Nossas Cartas

1 Nossas Rosas - One Shot


“Lembre-se, minha pequena, de tudo o que já fez por minha pessoa. Sua simples existência alegrava-me como nada mais poderia. Um singelo sorriso teu fazia-me tonto pelo resto do dia. Saiba que agradeço por tudo e espero levar-te no pensamento sempre, para onde quer que eu vá após abandonar este corpo. Nunca lhe abandonarei, minha amada, por mais que minha carne apodreça e meu nome seja esquecido. Espero que nunca se esqueça de mim, do pouco que se recordar, mesmo tendo passado apenas seis anos em minha companhia; tempo suficiente para que eu, até então no ápice de minha miserável solidão, descobrisse o que era o amor. Você, minha tão querida esposa, minha predestinada... É tão nova e já é viúva. Sinto muitíssimo, do fundo de meu coração, por partir tão cedo. Há tanta coisa que eu gostaria de presenciar, tantos momentos que sei que deixarei de aproveitar na sua presença... Eu a amo. Sempre amarei. Mais do que o cheiro da manhã no primeiro dia da primavera. Mais do que a mais bela música. Mais do que o mais radiante nascer do Sol já presenciado pela humanidade. Sua voz, meu anjo, era minha música. Seus cabelos dourados como o Sol, seus olhos grandes como a lua, eram a beleza mais radiante que eu poderia querer ver. Seu cheiro doce, minha cara, que insistia em continuar me abraçando, mesmo após seu corpo ter se soltado do meu... Sentia como se perdesse cada vez que a deixava ir. Fosse ao jardim, mesmo que continuasse observando-a pela janela, sentia-me engaiolado, privado de ver-te. De abraçar-te. De beijar-lhe a face, e senti-la adormecer em meus braços. Deus sabe o quanto sentirei sua falta, minha amada... Espero não ir para o inferno, só para encontrar-te nos céus quando, algum dia, em algum lugar, sua hora chegar. Fique bem, meu amor. Amei-te mais do que a vida, durante a vida. E agora, em meus últimos suspiros, digo-lhe com toda a certeza que há em meu coração: ...”

“Passaram-se oito anos desde nosso último contato, meu querido. Ao mesmo tempo que os minutos parecem longos, os anos passaram como uma brisa de verão. Que Deus permita que volte são e salvo, e possa, ao menos, responder alguma de minhas cartas. Da sua esposa, que o ama mais do que nunca.”

Selei a carta. Entreguei-a a uma serviçal para endereçá-la e dar ao mordomo para enviá-la. Não foi necessário nem dizer do que se tratava; ambos já estavam acostumados ao meu hábito de escrever ao menos duas ou três cartas por mês, para serem enviadas a meu marido. Já havia cansado de repetir as mesmas perguntas. E não obter respostas.

“Por que não posso vê-lo? Deixe-me sair, eu quero vê-lo! Agora!”

“Isso não é justo, por que ele não me responde? Mandei seis cartas em menos de duas semanas, e nenhuma obteve retorno. Como posso ter certeza de que as cartas chegaram a ele? É apenas outro país, não outro planeta!”

Ah, meu amor, se soubesse os idiotas que esses criados se tornaram após sua inesperada viagem. Parece que levou contigo toda a decência e educação que os energúmenos um dia tiveram.

Mas meus dias de paz estavam prestes a acabar. Tudo graças à minha incessante curiosidade e minha teimosia.

Em nosso palácio, querido, há um quarto secreto. Lembra-se dele? Nunca me deixava entrar lá, às vezes permanecia trancado pelo que pareciam ser horas, um senhor entrava, saía, você continuava em silêncio, saía mais horas depois, com os olhos fundos e um sorriso triste no rosto, como se só o fizesse para mostrar a mim que não estava triste.

Você percebia que eu não acreditava, não? Dava-me um beijo de boa noite e se retirava para dormir. Só voltava a vê-lo dois ou três dias depois, pois saía para ir à cidade muito cedo encontrar-se com alguém, voltava muito tarde e nossos horários não se encaixavam... Lembro-me de passar noites em claro, deitada, fingindo dormir, esperando seu regresso e os tão queridos cinco minutos que passava afagando meu cabelo, me cobrindo, matando as saudades pelo tempo que não havíamos passado juntos. De qualquer forma... Lembra-se desse quarto? Durante anos, a porta permaneceu trancada, escondendo seus segredos. Hoje, algo inesperado aconteceu.

Uma criada esqueceu a chave na porta, enquanto voltava para buscar algum apetrecho de limpeza que aparentemente havia esquecido. Eu teria de ser rápida. Não poderia ser vista. Tirei meus sapatos, corri, abri a porta. Imediatamente, seu cheiro inundou o ambiente, como uma onda egoísta puxa tudo o que abraça para o mar. Lutei com as lembranças que o mesmo me trazia, entrei, deixei a porta fechar atrás de mim e a tranquei.

Enorme. Esse foi o meu primeiro pensamento ao entrar lá.

Uma cama gigantesca, digna de muitas horas de brincadeiras e saltos em cima dela, foi o que me chamou a atenção, de início. Encontrava-se dois degraus acima do chão do resto do quarto, como se isso servisse pra colocar qualquer um que se deitasse ali em um pedestal gigante. Me perguntei pra quê toda aquela sustentação, suspirei e segui em frente. O quarto era escuro; possuía uma janela gigante à esquerda, janela essa que dava para o jardim, onde eu costumava brincar quando era pequena. Logo abaixo da janela, havia uma escrivaninha. Parecia-me que havia sido deixada do jeito que estava quando você partiu. Havia um piano também, à direita da escrivaninha, mais próximo à parede contrária à janela. Era um belo quarto. Tinha várias estantes com milhares de livros também. Perguntei-me por que nunca havia me deixado entrar lá. De repente, um estalo cortou minha concentração; havia papéis em sua escrivaninha que poderiam me dizer para onde teria ido.

Seu cheiro estava presente em cada centímetro daquele lugar. Meu amado, tão distante... Como senti falta de seu cheiro, da sensação de sua presença. De seus cabelos púrpura caindo em meu rosto cada vez que nos abraçávamos. Parecia-me que a qualquer momento você entraria pela porta gritando comigo, dizendo-me que não devia ter entrado ali e que estava desapontado comigo. Tal imagem quase me fez irromper em lágrimas. Ainda que brigasse comigo, te ver me faria tão bem.

O palácio não era tão grande, a criada não demoraria muito a voltar; tinha de correr. Peguei o máximo de papéis que consegui, empilhei-os, abri as gavetas e encontrei um envelope. Peguei-o também. Deixei a chave na porta como havia encontrado e voltei a meus aposentos. Passei o resto do dia vasculhando documentos, averiguando cada centímetro e separando cada papel que a meus olhos parecia relevante. Por fim, abri o envelope. Não estava selado. Estranhei. Não parecia ser do seu feitio deixar algo inacabado.

Dentro dele, uma carta rasgada. Apenas o que pareciam ser suas últimas palavras. Li-as com cuidado.

“Eu te amo mais do que a eternidade, minha querida. Espero tornar a vê-la em breve. De seu Alexander, que nunca a amou tanto.”

Estremeci.

Eu não podia acreditar. As horas e horas que passava naquele escritório eram para isso? Escrever cartas a uma amante?! Eu não podia acreditar. No verso do envelope, o endereço do destinatário. Escondi os papéis debaixo de minha cama e o envelope em uma gaveta de minha penteadeira. Naquela noite, chorei até dormir. Mas tinha em mente de que meu descanso não seria longo; pela madrugada partiria à procura da maldita a quem a carta era endereçada.

Não demorou muito até a madrugada chegar. Preparei duas malas; uma com algumas de minhas roupas mais discretas (já que não gostaria de chamar atenção pela minha ostentação de roupas caras e de materiais finos, meu objetivo era passar despercebida), outra com minhas joias e outros objetos de valor, que poderia usar para pagar qualquer despesa que surgisse no caminho. Decidi partir, então. Desci as escadarias com os sapatos em uma mão e as malas em outra. Não poderia ser vista.

Eis que surge o filho do cocheiro. Loiro, ligeiramente mais alto que eu, magro e incrivelmente irritante. Houve um tempo em que ele me seguia palácio afora, talvez por curiosidade, mas me sinto incomodada na presença dele desde então.

- O... O que faz aqui?! – quase gritei, num salto, deixando cair todos os meus pertences no chão. Agradeço a Deus por terem caído no carpete e, assim, não terem feito barulho.

- Com todo o respeito, princesa, eu que lhe pergunto! Aproxima-se das quatro da manhã, o que faz com tantas malas? Vais fugir? – ele retrucou, rápido, sedento por informações.

- N-não é de seu interesse. Volte ao seu quarto, suma daqui! – neguei-me a responder qualquer uma de suas perguntas. Ninguém poderia saber o que eu planejava. O que faria, agora que um mero filho de serviçal havia descoberto?

- De modo algum, princesa. Você que deve voltar a seus aposentos. Eu vou apenas ver como está a égua prenha. Pode dar à luz a qualquer momento, então vou de uma em uma hora checar como está.

- De uma em uma hora? Você não dorme, não? – olhei-o de cima abaixo com olhar de espanto. Imagine, interromper o sono a cada 60 minutos para ir ao estábulo, que é a pelo menos vinte minutos de caminhada do palácio; ainda mais nesse frio de fim de primavera!

- Claro que sim, princesa. Durmo pelo menos vinte minutos a cada intervalo. Só não durmo no estábulo mesmo porque anda fazendo um péssimo tempo, como pode perceber – ele disse e deu uma risadinha, pois percebeu que eu tremia apenas por estar descalça no carpete.

- Ora, mas que...! Argh, deixe pra lá. Tenho que ir. – irrito-me facilmente na presença dessa criatura, torno a dizer. Peguei minhas coisas rapidamente, calcei meus sapatos e fui em direção à porta, quando ele interviu.

- Princesa! Onde pensa que vai? A pé, ainda por cima?

- ... A pé? – Não havia considerado que precisaria de um cocheiro e uma carruagem. Com mil raios, onde eu estava com a cabeça? Não poderia fazer aquilo sozinha, por mais que não quisesse ajuda.

- Claro. Meu pai dorme, os outros criados também. Sou uma das únicas pessoas que não tenta enganá-la por aqui, princesa. Sei aonde planeja ir, sei o que quer descobrir e, mais importante, sei quem pode te ajudar – sorriu e estufou o peito, indicando que falava de si mesmo.

- Como assim, sabe? Que diabos! Andou entrando no meu quarto escondido, é, filhinho de serviçal? – tentava insultá-lo para que desistisse, mas o infeliz não se deixava abalar. Sabia que não desistiria e, por fim, aceitei sua ajuda.

- Também não quero permanecer um filho de serviçal pelo resto da vida, princesa. Quero viajar, descobrir o mundo, conhecer pessoas, países, imagine, continentes, as Índias, o ocidente! Culturas tão diferentes espalhadas pelo mundo, eu gostaria de conhecer a todas. – tinha um olhar de convicção; acreditava que, algum dia, realmente faria tudo o que tinha em mente. Isso me encabulou um pouco, mas me constrangi ainda mais por ter... vontade de acompanhá-lo. Hoje, rio de minha ingenuidade na época.

Ele voltou a seus aposentos, fez as malas e carregou a carruagem. Imagine, duas crianças de 14 anos andando sozinhas pela estrada em plena madrugada. Eu nem ligava para o perigo. Encontraria meu amado — e sua amante-, custando o que custasse.

Cinco da manhã. Partimos. Até hoje me pego perguntando qual será a cara que os criados fizeram quando deram por nossa falta. Renderiam-me boas risadas, caso as tivesse visto.

O envelope era endereçado a uma cidade que fica a três dias do palácio. Fizemos algumas paradas em outras cidades para descansarmos e nos alimentarmos. Na última, chegamos tarde da noite em uma que é a apenas algumas horas de nosso destino final. Todas as hospedarias, até as mais fuleiras, estavam fechadas. Decidimos, por fim, que seria mais seguro passarmos a noite afastados da cidade, em uma floresta onde não houvesse o risco de sermos assaltados ou coisa pior.

Não tínhamos nada que servisse de abrigo, além da carruagem. Lembro-me de trechos da conversa que tivemos antes de cairmos no sono.

- Confortável, princesa? – sua voz era tão gentil que me encabulava. Preferia que tivesse continuado quieto.

- Não tanto quanto estaria se estivéssemos em uma pensão ou até mesmo hotelzinho. Que diabos, me sinto dormindo numa carroça.

- Não está com frio? – parecia preocupado. Ignorei. Como insistiu, fingi que havia adormecido.

Para minha surpresa, ele continuou falando sozinho, ao invés de calar-se e finalmente dormir.

- Ah, minha princesa, não seja tão dura consigo mesma. Temos um longo dia amanhã. – dito isso, beijou-me na testa e colocou suas vestes sobre mim, para que me aquecesse. Tinham um cheiro doce. Completamente diferente do perfume amargo de Alexander.

- Qual é seu nome? – virei e perguntei-lhe.

- Ah, está acordada? – encabulou-se ao perceber que eu estava consciente do que ele havia feito. Sorri.

- Estou. Qual é seu nome? – insisti.

- Pierre. Por que motivo gostaria de saber meu nome, princesa?

- Para chamá-lo por ele, obviamente.

- Ah, não é necessário, princesa. Chame-me do que quiser, não acho que seja digno de...

- Pois bem. Quero chamá-lo pelo nome, Pierre. – loiro, de olhos azuis, magro e relativamente alto. Cabelos presos em um rabo de cavalo curto. Sua aparência e seu nome combinavam perfeitamente, chegava a ser engraçado.

-... E o seu, minha princesa? – atreveu-se a perguntar.

-... Não sabe meu nome? – cheguei a rir de frustração. – É por isso que me chama de “princesa”, né, seu...

- Não, não! Foi a princesa que me mandou chamá-la assim, anos atrás...

E era verdade.

Testei sua memória, fazendo como se a minha houvesse falhado.

- Como? Nunca o vi na vida.

- Há anos, princesa, aproximadamente dez anos atrás, você resolveu aventurar-se pelos arredores do palácio, indo até o estábulo, onde se perdeu.

É mesmo. Saí pela entrada dos fundos e não consegui voltar.

-... Encontrei-a chorando nos fundos do estábulo, sentada em um monte de feno. Perguntei-lhe seu nome, você me olhou com irritação e gritou “Princesa! Chame-me de princesa, plebeu” – e deu uma breve risada saudosa. Olhou-me no fundo dos olhos e continuou – Desde então, nunca soube seu nome. Cheguei a segui-la umas vezes para descobrir, mas ninguém nunca o disse em voz alta...

- Angelinne. – sorri. Era incomum me chamarem pelo nome. Seria bom... Variar um pouco.

- Certo. Angelinne. – sorriu mais uma vez, fechou os olhos e repetiu – Princesa Angelinne...

No dia seguinte, partimos cedo. Passamos por mais um trecho de floresta densa, dois vilarejos e campos de trigo. “Dourados como seus cabelos”, uma vez você me disse, meu querido. Por volta de duas horas depois, chegamos a um casarão, onde entendemos ser nosso destino final.

Descemos, batemos à porta. Um silêncio desconfortável pairava no ar. Mas eu estava pior. E se ele atendesse a porta, após tantos anos sem nos vermos, com, imagine, um bebê nos braços? E se fosse ela? O que diria? “Muito boa tarde, senhora, eu sou a esposa do seu amante” não parecia uma boa opção. Estava apreensiva. E se... Ninguém atendesse?

Mas ele estava ali, querido. Eu não estava mais sozinha.

- Princesa... Acho que está vazia – disse, sem esperança, referindo-se à casa.

- De modo algum. Tem que ter ao menos um criado aí dentro, ninguém cuidaria de um casarão tão grande sem ao menos uma dúzia de serviçais ao seu dispor.

- Não seja tão rude, princesa. Está na hora do almoço, quem sabe...

- Uma ova. E já disse para me chamar pelo nome.

- Certo – sorriu. Ouvimos passos. Impulsivamente, segurei em sua mão e a senti esquentar. Sussurrei algo que imagino ter sido “seu imbecil” e a segurei firmemente. Apenas o primeiro homem a penetrar a tumba de Tutancâmon compreenderia nossa emoção.

Passos. Estalos. Chaves. Maçaneta girando. E minha mente entrando em parafuso.

Um senhor atendeu a porta.

- Pois não, minhas crianças?

Eu estava sem fala. Completamente sem fala. Não sabia o que pensar, como me portar, muito menos o que dizer. Pierre tomou a palavra, dirigindo-se ao homem.

- Procuramos Alexander, meu caro senhor.

- E vocês, quem seriam?

- Pierre e Angelinne, da província de Leisand.

O homem, de cabelos brancos e semblante idoso, empalideceu ainda mais.

-... Céus. Sabíamos que este dia chegaria, mas... Oh, por Deus, não tão cedo.

- Que dia seria esse, senhor? – imediatamente indagamos. Não havia sinal de outras pessoas naquela casa além do homem e duas outras criadas.

- O dia em que você, Angelinne, retornaria a esta casa.

- Espere, espere. Retornaria? Já estive aqui? Como isso seria possível?

-... Entrem, está frio aqui fora. Prepararei um chá para vocês.

Feito o chá, acompanhado de biscoitos de limão, o homem – que já havia se introduzido como Louis – retorna à sala de estar. Quadros e flores por todos os lados, uma atmosfera alegre para a época. Um dos quadros, bem ao centro da parede das escadarias, que pude notar enquanto as subíamos, retratava um jovem casal. Loiros de olhos azuis, como eu e Pierre. Achei estranho; esperava encontrar o rosto de Alexander pintado no lugar do homem. Então... Quem seriam essas pessoas? E por que o homem nos deixara entrar?

- Bem, com licença, mas... Quem mora aqui? – apressei-me a perguntar, enquanto Pierre sondava a sala em busca de pistas, por menores que fossem.

-... Não sabe? – Louis pareceu surpreso com minha pergunta. “Se eu soubesse, pra que perguntaria, ignorante” pensei em retrucar, mas ele logo respondeu.

- Sir e Lady Sterling. – suspirou e acrescentou – Seus pais e de Pierre, minha pequena Angelinne.

... O quê?

- Sir August Sterling faleceu há quinze anos. Sua mãe, Lady Marie Sterling, perdeu toda a sua fortuna... Mas estava grávida. E seu capital estava zerado.

Mais uma vez, não conseguia entender. Ele estava bem à minha frente, mas o ouvia como se estivesse submersa. No fundo do mar. Sem ar algum.

-... Pode parecê-los –a referência ter sido feita a ambos atraiu a atenção de Pierre, que, num salto, postou-se de pé do meu lado – crueldade terem escondido algo assim durante tantos anos, mas... Eu sou o único que conheceu os dois pessoalmente, e como meus dias já se aproximam do fim, decidi que seria melhor contar-lhes a verdade.

Pierre estava aterrorizado e, ao mesmo tempo, no ápice de sua curiosidade. “Que verdade”, imaginava as palavras misturando-se na cabeça dele assim como na minha, “seria essa?”.

- Você e Pierre... Bem, como não há maneira fácil de dizê-los, serei direto: são irmãos de sangue. Lady Marie a vendeu para Conde Alexander com a condição de que se tornasse sua esposa. Após uma semana em Liesand você adoeceu, Milady, e os médicos não estavam esperançosos. Alexander implorou aos deuses para que se recuperasse, mas seu tempo estava se esgotando. Sua mãe, mesmo sentindo-se humilhada por tê-la vendido, decidiu visitá-la. À medida que Pierre aproximava-se de você, sua febre baixava. No fim do dia, já estava curada. Ali mesmo entendemos que um não poderia viver sem o outro por perto. Alexander pretendia criá-los juntos, mas sua mãe convenceu-o a nunca revelar-lhes a verdade. Para isso, fez com que o cocheiro e sua mulher o criassem como seu próprio filho. Sei que são informações demais, meus pequenos, mas permitam-me continuar. Alexander era um homem muito solitário. Órfão, herdeiro de uma fortuna incalculável, passou boa parte de seus dias com medo de aproximarem-se dele por interesse.

Mal terminara a frase, Pierre questionou-o:

- Está insinuando que minha prin... – mediu suas palavras e corrigiu-se – minha irmã permaneceu ao lado dele por anos e anos a fim de explorá-lo?

- De modo algum, jovem senhor. Alexander temia e afastava pessoas do tipo, mas não era o caso de vocês. Sua mãe tecnicamente não os vendeu. – parou alguns segundos para examinar nossas expressões, e logo prosseguiu – Ela os deu a Alexander para que os criasse longe dela. Ele, então, deu uma bela quantia em dinheiro para que Lady Marie pudesse sobreviver. Enviava cartas de dois em dois meses para reportar o crescimento de vocês e deixá-la segura de que não suspeitavam de nada.

- Fui ao escritório secreto de Alexander e encontrei o que parece ser o fim de uma carta – ressaltei, lembrando-me do propósito inicial de estarmos ali. – Sabe a quem era endereçada?

Entreguei-o o envelope. Empalideceu uma vez mais, e para meu espanto, apenas disse:

- Não esperava ver isso novamente. É uma... Carta de despedida, de Alexander. Para você, Angelinne.

Para... mim? O que estaria escrito no resto da carta? E por que despedida? Tinhas ido embora, meu amor, para nunca mais voltar? E por que não me disse nada?

Finalmente consegui esboçar uma reação e balbuciar algumas palavras. Pierre, atônito, continuava imerso em seus pensamentos, em busca de alguma explicação racional para tudo o que acabávamos de tomar conhecimento havia acontecido. Eu, no entanto, tornava a questionar.

- E Alexander? Eu posso... vê-lo?

“Aqui lhe escrevo pela última vez, mon petit Angelinne. Meu pequeno anjo. Como pôde perceber, nos dias e dias que passava trancado em meu escritório, havia algo de errado comigo. Eu era forte, minha querida... Mas não tão forte quanto a tuberculose que, em um beijo egoísta, consumiu de todo o meu ser e minha saúde. Ainda mais em uma época como a nossa, minha querida esposa. Afastei-me o quanto pude de você para não infectá-la, fazia exames regulares e acompanhamento médico diário para garantir que não a infectaria com esse pecado que me tomou conta. Imagino que tenha sido uma punição divina pelo tanto que te amei; Deus deve ter se enciumado e decidido que um reles mortal não era digno de um amor tão puro quanto o seu, meu anjo. Não era digno de amá-la mais do que a mim mesmo. E que ironia; meu pecado era o amor.

“Lembre-se, minha pequena, de tudo o que já fez por minha pessoa. Sua simples existência alegrava-me como nada mais poderia. Um singelo sorriso teu fazia-me tonto pelo resto do dia. Saiba que agradeço por tudo e espero levar-te no pensamento sempre, para onde quer que eu vá após abandonar este corpo. Nunca lhe abandonarei, minha amada, por mais que minha carne apodreça e meu nome seja esquecido. Espero que nunca se esqueça de mim, do pouco que se recordar, mesmo tendo passado apenas seis anos em minha companhia; tempo suficiente para que eu, até então no ápice de minha miserável solidão, descobrisse o que era o amor. Você, minha tão querida esposa, minha predestinada... É tão nova e já é viúva. Sinto muitíssimo, do fundo de meu coração, por partir tão cedo. Há tanta coisa que eu gostaria de presenciar, tantos momentos que sei que deixarei de aproveitar na sua presença... Eu a amo. Sempre amarei. Mais do que o cheiro da manhã no primeiro dia da primavera. Mais do que a mais bela música. Mais do que o mais radiante nascer do Sol já presenciado pela humanidade. Sua voz, meu anjo, era minha música. Seus cabelos dourados como o Sol, seus olhos grandes como a lua, eram a beleza mais radiante que eu poderia querer ver. Seu cheiro doce, minha cara, que insistia em continuar me abraçando, mesmo após seu corpo ter se soltado do meu... Sentia como se perdesse cada vez que a deixava ir. Fosse ao jardim, mesmo que continuasse observando-a pela janela, sentia-me engaiolado, privado de ver-te. De abraçar-te. De beijar-lhe a face, e senti-la adormecer em meus braços. Deus sabe o quanto sentirei sua falta, minha amada... Espero não ir para o inferno, só para encontrar-te nos céus quando, algum dia, em algum lugar, sua hora chegar. Fique bem, meu amor. Amei-te mais do que a vida, durante a vida. E agora, em meus últimos suspiros, digo-lhe com toda a certeza que há em meu coração:

“Eu te amo mais do que a eternidade, minha querida. Espero tornar a vê-la em breve. De seu Alexander, que nunca a amou tanto.”

Continuo com minha mania de escrever-lhe cartas, meu amado, mesmo sabendo que não tens mais olhos para lê-las. Escrevo para aliviar a dor e tristeza que me consomem dia após dia por não ter vivido cada segundo ao seu lado como se fosse o último de nossas vidas. Mesmo dezoito anos após nosso último encontro, não há um dia que se passe sem que eu pense em você. Seus cabelos púrpuros e olhos azuis, como um pôr do sol indeciso entre o dia e a noite, até hoje iluminam meus sonhos. Nossa próxima parada são as Índias, imagine! Pierre não poderia estar mais ansioso. Em alguns meses retornaremos a Liesand para passarmos o Natal com Louis. Enquanto isso aproveito meus dias como posso, na esperança e incerteza de quantos mais terei.

E em meu último suspiro, estarei sorrindo; apenas pela certeza de que irei encontrá-lo, seja o que quer que haja após a vida. Mesmo que nossos corpos se vão, há coisas que serão eternas: o amor que me tens, o amor que lhe tenho e nossas cartas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!