Notas iniciais
As coisas não vão ficar no passado como meu pai diz. Preciso esclarecer e interrogar Diana.
Estacionei o carro perto do consultório. Coloquei minha blusa de frio e minha toca preta caída para combinar. Subi as escadas do consultório e tentei passar pela recepcionista sem ela me ver.
– Não pode entrar – Ela falou sem me olhar, com certeza, adivinhando que eu passaria por ela sem que ela me visse – Ela está atendendo uma outra pessoa agora.
Assenti e me sentei no banco de espera.
– Você já esteve aqui hoje – Disse – Oque veio fazer aqui de novo? Tem que ter consulta marcada.
– Tenho uma coisa urgente pra falar com ela – Respondi impaciente – E como só tem eu aqui, acho que ela não vai atender ninguém depois que a pessoa que estiver lá dentro sair.
Percebi quase imperceptível ela revirar os olhos. Serio, o que ela tem contra mim?
Fiquei no máximo uns vinte minutos esperando até uma mulher loira sair de lá de dentro e Diana vir logo atrás.
– May – Ela me olhou surpresa e sua fala saiu mais como uma pergunta.
Levantei e fui em sua direção.
– Posso entrar? — Perguntei seria e ela assentiu.
Passei por ela e a mesma veio logo atrás.
– Você gosta tanto das consultas assim que vem duas vezes durante o dia? — Ela perguntou brincando mais eu não respondi.
Ela se sentou na sua poltrona e me observou.
– Algum problema?
– Não.
– Então por que veio?
– Eu não vim pra falar de mim – Falei cruzando as pernas e apoiando o queixo na palma da minha mão – Eu vim pra falar de você.
Ela franziu o cenho e percebi sua mandíbula ficar em um tom meio tenso mas sem perder aquela mania de ficar calma que ela tem.
– E o que temos pra falar de mim?
– Quero saber sobre você.
Ela também cruzou as pernas suspirando lentamente.
–Acho que eu não tenho nada pra falar de mim.
– E como você quer realmente que eu confie em você? Que eu te conte os meus segredos e problemas se você mesma não se abre? Eu vim até aqui pra que você se abra pra mim. Quero saber sobre a sua vida. Sobre o seu passado e até os seus segredos.
– Mayane que loucura é essa? De uma hora pra outra você resolve vir até aqui pra me interrogar? — Ela perguntou meio tensa e dando uma risadinha pra disfarçar.
– Me conte sobre você – Falei impaciente – Estou esperando.
Ela respirou fundo completamente impaciente.
– Você tem marido? — Perguntei vendo que ela não começaria a dizer nada.
– Tenho.
Olhei surpresa pra ela. Conseguiu então esquecer Jason completamente. Mas é claro! Como eu sou burra, é claro que ela tocaria a vida pra frente.
– Tem filhos?
– Tenho.
– Quantos?
– Uma.
– Ela mora com você?
–Sim.
Meus olhos foi ficando semicerrados aos poucos. Será que é a mesma Diana a quem meu pai se referiu?
– Tem certeza?
– Absoluta – Ela falou também desconfiada – Na verdade eu tenho outra filha mas não mora comigo.
Meu coração disparou. É ela. A mãe da Malu é ela, com certeza.
– Ela mora com quem?
– Chega de falar sobre mim – Ela disse se levantando e virando para a janela do edifício apoiado sua cabeça nela – Você já está me assustando com tantas perguntas.
– E por que eu te assusto? Você tem alguma coisa a esconder?
– Eu já estou achando que você é da polícia.
Revirei os olhos. Ela está mudando de assunto.
– Diana – A chamei e ela se virou para me olhar – Preciso saber da verdade. Você sabe quem eu sou não sabe?
Ela me encarou por um tempo. Ficou cabisbaixa e assentiu. Finalmente ela assumiu quem é. Agora não tenho dúvidas de que é ela mesma a mãe de Malu.
– Você é filha de Mariana Castan. Minha melhor amiga no passado.
– Como me reconheceu? Eu era apenas um bebe quando você me viu.
– Eu fui em um evento que estava tendo do internato de Stanford porque fiquei sabendo que muitas pessoas da sua idade representariam o seu grupo artístico então achei que seria um bom lugar pra ir já que eu não tinha nada melhor pra fazer. Foi então que eu vi você representando o grupo de música. Na hora eu te reconheci, por que você é idêntica a sua mãe. E as duas têm o mesmo talento: Cantam. Sabia que era o sonho da sua mãe ser o que você é hoje?
Assenti sorrindo.
– Eu vim aqui para os EUA para realizar o sonho dela por mim mesma.
– Tenho certeza que ela deve estar muito orgulhosa de onde que ela está nesse momento. Eu sofri muito quando soube que ela havia falecido.
– Eu já sei de tudo sobre a sua história. Meu pai me contou. Eu só não entendo como você teve coragem de abandonar a sua própria filha para ficar com um homem que só fazia você sofrer.
– Eu estava iludida. Me arrependo amargamente até hoje. May acredite em mim. Eu NUNCA quis magoar minha filha ou fazer qualquer mal. Eu estava desesperada – Percebi que ela se emocionou ao falar – Todos temos erros e tenho certeza que nós nos arrependemos de todos. Foi uma grande burrada que eu fiz e admito isso. Nós precisamos errar com a pessoa certa pra que a errada te mostre como doí. A vida é assim. E eu participei disso. Hoje eu sou casada e adotei uma filha linda já que eu não pude ter a minha de volta. Queria muito pedir desculpas a Mari por que me arrependo de nossas brigas. Na hora que eu fui embora e consegui pensar um pouco no que eu tinha feito eu me senti tão sozinha. O que eu mais queria era ter as minhas duas melhores amigas de volta. Mas uma havia partido e a outra me odiava. Só que mesmo assim eu segui em frente e escolhi ser psicóloga para aconselhar os outros na vida e que nenhum deles seguiam o mesmo rumo que eu segui.
– Eu te entendo – falei – Tenho certeza que Malu vai te perdoar quando souber da sua história e como você se arrepende.
– Como ela é? — Perguntou secando as lágrimas e colocando um enorme sorriso no rosto.
– É linda. Quando eu vim pra cá ela só tinha doze anos. Esse ano ela completou quatorze. Ela se parece muito com você.
– Como o tempo passou. Queria tanto vê-la, mas acho que Mari não gostaria.
– Mari não pode te impedir e tenho certeza que ela também sente sua falta. Malu é muito curiosa pra saber quem são seus pais.
– Tenho medo de como ela pode reagir. E nem sei como chegar até lá.
– Eu vou viajar nessa próxima semana. Ou talvez na outra – Falei pensando que Julie poderia conversar com Enzo e fazê-lo mudar de ideia – Você pode ir junto se quiser.
– Mas se eu for eu vou ter que deixar meu marido e minha filha.
– Depois de tanto tempo, por que vocês não podem viajar para o Brasil em família? Assim eu te levo até a Malu. E eu converso com Mari. Ela não pode impedir.
Um enorme sorriso se esticou em seu rosto.
– Combinado.
– E sua outra filha? Como ela é? Tem a mesma idade que a Malu?
– Eu adotei pouco tempo depois que vim para cá. Ela ainda tem treze anos e vai fazer quatorze nesse ano – Ela disse e abriu a gaveta de seu balcão – Eu tenho uma foto dela aqui.
Ela me esticou um quadro e eu levei um susto.
– Eu acho que já nós conhecemos – Falei esbanjando um sorriso.
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