Nosso último adeus
1 Capítulo 1
Eu sempre fui uma pessoa muito tímida e reservada, e isso sempre foi um problema. Já deixei de fazer muita coisa por conta da minha timidez, já perdi pontos na escola por ter pavor de apresentar trabalhos na frente da sala, já deixei de ir a festas que eu queria muito ir por me sentir desconfortável, já até deixei de fazer amigos ou até mesmo vestir uma roupa que eu queria por medo de ser julgada. Mas acima de tudo, eu já aguentei muita coisa por ser tímida. Aguentei calada muita coisa idiota que me falaram por medo de dizer o que eu estava pensando, e por ter muita dificuldade em fazer amigos eu já relevei várias merdas que meus amigos fizeram comigo por medo de reclamar e acabar os perdendo.
Eu sei, isso é horrível. Já tentei fazer de tudo para me livrar da timidez excessiva, mas nem mesmo falar com o psicólogo funcionou.
O pior de tudo isso na verdade são meus amigos, não que eles sejam péssimos amigos, o problema mesmo era eu que tinha medo de recusar qualquer coisa que eles me pediam. Foi assim com meu primeiro piercing, com a primeira vez que eu fiquei embriagada e com meu primeiro cigarro. Eu me tornei uma pessoa completamente diferente depois que entrei na faculdade e conheci Shino e Kiba, os únicos amigos que eu já tive na vida. Durante todo o colegial eu sempre possui uma postura adorável, sempre fiquei quieta e quase nunca falava, além de usar roupas que pareciam ter saído do armário de uma garotinha de sete anos. Já na faculdade foi uma coisa completamente diferente, eu agia de tal modo que duvidava muito que qualquer pessoa do meu curso sequer desconfiasse que eu era tímida.
Minhas roupas pretas, meus piercings e o fato de eu sempre estar com um maço de cigarro no bolso me fazia ser uma das garotas mais descoladas do campus, mesmo sem falar com quase ninguém, acho que as pessoas pensavam que eu me achava demais para conversar com elas ou algo assim, porque já escutei comentários maldosos sobre meu respeito mesmo sem fazer literalmente nada para recebê-los. E claro, eu tinha um certo status por ser amiga de Kiba que tinha fama de traficar maconha para o pessoal de humanas, Shino diz que isso é apenas um boato mas eu nunca soube a verdade pois nunca me dei ao trabalho de perguntar a Kiba. Acho que no fundo eu tinha medo de saber.
Até aquele momento eu achava que tinha uma vida boa e que não tinha nada de errado comigo. É claro que para eu me tocar que estava no fundo do poço cercada por pessoas tóxicas alguma tragédia teve que acontecer.
A tragédia foi Naruto Uzumaki, o calouro do curso de administração.
A primeira vez que eu o vi foi no refeitório, durante a aula vaga que Kiba e eu tínhamos em comum. Nós sempre sentamos na mesma mesa ao lado do jardim onde havia uma grande janela para fumar sem incomodar as outras pessoas, e dessa vez não foi diferente. Kiba estava fumando e olhando para a vida alheia enquanto eu tentava terminar um trabalho.
— Ei Hinata, já conheceu o seu novo calouro? — Kiba puxou conversa enquanto tragava o cigarro de sabe se lá o que — O nome dele é Naruto Uzumaki.
Tirei os olhos do notebook que estava na minha frente e segui o olhar de Kiba até o trio de amigos que conversavam no jardim. Dois deles eu conhecia, Sasuke e Sakura que eram do curso de medicina e o outro, provavelmente o meu “novo calouro”, era desconhecido por mim.
Era bastante bonito, tinha cabelo loiro, olhos azuis e gargalhava tão alto que contagiava seus amigos, até mesmo Sasuke que era uma das poucas pessoas que eu nunca tinha visto sorrir na vida. Mas um fato importante era que ele não estava de pé como os demais, ele estava em uma cadeira de rodas.
— Não. — Disse antes de voltar minha atenção para o notebook.
— Poxa, ele é tão bonito quanto o Sasuke e a Sakura, pena que está nessa cadeira de rodas. — Kiba pensou alto, jogando o resto do cigarro no lixo.
Tive vontade de brigar com ele por ter dito algo tão grosseiro, mas eu me sentiria hipócrita se o fizesse porque foi exatamente o que pensei quando coloquei os olhos nele.
Eu sabia que era errado pensar daquela forma, afinal de contas, o fato de ele ser cadeirante, não deveria ser motivo para olhá-lo com pena. Ou, como podemos dizer, pensar que, se Naruto não estivesse em uma cadeira de rodas, seria mais interessante aos olhos de todos. Ninguém deveria ser considerado menos por causa de uma deficiência física, intelectual… Ou qualquer que fosse.
Todavia, na teoria era fácil falar, agora, na prática, a história mudava de figura. Pois, obviamente, apesar de ele chamar a atenção, graças às suas características físicas. Como, por exemplo, aqueles olhos extremamente azuis e brilhantes, os cabelos dourados como o Sol e, sobretudo; ser o dono daquela risada tão gostosa, que soava mais como melodia aos meus ouvidos. Ainda assim, o tal Naruto Uzumaki continuava tendo uma grande limitação e eu seria bem mais hipócrita se dissesse que não a tinha notado. Isso era um fato.
— Por que ficou tão quieta de repente, Hina? — Kiba questionou, chamando minha atenção.
— Por nada, só estou me concentrando no trabalho. — menti, não querendo externar meus pensamentos de outrora.
— Te conheço, você ficou impressionada com o calouro, pode falar. — provocou, dando um sorriso sarcástico.
— Você não sabe de nada. — desconversei tentando, mais uma vez, me concentrar no maldito trabalho, que eu precisava entregar naquela mesma semana.
Fazer faculdade era uma chatice, eu mal tinha tempo para me divertir, estava quase sempre tentando não pegar uma DP. Coisa que Kiba e Shino não faziam muita questão de evitar. Na real, eu que sempre carregava-os nas costas. Porque, bem, como já mencionei anteriormente, eles eram meus únicos amigos naquele lugar e fora dele, podemos assim dizer.
Estranho, não? Eu era praticamente um paradoxo, pois, todos me consideravam descolada. Mas, na verdade, por trás das minhas roupas escuras, do meu maço de cigarro no bolso da calça e da minha segurança um tanto quanto falsa, eu ainda era apenas aquela mesma garota tímida da infância. E, por sinal, completamente dependente da atenção daqueles dois, para não me sentir sozinha e excluída na faculdade. Porque, naquela altura do campeonato, seria bem pior do que na época do ensino médio. Na universidade, todos os nossos medos e anseios eram multiplicados por mil. Isso valia para a insegurança também, e insegurança eu tinha de sobra. Porém, aprendi a disfarçá-la usando minha amizade com Kiba e Shino em forma de bengala.
Para mim estava tudo bem assim, não queria mudar nada em minha vidinha medíocre.
Até aquele momento, eu estava presa na minha bolha, nada de diferente acontecia e eu ficava satisfeita em ser considerada a garota mais descolada do campus. Qual é, não me julguem, para quem cresceu sendo apontada como a estranha do colégio, por ser tímida demais e falar quase sussurrando. Ser promovida à mais descolada da faculdade era um troféu que eu não poderia recusar, nem queria.
Mas, eu preciso explicar como foi que tudo aconteceu. Afinal, minha vida começou a mudar naquele mesmo dia, quando eu bati meus olhos pela primeira vez em Naruto Uzumaki.
Então, voltando...
Eu vi o pessoal da minha sala retornar para a próxima aula, por isso, fechei o notebook e peguei minha bolsa. Já Kiba, do jeito que estava permaneceu.
— Não vai voltar para a aula? — questionei, fazendo menção de deixá-lo sozinho.
— Vai indo na frente, eu já vou. — respondeu displicentemente, e notei que seus olhos mantinham-se na direção de uma garota que estava no jardim.
— Tudo bem. — assenti e me virei, desejando que desse logo o horário e eu pudesse ir embora.
Não tinha dormido muito bem naquele dia e estava um pouco sonolenta.
Todavia, ao caminhar em direção à sala, por obra do destino, ou do acaso, o trio que ria e conversava há pouco, começou a fazer o mesmo caminho que eu. Tanto que, não consegui evitar olhar para Naruto e reparar mais a fundo em suas características físicas.
E, puta merda, ele realmente era lindo de morrer. Até mesmo consegui ouvir, pela primeira vez, o som de sua voz, que era uma perfeita mistura de rouquidão e leveza. Aliás, seu timbre era incrivelmente dosado, o que tornava sua voz extremamente gostosa de se ouvir. Daí em diante aquele som ficaria gravado em minha mente, como uma doce melodia. Que, sem sombra de dúvidas, eu gostaria de ter ouvido um pouco mais...
— Naruto, precisa de ajuda para voltar à sala? — Sasuke questionou, parecendo solidário.
— Valeu Sasuke, mas eu volto sozinho. — dito isso, ele foi guiando a cadeira de rodas.
— Até mais, Naruto. — Sakura despediu-se, e os dois seguiram o caminho oposto, rumo à turma de medicina.
Foi só o tempo de Sasuke e Sakura afastarem-se para ouvir-se cochichos pelos corredores, inclusive, muitos apontavam para Naruto, que parecia alheio aos cochichos ao redor. Contudo, ao vislumbrar a cena, percebi algo que, novamente, chamou ainda mais minha atenção naquele garoto.
Naruto parecia não se importar nenhum pouco com o que às pessoas diziam ou pensavam sobre si. Ou pelo menos fingia não ligar. Ainda assim, ele era bem mais forte do que eu nesse quesito; pois, se estivesse em seu lugar, por certo me esconderia, temendo a rejeição ou qualquer que fosse o sentimento ofertado à alguém naquela situação.
Me repreendi novamente em pensamento, eu não deveria sentir pena dele por ser uma pessoa com deficiência. Naruto era alguém normal, como todos nós, não era justo receber tantos olhares de comiseração.
Suspirei.
Por que ele me chamará tanto a atenção, afinal? O que em Naruto me fisgou, quase que instantaneamente?
Decidi deixar essas indagações pra lá e segui para a sala, visando voltar logo para a casa e dormir, tipo, umas doze horas seguidas.
Entretanto, novamente, o destino resolveu me pregar uma peça. Pois, teríamos uma palestra no teatro da faculdade, sobre inclusão social e eu imediatamente entendi que deveria ser por causa do "calouro", vulgo Naruto.
Obviamente, a maioria dos alunos vazaram assim que souberam da palestra chata. Eu, em contrapartida, segui animada para o teatro, querendo aprender mais sobre o assunto. Aliás, eu tinha noção da minha completa ignorância, no que tangia àquele tema.
Desse modo, fomos informados de que a palestra seria ministrada para todas às turmas, alternadamente.
Portanto, nada mais justo do que ser menos egoísta e aprender a lidar com a limitação do outro. Assim sendo, segui sozinha, não vendo Kiba e nem Shino por perto.
Por falar nisso, às vezes eles sumiam do meu campo de visão. O que aumentava e muito minha desconfiança, referente aos boatos que chegavam aos meus ouvidos frequentemente.
Afastei mais esse pensamento e me sentei na última fileira, na cadeira da ponta. Eu não queria sentar muito no meio, porque, acaso decidisse ir embora, ficaria mais fácil, estando perto da saída.
Eu só não imaginava, que, para completar a noite. Naruto resolveria parar a cadeira de rodas bem ao meu lado e, depois, daria o sorriso tímido mais lindo do planeta terra, antes de me perguntar:
— Posso ficar ao seu lado?
— C-claro. — Respondi antes de olhar para baixo e corar um pouquinho, era o procedimento padrão depois de falar com qualquer pessoa que eu não conhecia.
Naruto foi para o meu lado lentamente, parecia estar morrendo de preguiça de movimentar a cadeira de rodas. Quando a palestra começou ele até mesmo bocejou.
— Eu odeio essas palestras. — Ele disse com um tom de brincadeira, me surpreendendo ao iniciar uma conversa comigo. — Sabe, eu já sei disso de trás para frente. Em qualquer instituição de ensino que eu vou é a mesma coisa, aulas básicas para os outros alunos de como lidar com o novato aleijado. Eu ainda assisto porque aprecio a preocupação da direção comigo.
Olhei para ele, nervosa e sem saber o que dizer. Eu era horrível em interações sociais. Mas Naruto pareceu não se preocupar com meu silêncio, tagalerando sem parar enquanto tirava algumas coisas da mochila. Tirou de lá um material para desenho e uma cânula, que logo foi ligada ao gás oxigênio pendurado na sua cadeira de rodas que eu não tinha notado até aquela hora, a colocando na sua cabeça e a prendendo em seu nariz.
— Eu preciso usar essa coisa por doze horas seguidas, é um saco. Mas fazer o que se eu tenho problemas respiratórios, falando nisso foi assim que eu parei nessa cadeira de rodas, fiquei quase meia hora sem oxigénio no cérebro e quando acordei tinha perdido completamente o movimento das pernas.
— E-eu sinto mu-muito. — Foi a única coisa que consegui dizer.
Ele olhou para mim por um segundo, os olhos azuis brilhando em divertimento. Era um olhar tão profundo que eu fiquei até constrangida e olhei para o lado.
— Você não tem que sentir, coisas ruins acontecem com todo mundo, não é? — falou enquanto folheava seu caderno de desenho — Você não é de falar muito… Quando eu te vi hoje mais cedo pensei que era extrovertida, todo mundo fala tão bem de você.
As pessoas falaram bem de mim para o Naruto?
— Eu tenho essa mania estranha de desenhar as pessoas que acabei de conhecer. — Ele continuou, ignorando meu silêncio e se inclinando para perto para me mostrar os seus desenhos. Os desenhos eram perfeitos e realistas, como uma fotografia. Os mais recentes eram de alguns lugares aleatórios do campus com algumas pessoas conversando ao fundo, também tinha alguns de Sasuke e Sakura conversando com outros calouros e o último, surpreendentemente, era de mim. A visão do desenho era de mim digitando em meu notebook no refeitório enquanto kiba conversava comigo, mas o foco principal era eu.
— Você desenha muito bem…
Ele colocou em um folha em branco e começou a desenhar rapidamente, o esboço logo tomando a forma do professor gordinho a nossa frente que tentava dar a palestra enquanto as outras pessoas dormiam.
— Obrigado, eu pratico muito.
Fiquei escutando ele falar por algum tempo, surpresa com sua capacidade de soltar uma palavra nova a cada segundo. Nós acabamos de nos conhecer e eu já sabia mais coisas sobre a vida dele do que sobre a vida dos meus amigos.
— Sabe, eu gosto de desenhar pessoas bonitas. Por isso desenhei você. — Ele disse e isso fez meu rosto inteiro ferver e ficar vermelho — Seria legal se pudéssemos ser amigos. Sou Naruto Uzumaki, calouro em administração.
Ele estendeu a mão para mim e eu a apertei com um pouco de receio, achando bizarramente estranha a normalidade com que ele havia me elogiado e dito que queria ser meu amigo quando eu nunca sequer consegui pronunciar aquelas palavras para alguém.
— Obrigada, m-meu nome é Hinata hyuuga. E eu f-faço administração também, sou veterana. — Falei tão baixinho que Naruto teve que se esforçar para ouvir.
— Eu já sabia disso, Hinata. — Disse e continuou desenhando, me fazendo corar mais ainda.
Surpreendente Naruto ficou quieto por alguns minutos, tirando sua atenção da palestra vez ou outra apenas para desenhar ou ajeitar sua cânula. Quando a palestra finalmente acabou a curiosidade me consumiu e eu me inclinei para o lado pra ver que ele ainda estava desenhando o professor gordinho.
— Você também achou ele bonito? — comentei me referindo ao professor.
Naruto gargalhou alto, chamando a atenção das pessoas que estavam saindo do teatro e me fazendo sorrir junto.
— Eu achei a careca dele engraçada. — Falou e me mostrou o desenho então eu pude ver que se tratava de uma caricatura engraçadinha — Foi bom conversar com você Hinata, até outro dia.
— Até mais.
Assim que se despediu de mim ele arrastou a cadeira de rodas até um cara alto e ruivo e eu quase cai na gargalhada quando ele começou a puxar conversa com ele também.
Como alguém podia ser tão tagarela assim?
— Eae, cara? Me ajuda a sair do teatro por favor? Eu passei quase dez minutos tentando subir aqueles degraus, nem quero imaginar como vai ser para descer aquela parafernália sozinho. — Ele pediu e o cara concordou em ajudar e isso pareceu soar com uma permissão para Naruto continuar falando — Você é bem forte, faz parte de algum time esportivo daqui da faculdade? Eu…
Aquele encontro me deixou de bom humor, geralmente eu não costumo falar ou brincar com desconhecidos sem me sentir desconfortável, mas a conversa que tivemos foi tão agradável que eu sai do teatro com um sorriso no rosto. Mas assim que coloquei os pés no corredor encontrei Shino e kiba me esperando, os dois com cara de paisagem olhando para mim.
— Gente, o que foi?
— Você estava conversando e rindo com um cara durante a palestra, a gente viu aqui de fora. — Shino falou como se estivesse dizendo algo simplesmente surpreendente.
— Tipo, a gente é amigo faz três anos e eu acho que nunca te vi conversando com alguém que não fosse o Shino e eu antes.
— Ah pela amor de deus, me deixem em paz. — Falei envergonhada antes de começar a andar para longe deles, mas isso não adiantou muito porque os dois começaram a me seguir.
— Você estava conversando com aquele calouro que a gente viu hoje de manhã, não foi? — Kiba começou.
— Que calouro? — Shino perguntou.
— Um cara loiro dos olhos azuis, ele usa cadeira de rodas e tudo mais. Hoje de manhã quando a gente tava no refeitório a Hinata passou tipo sete minutos encarando ele sem parar. Acho que ela tem um crush no aleijado.
Shino riu e eu fiquei ainda mais vermelha.
— Aí gente, porque eu ainda ando com vocês? — Falei para mim mesma soltando um suspiro cansado mas kiba respondeu.
— Porque nós somos seus melhores amigos? Dã.
— Quem deu esse título para vocês? Aposto que essa pessoa estava louca nas drogas.
— Eu sempre soube que você era viciada, Hina.
Não consegui segurar a risada e acabei rindo junto com eles. Esse era um dos motivos pelo qual eu ainda andava com os meninos, tirando o fato deles serem meus únicos amigos, eles também eram as únicas pessoas com quem eu podia ser eu mesma sem me sentir envergonhada ou desconfortável.
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