Notas iniciais
Abri os olhos devagar. A luz da onde eu estava invadiu meus olhos fortemente. Fechei novamente os olhos para conter aquela luz forte. Esperei alguns segundos e abri com mais calma. Uma mão apertou a minha com força.
– May minha filha – Ouvi meu pai falar suavemente enquanto apertava com mais força a minha mão – Eu estava tão preocupado…
– Nós estávamos – Ouvi Julie falar.
Olhei em volta.
Hospital.
Foi então que me lembrei de tudo e sentei as pressas.
– Alex… — Falei desesperada querendo vê-lo.
– Você não pode se exaltar, fique calma – Meu pai falou fazendo que eu deitasse novamente.
O médico junto com a enfermeira abriu a porta.
– Ela acordou, isso é um ótimo sinal – Disse vindo em minha direção – Como se sente?
– Eu estou bem – Falei mas minha cabeça está em outro lugar.
Alex. Ele morreu?
– Preciso ver Alex – Falei tentando ficar calma e não pensar no pior.
O médico me olhou com pena. Sei que me encarou com pena por que vi isso nos seus olhos. Ele balançou a cabela negativamente.
– Não pode vê-lo, não pode se exaltar muito. Você está muito abalada com o acidente e fraturou o tornozelo por isso a dificulta de andar.
Olhei para o meu tornozelo enfaixado. Serio que ele tinha que ficar assim justo agora?
– Como ele esta? — Perguntei.
Na verdade a pergunta era: Ele está vivo?
Novamente seu olhar foi de pena. Ele ficou me encarando por tanto tempo que fiquei com medo da resposta.
Ele não me respondeu apenas chamou meu pai. Os dois se afastaram um pouco e começaram a conversar e logo em seguida o médico foi embora.
– Por que não querem me contar? — Falei com os olhos marejados.
– Fique calma querida – Julie falou passando a mão no meu cabelo.
– Ficar calma? — Falei com a voz embargada pelo choro – Ele morreu não foi? Ele morreu!
– Não é isso – Disse meu pai e eu olhei para ele confusa.
– Então o que houve? Por que não querem me contar?
– Se ficar calma vai ser mais fácil de explicar – Julie disse.
– Não podemos contar Julie! O médico pediu pra mantermos ela calma – Repreendeu meu pai.
– Dane-se o médico – Julie disse e eu e o meu pai a olhamos surpresos – Se eu estivesse no lugar dela eu ficaria mais desesperada ainda de tanto mistério.
Meu pai respirou fundo, concordando.
– Tudo bem, mas quero que fique calma – Ele falou se sentando na beirada da cama ao meu lado.
– Assim que Alex te empurrou ele foi atingido pelo carro e foi jogado para longe com uma forte pancada na cabeça. O médico disse que isso gerou um traumatismo crânio- encefálico – Suspirou – E agora ele está em coma por tempo indeterminado.
Meu coração disparou. Traumatismo? Não pode ser. Lagrimas começaram a escorrer de meus olhos. Julie e tentou me confortar com um abraço.
– Não pode ser – Sussurrei com a voz embargada pelo choro – Ele vai morrer?
– Os médicos ainda não sabem. Eles falaram que quanto maior o tempo de coma é menos chance de sobreviver. Se acalme, ele ainda está no início da coma.
– Quais são as chances dele sobreviver? — Perguntei em meio a soluços.
– Muito poucas – Respondeu abaixando a cabeça.
Comecei a chorar muito mais. Julie me apertava mais forte tentando me confortar. Nada me conforta. Eu preciso dele. E o que me doí mais é que ele está prestes a morrer e a última coisa que fiz foi brigar com ele.
– Alex foi muito forte, May – Julie me disse secando minhas lágrimas – Em casos como esse muitas pessoas sofrem lesões da coluna cervical e de outros órgãos internos. Alex poderia ter paraplegia ou tetraplegia. Mas os médicos descartaram essa possibilidade.
– Mas ele está morrendo Julie!
– Ainda não temos certeza, ás vezes ele saia da coma. E o mais importante é que ele não teve uma hemorragia intracraniana que é a mais temida pelos médicos. A chance de vida dele é pouca mas se ele tivesse tido essas complicações, ele teria morrido.
Arrepiei-me só de pensar nisso. Por mais que Julie tentasse limpar minhas lagrimas não adiantava. Sempre vinha mais com a dor que estava sentindo por dentro. Era como se unhas afiadas estivesse rasgando por dentro.
– Todos estavam muito preocupados com você May – Meu pai disse – Eric passou aqui no hospital mas não ficou por muito tempo.
Senti que meu pai estava transmitindo um pouco de raiva em silêncio. Ele nunca gostou de Eric.
– Seu namorado gosta muito de você não é May? — Falou ele irônico – Gosta tanto que ficou sabendo que você estava mal no hospital e não aguentou ficar nem cinco minutos do seu lado e foi embora.
– Fernando! — Repreendeu Julie – Ela já está mal o suficiente.
– Ele deve tinha os seus motivos, pode ter acontecido algo de importante.
– Mais importante do que você? Se ele te ama como diz você seria mais importante no momento.
Julie quase o matou com o olhar.
– Só estou dizendo a verdade -Ele falou pra se defender.
– Será que podem me deixar sozinha?
Eles me olharam.
– Promete que não sai dessa cama por nada – Julie pediu.
– Prometo – Menti.
Meus planos eram outros.
Eles saíram devagar e fecharam a porta. Esperei alguns minutos e me levantei escorada na parede. Fui pulando de um pé só até a porta e abri um pouco para ver lá fora. Pulei pelo corredor com dificuldade e às vezes perdia o equilíbrio e me apoiava na parede. O corredor estava vazio e por isso ninguém me interrompeu, até eu avistar um médico no final do corredor.
– Ei agora, oque está fazendo? — Ele gritou e eu pulei mais rápido.
Virei o corredor e olhei pra trás. Droga ele está correndo atrás de mim!
Vi uma enfermeira ajudar uma paciente a sair da cadeira de rodas e depois deixar a cadeira de rodas ali mesmo. Pulei mai rápido e me sentei na cadeira quase caindo. Empurrei as rodas para que ela fosse mais rápido vendo o médico gritar atrás de mim. Eu sei que é errado eu sair do quarto e roubar uma cadeira de rodas mas é por algo importante. Preciso ver Alex. A cadeira eu devolvo depois.
Entrei dento de um quarto e fechei a porta. Olhei em volta e vi uma menina mais ou menos da idade de Malu deitada em uma cama. Ela me encarou por um tempo.
– Entrou no quarto errado – Disse e depois pegou uma revista para ler – Serio que tipo de hospital é esse? Hoje a enfermeira esqueceu de me dar o meu comprimido de ferro e agora eles não tem como levar cadeirantes para os seus quartos?
Eu dei uma risada. Ela era igualzinha a Malu.
– Do que está rindo? — Peguntou.
– Você me lembra uma pessoa – Respondi – Não sou cadeirante.
Ela se sentou na cama.
– Então o que está fazendo em uma e em meu quarto?
– É meio complicado – Falei – Estou em meio a um tipo de fuga.
– Tem problemas mentais? — Perguntou me analisando
Dei uma risada.
– Eu tenho cara de louca?
– Só um pouquinho – Falou – E o que aconteceu com o seu pé?
– Fui atropelada – Falei e a analisei ela também.
Ela era baixinha e tinha o cabelo loiro e longo.
– E você, por que precisa dos comprimidos de ferro?
– Anemia, estou aqui por que esqueci de tomar alguns,
– Se eu te pedisse um favor você faria?
– Depende.
Ok, eu sei que é loucura o que vou pedir.
– Preciso ver uma pessoa, mas não sei qual é o quarto. Eu fugi do me quarto e de um médico para ver essa pessoa. Roubei por alguns instantes essa cadeira de rodas. Preciso tirar a recepcionista do balcão e ver a lista de quartos.
– Isso é fácil, faz tempo que não tenho uma boa aventura – Falou e saiu da cama.
– Isso não vai te prejudicar?
– Nem um pouco – Ela agarrou a cadeira e abriu a porta – Mas você precisa me contar essa loucura toda.
**
Descobri que o nome da menina era Haven. Assim que a recepcionista saiu do balcão, ela foi diretamente para o balcão e pegou a lista.
– Qual o nome dele?
– Alexsander Scaff.
Ela passou os olhos pela lista.
– Sala 17.
Ela colocou a lista novamente e me empurro pelo corredor na cadeira em alta velocidade. Eu quase tive um ataque cardiaco. Essa menina deve não tinha uma aventura faz tempo mesmo.
Ela abriu a porta do quarto de Alex e entramos.
– Nossa até que você tem bom gosto – Falou analisando Alex – Se eu fosse grande eu pegava.
Olhei pra ela com os olhos arregalados e ela começou a rir e levantou as mão na altura dos ombros.
– Acho que tenho que deixar vocês sozinhos – Falou indo em direção a porta – Quer que eu te espera ali fora?
– Não precisa.
Ela colocou a mão na maçaneta.
– Haven – A chamei.
– Oque?
– Obrigado.
Ela piscou sorrindo e foi embora.
**
Encarei Alex e vi o seu rosto machucado. Ele parecia dormir profundamente e isso só fez eu chorar.
Fui para perto dele me levantei da cadeira apoiando devagar para não doer o tornozelo.
Abaixei e o abracei devagar. O quarto estava em silêncio e a única coisa que conseuia ouvir era os meus soluços abafados.
– Desculpa – Sussurrei.
Sei que parece meio maluco conversar com ele. Mas em alguns casos as pessoas que estão em coma podem nos ouvir e isso ajuda a elas a se recuperarem. Ninguém sabe quando alguém vai sair da coma. A única coisa que nos ajuda é a expressão facial. Se ele demostrar emoções pode ser um sinal.
Lembrei do dia em que nos conhecemos. O dia em que nos conhecemos e já brigamos. Por minha causa. Por uma coisa ridícula e sem sentido. Eu estava com Lucy em uma festa para novatos da escola.
“ Logo tive a sensação de que alguém estava me observando, tirei os olhos do livro e percorri pelo imenso jardim, e do outro lado da piscina havia um menino de cabelos castanhos me observando atentamente. Quando ele viu que eu também estava o olhando deu um leve sorriso, resolvi sair dali e fui para dentro do salão”
Dei uma risada me lembrando como eu era totalmente timida quando me olhavam desse jeito. Assim que entrei no salão ele derrubou suco no meu vestido e eu fiquei totalmente envergonhada e com raiva pelo vestido que era da minha mãe.
“ Derrepente vi o suco manchar por inteiro o meu vestido, e o menino que me observava próximo a piscina pedindo desculpas. Eu havia me virado e ele estava logo atras, então o suco bateu no meu vestido e arrasou com ele.
–Deixa eu te ajudar -Ele falou colocando a mão no meu vestido.
Todos me olhavam e eu senti uma vontade de cavar um buraco no chão.No meio do estresse e vergonha, por um impulso tirei a mão do menino com força do meu vestido, e sai andando em direção a saída, todos me olhavam e vi que uma menina loira de cabelo comprido rindo de mim. Quando passei pela porta que ia para o jardim, o menino já tinha me alcançado.
–Deixa eu ajudar.
–Não precisa -Falei estressada.
–Olha eu só quero ajudar, não precisa ser ignorante.
–Ser ignorante? isso é por que não foi você o motivo de olhadas e risinhos.
Ele chegou mais perto e vi que seus olhos eram verde escuro.
–Olha eu só queria conhecer você, por que vi que você estava sem companhia e como novata pensei que queria interagir com outras pessoas. Mas eu me enganei, pessoas ignorantes como você, temos que ter distância”
Dei uma leve risada me despertando daquela lembrança. Era como se passasse um trilhão de lembranças em minha cabeça. A lembrança de reencontrá-lo depois da festa na escola veio a tona. Lucas era meu namorado iria me apresentar para seu melhor amigo. Ele havia me levado para o canto do pátio da escola e me mostrou um menino de costas.
“– Alex, essa é minha namorada.
O menino se virou e eu levei um susto, do mesmo jeito que eu tinha conhecido, só que dessa vez com o cabelo um pouco bagunçado, e uma roupa surrada. Era ele. O menino da festa.
Ele ficou me analisando, assim como eu havia o analisado.
– Oque te deu pra você namorar essa garota? – Ele disse assim que terminou de me olhar.
– Eu tenho nome viu, não sou qualquer garota.
O Lucas ficou nos olhando sem entender nada.
– Se quer saber eu preferia nem saber seu nome, mas o Lucas não parava de falar que a tal May sei lá oque era namorada dele.
– Se eu soubesse que você era o ‘’melhor amigo’’ dele, eu nem teria vindo aqui pra ver esse seu rosto de abusado de novo.
– Eu abusado? Você não passa de invocadinha”
Um sentimento forte bateu no meu peito e comecei a chorar mais ainda. Invocadinha. Eu daria tudo pra poder ouvi-lo me chamar assim de novo.
Muitos pensamentos vinham rodando em minha mente. Quando eu me declarei pra ele em cima de um palco. O nosso primeiro beijo. Quando ele cantou pela primeira vez pra mim. A nossa despedida. O nosso reencontro.
Tudo estava errado! Desde que vim pra cá tudo mudou. Nada está o mesmo. Pâmela tinha razão ao dizer que nada estava o mesmo. O que eu mais quero no momento é voltar a ser como antes. Falta apenas um mês para que eu volte ao Brasil. É agosto e Enzo me disse que eu voltaria em setembro que foi o mês em que viajei para cá. Mas o que adianta ir? Como vou sem Alex? E se ele não sair da coma? Preciso ficar aqui. Com ele.
O abracei forte tentando encontrar algum sinal nele. Mas nada. Apenas o silêncio no quarto e o meu choro abafado em seu peito. Levantei o rosto e observei sua face. Seus olhos fechados e sua boca alinhada em m tom serio. Eu daria qualquer coisa para ver as órbitas azuis profundas que habitam em seus olhos e aquele sorriso debochado de sempre.
Uma musica me veio a cabeça. E sent uma grande vontade de canta-lo. Se ele me pode ouvir ou não isso não me importa. Só quero cantar e tentar me lembrar de tudo que aconteceu de bom entre nós mesmo que na maioria tenha sido dificil.
– No fim, a gente vai descobrir que complicamos demais, demais. Eu sei, o amor não se vive assim… — Cantei sussurrando em meio as lagrimas que caim do meu rosto para o seu.
Fechei os olhos e o beijei.
Não importa o que aconteça. Ele sempre vai ser meu. O meu abusado.
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