Nosso Nome Na Lista.
28 28 - P.O.V. Ellen
Notas iniciais
Capítulo 28 – P.O.V. ELLEN
Pode parecer estranho, mas desde que a minha mãe morreu, quando eu era pequena, eu sempre me senti muito solitária. Não só sentia falta de uma figura feminina perto de mim, mas também sentia falta de alguém a quem chamar de família. Eu sabia que tinha meu pai, e sempre o amei muito, mas ele trabalha demais... Morávamos numa casa enorme, mas completamente vazia.
Por isso, fiquei muito feliz quando ele voltou a se casar.
– Ellen... Esta é Victoria. A minha... Hum... Namorada – Ele havia nos apresentado com timidez. Papai sempre foi muito reservado no que se dizia respeito a assuntos amorosos.
– Noiva, querido. Sou sua noiva – Victoria o corrigira com gentileza, antes de olhar para mim e me medir com o olhar. O brilho que eu vi naqueles olhos azuis... Foi como uma mãe reivindicando uma filha. – Como você é bonita, Ellen! Mais do que o seu pai havia me dito...
– Obrigada, senhora – eu havia dito, feliz, mas envergonhada.
Seus olhos pareciam estar vendo algo agradável. Eu diria, que o seu olhar era o de uma crítica de arte, vendo a mais incomparável das obras-primas... Como se ela estivesse gostando completamente do que via.
Seu olhar me envaideceu.
– Ah, você pode me chamar de Victoria, querida! A partir de hoje, seremos uma família, afinal! Se quiser, pode até chamar de “mamãe” – Ela acariciou o meu rosto com ternura. – Se você quiser, eu posso ser a mãe que você, infelizmente, não teve... E você será como a filha que eu nunca tive.
Eu sorri. Nunca havia ouvido palavras de aspecto tão sincero, como aquelas pronunciadas pela Srta. Victoria Brawn, dentro de dois meses, Sra. Victoria Freeday. E então, houve o som de algo se despedaçando.
Um vaso. Um vaso barato se comparado ao resto da mobilha de nossa casa, de aproximadamente quinhentos dólares.
À frente do pedestal onde ele se encontrava, estava uma garota pálida. Meio baixa, cinco ou dez centímetros menor que eu, mas de aparentemente a mesma idade. Seus cabelos eram loiros escuros, quase castanhos. Seus olhos, baixos (mirando os cacos do vaso quebrado), pareciam ter uma coloração azul muito bonita. Ela era comum, eu diria. Sem nada de extraordinário, mas ainda assim, sua figura me intrigava.
Por que ela estava trancada em um moletom azul marinho tão largo? E aquelas calças? Ela pretendia sair voando com aquelas roupas? E o principal: quem era aquela garota?
– E- eu sinto muito! Foi um acidente, eu...
– Bruce! Pelo amor de Deus, tenha mais coordenação! – Victoria brigou, puxando-a pelo braço para longe do vaso. – Desculpe-a, Walter. Você sabe como Brucena é, não sabe?
Meu pai acenou com a mão, num gesto despreocupado.
– Quê isso. Não foi nada! Eu realmente não gostava daquele vaso... – ele disse bem humorado.
– Sinto muito – a garota, Brucena, pediu à ele mais uma vez.
– Ah, Ellen... Essa é Brucena Letterman, filha de Victoria. Brucena... Essa é a minha filha, Ellen – Walter nos apresentou calorosamente. – Brucena é um ano mais velha que você, Ellen, mas tenho certeza de que vocês serão ótimas amigas quando se conhecerem melhor.
Eu sorri para papai.
– Letterman? Mas o sobrenome da sua mãe é Brawn – observei curiosa.
– Letterman é o sobrenome do meu pai – ela respondeu, num tom mais forte. Um tom que, de certo modo, era decidido e direto. Tão afiado quanto uma navalha e acho que estava apontando para Victoria. – Eu prefiro usá-lo... E vocês podem me chamar de Letty. Não gosto de Brucena nem de Bruce.
Eu sorri. Sim, havia algo de seguro e forte naquela declaração de Letty.
– Bem... Você pode me chamar de Ellen mesmo – Eu sorri para ela. – Espero que possamos ser como irmãs, ou como boas amigas!
Ela me olhou, de cima a baixo, como se duvidasse que algo assim fosse acontecer, mas não teve coragem de observar isso.
Com o passar do tempo, percebi que as coisas eram assim: se dependesse de mim, seríamos ótimas amigas; se dependesse de Letty, não. Para ela, eu tinha uma vida boa demais para querer ser amiga da garota estranha de roupas largas. Para mim, ela era desconfiada demais para deixar eu me aproximar. Nem quando estava com suas duas amigas ela me tratava melhor.
Seu tom sempre era seco, desdenhoso e sarcástico. Sempre.
Mas eu não desisti.
Minha chance de aproximação, apareceu depois que Letty precisou ser internada no hospital por anemia e desidratação... Ela nunca me contou a história toda ou o que aconteceu. Tudo o que eu sei, e percebi, é que ela comia pouco. Nunca terminava o prato, ou, quando se servia, servia-se desconfortavelmente. Como se pensasse que todos a estavam encarando e não gostasse disso.
Letty era meio fresca com sua aparência. Tudo bem que ela não era uma modelo de passarela... Mas era bonita sim. Cabelos loiros escuros até a clavícula, olhos azuis que ora eram claros, ora eram escuros, rosto de boneca (como um anjo malicioso e infantil) e um corpo meio magro – é verdade – de barriga negativa, mas com um par de seios maravilhosos e um quadril de dar inveja até mesmo à Yvonne Tybolt – sua arqui-inimiga como Lex Luthor está para Superman.
Porém, para sua mãe, Letty era gorda e feia. Talvez por isso ela tenha crescido achando o mesmo. O que era ridículo, porque eu preferia mil vezes a beleza anjo-malicioso de Brucena Letterman à beleza magra, sem peito e nem bunda, de Victoria Freeday. E, de algum modo, o meu tipo de beleza também.
Foi numa tarde de sábado, eu ia chamá-la para ir ao shopping fazer compras (porque ela estava precisando...) Quando eu a encontrei desmaiada no quarto. Suava muito e estava muito pálida. Os médicos disseram que era desidratação e anemia, mas a psicóloga que a analisou (que perguntou para nós sobre os hábitos alimentares de Letty e que conversou com ela) disse que poderia ser anorexia e/ou bulimia nervosa.
E foi quando nós duas, inexplicavelmente, nos tornamos ainda mais próximas.
Quando Letty estava forte, ou tentava parecer forte, era difícil se aproximar dela. Ela parecia estar sempre esperando por um comentário mordaz, ou por algo que a ferisse. Ela parecia um animalzinho sempre esperando o ataque do seu predador... Mas quando ela “adoeceu”, ela abaixou a sua guarda. E ficou mais fácil para as pessoas se aproximarem dela.
Não que muita gente tivesse tentado.
Mas o que importa é que eu tentei, e apesar de ela não me contar nada sobre como se tornou anêmica e desidratada (muito menos o lance da anorexia), sei que ela apreciou minha tentativa e me deixou aproximar. Assim como ela fez com a sua companheira de quarto, Helena Plinmouth.
Por isso, eu não hesito em dizer que Letty é a primeira pessoa a quem eu recorro quando preciso de orientação. Quando preciso de alguém que me tire uma dúvida e me ajude a ver um caminho agradável à minha frente.
Por mais que eu adorasse contar com Victoria como se ela fosse minha mãe... Era óbvio que nem toda escolha que ela me aconselhava... Era aquela que me agradaria.
A maioria delas, na verdade, meio que feriam meus princípios.
Por isso eu precisava dela agora.
.
– Mamãe... Mamãe me humilhou na frente do Lucien!
Letty estreitou os olhos e franziu a sobrancelha. Seu olhar era de quem havia perdido um episódio crucial numa novela e agora parecia perdida diante a cena de revelação. Lembrei-me de que eu havia mantido alguns segredos da minha meia-irmã, mesmo que não sendo intencional. Ela só parecia estar ocupada demais diante do drama Quentin Mãe-Maluca Amigas-Lésbicas Lista, para eu irritá-la com meus dramas.
E eu duvido que ela soubesse quem era Lucien.
– Espera, rebobina. Quem é Lucien? – ela pediu, falando entre respirações.
Quase quis chorar novamente, como fiz desde que mamãe brigou comigo, e gritar: “Quem importa quem é Lucien?! Ele nunca mais quer me ver na frente dele!”, mas então eu me lembrei que eu era quem a havia chamado ali para me socorrer... E ela havia vindo.
Como o super homem atendendo a um chamado de socorro.
Respirei fundo, teria que contar toda a história para ela.
– Há algumas semanas, meu professor de Biologia pediu para eu fazer trabalho com um dos garotos mais problemáticos da sala – eu comecei, limpando o rosto de lágrimas e ranho secos. – Porque, você sabe, eu também sou uma das melhores alunas do Prof. Jaemison, e ele... Bem, nem tanto. Digamos que ele nem se esforçava.
Letty sentou-se na minha cama para ouvir com mais atenção.
– Fazer trabalho com Lucien foi mais difícil do que construir uma pirâmide no Egito antigo! Ele é aquele tipo de cara que só quer fazer o que quer, sabe? – eu contei, quase chorando ao me lembrar de como seus olhos estreitos sempre me provocavam, chamando-me de bonequinha, e seus cabelos diziam muito sobre a sua personalidade: quanto mais intenso era o que ele sentia, mais bagunçados eles ficavam. – A gente brigava quase o tempo todo e ele pegava muito no meu pé porque eu sempre faço tudo o que esperam de mim e blá, blá, blá...
Algo se acendeu nos olhos escuros de Letty. Algo como uma lembrança.
– Espere – ela pediu. – Esse tal de Lucien... por acaso, tem alguma coisa a ver com o garoto por quem você me pediu conselho? Naquele dia, da festa?
Caramba, Brucena tinha uns raciocínios rápido às vezes.
Assenti com a cabeça.
Sim, era ele. Sem dúvidas, era ele e Deus sabe o quanto eu tentei odiá-lo! Tentei mesmo. Mas como posso odiar alguém que não tem medo de dizer a verdade na minha cara? Era verdade que eu era, como ele dizia: “uma bonequinha sem vontade e manipulável, que faz tudo o que todo mundo espera”. Olha só até onde eu deixei a mãe de Letty me levar: Estou num concurso que não me interessava, tinha que esconder minhas HQs como um adolescente esconde as Playboys, namorei um cara só porque ele era “aceitável” e tratando todo mundo – até as pessoas que eu acho moralmente nojentas – como se fossem minhas melhores amigas!
Só para que no dia de um festival idiota elas votassem em mim!
– Havia uns boatos... Quer dizer, eu havia visto... Que Lenna Hattaway estava dando em cima dele... Sinceramente, ele não parecia dar muita bola, mas, sempre que eu tinha que conversar com ele, ela misteriosamente parecia ser a garota mais interessante da sala de aula – eu disse, com mágoa.
Lembrei-me de como eles ficavam bem juntos, e isso machucava muito mais do que tudo que ele já havia me chamado. Imaginei Lucien com seus cabelos castanhos indomáveis e olhos escuros (bem negros mesmo) sentado ao lado daquela beldade ruiva sardenta e magrela, tão exótica quanto ele... E a vontade de vomitar apareceu como sempre. Só imaginar eles dividindo a mesa de biologia já me deixava mal.
– Ok, mas como mamãe arruinou esse amor platônico, mesmo? – ela perguntou, chamando-me de volta para o presente e para o meu quarto.
– Bem... Digamos que naquela noite da festa não ficou só no “platônico” – eu respondi, corando. Era tão chato esconder coisas da Letty! Ela arregalou os olhos. – Depois que me assegurei que você ficaria bem com Quentin e suas amigas, eu terminei com Greg e fui embora... Como não quis voltar para casa cedo, para não preocupar mamãe, sabe? Fui para uma cafeteria passar as horas e... Ele trabalha lá...
Soltei um suspiro doloroso. Acho que até Letty sentiu a minha dor porque fez uma careta... Pensei em como continuar, mas não havia palavras para expressar o quão fofo – para os seus padrões grosseiros – ele havia sido e nem teria cara-de-pau de expressar tão eloquentemente o quão bom foi o beijo que ele me deu naquela noite.
– Começamos a nos encontrar meio que escondido... Levávamos Riot para passear só para mamãe não me encher o saco para saber com quem eu estava saindo e essas coisas, porque eu sabia que ela não ia gostar dele... Lucien não era o tipo de pessoa de quem você gosta à primeira vista... – expliquei.
Novamente, Letty pareceu esclarecida. Ela obviamente notara que eu tinha roubado o seu compromisso com Riot quase todas as tardes.
– E então tudo deu errado porque... ? – ela instigou.
Então eu me lembrei. Lembrei-me de quando mamãe nos pegou na sala de estar e das coisas que mamãe lhe disse. Coisas que feriram nós dois. Quer dizer, primeiro machucaram a ele, e depois, ele me machucou.
– Hoje eu o trouxe para casa... – eu contei, começando a chorar. – Mamãe estava fora por causa da Yoga e achei que não ia voltar cedo, mas a professora adoeceu e ela me pegou com ele! Ele se apresentou como o meu namorado... E ela disse que não sabia que eu havia deixado Greg! Pior que isso, ela se virou para mim e perguntou quando o Greg ia passar para me buscar para o nosso encontro de aniversário!
Minha meia-irmã arqueou as sobrancelhas.
– Lucien ficou puto! Puto mesmo! Mamãe falou tanta coisa, Letty! Tanta coisa! Ela praticamente deu a entender que eu estava saindo com os dois ao mesmo tempo! E... E... Ele acreditou! Disse um bando de coisas para mim e saiu furioso daqui! – eu contei, as palavras formaram uma bola de neve grudadas com soluços e gemidos. – Ele acreditava que eu havia pedido para manter segredo porque eu não queria que Greg soubesse, não pela minha mãe!
Brucena levantou-se da cama com um pulo.
Depois da surpresa, agora a minha meia-irmã estava inflada com ódio.
– Com que direito... ?! – Ela não conseguiu completar a frase.
– Ela disse que fez isso para o meu bem... Passou o telefone para mim e me mandou ligar para Greg. Mandou-me voltar com ele e dizer que eu fui uma idiota por perdê-lo... Não fiz. Saí correndo da sala e me tranquei no meu quarto. Essa mulher é louca, Letty! Louca! A gente precisa pará-la!
Abracei Brucena novamente. Não era muito bom abraçá-la, pois em baixo da pele fina, quase sempre se podia sentir os ossos (apesar de ter bunda e peito, Letty era desconfortavelmente ossuda). Todavia, havia algo no ato emocional de abraçá-la que me acalmava mais efetivamente do que ouvir dizerem “vai ficar tudo bem”.
Letty passou as mãos pelas minhas costas e pelos meus cabelos.
– Vai ficar tudo bem – ela disse gentilmente. – Prometo que vai.
Fechei os olhos e respirei fundo.
Letty usava um perfume que não era o dela, todavia, ele era tão calmante quanto. Minhas lágrimas e meus soluços foram parando aos poucos, enquanto ela acariciava minhas costas e murmurava as mesmas duas frases várias vezes. Ergui o olhar para ela, mas ela não me olhou.
Ela estava fitando a parede. Pensativamente, de um jeito bem sombrio.
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