como não? Eu amava o seu escritório – eu disse, sorrindo ao me lembrar. – Tinha uma estante cheia de livros... E parecia que era o único lugar onde ninguém me machucaria. Era um lugar tão cheio de você... Que fiquei arrasada quando nos mudamos de casa depois do divórcio.
Micha deu um meio sorriso e acariciou o meu rosto. Era estranho, mas também muito bom, tê-lo acariciando meu rosto. Era estranho o como eu o via com meu pai, mas ao mesmo tempo, às vezes ele parecia um estranho.
– Por quanto tempo você vai ficar? – eu perguntei, quase não querendo fazer a pergunta. Era muito bom tê-lo de volta de novo, para depois acabar perdendo-o.
Ele também pareceu desconfortável.
– Por um tempo... Algumas semanas talvez... – ele respondeu. Soltou um suspiro logo depois. – Desculpe por demorar a chegar... Havíamos acabado de lançar um novo produto, então eu não pude largar tudo para vir te ver.
Eu sorri.
– Você está aqui agora – eu disse. – Isso é mais do que eu esperava.
– Você não ligou – ele comentou chateado. – Eu esperei, sabia? Se você tivesse ligado, eu poderia ao menos ter trabalhado em paz... Mas invés disso, eu fiquei imaginando se sua mãe teria tirado o seu celular ou algo do tipo...
Eu corei.
– Eu... Meio que tinha medo... De te ligar e... Sei lá – eu confessei, totalmente sem graça. – Tinha medo que tudo fosse um engano ou que você não se importasse mesmo comigo... Eu esperei por tanto tempo que você ligasse que... Acho que estava em negação.
Ele pareceu incrédulo, mas não pareceu ofendido.
– Como poderia ter sido um engano? Como eu poderia não me importar com você? – ele perguntou, abraçando-me logo depois. – Você é a pessoa mais importante na minha vida, Letty... Eu te amo.
Sorri. Nunca haviam me dito que me amavam antes.
Ou melhor, não com essas três e clássicas palavras.
– Eu te amo também, pai – eu murmurei, apesar do constrangimento que me fazia corar. – Só espero que você consiga recuperar o tempo perdido nessas semanas.
– Se não der... Você vai comigo para Alemanha – ele disse.
Suas palavras deveriam me trazer conforto, todavia, tudo o que elas fizeram foi drenar meu sangue do meu rosto. Eu fiquei gélida. Fechei os olhos, rezando para que ele houvesse dito isso brincando, e não de verdade, mas quando ele me soltou, percebi que era sério sim. E ele estava feliz com a ideia.
– Hum... Pai... Não posso ir para a Alemanha com você – eu disse.
Seu sorriso se desmanchou e seu rosto se transformou. Ele estava confuso agora.
– O quê? Por quê? – ele perguntou sem entender.
– Ah, pai... – Eu suspirei, sentindo-me constrangida. Será que eu falava de Quentin para ele? Não o conhecia bem demais para saber como ele iria reagir... – Eu tenho amigas aqui, e ainda estamos no período letivo na escola... Não quero perder o semestre.
Ele refletiu sobre isso acenando a cabeça.
– É. Tem razão – ele concordou. – Talvez seja melhor você terminar os estudos primeiro e depois pensamos sobre você se mudar para a Alemanha... Mas você bem que poderia ao menos passar umas férias prolongadas por lá, não é?
Eu sorri, agradecendo mentalmente pelo o quanto ele não é um ditador quanto a minha mãe. Tenho certeza que ela me levaria para a Alemanha sem se importar com nada, como ela fez depois que se divorciou.
– Seria demais – eu concordei, sorrindo. – Poderíamos passar as férias de Inverno juntos, em Berlim...
– Ou em qualquer outro lugar na Europa. Tudo lá é muito perto – ele sugeriu.
Gostei de como aquilo pareceu e o abracei de novo. Eu não era de abraçar as pessoas do nada, ou de ser muito carinhosa com elas. Quentin gasta toda a minha cota de carinho... Mas gosto de abraçar meu pai. Gosto de quando seu cheiro nostálgico me invade e me acalma. Gosto de sentir o quanto ele me acha importante.
Ele veio da Alemanha só para me ver.
Pensar nisso quase me faz querer chorar de emoção. Mas eu não gosto de chorar.
– Senti muitas saudades – eu disse, com a voz sufocada pelo seu casaco.
– Senti saudades também – ele respondeu, com a mão acariciando minhas costas.
Ficamos um bom tempo assim. Só abraçados e em silêncio. Não havia mais mal entendidos, e se tivesse, agora não era momento para esclarecer tudo de uma só vez. Eu queria que ele me falasse sobre o que fez quando foi embora, como é a sua vida na Alemanha, e eu ainda perguntaria sobre isso... Mas agora não.
– Letty – ele me chamou pelo apelido que ele me deu, afastando-me para me olhar no rosto. – Preciso conversar com a sua mãe, tá?
Franzi o cenho.
Sobre o quê ele iria querer falar com Victoria?
– É coisa de adulto – ele respondeu à pergunta não verbalizada.
– Eu já tenho dezoito anos, pai – argumentei cruzando os braços.
Micha ri.
– Nossa, você está velha! – ele brincou. Então, esforçando-se para ficar sério de novo, ele disse: — Sério, Letty. Preciso falar com a sua mãe. À sós.
Mordi o interior da bochecha. Não gostava de meu pai conversando com a minha mãe, sozinhos. Não que eu esperasse que eles se reconciliassem ou algo assim... Mas minha mãe era a rainha da mentira, e se ela contasse algo para ele, sobre mim, que o fizesse mudar de ideia e ir embora no mesmo instante.
Respiro fundo, tentando afastar essa ideia, afinal, não é como se meu pai não conhecesse sua ex-mulher tão bem. Olha até onde chegamos por culpa dela. É óbvio que ele sabe com que tipo de mulher ele se casara. Sendo assim, obriguei-me a ficar calma e sorri, tentando parecer confiante.
– Tudo bem... – eu concordei me levantei. – Vou pedir para Tara ir chamá-la então.
Ele sorriu e agradeceu com um aceno de cabeça.
Fui para a porta e a abri, encontrando Riot me esperando do lado de fora e Ellen escutando atrás da porta. Seus olhos estavam marejados, mas acho que não eram por causa de Lucien dessa vez. Não pelo modo com que ela se jogou em cima de mim com os braços abertos.
– Ai, estou tão feliz por você, Letty! – ela exclamou, toda sentimental.
– Ellen, por favor... – eu pedi constrangida, tentando fazê-la me soltar. – Ele quer falar à sós com a mamãe... Então, vou chamá-la.
Minha meia-irmã assentiu com a cabeça e me deixou em paz. Quando eu fui para a cozinha (pedir para Tara chamar Victoria porque nem eu ou Ellen faríamos isso), eu já estava rezando para que Lucien voltasse logo com minha meia-irmã, pois ela estava emotiva e grudenta ao extremo desde que ele a deixara daquele jeito.
Para a minha surpresa, Victoria estava na cozinha.
– Ele quer falar com você – eu disse, tentando parecer fria.
O que eu queria naquele momento, era dar um soco na cara dela. Talvez eu não seja uma boa garota. Eu sou uma garota má que quer bater na própria mãe! Mas não me sinto culpada. Não era como se ela fosse uma boa mãe também, afinal. Talvez ela merecesse o soco que eu queria dar.
– O que ele disse para você? – ela perguntou.
Eu revirei os olhos.
– Você nunca se importou comigo. Não venha fingir que se importa agora – eu respondi. – Se você quer saber, vá perguntar para ele.
...
Meu pai não me disse sobre o que ele falou com a minha mãe.
Antes de ir embora, descansar no hotel em que ele se hospedou, ele se despediu de mim e marcamos de nos encontrarmos para fazermos coisas juntos. Como eu dissera, íamos tentar recuperar o tempo perdido... E se não desse totalmente certo, iríamos ter as férias de inverno na Alemanha.
Surpreendi-me somente com o silêncio da minha mãe.
Quando ele foi embora, depois do que quer que tenha sido a conversa, ela ficou em silêncio, observando-o se despedir de mim. Gostaria de saber no que ela estava pensando. Gostaria de saber também o que ela estava sentindo, agora que seus planos de me afastar do meu pai estavam arruinados. Mas, como aquela implacável e fria dama de ferro que ela era, seu rosto não transparecia nada.
Isso me incomodava nela.
– Sobre o que será que eles falaram? – Ellen me perguntou depois que mamãe saiu.
Eu dei de ombros.
– Não faço ideia. Papai não quis me dizer – confessei-lhe.
Ellen suspirou.
– Por que os adultos insistem em não contar nada para gente? – minha meia-irmã perguntou indignada. – Você já é maior de idade, afinal!
Eu dei de ombros, apesar de também não entender isso.
Mas era como diziam: “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Querendo ou não, papai era marido de Victoria, mesmo com um grande “EX” na frente. Além do mais, se ele houvesse a chamado para discutirem, eu é que não ia interromper essa briga. Ela merecia cada vírgula que ele lhe dirija.
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