Nosso Amor é Um Clichê
1 No Meio da Noite
Notas iniciais
O sótão é silencioso durante a noite quando todos da casa vão para a cama. Katniss pode ouvir o rangido baixo da madeira sob seus pés ao se levantar do sofá velho encostado na parede e se aproximar para sentar ao lado de Peeta na cama dele. Tem sido o ritual noturno dos dois. Depois do jantar, Peeta se despede dos pais e da família dela, dizendo que vai dormir porque está cansado do trabalho de carpintaria. Ele tem ajudado o pai e o Sr. Everdeen a construir um armário novo para a cozinha depois que o antigo teve que ser jogado fora por causa dos cupins. Algumas horas depois, Katniss deixa seu próprio quarto para ir ao sótão, mas apenas ao ter certeza de que Prim está realmente dormindo.
E esse é um desses dias. Os dois fizeram o mesmo teatro o dia todo, conversando como se fossem somente bons colegas que dividem um lugar seguro para fugir dos horrores da guerra. Ninguém poderia imaginar o que eles compartilham sozinhos tarde da noite acima de suas cabeças. Nada impróprio, é claro. Porém, Katniss não tem coragem de dizer a mais ninguém o que confidencia a Peeta: os medos profundos que a deixam acordada por horas na madrugada, com o pensamento cativo na possibilidade de que os pacificadores invadam o lugar enquanto todos dormem e a arranquem de sua família. De Prim. De seu pai. E seu medo mais recente: de Peeta.
Ela se aproximou de Peeta por puro desespero. Eles estão nesse esconderijo há meses, e tudo aquilo que podia distraí-la dos sons das bombas lá fora, dos aerodeslizadores voando acima do prédio e das notícias nada promissoras no rádio perdeu o efeito. Sua mãe estava preocupada com ela e a obrigou a tomar remédios para ansiedade. Até para depressão. Mas algumas vezes não era suficiente para tirá-la de sua melancolia, que vinha com mais força quando ela pensava nos amigos que ficaram para trás. As pessoas de seu distrito que ela não pôde salvar.
Katniss não queria enlouquecer. Não ali. Ela precisava se manter forte e sã por Prim, pelo menos. Então decidiu ser amiga de Peeta. O garoto mais novo dos Mellark foi o único que veio com os pais. Seus outros dois irmãos tinham sido convocados para a guerra há muito tempo. E nunca mais deram notícias. Peeta era o único jovem demais para ser levado pela Capital. Uma bênção e uma maldição, como ele mesmo lhe falou. Agora os pais não tiravam os olhos dele, preocupados com cada passo seu. Aparentemente, ele era a esperança de que o nome Mellark sobrevivesse depois da guerra. Essa é a questão: será que haverá um depois? Nenhum deles sabe.
Ser amiga de Peeta era mais fácil do que Katniss podia imaginar, o que a fez perceber que o problema sempre foi o comportamento arredio dela. Sendo sincera, ela não gostou quando soube pelo Sr. Undersee que eles receberiam outra família no anexo da Prefeitura. Era um sentimento egoísta, porque receber mais alguém significava mais uma vida salva das garras da Capital. Ainda assim, ela não pôde evitar ignorar o garoto loiro desde o dia em que a nova família chegou ao esconderijo. Era mais fácil. Ela já tinha pessoas demais com quem se preocupar.
Contudo, Peeta a envolveu por todos os lados com seu sorriso tímido e olhos azuis brilhantes. E principalmente com suas palavras. Ele tinha um jeito de traduzir tudo o que ela sentia e não sabia articular. Ele a entendia como sua mãe nunca pôde e como seu pai deixou de entender desde que a guerra começou.
Alguns dias ela só ficava sentada ao lado dele, olhando por cima de seu ombro enquanto ele desenhava. Eles não podiam ir lá fora. Era perigoso demais. Só era permitido abrir as janelas à noite, com as luzes apagadas, para evitar as suspeitas dos vizinhos que pudessem entregá-los. Então Peeta desenhava de cabeça o que lembrava: a padaria, o caminho até a escola, a praça da cidade. Mais recentemente ele se aventurou em pintar a casa do lago seguindo a descrição que Katniss lhe dava. Ele nunca viu o lugar. Foi o pai dela que construiu a pequena cabana próxima a um lago escondido no meio da floresta antes que as cercas ao redor do distrito fossem religadas, impedindo a entrada ou a saída de qualquer cidadão.
Ela sentia falta de nadar nos dias quentes de verão, com o sol bronzeando seu rosto e os pássaros cantando ao longe. Será o primeiro local que ela visitará quando sair dali. Peeta deve vir também, apesar de suas desculpas sobre não saber nadar. Ela vai ensiná-lo. Vai ser divertido. Ele sorriu em sua direção quando ela o cutucou nas costelas, assegurando-lhe que não o deixaria se afogar.
Mas aquela noite parecia diferente. As notícias ouvidas no rádio finalmente foram boas. O Distrito 13 entrou na guerra para apoiar os distritos rebeldes. Eles tinham uma chance real agora de vencer Snow. De voltar para casa. Isso deixou Katniss com o peito aquecido pelas possibilidades. Ela tem permissão para pensar seriamente sobre o “depois”? Porque, pela primeira vez, quer ter esse privilégio.
E é essa euforia que a deixa mais inquieta ao lado de Peeta. Os dois estão encostados na parede, sentados ombro a ombro na cama dele. Ele acabou de lhe contar sobre uma receita que gostaria de fazer quando estivessem em casa de novo. Só a descrição a fez salivar, imaginando o sabor daquele rolinho de canela.
Eles estão muito próximos. Tão próximos que ela poderia se inclinar facilmente e beijar a bochecha dele. Antes que perceba, ela de fato beija. Ele gira a cabeça na direção dela, alarmado com o gesto repentino.
Seus rostos estão mal iluminados, devido à lâmpada do sótão ter parado de funcionar no dia anterior. Agora todo o lugar depende do abajur ao lado da cama de Peeta. Seus olhos se encontram na penumbra, e ela nunca viu um azul mais bonito na vida. Durante o dia, nos poucos momentos em que se permitiu prestar atenção, aquele azul tinha um tom claro que lhe lembrava o céu após a chuva. Calmo e alegre. À noite ficava com uma coloração mais escura. Mas naquele momento ela parece contemplar o céu estrelado que só se revela quando a cidade dorme e as luzes artificiais se apagam. É profundo, inebriante e faz seu estômago revirar num misto de medo e algo mais.
Então ela comete o erro de encarar os lábios entreabertos dele. São cheios e rosados, como nos dias frios quando todo o rosto de Peeta fica corado. Seriam tão macios quanto parecem? Ela já beijou um garoto uma vez. Seu vizinho Gale Hawthorne. Ele era alto e bonito, então ela não o afastou quando ele se inclinou e a beijou no caminho para casa depois da sua terceira colheita. Foi estranho. Os lábios dele eram um pouco ásperos, e ela não sabia o que fazer com os seus. Acabou rápido. E, por vergonha, não o deixou fazer mais isso.
Como seria beijar Peeta? A pergunta surge de forma despretensiosa em sua mente. Ela não precisa ponderar muito, pois segundos depois sente a mão dele envolver sua bochecha e puxá-la para mais perto. Katniss fecha os olhos aguardando o contato de seus lábios, mas ele não prossegue. Ela abre os olhos novamente e percebe que ele está lhe dando a oportunidade de se afastar, de recuar se quiser. Não é isso que ela quer.
Katniss preenche as lacunas, agarrando o pulso dele e selando seus lábios. Peeta responde timidamente no início, como se ela fosse um animal selvagem que pudesse se afastar e fugir a qualquer momento. Ela não vai fazer isso. Não quando a sensação de suas bocas unidas, o hálito quente dele em seu rosto quando precisa se afastar para respirar, a faz se sentir viva pela primeira vez em meses.
Ele parece entender isso, pois logo em seguida prende os dedos no cabelo dela, segurando sua nuca com pressão suficiente para beijá-la com mais segurança sem machucá-la. Em sua pouca prática em matéria de beijos, Katniss apenas se deixa guiar por ele, repetindo os movimentos dos lábios dele.
Eles estão perdidos no momento quando o som de uma porta abrindo os faz recuar. Os dois se separam, testas coladas e olhos ainda fechados, enquanto ouvem os passos pesados — provavelmente do Sr. Mellark — saindo do quarto para usar o banheiro da cozinha, como ele faz todas as noites.
Katniss é a primeira a sussurrar no silêncio do sótão.
“Acho que eu deveria ir para a cama.”
“Tudo bem.” Peeta concorda, observando atentamente quando ela se levanta relutante do colchão.
Ela está de pé à frente dele, ainda incerta se é realmente capaz de sair daquele sótão. De deixar Peeta para trás. Mas se obriga, porque não quer ouvir o sermão da mãe sobre como é inapropriado estar sozinha com um garoto tão tarde da noite. Katniss se despede, dando um tchau tímido.
Sua mão está na maçaneta, pronta para abrir a porta, quando ele chama seu nome. Ela gira nos calcanhares para encará-lo. Ele tem aquele sorriso doce no rosto que a faz se contorcer toda vez que o vê.
“Quando tudo isso acabar, posso fazer para você aqueles rolinhos de canela, se quiser.” Peeta diz.
Ela sorri, sentindo aquele calor no peito novamente.
“Eu vou permitir.”
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