“Bom dia! Mais um belo dia ensolarado hoje, tomar um bom café da manhã assim que acorda sempre deixa o dia melhor ainda, lembrem-se de dar um belo sorriso aos seus pais assim que acordarem, eu tenho certeza que....”

— Mãe, você realmente precisa escutar isso todo dia? — resmungo desligando o rádio ainda de pijama

— É a melhor forma de fazer você se levantar, além disso. — ela tira as torradas recém preparadas da torradeira — Por que não começar o dia sorrindo?

— Hmm.... — olho para ela entediadamente e me viro para ir para o banheiro tomar banho

A água quente me fazia querer ficar ali por horas e horas, até que minha mãe grita me chamando pra comer e eu sou obrigada a sair para me arrumar para a escola. Saia azul escura, camisa branca, aquele laço escroto da mesma cor da saia amarrado desajeitadamente embaixo da gola da camisa, pego meu casaco cinza com azul, parecia um casaco que os jogadores do time de futebol usavam, mas eu não tinha muitas opções de casaco que podia usar naquele inferno, fico um tempo olhando para meu cabelo preto na altura do ombro pensando se deveria ajeitá-lo ou apenas deixar assim mesmo, fiquei com preguiça e apenas deixei ele como sempre.

— Café? — minha mãe me pergunta sorrindo enquanto eu sento na cadeira

— Quero

Ela me serve e comemos juntas enquanto ela conversava comigo e eu murmurava de vez enquanto sem prestar muita atenção.

— Bem, tenho que ir trabalhar agora, tente não agredir ninguém hoje, ok? Eu cansei um pouco de olhar na cara da sua diretora e ouvir ela falar por tanto tempo. — diz pegando sua bolsa e chaves e saindo de casa

Minha mãe sabia como eu era, sabia que eu era a “valentona” da escola, ela não brigava, acho que ela era positiva demais e sempre achava que essa fase ia passar, apesar de nunca dizer para mim, ela sempre me apoiava em tudo que eu fazia, então eu fazia o possível pra não decepciona-la demais, mas ela também tinha suas manias e esquisitices, ela se irritava facilmente ao falar com outras pessoas, então inventou em seu trabalho que ela era muda, então ela apenas conversa em linguagens de sinais, assim a maioria das pessoas não puxava assuntos desnecessários com ela.

— Que dia merda. — digo saindo desanimadamente de casa, trancando a porta e subindo na minha lambreta, eu havia pedido da minha mãe uma moto, mas ela disse que demoraria muito para eu conseguir a carteira, então apenas me deu uma lambreta para que fosse o efeito parecido, só que sem as partes complicadas, ela não era de todo o mal, então não reclamei

Velha e barulhenta cidade, não era uma cidade muito grande, mas haviam muitos prédios, fábricas, condomínios, isso tornava as ruas bem movimentas a tarde, por isso eu saia de casa mais cedo, apenas para não ser obrigada a passar perto de muitos carros e pessoas nas calçadas.

Chego nas escola me arrastando irritadamente até a sala e enfiando a cara na mesa tentando dormir um pouco antes da aula começar.

— Eh... Summer.... — uma voz feminina me chama e eu levanto a cabeça com raiva — O p-professor pediu para eu recolher as folhas com a tarefa de ontem

— Ah, aqui. — entrego a folha amassada para ela, que a abre e vira para mim

— Mas está em branco

— É? — continuo a olhando irritada — Então faça pra mim

— Mas eu..... ok, eu faço..... — ela sai a passos apressados

Olho para o lado antes de voltar a deitar na mesa, havia uma garota deitada como com o rosto na mesa ao meu lado, geralmente ninguém se sentava perto de mim, isso era incomum, ela tinha cabelos bem curtos de cor cinza claro, eu para de olhá-la quando o professor chega em sala e começa a escrever no quadro de giz, a garota se levanta e retira o livro da matéria da bolsa, o equilibra de pé a sua frente e volta a se deitar atrás dele, uma boa técnica, eu mesma fazia isso às vezes.

— Temos uma aluna nova hoje, eh.... — ele olha em volta — A Lana está por aí?

A garota ao meu lado levanta a cabeça e faz um sinal positivo com a mão para o professor, ele sorri e volta a escrever no quadro sem se preocupar em apresentá-la ou algo assim, ela volta a dormir na mesa.

— Que dia merda. — digo na hora do intervalo me escondendo nos fundos da escola acendendo um cigarro

— Acho que tem razão. — escuto uma voz por perto

Olho em volta, ninguém por perto, pensei que era apenas um engano, então voltei a fumar.

— Voce não deveria fazer isso. — uma garota pula de cima de um galho de árvore

— O que diabos você estava fazendo?

— Impedindo dos outros me encontrarem. — retira as folhas e galhos de seu cabelo e roupas — Mas de toda forma, você não deveria fumar

— Vai por inferno. — digo rudemente e continuo o que estava fazendo

Ela o toma da minha mão e se afasta.

— O que você acha que esta fazendo? — digo raivosamente

— Vai fazer bem à você

Eu tento pegar das mãos dela, mas ela continua desviando.

— Sua saia está um pouco curta também. — ela se desvia de um soco meu se baixando a puxa um pouco a barra da minha saia — Ah, short por baixo, inteligente. — desvia novamente mexendo nas mechas do meu cabelo — Que adorável, já tentou fazer um rabo de cavalo pequenininho? — tento dar outro soco e ela se abaixa — Joelho ralado

— Qual o seu problema? — pergunto a segurando pela gola e a levantando para olhar na cara dela

— Vim te mostrar uma coisa. — ela joga o cigarro no chão e pisa nele

— Eu não quero saber, me dê um bom motivo para não quebrar sua cara agora

Ela levanta um pouco sua camisa e retira um livro de de lá, era um livro grosso, branco e com relógios dourados em relevo.

— Se for apenas isso que tem a dizer, então eu sugiro que comece a preparar para sua cirurgia no nariz

— Apenas abra

Eu a largo e pego o livro o jogando para longe, ele volta quase me acertando na cabeça voltando, o que diabos aconteceu? Alguém deve ter jogado esse maldito livro de volta. Lana apenas continua me encarando inexpressivamente com os olhos cansados.

— Você vai ler agora?

— Por que? — digo perdendo ainda mais a calma com ela

— Descubra

Pego o maldito livro do chão e o abro em uma página qualquer, “Era uma vez...” foi a primeira frase que li, antes de começar uma forte ventania fazendo as páginas começarem a virar freneticamente sem nunca chegar ao fim do livro, a garota apenas continuava me encarando como se aquilo fosse normal, demorei um tempo para notar que algo puxava a manga do meu casaco. Não era uma ventania, o vento saía diretamente das páginas no livro e sugava tudo o que podia em sua volta.

— Que diabos é isso? — pergunto a ela

— Hm? — ela dá de ombros e puxa meu braço me fazendo derrubar o livro no chão — Se apresse, temos uma história pra contar

Ela pula e me puxa fazendo com que sejamos “sugadas” para dentro do livro. Parecia um grande tobogã a nossa volta, as paredes giravam e se se continuam irregularmente misturando varias cores me deixando tonta.

— Que porra é essa? — grito segurando a ânsia de vômito

— Voce vai descobrir

— Eu vou te bater até você virar do averso

— Ja estamos chegando

Vejo uma luz forte se aproximando. Nós caímos num chão de grama, era muito claro ali, minhas costas doíam.

— Eu vou acabar com você. — me levanto dolorida

— Pode fazer isso depois? — ela pergunta me encarando com um casco de tartaruga nas costas

— Você está brincando comigo, não está?

— Parece que entramos em uma fábula... — olha para si mesma por um tempo — Mas você ficou adorável, posso tocar nas suas orelhas?

— O que? — toco encima da cabeça e sinto duas coisas fofas no meu cabelo, olho para minhas costas e vejo um rabinho peludo — Voce tá de sacanagem comigo? Que porra tá acontecendo?

— A Tartaruga e a Lebre

— Isso eu já entendi, mas como vamos voltar?

— É só terminar a história. — ela aponta para longe onde estava uma linha de chegada com vários outros animais perto torcendo

— Eu quero matar você

— Sei disso. — ela me puxa pela mão — Então vamos apenas terminar isso antes, vai ser divertido

Nos arrumamos na linha de chegada, um coelho marrom dá um tiro para cima e eu começo a correr, pensei por um tempo se a história deveria terminar exatamente como no original, então eu não deveria ganhar, não é? Olho para trás e Lana estava correndo muito lentamente, corro para trás para ficar do lado dela.

— Não consegue ir mais rápido?

— O casco me atrapalha

— Então tire

Ela para e coloca os braços e a cabeça para dentro.

— Não posso. — diz voltando para fora

— Por que?

— Estou sem roupas

— Por que? — coloco as mãos em frente ao rosto suspirando — Ok, vamos

Eu a empurro no chão e ela cai de barriga pra baixo, a empurro e ela vai deslizando pela grama, corro o mais rápido que podia enquanto saltitava como uma lebre. A linha de chegada estava próxima, minhas pernas cansadas, eu queria estar em casa.

— Ok, se segura, eu vou te empurrar mais forte. — digo me preparando, dou um grande empurrão e ela vai girando até a linha de chegada enquanto eu desacelero o passo e paro arfando me apoiando nos joelhos

Os animais comemoram e parabenizam a tartaruga, eu sento no chão apenas não conseguindo mais ficar de pé.

— Casa? — ela se aproxima e me estende a mão

— Vamos logo. — a deixo me levantar e uma luz branca ofuscando tudo em volta

Abro os olhos, estava tudo escuro e eu estava deitada na grama.

— Ehh..... demoramos bastante. — ela fala olhando para o céu — Perdemos as últimas horas de aula..... e o almoço......... — ela retira o celular do bolso da saia — E o jantar também...... — diz tudo com calma

— Nunca mais chegue perto de mim. — digo seriamente tentando me levantar ainda com dor na perna

— Venha. — ela me estende a mão — eu te pago um lanche

Fico quieta encarando sua mão estendida por um tempo, estava tão cansada a esse ponto que nem mesmo tinha vontade de enfiar a cara dela na privada.

— Amanhã sua vida vai ser um inferno, espero que saiba disso. — seguro sua mão

— Talvez. — ela me levanta e se vira de costas para que eu subisse e ela me carregasse, ela era bem alta, apenas notei bem quando fiquei nas costas dela — Ah... nossas mochilas ainda estão na sala, a escola deve estar trancada....... minha carteira

— Acho que você está tentando matar nós duas

— Sem problemas, eu te levo para sua casa

— Minha lambreta, pode apenas me deixar nela

— Certo.

Lana me leva até lá e me senta no banco.

— Você vai pegar um ônibus? — pergunto

— Não tenho dinheiro, então vou a pé

— Voce mora longe?

— Fora da cidade

— Puta que pariu, nada em você é normal?

— Eu chego lá até as 3 da manhã se eu conseguir ter paciencia

— Suba de uma vez! — digo irritada

— Mas fica muito longe

— Foda-se apenas durma no meu sofá

— Não sabia que você era tão gentil

— Amanhã eu vou pegar todo seu dinheiro do lanche

— Podemos ao menos dividir um pudim com esse dinheiro?

— Não

Entro e casa, estava tarde, minha mãe já estava dormindo, eu não costumava chegar tarde porque não tinha paciência para sair, mas vez ou outra acontecia, mas ela nunca reclamava, havia deixado um prato de comida no microondas, dividimos a comida e ela ainda comeu o sorvete que estava no congelador depois, Lana comia bastante para alguém tão magra.

— Estou indo dormir, fique no sofá

— Ok. — ela vai até o sofá sem reclamar e deita nele encarando o teto

Vou até meu quarto e pego um lençol e um travesseiro para ela.

— Obrigada. — diz

— Não se acostume. — digo virando e indo para meu quarto