Nossa pequena história

2 Mais de um milhão de vagalumes


Notas iniciais
Tema dessa semana: a primeira vez que saímos juntos.

Dois meses antes da batalha

O tempo passa muito depressa quando se está em Mitéra e se têm milhares de anos pela frente.

As coisas passaram muito rápido; eu dividia meus dias entre treinar meus poderes, treinar combate e passar um tempo explorando Mitéra e, em um piscar de olhos, já fazia dois anos desde o dia em que Aster e eu nos vimos pela primeira vez, mas não havia um dia em que eu não pensasse naquele fatídico encontro.

Eu me sentia extremamente estúpida por ter reagido daquele modo; Afinal, Aster não era o culpado pela ligação de nossas almas. Mas não havia nada que eu pudesse fazer, já que ele passara a evitar a casa da Irmandade enquanto eu estivesse lá, com o intuito de não me ver, e só voltou a frequentar periodicamente a casa onde a irmã morava quando eu decidi que era hora de me mudar e passei a viver sozinha em uma pequena casa no fim da estrada de terra que levava até a floresta Meriella.

Foi mais ou menos nessa época que Maeve, a feiticeira esmeralda, ameaçou as Yvridikós e toda a Ilha Imortal. Maia me assegurou que não era a primeira vez que a rainha do Ypokósmos ameaçava Mitéra, assim como me garantiu que o exército do nosso reino nunca perdera uma única batalha contra o exército verde.

Mas isso não mudava o fato de que Maeve havia aparecido na minha casa, ameaçado a minha família e o meu novo lar. Eu estava com medo, é claro, porém estava com mais raiva ainda.

Assim que a feiticeira deixou seu recado e sumiu em um redemoinho de penas esmeraldas, minhas irmãs alertaram Eulëyn e as quatro entidades; eles imediatamente iniciaram um protocolo de proteção, chamado de “Protocolo Esidium”, que unia as Yvridikós de água, as guerreiras da terra, os vigilantes do ar, os mestiços do fogo – cada um sob o comando de sua própria entidade – e os protetores, um trio de guerreiros que conhecia cada centímetro de Nnanrena e que, nos dias comuns, se revezavam para patrulhar as estradas e trilhas de Mitéra, garantindo que a barreira entre os mundos continuasse intacta. O protocolo de proteção formava um grupo grande e animado, mas essa animação não contagiava duas exceções: eu e o líder dos protetores.

E esse líder era Aster.

Eu não tinha noção alguma de quanto a ausência de Aster mexia comigo até que nos reunimos no Castelo Elementar, que seria nossa casa até que derrotássemos Maeve. Eu estava conversando com Micaela, descrevendo para ela tudo á nossa volta, quando o vi entrar ladeado por duas meninas mais baixas. Eu já conhecera Padma e Clarissa, as outras protetoras, mas nunca as vira ao lado de seu líder. Pareciam menores ainda, principalmente a indiana Padma, e me peguei imaginando como eu pareceria pequena ao lado dele.

Parei de falar imediatamente e mordi fortemente o lábio, sentindo um pouco de sangue escorrer deles. Micaela notou minha pausa e imediatamente levou as mãos até meu rosto, tateando-o para lê-lo. Sua face estava angustiada e os olhos brancos como o leite, arregalados pela interrupção abrupta da minha descrição.

— O que aconteceu? Quem entrou agora? O que está rolando, loirinha? — Minha irmã mais nova me bombardeou de perguntas, enquanto eu ainda olhava para Aster. Ele havia parado, olhado em volta e, por fim, também encontrou meu olhar. Minhas pernas estremeceram e eu quase ensurdeci com o som do meu coração disparado.

— N...não aconteceu nada, panda vermelho — Assegurei, segurando suas mãos e gaguejando ao falar. Aster sussurrou algo para as duas garotas, jogou a mochila que trazia pendurada nos ombros em um canto qualquer e, girando nos tornozelos, deixou o lugar. — Foi só... os protetores acabaram de chegar, e Aster acabou de sair... — Sussurrei para a garota alta do meu lado. Ela suspirou, sabendo do que passara entre eu e ele, e tirou as mãos do meu rosto, deslizando-as até meus ombros.

— Vá falar com ele. Você está tremendo. — Ela notou, dando um sorrisinho malicioso. Revirei meus olhos e suspirei em seguida.

— Talvez depois... Ah! Aéras acabou de chegar com os vigilantes. — Retruquei, e voltei a descrição.

*

Adiei nossa conversa até a madrugada daquele mesmo dia, quando eu não conseguia dormir. Deitada em um dos beliches dedicado às Yvridikós, eu escutava um barulho do lado de fora e, além disso, eu estava sem sono. Novamente, pensava no meu encontro com Aster. Derrotada, por fim, me levantei e caminhei até uma das grandes janelas que davam para o quintal e, para minha surpresa, um sorriso escapou de meus lábios ao ver a cena que vi.

Aster estava vendado e segurava uma espada com tamanha habilidade que me deu inveja. Ele lutava contra alguns Guerreiros de Folhas, possivelmente criados por Gi, e seus golpes eram certeiros. Com um único giro, ele fez três Guerreiros virarem um montinho de folhas e depois parou. Retirou a venda e sorriu consigo mesmo, retornando a espada para a bainha. Então se virou, ergueu a cabeça e me viu. E, em seguida, sorriu de novo. Meu coração disparou no peito e eu levantei a mão em sinal claro para ele esperar que eu descesse as escadas.

— Obrigada por esperar! — Eu exclamei, alcançando-o finalmente ao mesmo tempo em que enfiava as mãos em duas luvas quentinhas que pegara na minha mochila. Aster riu e pigarreou.

— Faz um tempo que não nos vemos... — Murmurou, meio constrangido. Eu sabia que devia dizer algo, só não sabia como. Foi quando tive uma das melhores ideias que já tivera.

— Você... quer dar uma passeada na praia? — Perguntei, sorrindo.

— Eu não conseguiria dormir de qualquer jeito... — Ele deixou a espada junto do restante das armas e nós fomos até Aurial, em total silêncio enquanto percorríamos a estradinha de pedras que conectava o Castelo ao Oceano.

Ao chegarmos na praia, seguimos pela trilha que eu estava acostumada a fazer todos os dias na hora do Pôr-do-Sol. Era um bom jeito de deixar os pensamentos soltos, já que o ar salgado era como um refresco para todos que precisassem.

Aster caminhava alguns passos à frente de mim em completo silêncio, mantendo as mãos atrás das costas e o rosto sem expressão. Parecia estar sofrendo com o silêncio tanto quanto eu. Não ver seu costumeiro sorriso me trouxe a sensação de que meu estômago estava caindo em queda livre e não parecia acabar nunca.

— Aster... — chamei, parando e segurando a manga de seu casaco com um pouco de força. Pego de surpresa, ele parou e me olhou. — Escuta... me desculpe. Pelo que fiz dois anos atrás. Pelo modo que te tratei. Pelo jeito que falei. — Rompi o silêncio e a barreira que eu havia construído com o tempo no intuito de dizer o que vinha tentando dizer há muito tempo. Continuei, sem dar tempo para ele reagir:

— Lembra quando eu disse que não queria conectar minha alma com ninguém? Era um pouco mais do que isso... Era mais como se eu não pudesse me conectar com ninguém porque minha alma não estava... completa. Cath me explicou que, quando uma alma está em pedaços, em cacos, a conexão nunca acontece. E eu era nada mais do que um zumbi destruído andando por aí.

— E agora você está bem? — Ele perguntou, parecendo preocupado. Eu soltei a manga de seu moletom, cruzei os braços sob o peito e sorri. Aster me retribuiu o sorriso, muito mais relaxado.

— Sim. E muito graças a você. Você foi diferente comigo. Carinhoso... respeitou minha negação... Da última vez que eu disse ''não'' para um homem, acabei em um beco vivendo um dos meus piores pesadelos... — Respirei fundo, agradecendo que as memórias daquele dia estivessem enterradas muito fundas em minha mente. — Por um segundo, quando eu disse tudo aquilo para você, fiquei com medo de você fazer igual. Daquilo se repetir...

Aster arregalou os olhos, desfazendo a face de felicidade que havia sido estampada poucos minutos antes. Seu rosto estava sério quando ele me garantiu:

— Eu NUNCA faria isso. Com nenhuma mulher. Ainda mais com você. Não só porque a conexão de almas me impede de te machucar, mas também porque isso é totalmente desumano! É brutal.

Ele conseguia manter a calma e eu conseguia, finalmente, respirar direito. Me livrar daquilo tudo era como tirar um peso enorme de minhas costas.

— Agora eu sei, e isso me ajudou a separar as coisas. Ver que nem todos são iguais a ele. Então... obrigada. — Eu agradeci, estendendo a mão para pegar a sua. Assim que nossas peles se encontraram, ele entrelaçou nossos dedos de forma automática. Sua mão era imensa em relação a minha, e muito, muito quente. Era bom. Sorrimos em sincronia.

— Eu tenho uma ideia... porque nós não recomeçamos? — Aster perguntou, puxando-me pela mão para mais perto.

— Eu acho uma boa ideia... uma ótima, na verdade... oi, eu sou a Paula, mas todos me chamam de P!

— É um enorme prazer, senhorita. — Sem desgrudar os olhos dos meus, e agindo com extremo cuidado para, possivelmente, não me assustar, ele levou meus dedos até seus lábios e depositou ali um beijo rápido, mas que enviou uma sensação deliciosa para o resto do meu corpo. — Eu sou Aster.

Eu ri e abaixei o braço, ainda mantendo nossas mãos entrelaçadas. Era tão bom sentir que o vento sempre frio de Mitéra, naquele momento, passava longe de nós. Eu sabia que Aéras poderia fazer isso, se quisesse — e se eu não o chamasse de infantil em cada oportunidade possível; mas eu apostava que o calor que me aquecia naquele momento não era resultado de uma entidade elementar. Era de algo muito maior.

— Eu vou te mostrar um lugar secreto, se quiser. Mas você precisa confiar em mim, tá?

— Eu confio — Respondi, simplesmente, dando de ombros. Aster começou a andar na direção contrária da trilha e me puxou com delicadeza pela mão.

Nos aproximamos da floresta e ele se embrenhou pelas árvores sem seguir uma trilha em aparente. Ele apenas saltava troncos e mais troncos, nunca soltando minha mão. E, embora na época eu não admitisse, eu estava sim me divertindo.

Não levou muito tempo, e então chegamos em uma clareira escondida, quase invisível aos olhos.

— Está vendo? Bem no centro? — Ele perguntou, e eu vi pela primeira vez. Era um par de balanços de ferro, e algumas plantas cresciam se enrolando nas correntes.

— É lindo... — Sussurrei, baixinho e totalmente hipnotizada. Aster sorriu.

— Minha avó colocou isso aqui quando minha mãe nasceu, e nós vínhamos aqui sempre antes de minha mãe... — Ele parou de falar por uns segundos. — É o recanto da minha família e um ponto de encontro para a nós, Cambridge... eu nunca, nunca!, mostrei isso aqui para ninguém. Apenas Maia e o filho dela sabem, mas minha irmã nunca foi fã de lugares assim e aqui têm lembranças demais... — Ele tocou em meu ombro e, lentamente, cobriu meus olhos com a mão. Minha respiração acelerou em pânico. — Shiii... Calma, P... — Ele começou a cantar baixinho uma música que eu não conhecia, e eu me acalmei enquanto me acostumava com o contato. Então Aster ficou em completo silêncio, ainda mantendo minha visão tampada.

— As...? — Eu chamei, mas sua outra mão tapou minha boca.

— Shiii.... Não estrague o silêncio, eles gostam do silêncio — Em meio aos seus dedos, eu sorri igual uma idiota. Embora tivesse sentido medo no primeiro instante, agora estava gostando do mistério.

Então, lentamente, eu senti que ele liberou meus olhos e minha boca e abraçou meus ombros com carinho. E eu pisquei para me acostumar com a repentina luz.

Pisquei novamente, abismada com a visão. Eu não contei, mas, se isso fosse possível, teria contado mais de um milhão de vagalumes voando calmamente na clareira escondida.

Meus olhos se encheram de água com tamanha beleza; era como se as estrelas estivessem ali, na minha frente, prontas para que eu as pegasse. Era tão lindo que eu esqueci Passado, Presente e Futuro. Esqueci a batalha que viria, esqueci o que havia sofrido enquanto ainda era humana.

Naquele momento, havia apenas os vagalumes e eu, aconchegada no abraço quente de Aster e sendo envolvida por sua voz grossa e firme que cantava baixinho em meu ouvido.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Por mim, eu amei demais esse capítulo. Mil beijinhos ♥ (1) O Protocolo Esidium foi criado por Eulëyn, a Mãe Natureza, e foi usado outras três vezes antes da Batalha de Abalen, ao qual as datas dessa história fazem referência (2) Meriella é a floresta onde se encontra o Poço de onde Mitéra teve início (3) Ypokósmos é a ilha mais próxima de Mitéra, e Maeve é sua rainha. Ela tem suas razões para atacar Mitéra, mas não me convém contá-la nessa história. (4) O Castelo Elementar é o lar das entidades do fogo, da água, do ar e da terra. Também é o lar da Mãe Natureza, que nesse universo recebeu o nome de Eulëyn. (5) Micaela é cega e é a Yvridikó mais nova (6) Os Guerreiros de Folhas são criações sem vida de Gi, a entidade da Terra, e são usados para treinar combate. (7) A Praia Aurial circunda toda Mitéra e é a praia mais branca de todos os mundo (8) Essa clareira é o segredo mais bem guardado da família Cambridge, cujo Aster é último herdeiro. De fora, apenas Paula e Eulëyn sabem de sua existência.